Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O DIÁLOGO POSSÍVEL


Por Mario Sales








“...A Super-Alma, a Causa, a Divindade; 
não revelada pela forma humana ou pela palavra, 
mas que preenche e inspira toda alma 
vivente no vasto universo 
de acordo com suas medidas
cujo templo é a Natureza 
e cuja a adoração é a admiração.”


H.P.Blavatsky, in “Isis sem Véu”, 
página 123,11ª edição, 2016, 
Editora Pensamento.


Quem diria que ela, justamente ela, a paladina que investe contra os cientistas céticos, como se a crença pura e simples, sem comprovação experimental fosse um defeito de caráter, pudesse produzir um trecho mais afim com o que chamamos contemporaneamente de pensamento científico. Enquanto eu, Flavio e Wilson lemos página após página esse 2º volume dedicado a Ciência, volta e meia a discussão reaparece: Blavatsky sentindo-se atacada pelas posições céticas de sua época, se debate no texto com estes pseudo-inimigos, a meu ver de forma quixotesca. Sempre comento que uma pessoa com a força e a autoridade que ela possuía não poderia preocupar-se em obrigar, sim esta é a palavra, o meio científico da sua época a aceitar a força suas crenças e seus postulados.
Nenhum esoterista em sã consciência jamais precisou que alguém do meio científico o apoiasse para se sentir mais seguro nas suas posições. Um esoterista crê no que crê porque assim supõe que seja a realidade ampliada, e não por que alguma descoberta científica atual ou pregressa lhe apoie o pensamento. Vejam, ninguém se dedica ao esoterismo porque quer. Existe uma afinidade, quase um chamado para que o indivíduo venha participar do trabalho místico, tornando-se membro de alguma escola tradicional. Mas a primeira coisa que devemos entender, e nunca entendi porque ela, Blavatsky, nunca entendeu isso, é que nosso campo de saber, o esotérico, é um campo específico, que não dialoga, em detrimento das opiniões de pensadores como Edgard Morin, com outro campo qualquer da Ciência.
É como dar óculos de lentes coloridas diferentes para duas pessoas, pedir que os coloquem e depois querer que ambas vejam o mundo do mesmo jeito.
Esoteristas são esoteristas, cientistas são cientistas, e melhor seria que não se tentasse esse enxerto de um no outro. Primeiro porque é desnecessário.
Nem os cientistas precisam dos esoteristas, nem os esoteristas precisam dos cientistas, mesmo que achem que o que fazem seja um tipo de trabalho científico.
Só que são campos com postulados diferentes, com premissas conflitantes, e a primeira delas, que a Ordem Rosacruz pareceu querer superar, no início do século passado, é a total ausência de um trabalho experimental sistemático dentro dos meios esotéricos.
Sem dados colhidos de maneira organizada e em experimentos controlados, jamais poderemos dialogar com o meio científico.
Os cientistas são céticos porque tem que ser, metódicos porque precisam, porque sabem que o testemunho humano é o fenômeno menos confiável que existe na face da terra.
O professor Neil De Grasse em uma palestra recente que está no YouTube, falando sobre isso, diz ficar impressionado que no direito o testemunho de pessoas seja considerado uma prova legal.
Porque em ciência, e é assim que deve ser, o fato de que alguém afirma alguma coisa não é prova de que aquilo é verdade.
Não se trata de se desconfiar da boa fé de quem dá seu testemunho; é apenas reconhecer alguns aspectos da psicologia aplicada, experimentos como as chamadas “ilusões de ótica”, que provam e demonstram que o cérebro e os sentidos podem ser enganados pelos fenômenos ou por algumas imagens.
Portanto, pessoas não são confiáveis como fiadores do que é e do que não é real.
É melhor entregar esta questão na mão de um especialista em investigar a verdade dos fenômenos. E esse especialista, provavelmente, será um cientista. Praticar ciência é buscar superar as limitações de nossos olhos, ouvidos e cérebro através de aparelhos que possam de modo impessoal e não subjetivo avaliar os fatos a nossa frente. É seguir um método de investigação que possa ser checado a cada passo, que possa ser contestado e testado várias e várias vezes, e observar se outras pessoas conseguem resultados iguais aos meus, esta sim, uma demonstração de confiabilidade em meus achados e em minhas conclusões a partir dele.
Crer por crer não faz parte da Bíblia da ciência.
Os cientistas são mais humildes que os esoteristas e duvidam, não só de outros, mas deles mesmos. Por isso fazem experimentos, tomam notas, tiram conclusões que novamente serão testadas muitas e muitas vezes por várias pessoas em locais diferentes.
Mais: só pelo fato de que todo cientista é por tradição e profissionalismo obrigado a compartilhar o que sabe é que outros saberão de seu trabalho e poderão se dar ao esforço de testá-lo por eles mesmos.
Esoteristas, também por tradição, não compartilham, e hoje ainda, como se vivêssemos na idade média, escondem o que sabem, isto é, quando sabem alguma coisa.
Tenho uma forte impressão que a maioria dos depoimentos de esoteristas sobre fenômenos que tenham presenciado não passa de fantasia e ilusão. O que não impede que em alguns casos realmente algo tenha acontecido realmente. E aí, se houvesse um mínimo de espirito científico nos esoteristas eles se preocupariam em documentar o fenômeno, descrevê-lo, e se não pudessem fazê-lo, guardarem discrição e não falarem do que conseguiram, até poder, junto com a narrativa, apresentar um exemplo palpável do fenômeno desencadeado.
Histórias e relatos são apenas isto e há de há muito, ninguém confia em afirmações sem comprovações.
É bem verdade que nasce um tolo a cada minuto, como diz o ditado, e que as pessoas de mente fraca são maioria, deixando-se induzir por charlatães de toda espécie e até acreditando em absurdos como o atual movimento antivacinas. Existe, eu sempre comento, uma sobra de obscurantismo pairando sobre a sociedade, esperando um momento para avançar sobre tudo que conseguimos, principalmente nos últimos cem anos e jogar tudo por água abaixo.
Isto me assusta sobremaneira.
Como místico, como esoterista e como médico.
O esoterismo não é uma religião, mas também se baseia em uma coleção de axiomas e crenças que, na maioria das vezes, não são comprováveis.
Antes que isso mude, nós esoteristas não conseguiremos o tal diálogo entre ciência e esoterismo, áreas de conhecimento que não fala a mesma língua, e que por isso mesmo não terão como se comunicar.
Só uma coisa nos une, cientistas e esoteristas: o mesmo fascínio pela Criação. Ambos olham para o mundo com respeito e reverência, acreditando que a criação tem um perfil peculiar “cujo templo é a Natureza e cuja a adoração é a admiração”.
Pode ser este o ponto de encontro entre esses dois campos, desde que sem arrogância, sem ilusões ou fantasias e sempre com muita, muita humildade.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

O SEGREDO DA ETERNIDADE É O AMOR


Por Mario Sales




“Há uma loja no sobrado
Onde não há comerciante.
Há trastes partidos na loja
Para não serem consertados.
Tamborete, marquesa, catre
Aqui jogados em outro século,
Esquecidos de humano corpo.
Selins, caçambas, embornais,
Cangalhas
De uma tropa que não trilha mais
Nenhuma estrada do rio Doce.
A perna de arame do avô
Baleado na eleição da Câmara.
E uma ocarina sem Pastor Fido
Que à aranha não interessa tocar,
Enorme aranha negra, proprietária
Da loja fechada.”

“Depósito”, de Carlos Drummond de Andrade,
In BOITEMPO I, Ed. Record, 1992, 3ª edição

Não sou eu que darei testemunho daquilo que vai na alma de todos os idosos.
Pelo menos para mim, que caminho a passos rápidos para lá, o que mais me incomoda é o medo de que minha vida seja como um depósito desse de Drummond.
Lembranças, resquícios de fatos já esquecidos, amontoados na memória sem nenhuma função ou utilidade, guardados apenas pela aranha negra do tédio.
Mais. Depósito que ninguém visita, que a ninguém interessa visitar.
Talvez Fernando Pessoa tenha lidado melhor com o problema. Já no inicio de A Tabacaria, ele vaticina:
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?)”

É como se assim aceitasse essa condição inevitável de ser efêmero, transitório, passageiro, sem drama e sem apego, sem lamentos, mesmo que a vida tenha se tornado um depósito de um sobrado, “sem comerciante”, abandonado, cheio de lembranças inúteis.
Conheço muitas pessoas que se comportam mentalmente dessa forma, tristes e desanimados. Como médico, às vezes diagnostico uma depressão, tratável. Como ser humano, penso que pode ser uma decorrência inevitável do tempo, mas muito mais da errônea impressão de que somos, de alguma forma, especiais, ilusão que nos acompanha por toda a vida.
“Não sou nada, nunca serei nada”, diz o poeta com uma entonação budista. É isto realmente que somos, apenas sombras que são arrastadas pelo vento do tempo, involuntariamente.
Existem duas maneiras de lidar com essa situação.
Uma é sentir-se mal por que as coisas são assim.
Outra é entender que as coisas são assim, sempre foram assim, e tudo bem.
Não há forma de conciliar estas posições.
Existem pessoas que se adaptam à finitude, mas a grande maioria aposta suas cartas na remota e incorreta possibilidade da eternidade no mesmo corpo, este corpo que despreza nossa vontade e contra ela, se desgasta, envelhece, e pouco a pouco vai desaparecendo, como a fumaça que se espalha pelo espaço.
Como envelhecer de maneira digna, sem angústia, sem receio de desaparecer como se nunca tivesse existido?
Esta sempre foi uma aflição tipicamente humana, pois animal nenhum pensa no futuro ou na morte.
Os animais, sábios, estão sempre no momento presente.
Não que não tenham memórias. Só que não são aprisionados por elas.
Seus barcos estão sempre no mar, navegando e navegando, sempre.
Humanos, ao contrário, sonham com um porto, anseiam por jogar a ancora e parar. O movimento e o balanço constantes lhes causam enjôo. Crêem que é possível a estabilidade e que a terra é firme.
Por isso, por causa de nossas crenças e de nossa educação, que se superpõem aos nossos instintos e aos fatos, supomos a eternidade no físico possível, mais que isso, desejável.
Dizemos que sabemos que as coisas não são assim, que é certo que morreremos, mas nos comportamos como se assim não fosse. Somos confusos como Aurora que em sua paixão por Títono, (filho de Laomedonte e irmão mais velho de Príamo, rei de Tróia) pede a Zeus que conceda a ele, Títono, a imortalidade e esquece de pedir também a juventude eterna. E assim Títono persiste, vivo, mas entrando gradualmente numa decrepitude física cada vez maior.
O que queremos? Não existe, no corpo, estabilidade ou duração infinita. Sabemos disso.
E porque desejamos a eternidade? Para que queremos ser eternos? As vezes dizemos que precisamos mais tempo para aprender a viver melhor, que quando aprendemos algo sobre a vida, já é hora de morrer. Que a vida é aparentemente longa, mas que é insuficiente para que nos tornemos seres humanos melhores.
Será verdade? Será que se tivéssemos mais tempo para nos aperfeiçoarmos, nos aperfeiçoaríamos verdadeiramente? Ou a busca pela perfeição seria deixada de lado em troca do deleite, da inação, da preguiça mental e física?
Talvez exatamente porque temos um tempo determinado é que sintamos o apelo da urgência em realizar mais, em amar mais e melhor, em dar aqueles que nos cercam e com os quais nos encontramos na existência o que tenhamos de mais perfeito.
Talvez perfeição seja exatamente isto, habilidade cada vez maior de compartilhar o que pudermos e receber, na mesma moeda, ininterruptamente, durante este aparentemente breve período de existência.
Talvez nos sintamos mais velhos porque olhamos apenas para nosso próprio umbigo e não para a paisagem fora do trem em que viajamos. Todos os que importam para nós estão no mesmo vagão, viajando junto conosco, envelhecendo, juntos, forçados a esta solidariedade cronológica inevitável.
E como olhamos para eles aqui ao nosso lado, todos nos parecem os mesmos, nem mais moços, nem mais velhos, apenas os mesmos, e choraremos pela sua ausência quando chegarem a suas estações e descerem deste trem. Aqueles que amamos não parecem envelhecer da mesma forma que aqueles com os quais não temos um envolvimento afetivo tão intenso.
O amor torna eternos quem amamos, pelo menos enquanto estiverem conosco. O vínculo que nos une nos sustenta e diminui a preocupação com o futuro. O importante é que estamos juntos, fisicamente por um certo tempo, mental e emocionalmente, aí sim, para sempre.
Não, não é de tempo que precisamos.
Precisamos é do amor e de alguém para amar, estas sim condições de imortalização.
Precisamos amar, desesperadamente.
Só isto nos garantirá a permanência, não como uma memória, mas como um sentimento, o mesmo sentimento que determina o momento de devoção ao ser amado seja sempre presente.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

ESCREVER A LÁPIS


Por Mario Sales


                                        




Escrever a lápis faz com que o pensamento flua mais devagar, com mais cautela.
Até a atitude física de quem escreve a lápis é diferente. Não se força muito a ponta do grafite no papel, para que não quebre.
Da mesma maneira que escrevemos com mais prudência, pensamos com mais prudência.
Por ser o lápis tão delicado, não se pode escrever com um lápis sobre assuntos controversos e polêmicos, mesmo que se quisesse.
As idéias descritas com um lápis nunca serão passionais, mesmo que desejássemos. O traço suave do lápis no papel nos impede sobre conflitos e disputas.
Tudo é mais quieto no traço do lápis. Até os contornos das letras são mais artísticos e a caligrafia mais elaborada.
Penso que precisamos, ou melhor, eu preciso, escrever mais a lápis minha vida, descrever com mais esmero e vagar meus sentimentos. Sem pressa, letra após letra. É bem provável que desse modo eu escreva com menos ansiedade, até porque errar com um lápis é sempre menos angustiante.
Os lápis, em sua generosidade, permitem as borrachas, aquelas que fazem desaparecer nossas falhas, nossos enganos e equívocos. Pena que na vida real não exista semelhante recurso.
Infelizmente não podemos, na vida real, apenas apagar os trechos dos quais nos arrependemos.
Textos a lápis são corrigíveis. Vida, nem sempre.
Portanto os lápis, ao contrário das canetas esferográficas, são mais misericordiosos com nossas falhas e lapsos.
Graças as providenciais borrachas, textos a lápis, de correção em correção, ficam mais perfeitos ao final.
Por comparação, a História da Ciência é escrita a lápis, enquanto fundamentalistas religiosos escrevem sua história com esferográficas, geralmente com tinta vermelha.
Em um texto a lápis, é impossível o dogma, só as teorias.
Tudo fica em aberto para ser revisado ou apagado, se necessário.
Como a nossa vida, textos a lápis são efêmeros, podem e serão apagados de acordo com a vontade do pequeno escritor. Nossos traços vitais também podem ser apagados, a qualquer instante, de acordo com a vontade do Grande Escritor. A vida é muito frágil.






Por isso mesmo, devemos ter muito capricho ao escrevermos nossa própria vida, fazendo valer cada letra, cada palavra, cada linha de nossa existência.
Se apenas uma letra for colocada de modo errado, toda a frase poderá perder o sentido.
Velemos com carinho por cada uma das muitas letras de nossos dias, deixando prudentemente em aberto a possibilidade de voltar atrás, sem embaraço, pesar ou lamentação. Afinal correções são normais em qualquer texto que busque a perfeição.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

O ROSACRUCIANISMO E O MARTINISMO: ALGUNS CONFLITOS DOUTRINÁRIOS II


Por Mario Sales
                          



“É a confiança por parte do Homem interior nos altos ideais do Homem exterior, que leva o Homem interior a ouvir e concordar com as sugestões ou solicitações do Homem exterior; é a CONFIANÇA do Homem exterior no Homem interior que faz com que o homem exterior deposite toda a sua esperança, toda a sua fé, no reino psíquico e se liberte de seu antigo ceticismo.
Compreende agora, o que significa o estabelecimento de tal CONFIANÇA? Vê quão diferente é dos conceitos de Fé e Crença?”
De um texto secreto rosacruz

Em  10 de janeiro de 2011, aqui no blog, publiquei um texto intitulado “O Rosacrucianismo e o Martinismo : alguns conflitos doutrinários ocultos.
Ali eu começava uma análise que ainda não terminou e que se apresenta de modo sub-reptício para rosacruzes, e talvez para os martinistas da TOM, tão óbvia que passa despercebida: as duas Ordens tem caminhos e prioridades diferentes.
Enquanto os rosacruzes são um grupo de pessoas provenientes de várias religiões, o Martinismo se autonomeia uma ordem essencialmente cristã.
Mais: naquele texto de oito anos atrás eu lembrava que, depois de séculos dedicados a estudar os meandros da magia, os rosacruzes “literalmente desencantaram-se com o Ocultismo. E por quê? Porque aperfeiçoaram suas técnicas e entenderam que muito, mas muito deste aparato metodológico era desnecessário à sua finalidade primordial, qual seja, a elevação de seus espíritos como seres humanos a um nível de excelência. Rosacruzes, ontem como hoje, querem ser cada vez melhores como seres humanos, e servir mais intensamente a mesma humanidade da qual fazem parte. Esta é a verdadeira alquimia: a transformação do ser humano chumbo, homem ou mulher, em ser humano ouro. A Magia pela Magia, o Ocultismo pelo Ocultismo, entre os Rosacruzes modernos, digamos assim, saiu de moda.”
Com o risco de ser repetitivo, lembro que a “magia” rosacruz hoje é interna e mental. Porque como todos os saberes, histórica e metodologicamente o rosacrucianismo também evoluiu.
A TOM, a Tradicional Ordem Martinista, ao contrário, referencia-se em práticas do século XVIII, nos ensinamentos da Cabala Cristã, e representa um somatório de tendências as mais variadas, desde o apaixonado ocultismo de Papus até a erudição do Marquês Marie Victor Stanislas de Guaita, aliás, o mais rosacruciano de todos o grupo de restauradores do Martinismo daquela época. Homem extremamente culto e refinado, com um espirito cosmopolita e plural, Guaita era uma luz entre seus pares. A TOM, no entanto, arrasta consigo uma sequência de perdas humanas, geralmente de membros de importância significativa, perdas estas que mergulharam a Ordem em caos administrativo.
Enquanto a Ordem Rosacruz, pela vontade de Deus, se mantém uma tradição solida, que sobrevive as épocas e as diferentes mudanças sociais, o Martinismo parece sobreviver com enorme esforço e dificuldade.
Assim foi em seu início, com a morte inesperada de Martinez de Pasqualy; assim foi, no inicio do século XX, com a também estranha morte de Papus, vitima de tuberculose, doença contraída quando médico na frente de batalha da primeira grande guerra, em 25 de outubro de 1916. Gérard Anaclet Vincent Encausse recebeu o cognome de Papus, (nome do gênio da medicina do Nuctemeron de Apolônio de Tiana) por influência de Eliphas Levi, esoterista e escritor francês, que junto com Blavatsky, embora em campos diferentes, estabeleceu as linhas do esoterismo no século XIX.
Bom administrador, espirito inquieto e produtivo, Papus centralizava o processo de restauração e sustentação do Martinismo. Sua morte abalou a estrutura da Ordem de tal forma que, não tivesse sido, com muita dificuldade, recolhida à proteção da AMORC, por Spencer Lewis, a Ordem Martinista teria se dissolvido em várias pequenas facções. Pelo fato de abrigar-se na AMORC, que lhe forneceu um know how de organização interna, a TOM é hoje, entre as diversas denominações Martinistas, a mais bem estruturada e sólida.
Mesmo assim, o Martinismo tem características próprias, resultantes das muitas variáveis envolvidas em sua história. A principal delas é que trata-se de uma ordem de forte cunho ocultista, caminho contemporaneamente abandonado.
Esse, no entanto, não seria um problema importante, se seus trabalhos não focassem tanto em aspectos religiosos.
A TOM preconiza a Fé, como base para o trabalho martinista. Diz que esta Fé reflete o caminho do coração, a via cardíaca. Séculos atrás, antes da TOM, os rosacruzes seguiam também a via do coração na busca pelo Deus de seus corações, em um esforço que transcendia a simples Fé. Na verdade, as monografias nas quais estudei, da qual extraí o texto que inicia este ensaio, fazem uma clara distinção entre os dois conceitos. E isso é um fato histórico da cultura rosacruz. Nós, rosacruzes, não baseamos nossa vida e prática apenas na Fé; fomos e somos educados para CONFIAR, a partir da experiência, nos ciclos e mecanismos naturais do universo e do “Deus dos nossos corações”. Portanto não cremos: sabemos.
Não cremos, mas sabemos em nossos corações e mentes, em nosso corpo e em nosso espirito, e este saber baseia-se na experiencia direta de harmonização com Deus, pela oração silenciosa, pela inspiração intuitiva, pelo treinamento de ouvir a “voz do silêncio” que nos orienta melhor e com mais segurança do que qualquer elaboração intelectual pode orientar.
Isto apenas serviria para mostrar as diferenças metodológicas e estruturais entre as duas ordens. O que assistimos, no entanto, é a tentativa, nas ultimas três décadas, de fortalecimento dos valores martinistas em detrimento daqueles típicos da tradição rosacruciana.
A ponto de as monografias mais recentes, segundo me relatam membros mais novos, assumirem o conceito Fé como sinônimo de Confiança, e não de Crença, numa tentativa de unificar discursos heterogêneos, o que gera não a harmonia entre duas linhas esotéricas mas, isto sim, me perdoem os fratres, um filosofia frankstein, bem ao estilo do Martinismo histórico.
E quando digo isso recordo a todos que Martinismo não é Martinezismo, embora o discurso da TOM os confunda; que San Martin abandonou as práticas dos Ellus Cohen em benefício de uma livre iniciação, protocolo que a TOM- AMORC modificou, estabelecendo que alguns dos SI são livres iniciadores e outros não.
A única linha de uniformidade entre os diversos períodos de atividade martinista é geográfico: todos ocorreram em território francês, França que, à época do trabalho de Papus e Guaita era o centro cultural do mundo.
Poder-se-ia, maldosamente, dizer que a força do Martinismo tem a ver com a ação de um Imperator francês. Isto seria, entretanto, uma inverdade, já que quem captou a TOM e a colocou dentro dos muros da AMORC foi Spencer Lewis, nascido nos Estados Unidos, trabalho que seria continuado pelo seu filho e conterrâneo, também americano. Portanto, quando Cristian Bernard assume o cargo de Imperator, encontra a TOM já estruturada, e apenas continua o trabalho dos Lewis, pai e filho, como se esperaria de um sucessor.
Tudo isso é compreensível, mas o que não se pode entender é como é possível tentar fundir duas tradições tão diferentes em suas características, uma universal e internacional, a outra eminentemente francesa; uma feita de espiritualistas de todos os matizes religiosas enquanto a outra ligada apenas ao cristianismo; uma com uma história de milênios; a outra com apenas três séculos de existência.
Essas considerações fazem parte de uma reflexão baseada no espírito rosacruciano da mais perfeita tolerância, dentro da mais perfeita liberdade.
Rosacruzes são livres pensadores, e não devem nem podem, enquanto rosacruzes, abdicar deste privilégio da sua afiliação.
Pensando com liberdade, questiono se uma ordem tão jovem e tão pouco internacional seja capaz de influenciar uma tradição tão poderosa como é a tradição rosacruz, modificação que começa com a alteração dos conceitos, pouco a pouco, fenômeno ao qual estou atento e estimulo outros fratres a também ficar.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

EM DEFESA DA CULTURA ROSACRUZ

por Mario Sales







"O rosacruz encontra forças no fato de que pode atrair aquilo que lhe dará fortaleza física, mental e espiritual. Encontra prosperidade crescente nas coisas mundanas, porque aprende a valorizar todas as coisas por um padrão mais elevado.”
“O místico encontra felicidade no fato de que pode transmitir felicidade, pelo conhecimento e serviço, a outros. Encontra forças no fato de que pode atrair aquilo que lhe dará fortaleza física, mental e espiritual. Encontra prosperidade crescente nas coisas mundanas, porque aprende a valorizar todas as coisas por um padrão mais elevado.”
“Conhecer a si mesmo é conhecer a própria linhagem e o próprio poder. É por isto que nós, Rosacruzes, sentimos que os assuntos de nossos estudos merecem todo o tempo e devoção que lhes dispensamos, e que levarão o homem a maior poder e maior glória do que o fariam os estudos e investigações sobre os mistérios astrais.”

Harvey Spencer Lewis.







A quarta parte do Manual Rosacruz, intitulada “Instruções Gerais para todos os membros”, começa com o seguinte cabeçalho: “os benefícios reais da filiação a Grande Loja da AMORC, quer para os membros de sanctum, quer para os membros de uma loja regional, são inúmeros, sendo os mais importantes os seguintes”:
E no item 5 diz:
“Despertar o desenvolvimento de certas faculdades latentes e adormecidas em seu interior, que lhe permitirão melhorar sua posição na vida, aumentar sua capacidade de idealizar e realizar, trazendo-lhe maior sucesso.” (o grifo é meu).
Mais a frente, lê-se o seguinte:
“O GRANDE OBJETIVO dos rosacruzes (em maiúsculas no texto original) tem sido auxiliar a humanidade a evoluir ao mais alto grau de perfeição terrena e prestar ajuda a todo ser vivente “para a glória de Deus e Benefício as Humanidade. (...) Para isto se realizar, todavia, a organização MINISTRA cursos completos de estudo.”[1]


Ora, estas afirmações, que estão na declaração de princípios e objetivos feita pelo próprio Harvey Spencer Lewis deixa claro que os estudos rosacruzes, embora feitos “para a glória de Deus e Benefício as Humanidade” tem como objetivo “auxiliar a humanidade a evoluir ao mais alto grau de perfeição terrena”.
Para isso, diz o manual, é necessário “Despertar o desenvolvimento de certas faculdades latentes e adormecidas”.
Para que seja possível este despertar, certos exercícios eram e são ensinados para que o membro possa desenvolver habilidades insuspeitas em seu interior, as quais “lhe permitirão melhorar sua posição na vida, aumentar sua capacidade de idealizar e realizar, trazendo-lhe maior sucesso.”
Dessa forma, a finalidade principal, se bem que não a única, da filiação rosacruz, segundo nosso manual escrito em parte e supervisionado pelo Frater Lewis, é “auxiliar a humanidade a evoluir” na vida social e material.
Vejam, não só espiritual, objetivo que é um pressuposto místico, mas terrena, coisa que só é possível pela prática e domínio de algumas técnicas que significarão um diferencial para os iniciados rosacruzes em relação aos não iniciados.
Existe pois, sim, um aspecto prático e objetivo para a filiação à Ordem.
Como não somos uma religião, mas uma escola esotérica, nosso papel é dar suporte prático aos nossos membros para que possam alcançar o que o manual chama de o “mais alto grau de perfeição terrena”.
Isto quer dizer que nossos objetivos são eminentemente materialistas? Não. Apenas significa que, de acordo com o bom senso de Harvey Spencer Lewis e dos ensinamentos da Ordem, não é possível desenvolver o espírito equilibradamente se estivermos limitados pela pobreza material, pela doença e pela angustia existencial.
Nós rosacruzes buscamos, antes de tudo, o equilíbrio e a serenidade diante das oscilações naturais dos acontecimentos cotidianos e pessoais.
E para isso, aprendemos a usar a telepatia, a intuição, a projeção astral, a capacidade de influenciar mentes menos elaboradas no sentido de dirigi-las para comportamentos sociais mais evoluídos, como um grau mais alto de solidariedade e altruísmo.
Essas técnicas sim, são nosso diferencial.
Nossos ensinamentos éticos não são originais e podem ser encontrados em quaisquer religiões ou escolas filosóficas.
Portanto, não é o aspecto moral que nos diferencia.
Se assim fosse, a Ordem não teria necessidade de existir.
De novo, sua característica mais importante é facilitar a vida material e social de nossos membros para que, livres dos problemas cotidianos mais comezinhos possam se dedicar com mais intensidade aquilo que é o objetivo mais importante de qualquer encarnação, o aperfeiçoamento espiritual.
Esse é nosso escopo. Precisamos lembrar dessas coisas básicas ao entrarmos em nossos templos.
O fato é que a vida de sanctum é mais fácil do que a vida em corpos afiliados, Lojas ou capítulos.
No sanctum, não há necessidade de interação social, não precisamos exercitar nossa tolerância, nossa flexibilidade.
Quando passamos a frequentar os corpos afiliados, no entanto, tudo muda. No passado, dizíamos que ali, nas Lojas, encontraríamos “mentes afins”.
Todos nós sabemos que isto nem sempre é verdade.
Muitas vezes os corpos afiliados provocam, enquanto encontros humanos, uma série de comportamentos descabidos de significado místico ou espiritual, e além disso, sem nenhum benefício prático.
Os grupos de estudos práticos, os laboratórios de nossos corpos afiliados, não existem. Seminários para praticar telepatia, telecinesia e a intuição também não são encontrados.
Em vez disso, é comum que nossos esforços dentro da loja ou do capítulo sejam voltados às práticas ritualísticas, importantes, mas que pelo seu caráter coletivo e considerando que são rituais devidamente estabelecidos, não permitem a interação intelectual e esotérica necessária ao desenvolvimento de habilidades incomuns de modo sistemático.
Em suma, não praticamos ou desenvolvemos dons em ambiente de Loja ou de Capítulo.
O que seria uma oportunidade para acelerar nossa evolução quanto ao domínio dessas técnicas, ensinadas em nossas monografias, não ocorre.
Na maior parte do tempo, nosso trabalho coletivo é de natureza meramente intelectual e social, não de estudos práticos.
É comum ouvir entre membros de corpos afiliados, comentários críticos em relação ao comportamento de outros membros, que no entender desses fratres não se comportam com o decoro necessário aos membros de um templo rosacruz.
Ora, jamais se ouviria tais comentários de pessoas que estivessem envolvidas e dedicadas a pesquisa místico-esotérica. Minha experiência pessoal, e me corrijam se eu estiver errado, é que aqueles que estão mergulhados em um trabalho de aperfeiçoamento técnico pessoal não conseguem prestar atenção a detalhes menores e sem importância do comportamento humano.
Se algum Frater ou soror tem tempo e disponibilidade psicológica para comentar criticamente a roupa de outra soror, ou o comportamento de um Frater, tudo indica que não está absorvida por alguma pesquisa pessoal importante e atraente. Seu lugar, portanto, não deveria ser aquele, mas um clube ou uma associação de bairro.
Só mentes distraídas e sem objetivo ou função se permitem vasculhar os arredores e valorizar coisas mesquinhas e mundanas em detrimento do trabalho esotérico mais profundo.
Quando alguma coisa realmente nos fascina, nada ao nosso redor é capaz de nos distrair.
E talvez esta seja nossa maior crise atual.
Nossas Lojas e nossos Capítulos, em alguns casos, sem querer ser rude, parecem igrejas. Formam-se grupos aqui e ali, e na ausência de qualquer tipo de trabalho prático coletivo, se permitem comportamentos sociais, digamos assim, de caráter absolutamente não iniciático.
Espera-se de nossos membros que busquem os corpos afiliados para se aperfeiçoar técnica e espiritualmente, não para discutirem a roupa ou o comportamento deste ou daquele Frater, desta ou daquela soror.
Isto comumente acontece em igrejas e templos religiosos, mas não deveria acontecer em templos rosacruzes.
Os corpos afiliados têm uma responsabilidade nesse tipo de situação. Deveriam ser centros de aperfeiçoamento técnico e prático. Se nossos membros estivessem ocupados, trabalhando dedicadamente em aperfeiçoar certas faculdades latentes e adormecidas em seu interior, aperfeiçoamento este que lhes permitiria melhorar sua posição na vida não teriam tempo para atitudes mundanas comuns e de menor importância.
A mente vazia é a oficina do diabo.
Nossos membros não podem ficar restritos a ouvir discursos, às vezes de natureza eminentemente moralista, em detrimento da prática objetiva de exercícios que de alguma forma acelerem o desenvolvimento das habilidades “latentes e adormecidas em seu interior.”
É nisto que deveríamos nos concentrar em nossos corpos afiliados. Cursos para desenvolver nossa intuição, nossas habilidades telecinéticas e telepáticas. Todas as vezes que conversei como membro, mestre de capítulo ou monitor regional com outros mestres de outros corpos afiliados, a queixa mais constante era a falta dos membros, a diminuição assustadora da frequência e do número de rosacruzes que comparecem as cerimonias e rituais.
Se nosso foco fosse o aperfeiçoamento prático de nossas habilidades, como preconizava nosso manual, setenta e oito anos atrás, tenho a impressão que esse quadro seria revertido.
Não é isso, no entanto, que testemunhamos.
No meu entender, talvez pela enorme importância dada a Ordem Martinista, com sua característica fortemente religiosa, os rosacruzes se esqueceram de que são cientistas esotéricos e não especialistas em ética e em moral.
Não temos e nunca tivemos a pretensão, tradicionalmente, de dizer aos nossos membros como devem se comportar em suas vidas pessoais.
Se existia um quesito no manual voltado ao decoro dentro do templo, isto tinha a ver com a instauração de algumas poucas premissas de vida e interação social adequadas.
Não é papel da Ordem discutir o comportamento pessoal privado de seus membros. Esperamos apenas que, no convívio coletivo, o comportamento dos mesmos seja condizente com a elegância e o bom senso adequados.
Nosso foco deveria ser, repito, o exercício de nossos dons naturais esquecidos, meta que estava definida nos experimentos preconizados em nossas antigas monografias e que foram retirados das mesmas pelo nosso corpo administrativo educacional, por motivos desconhecidos e jamais discutidos.
Urge que recuperemos esta característica do estudo rosacruciano, o empirismo, no sentido esotérico, a busca sistemática do desenvolvimento de nossas habilidades ocultas por nossa limitada formação educacional.
Esta é a nossa mais profunda esperança.





[1] MANUAL ROSACRUZ, página 71, supervisão H. SPENCER LEWIS, FRC, PhD, BIBLIOTECA ROSACRUZ, Ed Renes, coordenação da soror Maria Moura, sexta edição.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

CONVERSAS




[10:30, 3/2/2019] Edison: Texto bem reflexivo em “A resposta está no Coração”
[10:30, 3/2/2019] Mario Sales: É
 [10:30, 3/2/2019] Edison: Está na mesma linha de “Eu sou o capitão da minha Vida”!!!!
[10:31, 3/2/2019] Mario Sales: Nãooooo
 [10:31, 3/2/2019] Mario Sales: O capitão da minha vida vai com o navio pra lá e pra ca
[10:31, 3/2/2019] Mario Sales: No fluxo da correnteza vc se joga de cabeça e crê
[10:31, 3/2/2019] Mario Sales: Quem leva você é o Rio
[10:32, 3/2/2019] Mario Sales: Nada está sob controle
[10:32, 3/2/2019] Mario Sales: Nada



[10:32, 3/2/2019] Edison: Então se jogar na correnteza para ser levado por ela... acrescentou o observar por outra ótica
 [10:32, 3/2/2019] Mario Sales: É
[10:32, 3/2/2019] Edison: Então!!! Isso é o que eu e você pensamos
[10:32, 3/2/2019] Mario Sales: Às vezes ter o Timão na mão faz com que adiemos o encontro com a correnteza
[10:33, 3/2/2019] Edison: E se o vento parar de soprar?
[10:33, 3/2/2019] Mario Sales: Correntezas não dependem do vento
[10:33, 3/2/2019] Mario Sales: 😁
[10:33, 3/2/2019] Edison: Esse é o nosso pensamento
[10:33, 3/2/2019] Mario Sales: 👍
 [10:34, 3/2/2019] Edison: Pense.... rsrsrs... o mar também tem correntezas...





[10:33, 3/2/2019] Mario Sales: A pergunta por trás do ensaio é:
[10:33, 3/2/2019] Mario Sales: Você quer mesmo se iluminar?[10:34, 3/2/2019] Mario Sales: Você quer mesmo romper com todas as coisas do mundo?
[10:34, 3/2/2019] Mario Sales: Nada de lágrimas mas tb nada de gargalhadas?
[10:34, 3/2/2019] Edison: Eu entendi!
[10:35, 3/2/2019] Edison: Porém voltamos sempre ao ponto
[10:36, 3/2/2019] Edison: Bem ou mal... esquerda ou direita... luz ou trevas.... sempre a dualidade
[10:36, 3/2/2019] Edison: E a trina manifestação
[10:36, 3/2/2019] Mario Sales: Sempre a divertidíssima dualidade
[10:36, 3/2/2019] Edison: O equilíbrio dinâmico....
[10:37, 3/2/2019] Mario Sales: E divertido
[10:37, 3/2/2019] Edison Rosacruz: Sempre adorei esse termo
[10:37, 3/2/2019] Mario Sales: Dinâmico
[10:37, 3/2/2019] Edison: É a base do movimento
[10:37, 3/2/2019] Carlos: Nessa dualidade, nem sempre a correnteza do rio, nem sempre a margem.
[10:37, 3/2/2019] Mario Sales: Na verdade, a dualidade está na margem
[10:38, 3/2/2019] Mario Sales: No Rio só existe fluxo sem dualidade
[10:38, 3/2/2019] Edison: Óia!!!
[10:39, 3/2/2019] Edison: Tudo é dual
[10:39, 3/2/2019] Mario Sales: Na margem do rio sim
[10:39, 3/2/2019] Mario Sales: No Rio, na correnteza, só fluxo
[10:40, 3/2/2019] Edison: Uhmmm!
[10:41, 3/2/2019] Carlos: Quis dizer q não estou pronto p estar somente na correnteza do Rio. A margem ainda faz parte da minha jornada
[10:41, 3/2/2019] Edison: Não me convenceu!
[10:41, 3/2/2019] Mario Sales: Nem da minha
[10:41, 3/2/2019] Edison: Ambos fazem parte da jornada
[10:43, 3/2/2019] Edison: Muitas vezes caímos na correnteza sem desejar
[10:43, 3/2/2019] Edison: Aí... acreditamos que ela sabe o caminho
[10:44, 3/2/2019] Edison: Assim como caminhar em direção à luz...
[10:44, 3/2/2019] Mario Sales: É
[10:45, 3/2/2019] Mario Sales: Sabe, entramos e saímos da correnteza voluntariamente na prática da meditação
[10:46, 3/2/2019] Edison: Mas se eu olhar para trás enxergarei as sombras... se sei que elas são o resultado da minha projeção em relação à Luz.... ok... agora se eu não souber... ficaria com medo.... essa é a grande diferença entre o conhecimento e a ignorância...
[10:47, 3/2/2019] Carlos: Isso.
[10:47, 3/2/2019] Mario Sales: A meditação torna indiferente a dualidade conhecimento ignorância
[10:47, 3/2/2019] Mario Sales: Meditar é conectar-se com o fluxo
[10:48, 3/2/2019] Mario Sales: Da mesma maneira que nos conectamos ao Google
[10:48, 3/2/2019] Mario Sales: Nada sabemos
[10:48, 3/2/2019] Mario Sales: O Google sabe tudo
[10:48, 3/2/2019] Mario Sales: 😁
[10:48, 3/2/2019] Edison: Bem sobre esse aspecto...
[10:48, 3/2/2019] Edison Rosacruz: Sim
[10:49, 3/2/2019] Mario Sales: Animadinhos na filosofia domingo de manhã, hein?


sábado, 2 de fevereiro de 2019

A RESPOSTA ESTÁ EM NOSSO CORAÇÃO



por Mario Sales






“Nenhum igual àquele.
A hora no bolso do colete é furtiva,
A hora na parede da sala é calma,
A hora na incidência da luz é silenciosa.
Mas a hora no relógio da matriz é grave
como a consciência.
E repete. Repete.”

“O Relógio”, Carlos Drummond de Andrade,
in Boitempo II, pág 45, Ed. Record, 2ª edição, 1990

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora, terás de vive-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes, e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de individualmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada, outra vez, e tu com ela, poeira das poeiras.”

O Eterno Retorno, aforismo 341, Friederich Nietzsche,
in A Gaia Ciência, Ed. Hemus, 1976

É estranho, mas verdadeiro: tudo se repete. Talvez não com esse detalhismo da “mesma aranha” ou do mesmo “luar entre árvores”, mas com certeza, algo semelhante, provocando os mesmos sentimentos, as mesmas considerações.
O tempo “se repete, repete” e nos traz de volta tudo aquilo que em outras épocas não podemos resolver, ou engolir, ou digerir, e que vomitamos antes que pudéssemos absorver.
Mesmo o veneno deve ser provado, a cicuta deve ser bebida, para que mortos, possamos renascer.
Não existe uma sucessão de instantes, mas o desfile ante nossos olhos dos mesmos cavalos deste carrossel, que sobem e descem, mecanicamente, enquanto giram a nossa volta. Aqui, neste parque de diversões abandonado, somos os contempladores, enfadados, dos mesmos objetos que passam por nós, giro após giro.
Quanto mais voltas testemunhamos, mais monótona se torna a contemplação, mais meditativos ficamos, a mente vazia de preocupações pois que tudo que vemos já é conhecido, já foi visto antes.
A sabedoria é reconhecer a natureza cíclica das coisas, perceber que a estranha oscilação do pêndulo, antes de se constituir um problema, pode ser também um mantra para nossa meditação.
Olhar a vida como uma técnica auxiliar para conseguirmos estados mais refinados de consciência, tal qual o incenso, ou um Mandala, é uma estratégia interessante.
Nada a ver com aprender pela dor. Para o meditador, não existe dor, como não existe o prazer, porque não existe apego, pelo menos enquanto dura o estado meditativo.
Sem apego, sem uma vida parcial, polar, ou como dizem outros, vivendo, ingenuamente, apenas em busca da felicidade, nosso destino só pode ser o sofrimento.



Em um mundo impermanente, fugaz, querer o bem e negar o mal ou vice-versa, é um erro tático.
É preciso aprender a contemplar sem se envolver, ensinam os iogues; contemplar sem julgar, com sábia indiferença.
Esta mudança de qualidade no olhar muda o próprio mundo.
Se supomos o mundo mau, erramos; se o julgamos bom, erramos da mesma forma.
O mundo, toda a criação, é o que é, sem adjetivos, sem classificações, regular, monótona, como o relógio da parede, mas sempre em movimento, o tempo sempre em fluxo ininterrupto, inexorável, inabalável, implacável.
Como seres humanos temos duas opções: caminhar pela margem, e nos sentarmos em “terra firme” para contemplar da margem, o rio que flui, desfrutando da ilusão de estabilidade; ou colocarmos nosso barco no rio, e descer com ele na correnteza, e nos deixar levar, fluir juntamente com o rio, rápidos, contemplando a margem de dentro do rio. Aqui precisamos dar o salto de fé e depositarmos nossa confiança na correnteza, internamente crendo que ela sabe para onde deve ir.[1]
Nesse caso, é como se olhássemos pela janela de um trem em movimento, paisagens e margens passando por nós céleres, e até pessoas, de modo tão acelerado que os detalhes se perdem, tornam-se imperceptíveis. Casas, estações, animais no pasto, surgem e desaparecem no mesmo ritmo frenético do trem em fluxo, veloz, tornando tudo aos poucos um mesmo borrão na paisagem.
Todas as estações, todas as casas, todos os animais e as pessoas parecem iguais neste ritmo vertiginoso; sem detalhes, o que antes era heterogêneo torna-se homogêneo.
E para nossa surpresa, esta monotonia, essa ausência da diferença, nos acalma o espírito.
Este é o primeiro descolamento, o descolamento entre observador e observado, entre quem contempla e aquilo que é contemplado. Já não mais nos identificamos com as coisas que surgem e desaparecem ligeiras, ante nossos olhos.
É então que surge a pergunta: quem é este Eu que observa em mim? Quem é este que observa?
Já não contemplamos apenas, mas conseguimos nos ver, vendo; observar a nós mesmos observando o observado.
Esse é o segundo descolamento. A separação entre o Eu e o Ego, entre o ser verdadeiro e sua personalidade temporária, entre o artista e o seu personagem teatral.
Não temos mais nome, sexo ou cultura. O Eterno olha para o mortal, o infinito para o finito.
Entramos no que se chama Samadhi, o Nirbikalpa Samadhi, e o que começou com um tímido tic-tac de um singelo relógio transformou-se em fluxo, em um estado de graça, de bem-aventurança, de completude.
É preciso fazer a escolha, aonde queremos ficar? No rio ou na margem.
Manter o nosso aparente controle sobre as coisas estáticas, ou entregar nas mãos da sagrada e dinâmica correnteza o controle sobre nós?
É preciso aceitar que não é uma escolha fácil. Exige coragem, fé e confiança em coisas invisíveis.
Mergulhar no fluxo demanda uma capacidade mental compatível, para a qual todos caminhamos, vida após vida, encarnação após encarnação.
Viver sem a ilusão de estar “vivo”, implica em romper laços, apegos, sentimentos e convicções. E romper laços e abandonar apegos não é exatamente tornar-se feliz. Estamos realmente prontos para isso?
O despertar da consciência espiritual leva a divina indiferença.
Estamos realmente dispostos a fazer esta opção?
Só nosso próprio coração pode responder a isso.




[1] “Estou farto de me agarrar. Mesmo que meus olhos não vejam o que há pela frente, confio que a correnteza saiba para onde vai. Vou me soltar e deixar que ela me leve pra onde quiser. Se eu continuar aqui, imobilizado, morrerei de tédio!” As outras criaturas riram e exclamaram: “Tolo! Se você se soltar, essa correnteza que você venera o lançará, aos trambolhões e o fará em pedaços, contra as pedras. Ela o matará mais depressa que o tédio.” Mas ele não lhes deu ouvido. Inspirou profundamente e se soltou. A correnteza lançou-o com violência contra as pedras, mas a criatura, embora machucada, estava decidida a não se agarrar novamente. E então a correnteza o trouxe à tona e ele não mais sofreu nem se lastimou.” “Ilusões”, de Richard Bach, cap. 1