Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

TEMPO LINEAR, TEMPO CIRCULAR


Por Mario Sales, FRC, SI


A estação espacial

Era 1999. O primeiro episódio da nova franquia de Star Trek, (Jornada nas Estrelas), Deep Space Nine, que duraria sete temporadas, escrito pelo roteirista Rick Berman, começava a ser exibido.
Seu título é “O Emissário” e foi dividido em duas partes.
Revi com prazer este episódio agora, já que toda a série está disponível na Netflix
O enredo é básico para o desenrolar de toda a trama.
Benjamin Sisko (Avery Brooks), comandante e representante da Federação de Planetas, assume a administração de uma ex estação espacial do povo Cardassiano, que acabou de se retirar de um planeta chamado Bajor, em órbita do qual a estação está.



Benjamin Sisko, vivido pelo ator Avery Brooks

Os Cardassianos subjugaram e dominaram política e militarmente o povo bajoriano por décadas, e com sua saída e a retomada da autonomia do planeta, a Federação é chamada a apoiar a transição, tecnológica e militarmente.
O Comandante Sisko é um homem solitário e amargurado pela lembrança da morte de sua esposa em uma batalha três anos antes, contra uma nave Borg, que coincidentemente era liderada por um Jean Luc Picard abduzido e transfigurado pelos Borgs em Locutus, destino do qual eventualmente seria salvo pelos seus oficiais.
Neste ínterim, entretanto, ainda na situação de abduzido, Locutus (Jean Luc) comanda um ataque a Terra e enfrenta a resistência de várias naves da Federação, entre elas aquela aonde servia o atual comandante Sisko, juntamente com sua esposa e seu filho adolescente, Jake.

Locutus


Durante o ataque, sua esposa é morta e ele escapa com o filho por pouco.
Ao assumir Deep Space 9, Cisco é apoiado pela Interprise, capitaneada pelo mesmo Jean Luc Picard, já de volta ao seu estado humano normal, e o primeiro encontro de trabalho entre ambos, por causa disso, é tenso. A mágoa de Sisko com Jean Luc reflete mais a sua tristeza e seu luto do que uma raiva pessoal, já que ele lhe lembra aquilo que mais queria esquecer.



A cena da esposa soterrada pelos escombros e sem possibilidade de ser retirada da nave, a qual explode pouco depois de ser evacuada, marca o drama pessoal deste comandante viúvo, descrito nesse episódio.
O enredo então avança pelos problemas administrativos e políticos da reconstrução da vida social de Bajor, pari passo com a reorganização e adaptação à tecnologia cardassiana da estação pelos técnicos da federação.
Surgirão problemas de interação entre os homens e as máquinas e entre bajoriano e humanos durante este período.
O destaque, no entanto, fica para o significado da espiritualidade nesse processo.
A major Kira, adida bajoriana e segunda em comando na estação alerta Sisko que o seu planeta está dividido depois da retirada cardassiana, e que só uma coisa une a todos: a religião.


Jean Luc Picard

A líder espiritual do planeta, Ka Opaka, recusa-se a fazer a ponte entre todos e se afasta, tornando-se reclusa.
Surpreendentemente, convoca Sisko para uma reunião através de um de seus sacerdotes, que trabalha na estação espacial. Sisko atende seu chamado e se reúne com ela em Bajor. Ela lhe fala sobre o destino de cada um, o qual ela chama de Pah. E alerta Sisko de que seu Pah o trouxe aquele mundo, e poderá fazer por ele mais do que ele supõe.
Neste momento, ela revela a ele que possui um objeto, parte de um grupo de nove, mas dos quais sobrou apenas um, sendo que os outros oito haviam sido roubados pelos Cardassianos, quando de sua violenta estada em Bajor.
Este orbe remanescente está por isso mesmo, devidamente escondido de todos, e ela mostra-o somente a Sisko.
Trata-se de um objeto semelhante a um pequeno peso de ginástica, mas em posição vertical, que flutua dentro de um escaninho com portas (que se fecham para ocultá-lo) e gira sobre si mesmo enquanto emite uma hipnotizante luminosidade azul.

Ka Opaka

Ka Opaka diz a Sisko que ele precisa resolver sozinho seus problemas pessoais e deixa-o experimentar o Orbe, como é chamado. Abre a caixa para espanto de  Sisko que olha aquele objeto fascinado e sai da sala.
Sisko é então tomado por um estado de consciência alterada em que revive o dia da morte da esposa, e perde durante o processo a noção de tempo e espaço. Quando sai do transe, Ka Opaka retorna e diz a ele que este é um dos efeitos do Orbe sobre quem o contempla, e que é seu Pah interpretar o significado do Orbe.


O Orbe dentro de sua caixa

Numa demonstração de inexplicável confiança, Ka Opaka dá o Orbe a Sisko dizendo que ele deve buscar “Os Profetas” através deles e achar sua Morada, o “Templo Celestial”, seu destino pessoal, seu Pah.
Sisko leva o Orbe para a estação e pede a um velho amigo, um ser simbiótico capaz de viver várias vidas em corpos de hospedeiros diferentes, chamado Dax, agora na pele de uma bela moça, Jadzia Dax, que examine o Orbe e tente entender seu mecanismo.
O episódio se desenrolará com outros acontecimentos, mas para não me estender em demasia, salto para o momento em que, com a ajuda de Jadzia, Sisko descobre aonde deve se dirigir para encontra essa região ou dimensão, chamada na mitologia bajoriana de “templo Celestial”, a qual ele começa a suspeitar, seja apenas uma vestimenta mitológica de fatos até aquele momento inexplicáveis a luz da cultura daquele povo.
Sendo assim, ele e Jadzia, a bordo de uma nave auxiliar, dirigem-se a uma região do espaço aonde uma grande concentração de neutrinos denuncia uma atividade de campo intensa e, até aquele momento, invisível.
Para sua surpresa, quando se aproximam, a atividade dos neutrinos aumenta exponencialmente e um Buraco de Minhoca tempo espacial se abre a sua frente, para dentro do qual são lançados e que atravessam em grande velocidade, saindo um pouco mais a frente, para sua surpresa, milhões de anos luz distantes de onde estavam, no chamado quadrante gama. Mais espantosamente, percebem que o Buraco de Minhoca é estável, que não foi um fenômeno natural, mas que é artificial, que tem provavelmente 10000 anos de existência, período durante o qual os nove orbes apareceram e que era produto de uma avançada tecnologia de um povo, até aquele momento, desconhecido.
Dão meia volta na nave auxiliar e começam a retornar ao seu próprio quadrante espacial, passagem permitida novamente pela abertura graciosa do portal com a sua aproximação.
Só que dessa vez eles não conseguem atravessar e sair simplesmente. A nave reduz sua velocidade e, espantosamente, pousa em algum lugar. Perplexos eles saem da nave dentro de um bolsão atmosférico adequado a vida humana, de aparecimento tão inexplicável quanto o próprio portal. Sisko sai da nave e se depara com uma paisagem sinistra e desolada, com abismos e rios de lava correndo entre rochas disformes.
Já Jadzia, ao sair, depara-se com um local semelhante ao paraíso, um lindo jardim com um sol agradável, cheio de árvores frutíferas.
Ambos, no mesmo espaço físico, se assim podemos chamar, vivenciam experiências de interação ambiental absolutamente diversas, talvez uma manifestação do estado interno psicológico de cada um. O deprimido viúvo e a sábia criatura de centenas de anos experimentam o mesmo espaço tempo de modo absolutamente desigual.
Súbito, um Orbe surge, semelhante aquele que Sisko e Jadzia receberam para análise de Ka Opaka. Ele flutua sobre ambos até que captura Jadzia enquanto Sisko é envolto por um estado de consciência alterada.

Jadzia e Sisko sendo sondados por um Orbe antes de Jadzia ser levada de volta da Fenda espacial para a estação


O Orbe levará Jadzia em segurança até a estação espacial Deep Space Nine, enquanto Sisko começa uma estranha conversação com os seres que, agora se revelam habitantes daquela fenda espacial.
Eles não se revelam como formas. Para que Sisko os compreenda, assumem ao falar a forma de pessoas que fazem parte das memórias de Sisko, sua esposa mais jovem, seu filho conversando com ele no holodeck da nave que os trouxe a estação no início do episódio, ou mesmo na forma de Ka Opaka ou Jean Luc Picard. Eles falam como se cada um fosse parte do outro e a frase e o pensamento de um geralmente são completados por outro personagem.
Cisco está mergulhado nesta estranha experiência de interação, mas percebe o que ocorre e entra no jogo deste estranho primeiro contato com o povo da fenda espacial, que ele ainda não sabe, tem parâmetros de compreensão absolutamente distintos dos parâmetros epistemológicos e psicológicos humanos.
Esta é talvez a cena mais forte do filme. Sisko precisa conversar com rostos que não são aqueles de seus interlocutores, mas apenas máscaras, personas de seu próprio universo psicológico interior.
É durante este estranho colóquio que ele percebe a mais impressionante diferença daquele povo: eles não conhecem o conceito de tempo linear já que vivem em uma percepção de tempo circular ou eonica, como chamavam os gregos.
Desta forma, durante a conversação, esforçam-se para compreender o que é tempo linear, o que é porvir, futuro, e o que é passado, aquilo que não volta mais.
Para eles tudo isso é novo e complexo já que tudo que existe, existiu ou existirá, para eles, é um presente eterno.
Sisko esforçar-se-á para explicar o que significa viver com uma compreensão linear da vida, e a natural impossibilidade humana de voltar fisicamente ao que já aconteceu.
Neste momento, eles o questionam sobre suas lembranças pessoais que contemplam telepaticamente, nas quais o episódio de maior sofrimento para ele, o dia da morte de sua esposa, é revisitado com frequência.
E quando eles o questionam ele diz que aquilo já passou, que é apenas uma lembrança, ao que retrucam que não é apenas uma lembrança, mas uma vivencia, da qual ele não se liberta, e que ele experimenta seguidas vezes, como em um looping, como em um círculo vicioso. Eles perguntam: "Se isto não existe mais, porque voce vive aqui, porque voce existe aqui?"
Esta é a natureza psicológica dos traumas.
Eles são experiências que são revisitadas pela vítima de maneira descontrolada e constante, de maneira que aquele que vinha em um curso linear de vida e crescimento para neste ponto e fica ali, rodando em círculos, sem poder se libertar daquele momento, daquela emoção, daquela memória.
E então os habitantes da fenda argumentam com Sisko que aquele comportamento não é linear. Ou seja, no seu processo de compreensão da natureza da psicologia humana e da sua peculiar relação com o tempo, percebem que, como no caso de Sisko, o que para eles era seu modo natural de ser, para seres lineares era uma denúncia de doença e trauma mental.
Sisko desaba em lágrimas ao perceber a profundidade desta descoberta aparentemente tão simples.
E ali, sua recuperação psicológica se completa e ele consegue superar a perda da esposa.
O episódio segue, mas o que me interessa acaba aqui.
É talvez um dos mais fascinantes filmes de ficção científica que eu assisti, e que há anos eu não revisitava.
Teve forte impacto sobre mim. Eu mesmo estava paralisado, há mais ou menos um ano, por uma desagradável experiência que atravessei no meu ambiente profissional.
Percebi o quanto de circularidade em minha mente e em meus pensamentos este trauma existencial havia me atirado.
E como o comandante Benjamin Sisko, em uma catarse, começo a ir em frente e voltar a um tempo psicológico linear.
Tudo na arte, do teatro ao cinema e à música, pode sim ser terapêutico.
Uma experiência enriquecedora que eu quis compartilhar.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O ESTOFO DAS AMIZADES

Por Mario Sales,FRC,SI




Não se pode discutir com pessoas que não concordam conosco a não ser no âmbito da ciência e munido das evidencias que possam embasar nossa posição.
Na vida do senso comum, entretanto, nem com evidências nas mãos podemos ter uma conversa civilizada que convença nosso interlocutor de coisas nas quais ele não deposita confiança.
Conversar com alguém que concorda conosco é como encontrar com alguém em um hotel e, durante um café, fazer uma nova amizade. No decorrer desta conversa, comparamos nossas experiências turísticas e é como se tivéssemos visitado os mesmos monumentos, as mesmas cidades, os mesmos museus.
Pessoas que concordam, mesmo que não se conhecessem antes, tiveram trajetos semelhantes em períodos diferentes de vida. Depois, ao conversarem é como se mostrassem cada um, fotos dos mesmos locais um para o outro.
Ninguém chega a um relacionamento de mãos vazias.
Todos nós temos uma bagagem.
É muito bom quando nossas bagagens são semelhantes a do nosso interlocutor.
Goethe dizia que gostava de conversar com pessoas que divergissem dele, de forma a melhorar e ampliar sua visão de mundo, sua retórica, seus argumentos.
Concordo. Nada disso é, no entanto, prazeroso. Parece mais com um exercício, como a esgrima, em que cruzamos floretes com elegância, mas com virilidade, competitivamente.
Já o encontro de almas afins é sempre acalentador e comovente.
Aquece o coração e o espírito.
Fortalece nossa crença de que sempre, queiramos ou não, existe um grau especifico de pertencimento que carregamos conosco, na maioria das vezes inconscientemente, e que uma vez percebido, tornado manifesto, nos posiciona no mundo e na vida social.
É assim que nascem fortes amizades.
Como no ditado árabe: “enquanto só perceberes as diferenças entre as coisas, teu conhecimento não valerá uma rúpia. A sabedoria só vem quando se começa a ver entre todas as coisas suas semelhanças. ”
É isso

sábado, 29 de outubro de 2016

ESPIRITUALISMO MATERIAL

Por Mario Sales

“Nós não podemos ir além
Se não conseguirmos sentir o amor comum
Nós não podemos ir mais alto
Se não conseguirmos lidar com o amor comum

U2, in “Ordinary Love”







Meus anos dedicados ao Misticismo e ao Esoterismo me deram, no início, a falsa impressão de que conseguir distância das coisas da Terra fosse o caminho para encontrar as coisas de Deus.
Foram necessárias várias décadas para que eu percebesse o erro conceitual de minha premissa, um traço romântico e fantasioso de minha personalidade, difícil de aperfeiçoar.
Hoje minha jornada está na mesma direção, mas em sentido inverso.
Eu imaginei que o caminho para o espírito fosse olhar para dentro saltando por cima do corpo. Hoje entendo que se não vivenciar minha experiência corpórea jamais chegarei a entender a minha natureza espiritual.
A falsa dualidade platônica denunciada por Espinoza me iludiu, confundiu e constrangeu minha capacidade de perceber a santidade existente nesta manifestação física que ora habito.
Negar a mim mesmo enquanto corpo não me tornará mais refinado, percebo agora, algo óbvio do ponto de vista intelectual, mas não tão óbvio do ponto de vista existencial.
Hoje suponho ter percebido este simples fato: é mantendo com carinho e cuidado minha casa, minha morada, que crio as condições externas adequadas para quem a habita, ou seja, eu mesmo. E cuidar da morada, do corpo, não é apenas garantir a satisfação de suas necessidades básicas como ar, água, alimento e abrigo. É preciso cuidar do afeto, com tanta ou mais importância que os outros quatro itens anteriores.
Precisamos amar o corpo e as coisas do corpo, sem que isso signifique tornarmo-nos escravos do corpo. É dar a César o que é de César, fator sem o qual a equação estará desbalanceada.
Com certeza ninguém elevará sua alma pela negação de sua própria carne. Só tolos como eu, poderiam cometer este terrível equívoco.
Alguns pensadores já mostraram os perigos implícitos na expressão “amar a humanidade e odiar o próximo”. E ninguém é mais próximo de nós do que nosso próprio corpo.
Da mesma maneira é estúpido supor que nosso amor será mais espiritual e elevado se não conseguimos lidar com o Amor Comum. Toquemos a nós mesmos. Sintamos nossa pele.
Ela tem, com certeza, muitas lições a nos ensinar.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

TEMPO

Mario Sales


“Na candente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que em nenhum instante se rebaixou ao sentimentalismo ou ao medo, notei que os porta-cartazes de ferro da praça Constitución tinham renovado não sei que anuncio de cigarros; o fato me tocou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que aquela mudança era a primeira de uma série infinita.”    
 
“O Aleph”, um conto de Jorge Luis Borges (1949), Companhia das Letras, 2008





energia fugiu de mim, 
como a corça do leão e do guepardo
Ideias ou inspirações, nenhuma,
Só esse silêncio na cabeça e na alma
Que me preenche
Como só o vazio pode preencher alguém.

Mas o tempo lá fora não se importa e segue em frente
Fluxo inexorável, implacável, inesgotável,
Que antes de impressionar, causa inveja.

Queria para mim, esta imperturbabilidade
Essa incapacidade de se desviar ou distrair do foco
Do horizonte a alcançar
Determinação inabalável e rítmica
Que só o tempo tem.

Nada, nem ninguém 
é capaz de impedir que flua
Livre, perene, indiferente.

Mesmo que os eventos 
tenham significado,
quer sejam de vida
ou de morte
Não são capazes de abalar,
em um segundo, a sorte
e o passar incontrolável das horas,
O Devir contínuo
Do qual somos, tão somente,
Espectadores passivos.
Ou não.
O tempo segue em frente,
Célere, Inconsciente 
daqueles que o preenchem
E aos quais atravessa.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

MAIS LEITURAS E REFLEXÕES


Por Mario Sales




Estou lendo agora no e-reader da Livraria Cultura, o Kobo, a biografia de Carlos Chagas Filho,(“Um Aprendiz da Ciência”) que cheguei a ver em vida, em uma visita de minha turma de faculdade à Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lembro-me de um homem alto e de cabelos muito brancos que me disseram ser o eminente, depois vim a saber, cientista, que por sua biografia descubro foi por toda a vida emaranhado (para usar um termo da Mecânica Quântica) com a Biofísica, e com pesquisas com o peixe elétrico brasileiro.
Este descendente do mesmo Carlos Chagas que dá nome a doença tornou-se uma autoridade científica respeitada internacionalmente, mas se eu não lese este texto jamais saberia disso. Faleceu no ano 2000, coroado de láureas e títulos de Doutor Honoris Causa de dezenas de Universidades em todo o mundo, além de ter sido a pedido de Paulo VI presidente da Academia Pontifícia de Ciências em Roma.



Um cientista, um homem da pesquisa, que participou ativamente da fundação do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ) e mesmo assim, sem pertencer ao clero, um homem da religião.
Acabei de ler A Ilha do Conhecimento de Gleiser, e lá também encontrei vários momentos em que, às vezes de modo sutil e em outros momentos, de forma não tão sutil assim, o físico e palestrante brasileiro, professor da Universidade de Dartmouth, (em Hanover, New Humpshire), flerta com a espiritualidade.
Ao que parece o fenômeno é mais difundido do que supõe a vão filosofia de racionalistas extremados como o biólogo evolucionista Richard Dawkins.
Não há certos ou errados nesta questão.
O que Dawkins chama de crença irracional para muitos é algo natural como a fome ou a sede. Para pessoas assim, como eu mesmo, a percepção do divino em nada afeta a razão ou a sensibilidade à argumentos lógicos.
Cretinos e idiotas existem em ambos os campos, sejam crentes ou ateus.
O que deveria se combater isto sim era a estupidez e a ignorância e não a sensibilidade de certas pessoas que independente de sua formação intelectual sólida (Carlos Chagas Filho lia Goethe no original aos 10 anos) são capazes de abraçar uma crença de modo sereno e sincero.
Dawkins e outros revoltados como ele não estão errados ao elencar os problemas ligados à crenças religiosas extremadas e que tem uma história nefasta em relação a liberdade de pensamento e à ciência em si. O problema é que, se existiam, repito, cretinos entre os crentes que queimaram pensadores e mataram homens de ciência, lembro as palavras do professor Karnal que, como bom historiador e estudante das religiões, embora diga-se ateu, alerta que assassinos existem entre religiosos e ateus, lembrando sempre que “o homem mata porque gosta de matar e não em nome de seu Deus”.
Penso sempre nisso quando lembro o destino de Frater Lavoisier, químico guilhotinado pela junta do período pós revolução francesa, a época conhecida como Terror.
Não, não é a fé ou a percepção da existência de algo superior a nós, uma inteligência que tudo governa e administra, que faz de nós cretinos assassinos. Ou mesmo maus cientistas.
As coisas não são tão simples. Lutar contra a religião e o senso do divino entre seres humanos é tentar segurar o vento entre as mãos e faz de qualquer um como Dawkins ou o escritor Christopher Hichtens, um cruzado ridículo.
Todos têm direito a crer ou não no que queiram. Ninguém, no entanto, tem o dever de tentar convencer de modo acintoso alguém de seu ponto de vista.
Mesmo homens de ciência sabidamente distantes de problemas como a religiosidade pensam assim, considerando este proselitismo, mesmo que feito por ateus uma coisa extremamente chata e desconfortável.
O próprio Dawkins sofreu na pele a conhecida ironia de ninguém menos do que o professor Hawkins, que de sua cadeira de rodas zombou dele pela sua obsessão antirreligiosa. Confiram o vídeo do link abaixo em 3’ e 29”.
Este debate hoje é no mínimo ridículo, e a insistência dos entrevistadores e de alguns intelectuais de forçarem este tipo de questão primária e superficial me irrita profundamente.
Newton era profundamente ligado a alquimia e um home de crenças em uma divindade inabaláveis. Nada disso afetou seu brilhantismo, suas contribuições a ciência ou seu papel no enriquecimento do conhecimento humano na ótica, nos estudos gravitacionais e na criação do Cálculo, em matemática.
Não porque Newton fosse um crente, mas porque ele não era um cretino. A inteligência não é nem nunca foi incompatível com a sensibilidade às coisas de Deus.
Eu já usei a palavra cretino várias vezes e pode parecer que estou tomado de fortes emoções ao fazê-lo.
Não é bem assim. A palavra define um estado de deficiência mental característicos de portadores de hipotireoidismo congênito e é por extensão a todas as pessoas limitadas intelectualmente.
É nesse sentido que uso o termo.
A luta não foi entre o bem e o mal mas entre o conhecimento e a ignorância. E a humanidade não tem, na sua maioria, pessoas da estirpe intelectual de um Marcelo Gleiser ou de Carlos Chagas Filho.
É de se lembrar aqui que existem espíritos antigos e sábios fora da academia, fora da ciência e da filosofia.
Longe de mim achar que a razão é o que garante a qualidade das almas e das mentes, bem como dos comportamentos.
Não, a razão já mostrou que pode causar muito mal, que ode ser tanto uma geradora de luz como também um monstro perigoso. A razão, de per si, não merece confiança.
Mas é uma ferramenta importante que se manipulada com destreza e sabedoria pode ajudar muito a sociedade e aos seres humanos.
Oxalá superemos a ignorância, a fome e a miséria material. Que nossas vidas possam ser apenas a busca por um nível de espiritualidade maior e mais profundo.
E que então debates estúpidos e inúteis sejam substituídos por diálogos sérios em busca de soluções objetivas para os reais problemas que afligem nossa espécie, como um todo.