Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 3 de agosto de 2019

PALAVRAS



Por Mario Sales



Infelizmente quando falamos, falamos com nossa boca.
Os que nos ouvem, ouvem-nos com seus próprios ouvidos. Por causa desta simples constatação, não é possível uma comunicação sem equívocos, sem enganos, sem mal-entendidos.
As palavras são seres de comportamento instável.
Se estão sós, comportam-se através de suas significações.
Quando acompanhadas, assumem conotações que as modificam, as enriquecem e multiplicam seu sentido ou sentidos.
Nesse aspecto, palavras e pessoas são idênticas. As influências dos que nos circundam nos modificam e seria triste e lamentavelmente limitante não termos os outros para mudar nossas compreensões, desafiar nossos padrões, contestar nossas crenças.
Vivemos para modificar os outros, nos modificar e sermos modificados.
A modificação não é, necessariamente, evolução, mas toda evolução é, com certeza, uma mudança.
Portanto, se nos voltarmos para o papel do diálogo, do falar e do ouvir, da mesma maneira encontramos este confronto de contrastes entre narrativas, descrições, interpretações, que ao se encontrarem, aí sim, necessariamente se modificam e se adaptam.
Existe a nossa fala, na nossa privacidade, nos nossos solilóquios. E existe outra fala, a fala possível diante do outro, aquele que nos intimida ou inspira, que nos motiva ou constrange, se bem que, certas vezes o que nos inspira também nos embaraça ao mesmo tempo.
Esta é a descrição do complexo fenômeno do diálogo, que julgamos ingenuamente tão simples e que esconde sutilezas e mistérios tão profundos.
Somos incapazes de acompanhar em tempo real a alquimia dos sentidos da nossa fala e das nossas compreensões. E assim, diante do desconhecido, devemos nos recolher a nossa humildade e aceitar nossa incapacidade de manter sob controle todas as coisas que nos sucedem, ou que sucedem ao nosso discurso, à nossa fala.
Nossas palavras, uma vez pronunciadas, não são mais nossas; pertencem aos ouvidos de outros, das pessoas que nos ouviram e sabe lá o que e como compreenderam do que dissemos.
Imagine então nossas ideias, descritas por nossas palavras. O que sabem os outros de nossas crenças?
O que de fato conseguimos transmitir das imagens que vão em nossa mente, dos conceitos e valores que abraçamos?
Existe entre nós hinduístas uma prática chamada o ensinar pelo silêncio.
Certos mestres são capazes de ensinar apenas com sua presença, sem pronunciar qualquer som, qualquer silaba. Isso é belo e transcendente.
Quem sabe será o próximo passo da evolução? Quem sabe, no futuro, como os amantes e os apaixonados, saberemos o que vai no coração do outro sem necessidade de diálogos ou explicações, mas apenas pela percepção do olhar do outro, ou por uma contração na pele?
Isso, no entanto, dependerá de avançarmos no relacionamento entre todos nós, de forma a que nos amemos da mesma forma, todos nós, membros da raça humana.
E o amor, o verdadeiro, não é algo dado, mas uma conquista, uma mudança e uma evolução, a manifestação de um estado de refinamento que ainda não temos, mas tenho esperança, conheceremos um dia, todos nós, mergulhados neste contexto de relacionamentos.

domingo, 30 de junho de 2019

COMO LEMBRAVA ESPINOZA “O CORPO HUMANO É MAIS FORTE E MAIS POTENTE QUANTO MAIS RICAS E COMPLEXAS FOREM SUAS RELAÇÕES COM OUTROS CORPOS”. 2ª PARTE


por Mario Sales





Em “Amor para corajosos”, Pondé não analisa esses detalhes biológicos de que falei, mas traça, como filosofo, um perfil dos acontecimentos e comportamentos de pessoas vítimas da “doença do pensar”. Não tenta, corretamente, estabelecer as causas desse comportamento, mas apenas descrevê-lo, com sua característica objetividade e em capítulos marcados pela coloquialidade, com títulos como “O Amor pelas “novinhas: gosto mais de mim quando estou com ela” ou o divertido “Como saber se você é um canalha ou uma vagabunda”.
Ao longo de 188 páginas e 36 capítulos ou ensaios como ele diz, ele apenas descreve a miséria que nos impõe a fantasia do amor romântico, criação da literatura e do cinema americano até o início da segunda metade do século XX. Os fatos psicológicos e sociais não sustentam, segundo ele, a tese de que casa-se e vive-se com alguém por causa de um amor intenso, duradouro e eterno. Não que não possa acontecer, mas é mais raro, e por isso precioso, do que sonha nossa vã filosofia.



Existem vários motivos para uma relação durar muitos anos e sobreviver as rotinas e aos protocolos do afeto e necessariamente não estão ligadas a afetos positivos, como diria Espinosa.
Pode-se ficar com alguém apenas por um cálculo simples: a separação traz sempre graves prejuízos psicológicos e financeiros, fora as rupturas afetivas inerentes a esta situação.
Evitando-se o rompimento também consegue-se escapar de problemas sociais desagradáveis, que não deveriam, mas que tem grande impacto sim no nosso equilíbrio psicológico e bem-estar espiritual.
O discurso de que “eu não me importo com que os outros pensam” é mais frequente e menos sincero do que a maioria das pessoas gostariam de admitir.
A grande maioria das pessoas quer viver em paz, de preferência uma vida kantiana e não nietzschiano, como lembra Pondé.  Friedrich Nietzsche era um autor romântico e por isso via na vida audaciosa e apaixonada uma vida bem-sucedida.
O problema é suportar esta escolha com brio e satisfação porque tamanha liberdade tem um preço.
Se o indivíduo ou individua acha que pode e quer pagar este preço muito bem.
Isto, no entanto, não é o mais comum. Porque a coragem, como vimos na primeira parte, não foi distribuída pela natureza de modo equânime, entre todos os seres humanos. Pelo contrário, os covardes são a maioria, refletindo a primeira lei da vida biológica, a da autopreservação.
O medo que alimenta nossa covardia e hesitação em decidir por rupturas as vezes difíceis e que trariam grande e duradouro sofrimento por um lado, em busca de uma felicidade possivelmente passageira, mas atraente, é o mesmo medo que nos preserva de atitudes potencialmente auto destrutivas, como passar ferias no Afeganistão ou no Iraque sendo judeu ou entrar em um bairro violento tarde da noite, apenas para ver o que acontece.
Esse medo, esse receio, recebe o nome de prudência. Não é necessariamente algo errado ou certo, mas biologicamente é um reflexo correto, como coçar o lugar do corpo que foi picado, ou urinar quando se sente vontade.
A noção de que a vida melhora com o heroísmo e arroubos quixotescos é uma das nefastas consequências da visão romântica do mundo e das paixões.
Por isso o medo do amor cada vez maior, já que a população mundial hoje, graças aos recursos e facilidades tecnológicas consta, segundo o ponto de vista Freudiano, de pessoas histéricas e infantis.
Infantis no sentido de não aceitarem com facilidade os inevitáveis revezes da existência, o fracasso, a rejeição afetiva e a morte, o que revela um alto grau de imaturidade emocional, caso para psicoterapia, com certeza. E histéricas no sentido psiquiátrico da palavra[1], sendo hiper-reativas, sendo incapazes de ter, em uma palavra antiga, mas adequada, fleugma diante da desdita. Uma unha quebrada é motivo para desespero.
Lembrando épocas não tão distantes em que a água demandava dias de caminhada para ser conseguida e o alimento era escasso, o certo é que a nossa atual riqueza material (sim, mal distribuída, mas que nunca foi tão grande em nenhum período da história humana) é também a nossa maldição.
O conforto nos tornou fracos e manhosos.
E isso se reflete nos relacionamentos.
O amor e o relacionamento não são, pois, matéria para principiantes. Não falo de sexo, mas de todo o conjunto de situações que envolvem a intimidade, o relacionamento entre duas pessoas de sexo oposto. Como diz Pondé, não falo de assuntos homossexuais porque não os conheço. Só posso falar, como ele fala, da minha experiência como ser humano heterossexual, o que implica enfrentar as diferenças inerentes aos sexos. E isso não é fácil, muito menos prazeroso.
Lembremos de outra coisa. A beleza física passa, independente de nossa vontade, em outra demonstração da primazia do biológico sobre o psicológico. A perda das formas e as vezes da libido é algo duro de conviver. Envelhecer não era para os fracos, como lembra Rita Lee, cantora de rock septuagenária.
O que fazer com nosso desejo e com nossos relacionamentos? Pondé não responde porque não existe uma resposta para todos os casos.
Via de regra, a decisão é particular e pessoal, para além dos clichês de “canalha” ou “vagabunda”.
Pessoas são arrastadas pela paixão devido a inúmeras situações e nem sempre porque não tem caráter, mas sim porque tem instintos, sustentados pelas suas glândulas sexuais, endócrinas, colocadas ali pela natureza e não pela igreja ou pela sociedade.
Cada um deve assumir sua própria decisão, que não será tão livre como se pensa, já que o corpo tem suas próprias razões.
Sim, haverá consequências, mas que fazer?
Se agimos, sofremos.
Se não agimos, também sofreremos.
Só a experiencia pode nos auxiliar, já que o amor nunca é uma experiencia teórica, como Pondé lembra no início do livro com uma citação de Søren Kierkegaard: “O amor só se conhece pelos seus frutos”.
Portanto, antes de nos atirarmos a uma paixão é impossível saber se estamos mergulhando no inferno ou no paraíso. A experiência, a prudência, podem, no entanto, diminuir nossa taxa de erro e de dor, mesmo que nos arrisquemos a parecer covardes.
O importante é viver e viver é procurar relacionar-se com todo e qualquer tipo de pessoa, externamente, e da mesma forma, contemplar com serenidade e coragem todas as nossas emoções, internamente, sem censura.
Só por uma grande quantidade de encontros, podemos nos preparar para a existência.
Porque como lembrava Espinosa “o corpo humano (e a mente humana) são mais fortes e mais potentes quanto mais ricas e complexas forem suas relações com outros corpos”.
[1] A histeria (do francês hystérie e este, do grego ὑστέρα, "útero") faz referência a uma hipotética condição neurótica e psicopatológica, predominante essencialmente nas mulheres. O termo tem origem no termo médico grego hysterikos, que se referia a uma suposta condição médica peculiar a mulheres, causada por perturbações no útero, hystera em grego. O termo histeria foi utilizado por Hipócrates, que pensava que a causa da histeria fosse um movimento irregular de sangue do útero para o cérebro. Segundo a Psicanálise é uma neurose complexa caracterizada pela instabilidade emocional. Os conflitos interiores manifestam-se em sintomas físicos, como por exemplo, paralisia, cegueira, surdez, etc. Pessoas histéricas frequentemente perdem o autocontrole devido a um pânico extremo. Foi intensamente estudada por Charcot e Freud.

COMO LEMBRAVA ESPINOSA “O CORPO HUMANO É MAIS FORTE E MAIS POTENTE QUANTO MAIS RICAS E COMPLEXAS FOREM SUAS RELAÇÕES COM OUTROS CORPOS”.


por Mario Sales



“Desafiando seus pares, Espinosa recusou a concepção antropomórfica de deus, concebido como um “super-homem transcendente, monarca, juiz, legislador do mundo e dos homens”; inserindo a visão de deus enquanto “substância infinita” que “existe em si e por si mesmo” e sem a qual “nada existe e nem pode ser conhecimento”. Frente a esse princípio, ele se opôs à tradicional separação entre alma e corpo. Como os seres são expressões dessa substância infinita (deus), “a natureza física e a natureza psíquica se dão simultaneamente e não podem ser separadas, porque trata-se de campos de realidade que exprimem sempre a mesma substância”. Neste sentido, detalha a professora Chauí, “ideia e corpo são um só”, “exprimem a mesma coisa de maneiras diferentes” e produzem “regiões diferenciadas da realidade” (psíquica e física). Disso advém a premissa: “o corpo humano é mais forte e mais potente quanto mais ricas e complexas forem suas relações com outros corpos”.
O contrário também é válido: “o corpo humano é mais pobre e mais fraco quanto mais isolado se mantiver em relação a outros corpos. A inter-corporeidade [relação entre os corpos] é a condição da nossa força vital”, ensina Marilena. Isso posto, ela aponta que, segundo Espinosa, “quanto mais se mergulha no corpo, mais capacidade cognitiva a mente tem. E quanto mais apto o corpo, mais apta a mente estará para perceber as coisas”, daí o equívoco dos que defendem que o “conhecimento verdadeiro tem como pré-condição que a mente se afaste do corpo e opere no campo puramente intelectual”.
Marilena Chauí in https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Marilena-Chaui-Liberdade-e-afastar-as-paixoes-tristes-/4/36877


Só conheci realmente Espinosa no curso de graduação em Filosofia.
Antes, como era de meu costume, eu lia trechos aqui e ali da sua obra, me alimentava de citações esparsas, falava com outras pessoas na ânsia de que alguém soubesse mais do que eu sobre o assunto e assim se transformasse em meu mestre.
Eu buscava alguém disponível, um bom encontro, como o próprio Baruch diria; mas isso era apenas procrastinação.
Eu deveria ir à obra, ler a Ética, o Tratado Teológico Político, o Tratado sobre a Reforma do Entendimento, mas havia em mim uma ansiedade tão intensa que me paralisava. O que eu começava a estudar, a ler, me provocava o desejo do desenlace o que me cansava antes que eu concluísse dois terços da leitura.
Na época eu não entendia que se tratava de uma neurose, problemas ligados ao ambiente familiar com uma mãe vitima do que hoje se classifica de transtorno bipolar e que ficou sem diagnóstico por toda a vida, até que para tratar minha própria filha acabei descobrindo o nome da patologia que tinha me transtornado infância e adolescência.
Anos mais tarde, após a faculdade de Medicina e depois a de Filosofia, anos de Yoga e meditação e o auxílio de seis anos de terapia em Carl Rogers eu tinha resgatado pelo menos uma autonomia psicológica e intelectual que melhoraria pouco a pouco.
E talvez a coisa mais agradável deste processo de cura foi conseguir finalmente ler os pensadores que me fundamentaram a caminhada, que me mostraram que eu não estava só como supunha em minhas elucubrações e intuições e que, sim, mentes muito mais argutas e poderosas que a minha haviam chegado a conclusões semelhantes.
Espinosa foi um deles. Principalmente a Ética, escrita como ele dizia ao estilo de Descartes, com o mais cuidadoso rigor logico, na intenção de construir um documento irrefutável, estruturado e longe de ser um texto romântico acerca de crenças de um holandês sonhador.
Não. Espinosa quer com seus textos contrapor a visão analítica de Descartes, unir o que ele separou, mostrar a integridade do tecido do real, antecipando em quinhentos anos a moderna neuropsiquiatria.
Alma e corpo eram para ele não duas coisas separadas, mas uma única continuidade com densidades diferentes, interinfluenciáveis, como de fato hoje constatamos.
Bastariam os conhecimentos contemporâneos da neuroquímica das emoções para validar o que antes foi um exercício essencialmente racional e reflexivo.
Espinosa não foi apenas brilhante em suas colocações, mas assustadoramente avançado para sua época. A pobreza em que viveu e a simplicidade que marcaram sua existência mostram o poder de uma mente diferenciada.
Existe, entretanto, um debate ainda pendente.
O da falácia do livre arbítrio, este engenhoso conceito agostiniano que marcou e marca o comportamento e o pensamento humano.
Ainda hoje, com a força das evidencias que se acumulam sobre as razões biológicas das alterações de humor e de comportamento, supomos ter, sim, liberdade para decidir nossos atos, escolher opções ditas soberanas e que, na verdade, são motivadas por complexas reações bioquímicas que interagem com o meio ambiente, com as condições alimentares e respiratórias do indivíduo e até refletindo a intensidade de seus exercícios físicos.
Todas estas interações, caracteristicamente espinosanas, são as causas reais do pacifismo ou da agressividade, e até da crença ou do ceticismo. A construção do pensamento não é produto apenas da elaboração intelectual, mas sim do encontro entre estas reflexões mentais com as condições sociais e psicológicas, e espinosanamente falando, neuroquímicas, daquele que reflete.
E claro aí se insere, a meu ver, o desejo e a paixão.
No fenômeno do amor, manifestações hormonais e neuroquímicas são tão importantes quanto as chamadas projeções, transferências e contratransferências psicanalíticas.
A coragem, dita uma virtude; a determinação e a capacidade de concentração, ingenuamente supostas como produto de esforço e da vontade, pressupõem antes de tudo condições neurológicas capazes de permitir suas manifestações.
Não é fácil para um amante da música tornar-se um pianista. Ou para um ator aperfeiçoar sua performance. Demandará estudo e prática ininterruptas, por anos.
Porém existe a necessidade de, antes da prática, ter o indivíduo a potencialidade para praticar e a saúde neuroquímica para a perseverança.
Nenhuma mente que não seja minimamente saudável, nenhum cérebro minimamente competente pode realizar o mesmo que cérebros que trazem uma herança e um resultado biológico peculiar fadado ao sucesso. Esse determinismo biológico parece um retrocesso no conceito ético de responsabilidade humana pelos seus atos. Ledo engano. As pessoas continuam crescendo enquanto cometem seus enganos e equívocos, mas dentro da sua própria capacidade, dentro da sua escala própria de possibilidades.
As interações são dinâmicas e ininterruptas e ao erro, nas pessoas comuns, sucede a culpa e a vontade de corrigir, desde que estejamos falando de pessoas com amígdalas cerebrais normais. Pois naqueles em que este pequeno detalhe anatômico é minúsculo, quase imperceptível, não haverá possibilidade de caráter, culpa ou remorso pelo erro.




Estamos no campo da psicopatia, do assassino frio e sem possibilidade de reabilitação. Pessoas capazes de tanto mal que melhor seria se não tivessem nascido.
Portanto, antes de falarmos das virtudes do esforço, da importância do esclarecimento através da leitura e do estudo, lembremos que os mecanismos físicos por trás do comportamento influenciam decisivamente os afetos, como Espinosa chamava, e esses, por sua vez, moldam o comportamento ou a estratégia do uso do saber e do intelecto.
Do mesmo modo são influenciados nossos sentimentos e o modo como os administramos.
De há muito sabemos que não é a técnica ou a ciência que nos transforma em pessoas melhores, mas a qualidade de nossa saúde mental e de nossos afetos.
Espinosa falava em afetos ativos e passivos (paixões) que marcam a vida de grande parte da humanidade, dizendo que “Por afeto compreende-se as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída”. Ele supunha que todo encontro, todo evento de contato entre o ser e outro ser ou o mundo trazia um aspecto positivo ou negativo. Se eu recebo um beijo, trata-se de um encontro gerando um afeto positivo, que aumenta minha potência. Se tropeço e machuco meu pé em uma pedra, trata-se de um encontro de aspecto negativo, que diminui minha potência.
Talvez a sua falha, que seria, quem poderia imaginar, enriquecida e aperfeiçoada por Schopenhauer, tenha sido supor os encontros como algo sempre externo ao ser, quando, pela brilhante ideia schopenhaueriana de sublimação das demandas do corpo, percebemos graças ao filosofo alemão que também temos encontros internos entre os aspectos físico(químicos) e mental(pensamentos, emoções, desejos) da substancia contínua espinosana, nos quais as percepções mentais são apenas o reflexo de situações biológicas como o pesadelo daquele que dorme com fome, ou o sonho com rios e mar daquele que bebeu líquidos demais antes de dormir e sente durante o sono a bexiga pedindo atenção.
Mas estes são exemplos banais e mecânicos ainda.
Minha tese e de alguns neurocientistas é de que até o que chamamos opções não são mais do que comandos do corpo sobre a mente, que acontecem milésimos de segundos antes de alguém pensar em fazer alguma coisa, a clássica vontade.
Sempre se supôs que o ser desejava e depois ia em busca do desejo. Ao que parece o corpo deseja, lança um estímulo para a mente que então elabora um estado de desejo e um objeto deste desejo para aí sim, o corpo partir para a ação de ir em busca do desejado.
Pelo jeito não escolhemos nem quem amamos, mas amamos aqueles que nosso corpo e mente nos ordena desejar e amar.
Muita calma nessa hora. Não é reprimir-se perceber esse jogo de espelhos e pisar no freio da paixão para ponderar as consequências de um arroubo inesperado.
Porque os estados de paixão e desejo de natureza sexual e romântica passam, como uma virose.
Mesmo os medievais, como lembra Pondé[1] em “Amor para Corajosos” (Planeta, 2017) já chamavam a paixão de “maladie de pensée”, uma doença do pensar, ou melhor, simplesmente uma doença, “páthos”.
Foi seu livro que me motivou estas reflexões.
Continuaremos esta análise em outro ensaio.



[1] Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé (Recife, 1959) é um filósofo e escritor brasileiro, doutor em filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e com pós-doutorado pela Universidade de Tel Aviv, em Israel. Escreveu, dentre outras obras, o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia e Marketing existencial. É colunista da Folha de S. Paulo, escrevendo semanalmente no jornal.


domingo, 9 de junho de 2019

UM APELO AO BOM SENSO



“Não basta delirar e achar que está filosofando”
Luis Roberto Salinas Fortes,
professor de filosofia da USP,
citado por Mario Sergio Cortella em
“Filosofia, e nós com isso?”, 2019


“Diz o teólogo: Um filosofo é parecido com um cego 
procurando em um quarto escuro um gato preto que não está lá. 
E o Filósofo refuta: Sim, pode ser, mas com certeza um 
Teólogo teria achado esse gato”
Julian Huxley, biólogo e pensador britânico, em “O Homem no mundo Moderno”






Esta é a frase por excelência, que resume toda a minha angústia como ouvinte de discursos os mais absurdos, os mais fantasiosos, porém relatados com uma calma e suavidade que supõe serenidade na insensatez, equilíbrio onde existe apenas loucura.
"Não basta delirar e achar que está filosofando". Da mesma maneira "não basta delirar e achar que é um mistico". Todos temos que pensar com lucidez.Pensar com lucidez, com Luz, exige cuidado, método, embasamento. “São demais os perigos desta vida para quem tem paixão” dizia o poeta. A razão precisa fazer o balanceamento da equação, seja aonde for que se faça necessária. Mesmo na Arte, que não prescinde do coração e do instinto para manifestar a beleza, a razão ali está no método, na combinação das cores de um quadro, nos contornos de uma escultura ou na harmonia ou desarmonia dos sons de uma composição.
Portanto não me venham dizer que “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”. Isso, na verdade, é apenas o Caos e a preguiça de estabelecer padrões de pensamento, que não vão engessar o raciocínio e a percepção, mas construirão, isso sim, a habilidade de recolher com mais habilidade e eficácia as imagens, os sons e os estímulos com os quais a realidade nos presenteia todos os dias, horas e minutos.
Se eu conheço as notas musicais e sei tocar um instrumento, representarei a beleza das águas em um rio, ou das florestas a minha volta em uma linda sinfonia, como fez Beethoven ou o nosso saudoso Vila. Mas se não tenho este conhecimento, este domínio da técnica musical, mas domino a habilidade da pintura, serei capaz não só de tentar reproduzir o que contemplo e eternizar aquele momento, aquele por de sol, aquelas montanhas, aquela mulher, transformando-os, todos , em estímulo e inspiração para os que vierem a contemplar meu trabalho.
A “metamorfose” em movimento não é a oscilação de posições ao sabor das emoções momentâneas e fugidias. Um indivíduo equilibrado deve ter, sim, princípios que o guiem na caminhada da vida. Não se constrói uma personalidade apoiado na Doxa, a opinião descompromissada com o real, a filha do Achismo, mas sim com a ajuda da Episteme, o conhecimento fundamentado na experiencia ou na matemática, ou em ambos de preferência. Tudo deve ser testado e verificado.
Toda declaração deve ser averiguada quanto a sua confiabilidade. E se aquele que a fornece é um indivíduo equilibrado, terá não só presteza, mas também prazer em apresentar seus argumentos e suas evidências.
Só o tolo se ofende com a crítica e o questionamento. Só o tirano e o estúpido não podem ser contestados, sem que isso pareça uma agressão de quem pergunta.
O homem do conhecimento, o filosofo, o cientista, e mesmo o místico mostrará satisfação em ser indagado, estímulo em que o interroguem, expressando sua noção de que só é útil aquele que pode servir a alguém ou ao grupo que pertença. Lembrando a frase do “Venerável Beda”, o monge britânico do século VIII, também lembrado por Cortella em seu texto, “há três caminhos para o fracasso: não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina; não perguntar o que se ignora.”
E para ensinar é preciso saber, de modo seguro e fundamentado, aquilo que se sabe.
Ninguém, em sã consciência, passaria uma virose altamente mortal sabendo-se transmissor de tal mal. Da mesma maneira, nenhum ser humano de boa índole passaria adiante informações sem fundamentação, sem confiabilidade, reservando àqueles que deseja servir o conhecimento de excelência, aquele que resistiu ao teste dos séculos, sobre o qual repousam a cultura e o gênio de tantos homens e mulheres que trabalharam de modo obstinado para construí-lo.
Nenhum de nós, homens e mulheres de boa vontade, tem permissão para chamar o delírio, puro e simples, de conhecimento ou arte.
Temos o compromisso de analisar e aperfeiçoar o que foi recebido, melhorando nosso conhecimento a partir do ponto em que nossos ancestrais foram interrompidos, pela morte física ou pela incapacidade mental.
E isto vale para artistas, cientistas, filósofos e místicos.
Sem distinção.

domingo, 5 de maio de 2019

CONSIDERAÇÕES SOBRE SER RIDÍCULO


por Mario Sales







POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Fernando Pessoa , Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática. 1944 (imp. 1993). p. 312.



Falamos dos nossos embaraços como se fossem experiências raras e por isso, desconcertantes. Como se a maioria de nossos atos e falas fossem coerentes e adequadas.
Pensando bem, pelo menos no meu caso, estou sempre cometendo gafes e equívocos.
Sexagenário que sou, ainda gaguejo diante de certas falas, ainda me sinto inseguro diante de certos desafios. E estou sendo vago e impreciso por vergonha de dar detalhes sobre minha própria e ridícula vida.
Afinal, todos somos vítimas das nossas próprias fantasias, das nossas crenças pessoais sobre o quanto somos belos, atraentes, sábios, justos, elegantes. Levados por nossa vaidade e ausência de discernimento, temos idéias pessoais acerca de nós mesmos exageradamente positivas, e não entendemos como outros não conseguem, a não ser por má vontade ou inveja, ver o quanto somos dignos, espiritualizados, cultos e, além disso, possuidores de um corpo belo e sexualmente atraente.
Talvez não exista, entretanto, área do comportamento onde sejamos mais vítimas do autoengano do que no discurso, na fala. Se somos capazes de nos enganarmos ao contemplar o mundo e a nós mesmos, imagine quando narramos a descrição deste mesmo mundo a nossa volta.
Pensamos, quase sempre, que dissemos o que deveríamos ter dito, que fomos compreendidos da maneira como desejávamos ser entendidos.
Os diálogos de que participamos são para nós absolutamente satisfatórios, e nossos interlocutores, na nossa nada humilde concepção, entenderam com certeza aquilo que queríamos dizer ou insinuar.
Via de regra, só percebemos tardiamente, a posteriori, o quão ridículos e imprecisos fomos em nossas palavras e silêncios. E nesses raros momentos de iluminação e consciência, percebemos que o momento adequado para dizer o que se queria dizer já está no passado, perdido na linha do tempo. Não há como voltar, nem como corrigir. Ser ou parecer ridículo é um evento irreparável, fica como uma nódoa histórica preservada, exatamente na memória das pessoas as quais não desejaríamos que guardassem de nós quaisquer lembranças desagradáveis, desabonadoras.
Até agora, falei apenas das relações sociais.
Não me ative a área de alta periculosidade do afeto, dos sentimentos. E se, sem amar, somos tolos, amando somos ainda mais tolos e estabanados.
Toda nossa elegância e equilíbrio se desfazem, como areia no vento. Difícil é saber o que é mais doloroso: a frustração de não se conseguir falar ou calar o que se quer na presença do ser desejado ou o desgosto de se ter dito o que se disse, ou se deixou de dizer. E aí, o tempo segue seu rumo, e o momento passa, a janela se fecha, e mais uma decepção vai para nosso depósito de fracassos.
Fracassos que, como lembra Fernando Pessoa, só ocorrem conosco, pois aparentemente “todas as outras pessoas são príncipes” ou princesas, enquanto que a nós sobra o papel de bobos da corte oficiais e permanentes.
De tal forma que textos como esse, que se destinam a discutir a banalidade da existência e das nossas existências, são rejeitados como manifestações particulares e estranhas que não correspondem a vida da grande maioria dos leitores, já que “nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.”
E se houver sentimento envolvido, então, tudo piora, pois “poderão as mulheres não os terem amado, podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, (desorientado pelo sentimento) que tenho sido ridículo sem ter sido traído, como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza?”

domingo, 7 de abril de 2019

CABALA CRISTÃ E PODER


Por Mario Sales



Pico de La Mirandola

Passei o dia de ontem todo mergulhado na terceira releitura do curso de Cabala Hebraica que escrevi para a Grande Loja.
Depois de tantas idas e vindas e da cuidadosa análise crítica do Frater Raimundo Bispo, mesmo assim haviam trechos a corrigir, duplicidades a desfazer.
Considero este processo angustiante.  Minha esposa diz que sou bom de começos, mas ruim nos acabamentos finais. Esta finalização com correções e correções eternas me aborrece profundamente, se bem que é extremamente necessária.
De qualquer forma tive chance de ler por inteiro os textos das 18 aulas que sobraram do projeto inicial.
O que era um curso de Cabala transformou-se em um Curso sobre Esoterismo Ocidental, se bem que a rigor, a Cabala prosperou longe do Ocidente, em Safed, no Oriente médio, hoje no norte da Galileia.
O polo mais ocidental de intensificação dos estudos cabalísticos, no entanto, foi a Espanha, e nesse aspecto, de fato, a Cabala ganhou um prestigio no Ocidente extremamente importante, passando a estimular a imaginação dos místicos europeus, influenciando outras leituras, como a Cabala Cristã, na minha opinião uma salada de conceitos de Pico de la Mirandola, e marcando todo um período entre os séculos XIV e o XIX, talvez o período mais rico do esoterismo ocidental.
É a época de John Dee, de Francis Bacon, de Johan Reuchlin, Cornélius Agripa, Jacob Boheme, e outros.
Todos escritores profícuos, estabeleceram em seus textos a base de reflexões que atravessaram as épocas.
Mas tudo começa com o Discurso sobre a Dignidade do Homem, de Pico, que lança reflexões para a época, altamente perigosas, considerando a violência da inquisição e o meio conservador em que floresceram.

Existem boas traduções em português, mas as Edições 70 publicaram uma edição bilíngue que pode ser achada com facilidade, e reproduz de modo decente as ideias deste pensador italiano.
Pergunta ele “por qual razão seria o homem um grande milagre? Pelos seus sentidos agudos? Pelo poder da sua razão? Por ser soberano das criaturas inferiores? Por que os seres humanos deveriam ser mais admirados, por exemplo, que os anjos?”
Independente do aspecto esotérico, estes questionamentos provenientes de considerações místico religiosas vão ter sem dúvida impacto na construção do pensamento iluminista no século XVIII, principalmente pela valorização do indivíduo como consagração da criação.
Embora motivado pela visão dos judeus, o temor e tremor presente em todos os textos cabalísticos hebraicos não existe nessa abordagem. O que se nota é um movimento entusiasmado em direção ao Humanismo, o culto ao individualismo, talvez a base mais forte da Magia como fenômeno de época.
Como já considerei antes, em outros artigos, Magia não tem a ver com o culto ao Altíssimo, mas com poder. O mago visa em seus exercícios dominar a energia invisível da mesma forma que o mundo pós cartesiano pensava em dominar a natureza material selvagem.
Esta talvez seja a marca indelével do toque ocidental, a característica de libertar o homem do jugo de crenças religiosas que o esmagavam, dando-lhe alternativas de ação pessoal sobre o Universo da Criação.
Para os judeus, Cabalá era o aprofundamento do contato com o divino, que para eles era indescritível, a ponto de recomendarem não representar conceitos divinos com imagens terrestres ou mundanas, e não escreverem o nome do Altíssimo, optando pela forma D’us, que evitaria este erro sacrílego, na sua concepção.
Para a Cabala Cristã a palavra, ou os estudos linguísticos e numerológicos dos textos em hebraico eram menos importantes do que os efeitos sobre o mundo destas mesmas palavras. Modificar o que existia com som era uma possibilidade que incendiava a mente dos esoteristas ocidentais e daí a ideia, base da magia, de que o simples pronunciar de encantamentos geraria efeitos no chamado mundo ordinário, materializando objetos, transformando realidades.
Esta concepção, que nasce na Cabalá Prática, vai se transformar na espinha dorsal do ato mágico, falar para acontecer, dar ordens verbais aos seres de dimensões paralelas ou as coisas para que elas se comportem da maneira que o mago deseja.
Em suma, poder.
O Cabalá Judaico visava e ainda tem como objetivo conseguir a compreensão mais profunda de Deus. O Cabala Cristão visava a compreensão mais correta das forças invisíveis do Universo de maneira dominar sua aplicação à realidade.
Para o cabalista hebraico,o poder mágico que poderia advir das meditações cada vez mais elevadas espiritualmente, resultado das orações e combinações de letras nas meditações judaicas, era um efeito secundário da prática.
Para o Cabala Cristão, ao contrário, era o objetivo primário.
Essa talvez seja a grande diferença nem sempre explicitada entre uma e outra linha.
E não estabeleço aqui nenhuma escala de valor entre uma e outra, com dizer que uma é boa e outra ruim. São aspectos do comportamento humano, perspectivas em relação ao Universo, que refletem as duas faces de Adão.
O mesmo Adão que até hoje carrega a marca de ter comido o fruto da árvore do bem e do mal, que, aliás, em nenhuma parte do texto bíblico é identificado como uma maçã. O fruto é uma metáfora das consequências de saber, de abandonar a inocência, de aplicar a nossa consciência aos problemas cotidianos, em suma, os desdobramentos inevitáveis da chamada “liberdade de escolha”.
A inteligência humana, esta sim, é o superpoder do homem. E já dizia o tio do Homem Aranha: “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades.”
É, pois, nossa responsabilidade transformar o mundo para melhor ou para pior usando nosso conhecimento. E considerando o grande talento humano para cometer equívocos, ter em mente uma bússola ética me parece um cuidado prudente.
Ao associar o conhecimento ao contato mais íntimo com o Senhor do Universo, a Cabalá Judaica se valia dessa bússola espiritual que não diviso na cabala cristã, embora esta se chame cristã.
É uma visão pessoal, claro que sujeita a críticas, e estou aberto a ouvir outras posições. Mas já que ninguém lê este blog, acho difícil que tal debate prospere.
As pessoas em geral têm interesses mais mundanos a cuidar e essas reflexões podem parecer bizantinas por demais para absorver a atenção de muitos.
Que assim seja então. 
Paciência.

domingo, 24 de março de 2019

BUSCANDO A OBJETIVIDADE NO ESPIRITO E A SUBJETIVIDADE NO CORPO


Por Mario Sales




“Fico muito preocupado quando converso com um Frater ou uma sóror no qual diviso uma fascinação e um encantamento com assuntos esotéricos vagos e imprecisos. Principalmente se esse Frater ou esta sóror tem já alguns anos de Ordem. Na sua falta de clareza de objetivos, na falta, portanto, de objetividade, antecipo que fará pouco progresso como místico ou como esoterista. Não que, na minha opinião, o estudante rosacruz não deva se comportar como um enciclopedista e ter interesse em várias áreas do conhecimento esotérico. O que me preocupa é quando este conjunto de informações não parece trazer uma melhoria real a sua qualidade de vida, transformando-se em um peso a mais em sua existência, uma erudição inútil e pedante e não uma alavanca para desfazer os obstáculos que, eventualmente, todos enfrentamos.”

Trecho de “Precisamos de Mais Objetividade”, ensaio publicado em 13 de maio de 2011


"Da mesma maneira que o inconsciente influencia o consciente e subjetiviza o que parece extremamente objetivo, do mesmo modo nossos pensamentos e a educação psicoterapêutica ou o processo iniciático verdadeiro, como já discutimos antes, podem nos ajudar a objetivizar o subjetivo no inconsciente e modular e melhorar o desempenho de nosso subconsciente".

Trecho de “Objetivo x subjetivo, consciente x subconsciente”, ensaio publicado em 12 de novembro de 2011


Esse tema retorna a minha mente de forma insistente, como se eu nunca o tivesse considerado, como se algo ainda houvesse a ser escrito sobre ele.
Pelo trecho em epígrafe fica claro que não é assim. O que parece é que a questão não se resolve e, às vezes mesmo, parece ter se agravado com o passar do tempo.
Oito anos atrás, quando escrevi aquele ensaio, eu achava que pudesse encarar a questão das mentes desordenadas em relação aos seus dons psíquicos e intelectuais como algo pontual, inevitável em meio a heterogeneidade de tipos e personalidades-alma que habitam este planeta. Como se sabe, a única semelhança entre os seres humanos é serem todos diferentes uns dos outros. Uns mais capazes, mais lúcidos, outros não. Uns mais convictos e outros destruídos pela incerteza.
Hoje não posso dizer que um esforço na tentativa de pelo menos amenizar a questão, tenha sido colocado em prática.
Eu me refiro apenas à AMORC, não ao Martinismo nem a Maçonaria.
Tenho a impressão que uma ordem atemporal, universal, que recolheu conhecimentos de várias culturas e civilizações ao longo de séculos tem uma bagagem e uma densidade de informações que precisam de uma mente no mínimo disciplinada para serem digeridas, absorvidas, consolidadas dentro do espírito. São temas que demandam sensibilidade, sutileza de pensamento e compreensão de conceitos demasiado abstratos para serem tratados com superficialidade.
Por isso é importante, principalmente nas coisas do espírito e do conhecimento espiritual, uma dose extra de objetividade.
E quando se fala em objetividade no espírito implicitamente estamos falando de organização emocional, de sentimentos esclarecidos e de uma mente equilibrada.
Não se pode ter a serenidade necessária para esforços de compreensão que solicitam um esforço mental continuado se não estivermos pelo menos emocionalmente equilibrados. Pensar bem não é apenas consequência de uma formação intelectual demorada, mas de um processo de amadurecimento pessoal que contemple o indivíduo com virtudes como paciência, com as dificuldades e consigo; uma vida pessoal estável onde as necessidades afetivas estejam supridas, ou pelo menos elaboradas; e, finalmente, clareza de objetivos quanto ao que se pretende com o estudo de assuntos místicos.
AMORC não enfatiza este aspecto embora, “in passant”, se refira ao tema em algumas monografias.
Os livros deixados por Spencer Lewis focam mais nestas questões. Sempre comente neste espaço o último capítulo de “Princípios Rosacruzes para o Lar e para os Negócios” intitulado “O Esqueleto no Armário”, expressão norte americana para os problemas ocultos e não resolvidos.
Neste capítulo, Lewis lembra que antes de empregar as técnicas de visualização criativa e de desenvolver a habilidade de entrar em modo receptivo quanto às inspirações intuitivas, precisamos ter a nossa parte psicológica devidamente equilibrada, e isto não é uma questão mística, mas psicoterapêutica por vezes.
Sem esta condição previa, de dentro do possível, ter seus sentimentos pessoais, suas inseguranças, seus problemas de relacionamento com as pessoas e com a sociedade resolvidas, a prática da arte mística é duramente prejudicada. Muitas vezes, o “chamado” de que sempre falamos, quando um indivíduo sente interiormente que deve se associar a uma ordem esotérica tradicional como AMORC, não é na verdade um chamado autêntico, mas apenas a expressão de uma curiosidade mórbida acerca do estranho e do obscuro, curiosidade esta que logo se verá decepcionada pela falta de acontecimentos de caráter espetacular e circense, digamos assim, por longo tempo em sua afiliação.
Está em Mateus 13:20-23  O que foi semeado em pedregais é o que ouve a palavra, e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende; e o que foi semeado entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo, e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera; mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta.”
É fundamental ao místico ter “raiz em si mesmo”, não ser suscetível aos “cuidados deste mundo” além de ter serenidade para atravessar os períodos de “angústia e perseguição”.
É esse aspecto subjetivo da personalidade que destrava nosso cérebro e nos permite absorver adequadamente noções e informações que nos serão úteis no cotidiano.
A memória, nós médicos sabemos de há muito, é duramente afetada pela tensão, pela ansiedade.
Angústias e perseguições fazem parte da existência, e nossa capacidade de atravessar a tormenta com equilíbrio vem de nossa serenidade psicológica, não necessariamente de qualquer dom espiritual.
A mesma serenidade que se desenvolve pela meditação verdadeira, aquela que esvazia a mente de preocupações e que desfaz os fantasmas da dor e do fracasso. Esta é a parte subjetiva de nosso comportamento objetivo. É a gramática do inconsciente, como chamava Sigmund Freud, que devemos considerar com tanta seriedade quanto a nossa espiritualidade e fé em Deus.
Estas são as minhas reflexões de momento. Muito mais pode ser dito, mas deixo a critério de cada um e de suas meditações descobrir outros aspectos deste complexo relacionamento em nós do nosso corpo com o nosso espírito. Espero que sejam bem-sucedidos nesta busca deste Santo Cálice, que os rosacruzes chamam de “Paz Profunda”.