Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 21 de abril de 2017

FIGURA DIVINA, SIMBOLO ESOTÉRICO E ALQUIMICO APRESENTAÇÃO

 por Mario Sales



Este lindo símbolo será nosso objeto de estudo e divertimento nas próximas semanas. Pode ser encontrado no livro "Símbolos Secretos dos Rosacruzes séc.XVI e XVII", da Ed. Renes, publicado Ano R+C 3331, 1978 no calendário comum. 
Publicarei o ensaio em várias partes por causa do tamanho.
Ainda não sei bem o critério, mas subdividi a análise pelos sub símbolos que fazem parte do conjunto.
Semana que vem, publicarei a introdução.
Paz Profunda





sábado, 1 de abril de 2017

SÍMBOLOS, SIGNIFICADO E SIGNIFICANTE EM ESOTERISMO


por Mario Sales


Ferdinand de Saussure




Foi Ferdinand de Saussure, formulador das bases da Semiótica, salvo engano, que trouxe a luz o conceito de significante e significado, descrito como os dois lados da mesma moeda. O primeiro, uma imagem acústica, no campo da forma; o segundo, um conceito, no plano do conteúdo.
É também um de seus conceitos cardeais o conceito de Valor de um signo. Um signo só adquire valor na medida que não é (aspecto diferencial e negativo) um outro signo qualquer.
Como exemplo, ele cita o cão e o homem. A condição de mamífero não os distingue, mas a condição de quadrúpede sim, já que o homem é bípede. Podem haver outros quadrúpedes, mas nenhum será o Homem, que é bípede.
Um signo, para ter valor, portanto, deve ter qualidades próprias que o distingam de outros e impeça a confusão e o equívoco.




Wittgenstein


Estes foram os primórdios de uma área independente de pesquisa e saber, nomeada de Linguística, e que daria frutos importantes anos mais tarde com Wittgenstein ( Ludwig Joseph Johann Wittgenstein [ Viena 26 de abril 1889; Cambridge 29 de abril de 1951] ) e outros.
O que me chama mais atenção neste conceito saussiriano é a compreensão que lança sobre outras áreas de saber, entre elas a análise dos símbolos.
Ao interpretar símbolos muitas vezes temos a irresistível tendência de tentarmos interpretar o símbolo de uma tradição recorrendo aos conceitos de outra, como se um mesmo significante pudesse ter o mesmo significado em culturas diferentes.
E pode. Só que a interpretação não será prejudicada se e somente se soubermos com clareza em qual contexto estamos trabalhando, em qual terreno estamos pisando.
Este comentário tem a ver com o trabalho de leitura e interpretação, no qual estou empenhado, de um texto clássico dos rosacruzes, um de seus três manifestos primitivos, o Casamento Alquímico ou As Bodas Alquímicas de Cristian Rosenkreutz, juntamente com Sóror Lilian Hage, da Loja Santos, idealizadora deste esforço, sóror Odete Cardozo e Frater Marcos Rogério, ambos da loja São Paulo.
Alquimia nunca foi uma área de interesse para mim, confesso. Meu conhecimento neste campo sempre foi e ainda é rudimentar. No entanto com sinceridade e paciência, e com a ajuda de alguém que domine bem aquele campo, tudo pode ser compreendido e qualquer conceito torna-se claro aos nossos olhos.
Assim como foi em Teosofia nos últimos 4 anos, com a ajuda e a paciência de Flavio, Sóror Lilian insistiu para que fizéssemos a leitura, e foi agregando valor ao trabalho, trazendo para nossos encontros via Skype das noites de terça feira, dois outros rosacruzes, também palestrantes da Ordem e apreciadores deste mesmo texto.
Usamos a publicação de capa amarela da Biblioteca Rosacruz com o título “A Trilogia Rosacruz”, organizada pelo saudoso Grande Mestre Charles Vega Parucker, de 1998.
Mesmo assim, durante nossas leituras, procuramos apoio interpretativo nos textos de Jack Courtis, disponíveis no site da Confraternidade Rosa Cruz, CRC, organização fundada por nosso antigo imperator, Gary Lewis. Não existe que eu saiba, texto em português de algum membro de AMORC, que trate da interpretação deste texto.
A narrativa é dividida, como é de hábito, em sete dias, e estamos terminando a releitura do terceiro, com nossos novos companheiros de esforço.
Foi ali que encontramos um trecho que me levou a essas reflexões de hoje.
Como em outras passagens, Courtis, na tentativa de ser didático, o que é bom, recorre a conceitos cabalísticos para explicar passagens do texto, um documento clássico do movimento alquímico.
Aquilo me causou desconforto epistêmico e hermenêutico.
Hermenêutico porque a interpretação pode ser contaminada se usamos, como vimos acima conceitos de tradições diferentes como se fossem o mesmo.
E epistêmico porque nada nos garante que estamos sendo fiéis ao significado daquele símbolo ao tentar compreendê-lo através de outro viés.
A abordagem comparativa não passa de um vício interpretativo. Temos, todos nós, forte tendência a querer entender um conceito que não compreendemos através de comparações com outros que compreendemos.





O LEÃO, COMO SÍMBOLO

Tanto é possível que, ao usar conceitos de outra tradição para explicar a Alquimia, eu torne mais claro aquilo que eu quero explicar, quanto posso estar desvirtuando totalmente o conceito a ser esclarecido, já que tradições diferentes usam significados e significantes diversos.
Pior do que isso: podem usar significantes iguais com significados diferentes como é o caso das figuras de animais, recorrentes em textos esotéricos.
É o caso do Leão.
A imagem do Leão é um signo recorrente. Aparece desde o Velho Testamento, nas visões de Ezequiel, aonde surge como uma das quatro faces dos Anjos de quatro asas que sustentam o carro do Altíssimo e ainda, na mesma Bíblia, no novo testamento, como símbolo clássico de um dos evangelistas. Aparece também nos textos alquímicos, inclusive aqui no texto das Bodas.



As quatro cabeças dos Querubins de Ezequiel: Leão, Homem, Boi e Águia




Se para Ezequiel este significante (Leão) não tem um significado claro, mas um caráter profético, no novo testamento o mesmo Leão será o representante do evangelista Marcos. (O Homem simbolizará sempre Mateus; Lucas será simbolizado pelo carneiro e João pela Águia).
No trecho em estudo, no terceiro dia, lemos o seguinte:
“O jardim, que ultimamente estava cheio, logo se esvaziou; de modo que, além dos soldados, não havia mais ninguém. Quando tudo terminou, e o silêncio foi mantido por cinco minutos, veio um belo unicórnio branco como a neve com um colar dourado (tendo nele inscritas certas letras) sobre seu pescoço.
No mesmo lugar, inclinou-se sobre as duas patas dianteiras, como se demonstrasse honra ao LEÃO, que estava tão imóvel sobre a fonte, que eu o tomei por pedra ou bronze.
O LEÃO imediatamente tomou a espada nua sobre sua pata, e a quebrou no meio, em dois pedaços e afundou-os na fonte. 
Depois disso, o LEÃO rugiu muito tempo, até que uma pomba branca trouxe um ramo de oliveira em seu bico, que o LEÃO devorou ​​em um instante, e assim foi acalmado.
E assim o unicórnio voltou ao seu lugar com alegria. ”
Como interpretar essa passagem?
Jack Courtis explica o simbolismo acima com esse comentário:

“Observe o silêncio. Por que é enfatizado? O que é isso? Antes do "início", havia apenas um silêncio como esse. Significa uma mudança significativa. Nos Mistérios, tal silêncio é uma pausa no ritmo cósmico. Precisamos ouvir o silêncio. E quanto aos animais?
O unicórnio é o portador da iniciação. Sua brancura se refere ao nosso aspecto intuitivo que, por sua vez, é o próprio sujeito do processo iniciático.
O LEÃO é um símbolo do sol, Tiferet e, portanto, do Filho. O fato de possuir uma espada nos diz que o Filho está no caminho da espada, Zain, na Árvore da Vida, e nossa faculdade de insight e discriminação correta.
Ao quebrar a espada, o leão demonstra que o caminho para a Grande Mãe está agora claro. O candidato para iniciação pode agora prosseguir. Devemos observar que a espada quebrada afundou na fonte, o Terror no Limiar voltou para as profundezas da nossa consciência, não é mais um perigo. A pomba branca como um símbolo de nosso veículo de consciência, espírito, traz o ramo de oliveira como uma mensagem de um nível superior.
Ao absorver a mensagem, o aspecto de LEÃO (fogo) de nossa natureza torna-se agora silencioso.
Tendo feito seu trabalho de iniciação, o unicórnio sai. ”


Bom, talvez nesse trecho não se veja o recurso à tradição hebraica de forma tão marcante, mas em alguns pontos já se nota a inevitável correlação entre símbolos alquímicos e cabalísticos.
Aqui temos vários símbolos a considerar se levarmos em conta apenas o que o texto nos oferece.
No Jardim referido, temos:
a. A Fonte
b. O LEÃO
c. A espada quebrada sob suas patas
d. O Unicórnio
e. A Pomba
f. O ramo de Oliveira em seu bico
Seis elementos simbólicos que devem ser trabalhados e identificados com clareza para que a imagem faça sentido.
Se, esta é minha opinião, não nos ativermos ao significado alquímico desses seis símbolos, pode ser que cometamos uma interpretação inadequada.



Os quatro tipos de leão na heráldica: fonte, "Os Símbolos Místicos",Brenda Mallon, Ed. Larousse

Na explicação de Courtis, ele nos fala de pelo menos dois significados para O LEÃO: símbolo do SOL, astro rei, assim como O LEÃO é o “Rei da floresta e dos animais”; e depois O LEÃO como símbolo do aspecto FOGO.
Em Alquimia, existe ainda um terceiro significado para este significante: O LEÃO VERDE, que devora o SOL. Este é referido como o íntimo do alquimista, o processo do VITRIOL.[1]





Já o Livro dos Símbolos da Ed Taschen, diz:
O LEÃO VERDE, que devora o SOL evoca a forma como as energias mercuriais furtivas da psique instintiva podem sobrepor-se até ao calor escaldante do intelecto, sujeitando a mente a terrores violentos de escuridão e de decadência. ”[2]
Já no livro de David Fontana “A Linguagem dos Símbolos” da Publifolha, encontramos o seguinte trecho na página:
O LEÃO VERDE, que devora o SOL era um poderoso símbolo da força vital que deveria ser destilada da matéria bruta. No nível físico representava o VITRÍOLO (ácido sulfúrico) e o ácido nítrico, fortes o suficiente para dissolver até mesmo o Ouro, (simbolizado pelo SOL).
O que deduzimos destes trechos?
Que a frase “O LEÃO representa...” deveria ser substituída por “O LEÃO pode também representar...” de forma a tornar o Significante flexível a muitos Significados, a Forma, aceitando vários conteúdos possíveis.
Fica evidente então que, no caso dos símbolos, Forma e Conteúdo formam pares variáveis, de acordo com o contexto cultural religioso (O LEÃO como símbolo do Evangelista Cristão Marcos, ou como símbolo do Cristo, O LEÃO DE JUDÁ, etc) ou esotérico (as várias e diferentes apresentações do LEÃO na Alquimia, seja ele um LEÃO apenas ou o chamado LEÃO VERDE que devora O SOL)



E o que dizer da espada?; mais, da espada quebrada?
A Fonte como símbolo de nossa consciência, o Unicornio como símbolo da Magia e da Iniciação, a pomba como símbolo do mensageiro de esferas superiores de nosso ser, nossa porção do Espírito Santo em nós e o Ramo de Oliveira como uma mensagem para o Leão, aí travestido com seu quarto significado, o de representante de nosso lado material e instintivo, compreende-se bem no contexto alquímico.
A espada, entretanto, se perde.
Falar que “o Leão possuir a espada é sinal de que o Filho está no caminho da espada” deixa mais dúvidas que certezas.
Qual é este “caminho da espada”?
Em todos os livros que pude pesquisar a Espada é símbolo de força, autoridade ou justiça. Quebrá-la não é um bom sinal. Significa que uma dessas qualidades foi perdida.
Em nenhum texto que consultei encontrei qualquer referência 
ao comentário feito por Jack Courtis de que “ao quebrar a espada, O Leão demonstra que o caminho para a Grande Mãe está agora claro. O candidato para iniciação pode agora prosseguir. ”
Ao invés disso, em um livro que adquiri recentemente, “Meditações sobre o Tratado da Pedra Filosofal de Lambspring”, de Patrick Paul, publicado pela Ed. Polar em dois volumes, lemos na página 83 no final, continuando no alto da 84, do primeiro volume, que “essa força de separação, de racionalização, significa(ndo) uma possibilidade de poder sobre as atitudes negativas. Além disso, a razão, um pouco como a aposta de Pascal (veja ao final), pode nos dirigir para a intuição de uma realidade que nos escapa, mais espiritual. Nesse sentido, aliás, a espada é o símbolo da guerra santa, do combate contra a ignorância para alcançar a pura luz (cavalaria). Ela é o Verbo Espada, o tetragrama divino Iod He Vav He, ou ainda a arma do Arcanjo Miguel em seu combate para vencer o Dragão. ”
A Espada é, pois, símbolo de Força, de Ação, de Intervenção Justa e sua destruição e quebra em duas partes nunca significou algo positivo, como insinua Jack Courtis em seu comentário (relembro o episódio da mitologia britânica, da quebra de Excalibur na disputa entre Artur e Lacelot, que implicou em grave arrependimento por parte do Rei, o que comoveu a Dama do Lago que recompôs a Espada Mágica e a devolveu ao Rei).
Neste particular, lembro que o comentador recorreu, na sua explicação, à um dos caminhos da Árvore da Vida, Zain, falando da simbologia desta sefira como Intuição e Discriminação correta, como explicação dessa espada alquímica quebrada. 
O caminho representado por Zayn, entre a sefira Binah e Tiferet é chamado de “caminho da divina justiça”, justiça, divina ou não, que pode ser muito bem representada pela espada, mas no ir a Cabala e voltar para a Alquimia, quebrar a espada continua sendo uma imagem que propõe algo ruim e não um processo de libertação do medo.




Ora, a partir dessas considerações, fica mais claro o risco de tentar traduzir um esquema simbólico de um contexto através do arcabouço simbólico de outro.
Neste último texto, como disse, a intervenção da Cabala na Alquimia foi discreta.
Olhemos, no entanto o trecho abaixo, da página 194, penúltimo parágrafo da edição citada de "A Trilogia dos Rosacruzes":

“Quando o julgamento estava quase terminando, não restava mais ninguém, a não ser nós, pobres cães acorrentados dois a dois, postos de lado. Por fim, um dos capitães deu um passo adiante e disse: - Senhora, se apraz a Vossa Graça, peço que esses pobres homens que reconheceram seu mal-entendido, também sejam colocados na balança, sem que eles tenham nenhum perigo de pena, para vermos se qualquer coisa que seja certa pode ser encontrada entre eles ". Minha primeira reação foi de profunda aflição. Em meu calvário, eu havia tido ao menos o consolador pensamento de que não seria obrigado a me expor à vergonha e de que não me arriscaria a ser expulso da balança a chicotadas; e eu estava convencido de que muitos prisioneiros teriam agora preferido passar dez noites ao nosso lado no salão. ”

Esta é a interpretação de Jack Courtis do site da Confraternidade Rosa Cruz sobre este trecho de As Bodas Alquímicas:

"Um julgamento diferente deve agora acontecer. CRC será julgado, mas sem penalidade por falha. É porque ele já foi bem-sucedido? Se sim, qual foi o verdadeiro teste?
Talvez uma pista esteja na referência a ficar 10 noites no hall. Há 10 sefirot na Árvore da Vida. Se estamos trabalhando validamente com uma sefira sem saber, podemos simbolizar este trabalho pela imagem de passar uma noite no salão. Depois de 10 noites, trabalhamos com toda a Árvore e então podemos ser julgados sem risco de punição, se falharmos. Isso porque, nesta fase, o fracasso não tem uma qualidade moral. Tal fracasso não se baseia em motivos malignos e alegações falsas."

Neste trecho, sublinhado por mim, a intervenção da simbologia cabalística é intensa. É quase como se não houvesse uma linguagem ou um discurso simbólico específico alquímico para explicar um texto da Alquimia.
Era a isto que eu me referia.
Essas dez noites no salão terão algo a ver necessariamente com as dez sefirot da Árvore da Vida?
Existirá outra explicação, especificamente alquímica, possível de ser desenvolvida?
Esta é a questão.
Antes de encerrar estas reflexões gostaria de sugerir a todos um vídeo do cientista Richard Feyman que me inspirou nesta angustia epistemológica, disponível no YouTube no endereço https://www.youtube.com/watch?v=geMcbvYcVCs
Nele, Feyman, a partir de uma simples pergunta sobre ação dos ímãs, tece uma erudita reflexão sobre a natureza das perguntas e a possibilidade das respostas a partir da compreensão do interlocutor, discutindo, além disso, aspectos da didática e afirmando que, às vezes, ser didático é trair a verdade na busca pelo entendimento.


[1] http://www.gnose.org.br/leao_verde/
[2]Livro dos Símbolos da Ed Taschen, Pág 270

A aposta de Pacal
se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;
se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;
se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;
se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.

sexta-feira, 24 de março de 2017

A VIDA COMO ARTE E PRAZER


Por Mario Sales, FRC, SI




Talvez a parte mais importante da fala de Luiz Felipe Pondé no vídeo aonde discorre sobre a Clínica do Trágico, vídeo disponível no YouTube e aqui em baixo no blog, seja quando, ao final, já nas perguntas e respostas, quando indagado sobre o papel do Bem e do Mal no contexto da frase de Caetano de que “o mal é bom e o Bem, cruel” responde dizendo que na visão trágica do mundo não existe lugar para trabalhar estas categorias, mas sim, sintetiza, considerar que “ a crueldade do destino separa os adultos das crianças, ou melhor, os retardados dos maduros” no sentido psicológico.
Dito de outra forma, esperar pelo melhor e preparar-se para o pior, já que coisas ruins acontecem, como uma frequência indesejável.
Porque comento isso? Porque muitas vezes, vejo uma tentativa infantil de nivelar ao mesmo plano a sabedoria dos iluminados com a complacência dos inexperientes.
Existe no campo religioso e mesmo no campo místico, uma perigosa auto hipocrisia, que se baseia em repetir para si mesmo que “tudo vai dar certo”, aconteça o que acontecer.
E não é bem assim que as coisas são.
Um dos filósofos públicos, Leandro Karnal, tem uma piada sobre o assunto. Diz ele, mais ou menos, que atirar-se do 10º andar pensando firmemente “eu vou voar”, eu vou voar”, não criará asas em tempo suficiente para evitar a morte certa no impacto com o solo lá embaixo.





E é este tipo de discurso fantasioso, imaturo, infantil, que vemos muitas vezes retratado como o discurso correto do místico que crê ou que tem fé.
Bom senso, prudência e caldo de galinha fazem bem mesmo para os santos.
Convém que alguém que esteja entrando no Universo Místico, entre sem sapatos e sem ruído, devagar, pé ante pé.
Como eu sempre repito, misticismo não é religião, embora eu compreenda que seja sutil e difícil perceber esta diferença e acabemos misturando categorias de ambas, muitas vezes derramando no ambiente místico valores eminentemente religiosos e dogmáticos.
Quem tem fé na fé, apenas, deve pagar um preço alto de natureza física, por isso.
Pois terá fé que tendo apenas fé todas as coisas que lhe causam atribulação moral, material e espiritual serão superadas.
A fé pela fé gera paralisia, conformismo, um aguardar passivo da intervenção divina para fazer por nós aquilo que é nossa obrigação.
 Ao contrário do místico que age todo o tempo, às vezes sem saber porque, mas obedece a comandos silenciosos e se desloca na sociedade guiado por forças invisíveis que ele chama “a vontade de Deus”, o homem religioso transfere toda a responsabilidade de suas ações para o Altíssimo e aguarda, quieto, que Ele resolva seus problemas por ele.



Místicos tem uma parceria com o Divino, é fato, mas não abdicam de seu papel nesta peça em que atuam, pois sabem que suas falas devem ser ditas para que o espetáculo continue. E o show tem que continuar.
Ninguém iria assistir uma peça de teatro em que os atores ficassem, no centro do palco, mudos, e pior do que isso, imóveis. Seria um fracasso de crítica e de público.
Todos têm seus papéis. E devem desempenhá-los com empenho, com som e fúria.
A diferença entre místicos e filósofos trágicos é a crença na existência de sentido para tudo que fazemos como atores deste drama cósmico.
Filósofos trágicos acham que não existe sentido algum; místicos sabem que o sentido da vida é a vida em si, como fenômeno dinâmico de aperfeiçoamento pessoal e espiritual.
E, queiramos ou não, envelheceremos para nos tornar melhores como pessoas do que éramos na infância.
E nosso equilíbrio mental será preservado se não estabelecermos metas irrealizáveis, se formos prudentes, se mantivermos nossa cabeça aberta, mas como dizia Carl Sagan, não tão abertas que nosso cérebro caia de dentro dela.

O problema não é Maya, a Ilusão, mas acreditar que ela seja real, da mesma forma que não há nada demais em vivenciar a aventura e o espetáculo a nossa frente, por hora e meia, desde que saibamos que trata-se apenas de arte e deleite, cultura e prazer.

segunda-feira, 13 de março de 2017

OS PLANOS DA ÁRVORE DA VIDA E O ANTIGO PROJETOR DE CINEMA

Por Mario Sales FRC, SI






Um dos conceitos mais abstratos presente na estrutura simbólica da Árvore da Vida no Cabalá é a noção de mundos e suas características.
Entender o primeiro e mais alto mundo, Atziluth, com sua condição não-não (não temporal e não espacial) é relativamente fácil.
Considerado um plano altamente metafísico, no plano das idéias, não necessitaria nem de uma nem de outra condição.
Da mesma forma, no plano de Assiah, (aonde está Malkuth, O Reino, aonde estamos nós, na Terra), também é relativamente simples, já que aqui temos uma combinação sim-sim (sim para espaço e para tempo), o que intelectualmente não oferece nenhum problema em ser compreendido.
O nó górdio está nos planos intermediários, Briah e Yetzirah, o primeiro Temporal e Não Espacial, e o segundo Não Temporal, mas Espacial.
Durante a conversa do Grupo de Estudos Cabalísticos, aonde estamos encerrando a leitura do Sepher Yetzirah, por alguma razão que já não me recordo, caímos neste debate.
Recorri a duas imagens para digerir a questão e dar-lhes contornos mais palpáveis.
Primeiro, comparei o Elemento Tempo ao conceito de Movimento.
Tempo, neste caso, seria o movimento dos instantes, o devir como diz a filosofia, ou as durações, como chama Henry Bérgson, se bem que no conceito deste filosofo francês, não existem instantes, mas um todo indivisível e impossível de ser medido, um tecido único, ao contrário do tempo dos segundos, minutos e horas.
De qualquer maneira, tempo é o mesmo que movimento. E é assim que a vida começa o que chamamos existência.
A comparação mais fácil é com o projetor de cinema antigo, ao qual novamente recorro.


Nos antigos projetores , o filme só podia ser projetado se corresse, ou melhor, se movimentasse, em grande velocidade, na frente da lâmpada do projetor.
Mesmo em havendo filme no projetor, duas condições deveriam ser preenchidas para que o filme fosse projetado: primeiro, a lâmpada do projetor, a Luz, deveria ser acesa e segundo, o filme deveria movimentar-se diante dela.
São essas duas coisas que fazem o milagre do cinema, a sensação de que a nossa frente, uma realidade se descortina, com sensação de profundidade, com a vivencia de sentimentos, provocando em nós, espectadores passivos do que ocorre emoções fortes de amor, ódio, medo ou carinho.
Como já disse, é de Richard Bach esta idéia de reproduzir as noções da Doutrina Vedântica Hinduísta, de Maya, comparando-a com uma sala de cinema.
Nossa vida é Ilusão, diz o Hinduísmo. Como um filme, ele acontece com a única finalidade de desencadear em nós aprendizado emocional. Mestre é aquele que percebendo isso, torna-se um observador mais atento e não se confunde com o que ocorre na tela de projeção, cônscio todo o tempo de que trata-se de uma ilusão, mesmo que concedamos temporariamente em aceita-la como real, pelo menos pelo tempo de uma encarnação ou de uma sessão de cinema.
Portanto, partindo do princípio de que “a Luz é um atributo do Ser”, o projetor lança sua luz através do filme reservado para aquela sessão, para aquela encarnação, e a fantasia, a ilusão, se inicia, para nosso aprendizado e diversão.
Voltando aos mundos da Árvore da Vida, usando o modelo do projetor, o espaço sem tempo seria o momento em que a extensão com o filme, (espaço) está posta no projetor, mas o mesmo ainda não foi ligado. No nosso recurso comparativo, é o momento antes do tempo e do espaço estarem atuando juntos.
Em que momento existe tempo (movimento do filme) e espaço (o filme em si no projetor)? Segundo a árvore, em Assiah, aonde está Malkuth.
E aonde temos espaço sem tempo (filme parado ainda sem se movimentar)? Em Yetzirah, antes de Assiah.
Perfeito até aqui.
Nosso modelo começa a fazer água quando tentamos usá-lo para descrever o Tempo sem espaço, o Movimento sem filme no projetor.
E isto acontece porque consideramos Espaço como referindo-se sempre a fita de acetato do filme, já no rolo, e Tempo sempre como o Movimento desta fita.
Foi aqui que percebi que o Espaço e o Tempo de Yetzirah não são os mesmos de Briah.
Temos que sair do projetor para entender isso.
Em Briah tudo está sendo idealizado para ser projetado depois em Assiah, nossa tela de projeção da vida, a Maya de todos nós.
Portanto, o Tempo de Briah é Movimento na cabeça do Diretor, por isso não necessita de Espaço, embora depois vá se materializar na fita de acetato daquelas eras pré cinema digital. Existe Movimento sim, mas o movimento das idéias e das imagens que o Diretor elabora e que depois vai descrever para seus atores, recorrendo até a um story board (esboço sequencial) para que eles vejam o que ele vê em sua própria cabeça.
Só que realmente não há ainda o filme material, se bem que as ideias já se movimentam (Tempo).


Story board de uma cena mostrando um casal que vai ao cinema quadro a quadro


Em Briah existe Movimento, mas apenas mental, sem fita de acetato, sem projetor, ainda. Tempo, pois, sem espaço.

O diretor James Cameron ao lado de um dos personagens de Avatar


Acho que assim estes conceitos extremamente abstratos ganham uma clareza didática maior.

terça-feira, 7 de março de 2017

ESTÁTUAS DE SAL


Por Mario Sales FRC,SI





Estamos começando outra leitura teosófica, “ISIS SEM VÉU”. Como sempre conto com a supervisão e paciência de Flavio e a companhia de Hackmey.
E quando falo em “paciência de Flavio” é porque minha verve analítica, às vezes, deve ser extremamente desconfortável a terceiros e só os amigos com almas elevadas para tolerar minhas interrupções constantes para criticar a pobre Blavatsky.
Minha justificativa com vestes de desculpa é a minha formação e meu signo. Sou virginiano na astrologia solar e portanto, um critico inveterado; e minha segunda formação é a filosófica, aonde a crítica (no sentido de analise) é parte constante do cotidiano.
Blavatsky, para contextualizar a situação, é objeto de admiração de Flavio. Eu havia lido a Doutrina Secreta quando adolescente e quando quis relê-la e consolidar os conceitos básicos da Teosofia, a maioria dos quais já não lembrava o significado, só o consegui graças a Flavio e sua paciência.
Chama a atenção no texto, como já disse várias vezes aqui, no entanto, a dificuldade de interpretação, a constante mudança de ritmo do texto, e para nosso sofrimento, a adulteração que inocentemente estudamos na versão da Ed. Pensamento, sem saber que se tratava de um apêndice espúrio, introduzido postumamente por Anie Besant e Charles Leadbeater, para mim um mero charlatão, versão essa denunciada como falsa e em desacordo com a sede da Sociedade Teosófica em Adyar.
Agora, depois de degustarmos a tradução autorizada do site www.FilosofiaEsoterica.com.br, site que eu recomendo a qualquer interessado no estudo de princípios teosóficos, de Carlos Cardoso Aveline, (jornalista e teósofo brasileiro que vive em Portugal, empenhado e profícuo), interrompemos nossa leitura, a segunda, por que a tradução cessou na página 220.
Uma vez que já burilamos os conceitos básicos, os sete níveis do corpo, os sete planos de manifestação dos planetas, os Dhyan Choan, as raças e sub-raças, etc., resolvemos começar uma nova leitura, segundo Flavio mais fácil que a anterior.
E lá, na primeira página, já vemos referências a valores que eu parei para analisar.



Confesso: de certa forma é divertido ver o desconforto de meu querido amigo quando eu começo uma saraivada de críticas a visão conservadora de Helena Petrovna sobre tudo, mulher que acima de tudo ele respeita e admira; mas não faço estes comentários para colocá-lo em situação de desconforto. Apenas elaboro reflexões sem o compromisso de um afeto como o que ele nutre por Blavatsky, afeto este que, às vezes, pode nos tornar condescendentes com os defeitos do ser amado.
Por outro lado, minhas posições fazem parte da minha maneira peculiar de estudar estes textos e não tem nenhum peso ou importância maior que isso, visto que obras como a de Blavatsky tem um lugar definido na historia do Esoterismo moderno e contemporâneo.
Tais obras, pelo peso do seu legado e por sua influência, estão expostas a interpretação e critica de seus leitores desde sua publicação em 1888, e isto só serve para consolidar sua importância.
Um arcabouço teórico deve ser exposto ao crivo de várias mentes e ao longo dos anos, demonstrará sua consistência e solidez se resistir a críticas de toda espécie. Este é o método científico em funcionamento, como o definia um dos príncipes da epistemologia, Sir Karl Poper.

Independente disso, concordemos ou não com suas afirmações, devemos admitir que HPB deixou uma marca indelével na literatura deste campo de saber, e minhas críticas não tem nenhuma capacidade, por menor que seja, de abalar um milímetro da importância de seu trabalho.
Minhas análises, como eu disse, visam apenas melhorar a compreensão do que está sendo lido, do contexto histórico em que foi redigido o texto e mesmo as peculiaridades daquela que o escreveu.
É o caso do trecho que encontramos na página 102 da edição da Ed.Pensamento onde se lê:
“Essa crença na preexistência de uma raça muito mais espiritual do que aquela a que pertencemos atualmente pode ser reconstituída desde as mais antigas tradições de todos os povos. No antigo manuscrito qíxua[1], publicado por Brasseur de Bourbourg - o Popol Vuh[2] -, os primeiros homens figuravam como uma raça dotada de razão e de fala, que possuía uma visão ilimitada e que conhecia de imediato todas as coisas. ”...
E mais a frente continua:
“Platão descreve admiravelmente no Fedro o estado anterior do homem, e aquele ao qual ele há de retornar: antes e depois da “perda das asas”; quando “ele vivia entre os deuses”, e ele mesmo era um deus no mundo aéreo”.
E qual é a minha crítica? Olhar como a mulher de Ló[3] para o passado vai nos transformar em estátuas de sal.
Há anos ouço, aí sim com desconforto, a narrativa de que “no passado éramos melhores e mais puros”. Que houve uma “queda” espiritual e que o homem presente é de natureza espiritual inferior ao homem deste remoto passado.
Tudo isso me incomoda como o choro de carpideiras gregas. E não faz sentido, de acordo com meus parâmetros filosóficos.
Pois como místico, sei que a evolução caminha sempre para a frente. Sei que a evolução não dá saltos. E que gradualmente uma raça humana melhor e mais elaborada está sendo construída em meio a um universo de contrastes, dual em essência e trino em manifestação.
Portanto o passado não pode ter sido melhor que o presente, tanto que o passado passou, extinguiu-se na poeira do tempo.
E no calor do debate que se instalou alguém lembrou Atlântida como referência deste avanço alcançado no passado, ao contrário de nossas limitações técnicas atuais.
Contra argumentei que falar de Atlântida em seus dias finais ou de maior glória e compará-la com nosso momento histórico é uma falácia, já que o desenvolvimento de uma sociedade, como o de uma espécie biológica senciente é gradual, ou por outra, nem um ser humano nasce pronto, nem uma sociedade emerge já em êxtase tecnológico e filosófico.
Sabe-se quase nada de Atlântida mas fora o romantismo inerente às interpretações correntes, é coerente supor que antes de ser um modelo de civilização Atlântida conheceu todas as fases de desenvolvimento de uma sociedade, ou dito de outra forma, antes de serem semi deuses os Atlantianos devem ter sido tão bárbaros como nós mesmos já fomos. Não é possível pois comparar duas sociedades diferentes em fases de evolução também diferentes, isto sem considerar que a forma de evoluir de uma sociedade não segue os mesmos protocolos antropológicos, nem os mesmos ritmos.
Estamos longe de um grau de desenvolvimento que ao menos se equipare com as descrições, muitas vezes exacerbadas, além de inexplicáveis na ausência completa de textos ou documentação que as sustente, da realidade cotidiana da Atlântida, narrada como centro de uma sociedade intergaláctica.
Para não perder meu título de chato, coloquei estes pontos de vista para os meus pacientes amigos, que me escutam com uma tolerância rosacruciana enquanto meu entusiasmo provoca digressões que nos afastam por alguns minutos da leitura.
Acho pertinente, no entanto, evidenciar que esoteristas trabalham sobre crenças e não sobre fatos, na maioria de seus esforços de exegese e hermenêutica.
Cremos que estamos falando de fatos, quando na verdade discutimos relatos não comprovados.
Cremos nas afirmações que antigamente as coisas eram melhores e agora são ruins.
Cremos enfim que fomos melhores e que caímos de uma condição divina para uma condição demoníaca, que perdemos nossas asas, como disse textualmente Blavatsky no início de “Isis sem Véu”.
Nisso, entretanto, eu não creio. Porque se as coisas eram tão boas e maravilhosas estaríamos decerto além daquela fase, mais avançados, mais elaborados.
E não estamos.
A Criação continua a experimentar combinações em busca da manifestação humana mais equilibrada, mais estável, mais amadurecida.
Pureza não significa amadurecimento e de repente faltou-nos exatamente isto, maturidade espiritual para lidar com nosso momento dourado, talvez dourado apenas por causa de nossa inocência e inexperiência e não por causa de nosso avanço.
Avanço verdadeiro é aquele consolidado pela experimentação e aperfeiçoamento, do tipo que não se desfaz com a primeira, a segunda ou a terceira crise.
Civilização é algo muito delicado e sob constante ameaça. Se fomos, como narram as lendas, incapazes de sustentar o avanço que atingimos, não éramos tão avançados assim. E ingenuamente não sabíamos disso.
A diferença é que hoje temos plenamente consciência de nossos problemas, embora não saibamos como resolvê-los; mas se os resolvermos, será pelos nossos próprios meios, e não através de lamentações por paraísos perdidos, paraíso, aliás, em termos, já que estar nu e sem consciência de si mesmo é um verdadeiro inferno para qualquer ser que deseja a consciência, uma prisão psicológica sem grades, a prisão da ignorância.
O Anjo com a espada flamejante não nos expulsou; ele nos libertou em direção à aventura da existência.
Caminhamos para a saída do Éden como que caminha para fora de uma jaula. E não fomos libertos para cair.
Não houve queda nenhuma.
Apenas assumimos nosso papel, nossas vestes de carne, nossos personagens neste maravilhoso experimento de Maya, que nos garante exercício ético e psicológico e que nos permite amadurecer.
De forma que nunca mais cometamos o mesmo erro de nos julgarmos elevados e superiores por não conhecermos a nós mesmos.
A inocência não é e nunca foi uma virtude; ela é apenas o outro nome da Ignorância.
Nossa obrigação é transcende-la.
Por isso ainda estamos aqui.
Que meus amigos tenham paciência comigo. Meu único objetivo, como o de todos nós, é melhorar como ser humano.



[1] Quíchuas (também chamados Runakuna, Kichwas ou ingas) é a designação aplicada aos povos indígenas da America do Sul, que falam o quíchua, especialmente o quichua meridional. Distribuem-se pela região andina, especialmente no Peru, na Bolívia, Argentina e Chile. (wikipedia)
[2]  O termo Popol vuh, comumente traduzido do idioma quiché como “livro da comunidade”, é um registro documental da cultura maia, produzido no século XVI, e que tem como tema a concepção de criação do mundo deste povo. Popol é interpretado como “comunidade” ou “conselho”, e dá a ideia de algo de propriedade comum; e vuh ou wuj, em quiché moderno, significa “livro”. Como os maias eram divididos em diversas tribos, faz-se necessário saber que, embora boa parte do conto fosse aceito majoritariamente no território maia, existiam especificidades entre as tribos e regiões. (wikipedia)
[3] Gênesis 19:26

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

SERVIMOS SIM A DOIS SENHORES

Por Mario Sales FRC




“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.

“E Jesus, respondendo, disse-lhes: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E maravilharam-se dele.


Jesus, o Cristo, em momentos diferentes de seu ministério.



Fiquei pensando sobre isso no encontro do In Vino Veritas de qunta passada.
Se semana passada o encontro foi recheado por goles de espiritualidade e discursos ligados a aspectos esotéricos da pratica Iniciática; este já foi um encontro bem mais mundano e marcado por comentários ao estilo dos filhos de Baco, e não de Apolo.
E não é assim que são as coisas? Como um pêndulo, ora lá, ora aqui, dia após dia. Nós somos feitos de silencio e som, diz o poeta. A criação é dual, lembra o esoterismo.
E neste ir e vir, vivemos emoções boas e más, que se revezam.
Portanto, durante nossa existência, experimentamos esta alternância de estados de modo ininterrupto, a ponto de a considerarmos normal.



Servimos sim a dois senhores: a Cesar e a Deus; a Dionísio e Apolo. As duas frases do Cristo são contraditórias entre si. Fernando daqui de Suzano (são tantos os Fernandos), meu amigo, tenta salvar a situação lembrando que o Cristo queria dizer “servir a dois senhores ao mesmo tempo”. Pode ser.
Mas não disse. Ele disse apenas “servir a dois senhores”, em um universo feito de opostos que se alternam, sejam estados de espirito, sejam situações físicas e materiais.
Oscilamos nesta criação instável, liquida, como diria o magnifico Bauman, que Deus o tenha.
Recolocando-nos no pêndulo da existência, Ele, o Mestre, corrige o equívoco anterior com a segunda frase: “Dai a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus”, mostrando que até Ele oscilava em suas colocações particulares, embora fiel aos seus princípios gerais.
Acredito que até nisso haja uma lição a aprender.
Nossa coerência não se baseia em linearidade, mas no pertencimento a um espaço, dentro do qual oscilamos com alguma liberdade, como o peixe que pode nadar para qualquer lado, desde que não ultrapasse os limites da água e do vidro do aquário.
Aquários muito amplos não devem ser compreendidos como espaços sem limites, mas dentro destes limites oscilaremos, sempre, hoje para cá, amanhã para lá. Faz parte.