Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 15 de novembro de 2014

GRUPO VIRTUAL DE ESTUDOS MARTINISTAS Va PARTE

TEMA GERAL ATUAL: CABALA
TÓPICO PARTICULAR: A ÁRVORE DA VIDA

TENSÕES

Mario Sales, Flavio Bazzeggio, Wilson Hackmey e outro






Começamos este sábado lendo um trecho muito inspirador do nosso texto base, o qual diz que "...segundo Isaac Luria, a Luz Divina se fez brilhar na cabeça de Adão Kadmon, e (dali) se irradia através de seus olhos, boca, orelhas e narinas. Aquela que jorra de seus olhos, atravessa as sephirot para ser recolhida nos vasos."
Ora, é uma metáfora interessantíssima. A maneira como nos relacionamos com o mundo é através de nossos sentidos. É interessante que este trecho desenhe um jorrar de luz através dos nossos órgãos perceptivos, olhos (visão) boca (paladar, gosto), orelhas (audição) e narinas (olfato). Mais simbólico ainda é a afirmação de que "Aquela (luz) que jorra de seus olhos, atravessa as sephirot para ser recolhida nos vasos." Ou seja, é através do Olhar que se cria a realidade.
Vemos o que compreendemos, compreendemos o que podemos mental ou fisicamente enxergar.
Foi assim, através de um olhar diferente de Flavio, que entendemos novos aspectos da interpretação da Árvore.

No estudo desta semana do Grupo Virtual de Estudos Martinistas, no momento trabalhando o universo conceitual da Cabala Judaica, eu, aqui em Suzano , Hackmey, em Guarulhos, Flavio, em São Paulo e nos minutos finais, Fernando do Rio Grande do Sul, conseguimos um fato raro, ou seja, fazer duas abordagens interessantes e inovadoras em sábados sucessivos de um assunto tão profundo quanto os conceitos cabalísticos.
É natural que períodos menos criativos sucedam períodos de grande criatividade. E já que sábado passado foi um encontro muito enriquecedor, seria perfeitamente compreensível que hoje o encontro fosse apenas protocolar. Não foi assim, felizmente.
Flavio trouxe uma contribuição, em uma palavra, belíssima, à nossa reflexão.
E que contribuição foi essa?
Segundo ele, da leitura do texto em que nos baseamos, concluiu que os vasos aonde a Luz da Criação de Deus, o Kav, foi recolhido no processo de formação da Criação, e que depois se romperiam, no fenômeno conhecido como Shevira Há Kelin, não pré existiam à descida da Luz como ingenuamente supomos.
O que ele observou, corretamente a meu ver, é que as tensões geradas pelo atravessar gradual dos planos de densidade cada vez maiores (Atzilut, Beriah ou Briah, Yetzirah e Assiah) entre o raio que penetra o meio e algumas áreas em particular do meio atravessado, por assim dizer, materializaram este estado de tensão neste ponto, digamos assim, superaquecendo a região até a explosão.
De modo que o próprio movimento de descida da Luz de Deus foi desenhando a localização das sephiroth da Árvore da Vida, ponto a ponto, sefira após sefira, na medida que atravessava densidades cada vez altas.
Isto me levou a visualizar, em seguida, uma deformação na imagem ortodoxa da árvore, que como normalmente é exposta, compõe-se de triângulos regulares aonde o raio de Ain Sof zigzagueia até Malkuth para de lá retornar.



O certo, a partir da colocação de Flávio, é pensar uma Árvore Assimétrica, já que o stress é progressivamente maior nível após nível, sefira após sefira, a ponto de gerar pontos de tensão energética e explosões, no limite; pontos de tensão estes que foram cognominados "vasos", mas que na verdade surgiram a partir do choque da energia que desce ou emana do Ain Sof com a densidade dos meios que atravessa, progressivamente, como uma faca que desce cortando um pedaço de pão.



Cada sefira seria, pois, habitante ou resultante de um plano de densidade diferente e não dividiria este plano com a sefira anterior.
A Assimetria da Árvore talvez fosse melhor representada por triângulos irregulares, assimétricos como representado na imagem anterior, o que pode ser até tridimensionalizado como uma espiral.
O raio do Ain Sof, Kav, já não atravessa quatro planos apenas de densidade, mas 10 , e cada sefira é, não um vaso estático, mas um ponto de tensão entre a energia e a densidade específica de um destes dez planos.
Isto resultaria em múltiplas explosões que aparentemente seriam "vasos", continentes, que explodiriam pela intensidade do conteúdo, mas que, na verdade, são explosões que resultam, não da incapacidade de contenção dos vasos, mas da incompatibilidade da energia pura com a densidade própria de um plano ou outro.



Mas que importância tem estas reflexões (para usar mais um termo que fala da luz) sobre a vida do Cabalista?
Primeiro: a percepção de que as sefiroth estão, sim, hierarquicamente dispostas, e algumas das virtudes da Árvore serão, sequencialmente, de frequência mais elevadas do que outras ou, dito de outra forma, a manifestação de virtudes posteriores dependerão de virtudes anteriores.
Como exemplo, a Luz de Deus, a Coroa , Kether, seria condição si ne qua non para a sabedoria.
Não seria possível, visto deste ângulo, a sabedoria, sem alguma noção, mesmo que inconsciente, da existência de uma entidade superior de onde e para onde todas as coisas provém e retornam. A espiritualidade viria sempre antes da sabedoria, que por sua vez , sempre antecederia o mero entendimento intelectual, o que nos previne quanto a falsa suposição de que acumular informações e ser capaz de fazer correlações entre dados seja suficiente para entender verdadeira e profundamente a existência. O entendimento intelectual só é real e útil se provém da sabedoria, senão é apenas "klipa", casca vazia.
Da mesma forma, só uma pessoa que tem o poder da reflexão sabe que ser misericordioso é uma atitude mais sensata do que ser cruel. É apanágio de homens inteligentes e sábios a misericórdia, a capacidade de apiedar-se do sofrimento do alheio, não por bondade, mas pela compreensão da natureza humana, de que estamos todos juntos nesta existência e ajudar os menos afortunados é uma ato de inteligência por agregar mais uma pessoa ao conjunto dos que lutam pelo Bem, por elevar o nível e melhorar a sociedade como um todo através de um ato bondoso, nem que seja com uma única pessoa, que será transformada por este gesto de bondade e, por gratidão, sentir-se-á obrigada a repassar a outros o bem que recebeu, como o personagem Jean Valjean dos livro "Os Miseráveis" de Victor Hugo.
Um ato de misericórdia, Hesed, é pois, um ato que deriva da inteligência (Binah). A inteligência gera a Misericórdia que gerará, por sua vez, a verdadeira Justiça, Geburah, aquela que perdoa, compreende e reeduca, não apenas pune.
A rigor, nenhum de nós erra por maldade, mas sim por ignorância. Mais lucraria a sociedade se em vez de punir os erros conseguisse recolocar no caminho do Bem os infratores, pois precisamos de todos nesta luta.
Isto é sempre possível? Não, nem sempre, mas o ideal seria que nosso amor à Humanidade, ao Adam Kadmon, gerasse em nós um espírito de Misericórdia suficiente para que buscássemos realmente Entender as razões por trás do erro, e não simplesmente retaliar, punir, maltratar aquele que, por ignorância, maltratou e feriu a sociedade como um todo.
Só uma justiça devidamente alinhada com a Misericórdia pode gerar e ver a verdadeira Beleza (Tipheret) do Mundo, aqui não apenas expressão do que é esteticamente agradável, mas acima de tudo , do que é Harmônico em si.
Na vida em Malkuth, somente um indivíduo equilibrado e harmonico, harmonia esta proveniente de uma visão espiritual, sábia, culta e misericordiosa do mundo a sua volta, pode ser bem sucedido em todos os sentidos, seja físico ou psicológico, sucesso e Vitória esta (Netsah) sobre as aparentes contradições da vida em Malkuth que restaura o equilíbrio do Mundo.
Este Iluminado é, na Terra, a verdadeira presença do Ain Sof , e apenas por estar no Mundo torna este mesmo mundo mais Belo (tipheret).
São estas as condições para a manifestação pois, da Glória (Hod) de Deus na vida de um ser humano, Glória esta que sustenta a existência e que é a Fundamentação ou Fundação (Yesod) da vida no Reino (Malkuth), ou de outra forma, do Reino da Vida.
Não fossem pessoas assim ( e graças a Deus são muitas) a vida no mundo seria inviável, pois tais seres são forças de construção permanentes que garantem o crescimento saudável do tecido social e, ao longo das eras, a evolução da Humanidade (o Adão Kadmon) como um todo.
Segundo: é importante aqui especular também que este raio que se afunila plano após plano é um criador permanente de Almas, já que podemos concluir que as explosões dos "vasos" não aconteceram e pararam, mas continuam acontecendo toda vez que o Kav desce do Ain Sof e mergulha, através do Ain Sof Aur em Kether e depois na "Árvore", agora entre aspas já que ficou clara sua natureza de representação conceitual e não realidade factual.
Terceiro, como o raio desce em forma pura, não modulada, e vai se modificando a cada sefira até Malkuth, a Alma, ao ascender no retorno ao Ain Sof, encontrará uma liberdade maior a cada nível, exatamente porque, moldada pela experiência em Malkuth, este facho de Luz que retorna ao Ain Sof , aperfeiçoado pela experiência, sobe menos caótico e mais regular. É talvez por isso que o retorno à fonte deve ser mais rápido que a viagem de descida aos planos mais densos.
Cada sefira representa um ponto de refração e modulação de um raio que se refrata sucessivamente, nível após nível, e se complexifica, ele que antes era apenas um.



O fundamental a extrair deste arrazoado é que a Luz não chega aonde chega e como chega de modo incólume e suas alterações, suas modulações, são essenciais para que assuma a forma que possui em Malkuth, e para que Malkuth seja do jeito que é, um local dual e contrastado nesta dualidade, mas também uma região aonde o progresso do espírito imortal é possível.
Lembremos que Netsah significa Vitória na acepção de Maestria, superação das limitações e da ignorância e domínio sobre um conhecimento ou técnica, e portanto a Glória (Hod ) em Malkuth só é possível após o alcançar da Maestria, e esta só é possível pela conjugação das virtudes ou condições anteriores.
São algumas das interessantes conjecturas teóricas do maravilhosamente produtivo estudo deste sábado.