Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

A VIDA INTELECTUAL

 

Por Mario Sales

 

Sertillanges

 

Passado este furacão estético que é ler Bachelard, dedico-me agora a degustar um saboroso texto cujo título, estimulante, é “A Vida intelectual”.

Seu autor é “Antonin-Dalmace Sertillanges, conhecido também como Antonin-Gilbert Sertillanges ou Antonin Sertillanges (Clermont-Ferrand, 16 de novembro de 1863 – Sallanches, 26 de julho de 1948), (o qual) foi um filósofo e teólogo francês, considerado como um dos maiores expoentes do neotomismo da primeira metade do séc. XX.”[1]

Não há, sem ler, como descrever a beleza e a suavidade desse texto, por várias razões, mas talvez a mais significante seja a ponte que estabelece entre a atividade cerebral e a vida devocional.

Chega mesmo a classificar o intelectual, não aquele eventual, mas o que está comprometido com a aquisição prazerosa e continuada da cultura como um “vocacionado”, à semelhança daqueles que se sentem atraídos para a vida monástica.

Vejam, o adjetivo não está equivocado, esta adesão a vida intelectual deve e precisa ser prazerosa. Não se pode mentir para si mesmo, para as tendências internas que nos mobilizam, e a vida intelectual como tantas outras tendências vem de dentro de cada um, é um chamado, não uma escolha.



O autor cita a propósito São Tomás de Aquino: se este “pode dizer que o prazer qualifica as funções e pode servir para classificar os homens, ele poderia concluir disso que o prazer pode também revelar nossas vocações.”

O “precioso conselho” de Disraëli: “Faz o que te agrada, desde que realmente te agrade” se aplica aqui.

E num trecho que aproxima a bioquímica e o misticismo, bem ao meu gosto, Sertillanges, com muita sagacidade, dispara:

“Nossas disposições são como as propriedades químicas que determinam para cada corpo, as combinações que esse corpo pode realizar. Elas não podem ser criadas. Vêm do céu e da geração natural. Toda a questão se resume a ser dócil a Deus e a si mesmo, depois de ter ouvido essas duas vozes.” (o grifo é meu)

E em outra brilhante passagem, eivada de devoção cristã, lembrando a necessidade de que cada um de nós faça de sua vida a mais produtiva possível, Sertillanges afirma:

“A humanidade cristã é composta de personalidades diversas, e nenhuma delas abdica de si mesma sem empobrecer o todo e sem privar o Cristo eterno de uma parte do seu reino. O Cristo reina, desdobrando-se. A vida inteira de um de seus “membros” é um instante qualificado da sua duração; toda existência humana e cristã é uma existência incomunicável, única e por conseguinte necessária a expansão de seu “corpo espiritual”.

Talvez um único reparo possa ser feito a essa edição, responsabilidade da Kirion, em tradução de Roberto Mallet: o prefacio foi feito por ninguém mais do que o polemico Olavo de Carvalho, que já deu amplas demonstrações de instabilidade emocional, a despeito de sua bagagem intelectual, o que em si em nada afeta a qualidade do texto e não deve, por nenhum preconceito, afastar os interessados dessa leitura.

É um livro, em tudo e por tudo, cativante.

Recomendo entusiasticamente.


[1] https://ecclesiae.com.br/index.php?route=product/author&author_id=247


Um comentário:

  1. Bom dia. Você já deu uma boa olhada no endereço completo da Kyrion, dentro do livro? :-) Estou chegando agora ...

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