Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 28 de agosto de 2021

INICIAÇÃO E TERMINAÇÃO

 

Por Mario Sales FRC




O que significa ser um “Iniciado”?

A expressão dá conta de alguém que recebeu uma informação, como a expressão diz, inicial, preliminar, acerca de uma área de conhecimento que se estende infinita em várias direções.

Não se trata pois, de um conjunto de normas ou dados que esgotem o assunto; antes, estamos falando de uma porta, de um portal, que atravessado apenas nos introduz em um imenso salão, em princípio mergulhado em trevas, a não ser pela chama fraca da vela cerimonial que trazemos nas mãos.

A vela, como já foi dito, não mostra tudo que existe neste gigantesco salão, mas nos dá uma ideia pálida de nossa enorme ignorância.

A escuridão do salão nos exige, imediatamente, três comportamentos: prudência ao caminhar, já que não enxergamos com clareza onde estamos indo; coragem para penetrar nas trevas sem receio; finalmente confiança de que as forças que nos trouxeram até aquele portal garantirão que nossa experiência seja segura, se bem que impactante.

Trata-se, portanto, de uma caminhada que começa. Abriram para nós uma passagem, cabe a nós agora continuar, avançar passo a passo e investigar, com auxilio da vela e às vezes, apenas do tato, o que nos circunda, que objetos estão guardados neste salão escuro.

Em alguns pedestais e suportes, no salão, encontraremos, já abertos, alguns livros. Outros estarão fechados. Ao lado de cada um, entretanto, encontraremos outras velas que iremos acendendo para facilitar a leitura e para melhorar nossa percepção do entorno.

A maneira como estes livros, abertos ou fechados, ou seja, de fácil ou de difícil compreensão, estão dispostos no salão tem uma razão de ser que só aqueles que assim os arranjaram conhecem.

Livro após livro, texto após texto, vela após vela, o salão que antes era só escuridão vai se tornando mais claro, com traços mais compreensíveis, sem em nenhum momento dar a perceber aonde estariam seus limites, suas paredes, seu final.

A investigação, independente disso, deve prosseguir.

Não iniciamos esta busca para ficarmos imóveis contemplando as trevas. O avançar nos traz outra vantagem: a possibilidade de supor uma certa arquitetura no salão, se bem que apenas supor, já que não conseguimos ter uma ideia do conjunto completa e acabada.

Esse não é o caminho do místico, mas do esoterista, o pesquisador dos mistérios arcanos.

O místico não caminha em busca de nada.

Ele apenas se senta e acalma seu coração, sua ansiedade. O místico busca dentro de si, não em textos, não nos livros. Ele vasculha suas próprias trevas internas e consulta suas emoções para transcendê-las e chegar ao estado de identificação com o Eterno.

Não há salão algum a investigar, não existe vela nenhuma a acender.

O que o místico faz é voltar seu olhar para dentro, é ouvir no silencio de seu ser a melodia das esferas.

Nada impede que os dois movimentos, a busca interna e a externa, se complementem e se auxiliem. Pelo contrário, para que os livros que estão fechados possam ser abertos, compreendidos, a investigação interior é fundamental.

Se de fato a caminhada no salão escuro do mundo esotérico não tem fim, prepararmo-nos para ela despertando em nosso interior as habilidades necessárias é um processo que deve ser completado para que a própria caminhada se torne mais segura e efetiva.

É preciso terminar, dentro de nós, a busca e a transformação.

Transformados, poderemos prosseguir não mais orientados pelas chamas externas dos textos, mas pelo brilho de nossos olhos, que lançarão luz em qualquer direção que olharmos.

Se cada texto nos trazia mais luz ao seu modo e por sua leitura, agora não precisaremos mais dos textos, pois teremos luz própria.

Ou seja, após a iniciação, mister se faz completar a terminação, o encerramento de um estado de consciência em prol de outro, mais elaborado, mais inspirado.

Místicos devem pensar e agir como místicos, até para que escapem do esoterismo meramente literário, pouco profundo, intelectualista.

Sem os olhos de ver, as páginas se sucedem uma após outra sem que nada aconteça, sem que nenhum insight verdadeiro nos desperte do sono dogmático.

Pelo contrário, muitas vezes o que ocorre é a troca de um dogma por outro.

O estudo esotérico só é possível quando a tradição que preservamos não se tornar âncora, mas vento.

Velas enfunadas, nosso barco navegará rápido em direção ao destino que a bússola divina nos determinará. Só que agora, nossa intuição desperta estará no timão, antecipando tempestades, recifes ou calmarias, antecipando e evitando as intempéries que só atrapalham a boa navegação.

E tudo isso apenas porque dentro de nós terminamos a transformação que nos habilitou a este desempenho, esforço que todos os místicos têm como missão primordial empreender.

Bons ventos soprem sobre aqueles que não procrastinarem essa transformação.

Bons e fortes ventos.

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