Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O CAMINHO E O CAMINHAR

por Mario Sales, FRC, SI, MM



Como vocês sabem, eu costumo diferenciar o sentido das palavras misticismo, esoterismo e ocultismo, dando a primeira o significado de conjunto de práticas que visam o contato com o Deus de nossos corações; a segunda, o conjunto de práticas intelectuais, cercadas de segredo, ligadas a interpretação de textos e símbolos antigos; e, finalmente, a terceira, o significado de conjunto de práticas ligadas a tornar possível a intervenção no real, de modo incomum, seja no plano da terra (magia), seja no plano do céu (teurgia).
De posse deste critério, podemos dizer que certas ordens são mais místicas e menos esotéricas; outras mais ocultistas e menos místicas; outras ainda, nada místicas, nada ocultistas e nada esotéricas, como é o caso da ordem maçônica na atualidade, a grosso modo uma filial estilizada do Rotary.
Eu sou um rosacruz e pertenço à Antiga e Mística Ordem Rosacruz (AMORC) há 40 anos. Pelo tempo, já me desfiz de ilusões e fantasias acerca das práticas esotéricas e/ou ocultistas. E fiz uma opção nitzchiniana pela busca, em qualquer trabalho, seja místico, esotérico ou ocultista, por resultados no Mundo da Vida, conquistas objetivas, não meramente metafísicas, não os “fantasmas” característicos de mentes pouco elaboradas, para usar um termo caro a Espinoza.
É minha posição que tais “fantasmas”, ligados a ignorância e à superstição, não só perturbam a evolução como também impedem a serenidade no cotidiano. São antes de algo que nos enriqueça como seres humanos, uma distração na senda para um coração mais conectado com a Consciência Cósmica, um estímulo ao ego e à vaidade inútil e com grande capacidade de nos colocar em um looping infinito.
O trabalho esotérico e o ocultismo, com suas fórmulas complexas e rituais exóticos, não equivalem a 1% do valor do esforço místico sincero. E neste esforço, nesta busca pelo Cálice Sagrado, só a meditação é necessária como instrumento de crescimento espiritual.
É verdade que precisei superar minha ignorância e insegurança lendo muitos textos de várias tradições para alcançar esta percepção. Assusta pensar que a cultura que acumulamos retarde nosso avanço e seja inútil para dar o salto de fé que precisamos para alcançar a iluminação.
Assusta porque o desenvolvimento da sensibilidade passa pela cultura e pelo conhecimento. Ambos são elementos formadores de uma personalidade nobre e diferenciada.
No entanto a erudição pode causar, e causa, a falsa impressão de que sejamos senhores de nossa existência e centros de importância em um contexto no qual somos apenas um dos elos de uma enorme sequência de elos, como os nós do cordão martinista nos lembra.
E como humildade não é uma virtude, mas uma técnica de liberar espaço em nós para que a Shekinah, a presença de Deus, se manifeste através de nós, quaisquer falsas sensações de que somos especiais em qualquer sentido, enquanto seres isolados deste fluxo de almas, prejudica a consecução de nosso objetivo último, a fusão ou a Yoga com Aquele que não pode Ser Nomeado.
Se algum dia formos capazes de desfrutar deste poder dado aos que com ele se fundem, será por sua presença em nós, não por algum poder nosso exclusivo, e isto escapa a maioria dos principiantes na escola e na senda mística, quanto mais na senda esotérica.
Quando vejo grupos de discussão interessados em conhecer as diversas experiências iniciáticas organizadas ao longo da história da humanidade, talvez na tentativa de demonstrar sua erudição, me pergunto para que serve e a quem serve este esforço.
Lembro-me da ácida frase de Saint Martin que ecoa no akasha nos últimos 3 séculos: “- será preciso tudo isso para ver Deus? ”
E a resposta que insiste em repetir-se é um sonoro não, que nos mostra a pouca atenção dada ao Munda da Vida, fora de nós, mas também ao imenso Mundo Espiritual, dentro de nós, o qual nos conecta a Inteligência Universal.
Uma e outra coisa são danosas.
A falta de atenção ao Mundo da Vida demonstra que não entendemos o papel e a razão de uma tradição literária esotérica, e de símbolos herméticos que a acompanham. Cada texto ou cada símbolo são apenas cartas de nossos irmãos do passado enviadas para seu futuro, que é o nosso presente, aonde podemos consultar excertos de sabedoria que estes irmãos lograram atingir.
E de que serve uma sabedoria que não pode ser aplicada, mas que uma vez aprendida, torna-se apenas mais uma parte de um gigantesco acervo de idéias sem uma contrapartida no real?
Ou seja, qual o valor de um intelecto hipertrofiado em detrimento de uma visa social à míngua, desidratada?
Se estamos em Maya, se estamos em Malkuth, qual seria o nosso papel senão desfrutar desta estadia, entendendo bem os possíveis ensinamentos que podem ser conseguidos neste ambiente virtual e real, a um só tempo?
Interpretar um símbolo antigo e não usar seus ensinamentos uma vez que estes sejam desvelados para melhorar nosso grau de interação social e psicológica, como se estas coisas fossem de menor importância diante das revelações do mundo esotérico, há muito tempo é um comportamento que me preocupa e que, na minha visão, apenas disfarça um desajuste psicológico que habilmente se mimetiza de erudição.
Que sites ou temas com estas características que eu descrevi proliferem, embora seja compreensível, me preocupa.
Ao verdadeiro esoterista é dada a missão de, através da exegese dos textos e símbolos, entender que a evolução espiritual é a única e mais importante missão de todo e qualquer iniciado, e que esta evolução só é conseguida pela interação social, pela melhoria de nossa capacidade de sermos misericordiosos, generosos, humildes, pacientes, tolerantes, cuidadosos com os sentimentos de outras pessoas, tudo aquilo que é realmente difícil de ser e que todos os dias somos desafiados a demonstrar, no Mundo da Vida, no mundo das relações humanas.
Na Ordem Maçônica e na Ordem Rosacruz, durante o ritual, somos lembrados de que o templo em que estamos é apenas e tão somente uma representação do verdadeiro mundo, que está fora do templo.
O Norte, o Leste (ou Oriente), o Sul e o Oeste, devidamente determinados, estão ali para nos lembrar de que o templo é um local de ensaio para o que vamos tentar ser fora dele, um local de treinamento, e apenas isto, não o local onde o nosso verdadeiro desafio será enfrentado.
Não.
Templos e livros, símbolos e Ordens são locais de aprendizado e não devem, em nenhum momento , serem confundidas com o mundo real, o Munda da Vida.
São setas na estrada, não a estrada em si, e quem confundir uma coisa com a outra, corre o risco de ficar paralisado no caminho, fascinado pelas cores de uma placa e esquecendo do que realmente precisa se lembrar, de caminhar, de seguir em frente, de continuar seu percurso, mesmo que a paisagem seja fascinante e nos cause receio abandoná-la e não mais encontrar outra tão bela.
Foi Parmênides que venceu, ao longo dos séculos, a disputa por um paradigma que permitisse o conhecimento científico e sólido que nos deu nossa sociedade e tecnologia, mas o mundo, na verdade, nunca foi e nunca será parmenídico, pois a natureza é mutante, e só Heráclito descreveu-a com fidelidade. Neste fluxo que Zigmunt Balman rebatizou de “mundo líquido” é natural que todos queiramos botes e barcos em que nos sintamos menos arrastados pela Vontade do Universo, só que isto não impede que o rio continue seu inexorável percurso, e que sua corrente não nos afete bem como a todas as coisas ao nosso redor.
Nosso papel, na busca de equilíbrio e serenidade, é entender que o esoterismo (bem como o ocultismo), segundo o critério descrito acima, devem servir ao misticismo e não o contrário. Se, como vejo na Internet ou pessoalmente, conhecimento esotérico signifique erudição e vaidade e ocultismo a busca fantasiosa de poder pessoal, o verdadeiro objetivo da existência (evoluir espiritualmente) terá sido olvidado, e o incauto que assim procede ficará girando muitas encarnações em torno de um mesmo ponto da jornada.
Ao caminhante cabe caminhar e se parar que seja apenas para recobrar suas forças, descansar, por algum tempo.
Como Heráclito diz, o fluxo é permanente e “nenhum homem pode banhar-se no mesmo rio, duas vezes”.
A serenidade só será alcançada quando, em vez de tentarmos reter o fluxo, ou sair do fluxo, permitirmos que este fluxo flua por dentro de nós, e não ao nosso redor. Neste instante e que consigamos esta transmutação alquímica de relacionamento com a natureza das coisas tudo para à nossa volta e só o fluxo em nós persiste.
Este é o portal da eternidade que devemos buscar atravessar e reiniciar nossa caminhada em outro patamar, em outro nível de evolução.

É isso.