Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 20 de março de 2021

O ROSACRUZ ESQUECIDO

 

Por Mario Sales

SPENCER LEWIS

 

A comunidade rosacruz no mundo comunga valores comuns quanto a busca do aperfeiçoamento do caráter de seus membros, quanto ao aumento de conhecimento sobre as leis naturais e universais e sua aplicação ao cotidiano e, finalmente, a vivência de uma fraternidade indiscutível entre os membros da Ordem e a Humanidade.

Estes pontos de ligação, no entanto, não devem ser entendidos como marcas de homogeneidade mental ou comportamental.

Se existe uma lei acerca dos seres humanos, sejam iniciados ou não, é a lei da diferença, da heterogeneidade. Somos, nós, rosacruzes, peculiares, individualmente, com preferencias e tendencias singulares que nos identificam entre nossos pares.

Alguns de nós são extremamente céticos, outros intensamente crentes. Uns seguem a linha dos místicos religiosos, outros a linha de trabalho dos alquimistas que ao sabor do dito “ora et labora”, consagravam a Deus seu trabalho e rezavam através do empirismo laboratorial.

É destes alquimistas, que colaboraram com seu oficio para a forma e estrutura atual dos laboratórios contemporâneos de química e biologia, que vem a linhagem com a qual, dentro da rosacruz, me identifico.


Por ignorância ou falta de maturidade, muitas pessoas julgam, senso comum, que existe uma incompatibilidade natural entre ciência e devocionalidade e que um indivíduo ligado ao trabalho científico não pode ser um crente ou alguém que sinta em si a presença do eterno.

Ledo engano. O físico Marcelo Gleiser, agnóstico, cético metodológico, em mais de uma oportunidade mostrou que tal visão é equivocada, e que muitos homens de ciência seus conhecidos admitem francamente crença em um ser indefinível, ou se preferirem, divino, sem que isto em nada interfira com sua objetividade científica.

Em 1915, quando a Ordem voltou a atividade visível pelas mãos de Harvey Spencer Lewis, esse grupo de rosacruzes que representa o pensamento alquímico, empírico, laborioso no mundo material tanto quanto no mundo espiritual, estava representado. Nosso antigo imperator era um amante da ciência e da pesquisa.


Um dos aparelhos de Lewis, o LUXATONE, que projetava na tela triangular cores correspondentes as notas emitidas pelo teclado.


Preocupou-se em montar um sistema de ensino a distância, antecipando os métodos contemporâneos de aulas remotas. Construiu um pavilhão para estudo das estrelas no parque de San Jose, na California, aos moldes dos nossos planetários de estudo e ensino.

Criou aparelhos na tentativa de estabelecer a ponte entre os ensinamentos esotéricos e a demonstração dos princípios rosacruzes, na esperança de achar este Santo Cálice (Hole Graal) do encontro experimental destes dois Universos.

Faltava-lhe infelizmente tecnologia para sustentar tanta ambição, como de resto, a todo o planeta. Não seria a primeira vez que um visionário perceberia realidades ainda impossíveis de serem reveladas ou tornadas de domínio público por falta de estrutura empírica.

Hoje ainda não temos a tecnologia necessária para atravessar este vazio entre nós e amanhã, mas muitas condições antes ausentes tornaram o estudo do invisível, do antes indetectável, mais viáveis.

Os recursos empíricos necessários para a detecção do muito pequeno se ampliaram. A sensibilidade dos nossos aparelhos, entretanto, para energias muito sutis ainda é baixa.

Não conseguimos ver aura, salvo se formos videntes. Não conseguimos detectar o Ki dos acupunturistas, que flui segundo eles por canais ao longo do corpo, e por não conseguirmos ver, muitos supõem ser apenas uma superstição, uma fantasia, se bem que ninguém nunca viu o “inconsciente coletivo” junguiano, ou mesmo o espaço tempo einsteiniano, mas aceitam sua existência em função de “evidências empíricas indiretas verificáveis”, como o desvio da luz visto nos eclipses.

Isto para a ação de deformação do espaço tempo como manifestação da gravidade. Para o conceito de inconsciente coletivo junguiano nem esses dados experimentais indiretos temos, o que não abala aparentemente sua dita cientificidade.

Porque então falamos em pseudo ciência quando nos referimos a conceitos que se baseiam em energias ainda não detectáveis, independente de seus efeitos terapêuticos demonstrados, dados empíricos indiretos portanto, e ao mesmo tempo aceitamos como plausível uma rede de interligação entre os subconscientes de todos os seres humanos, sem tanto pudor?

Vejam que aqui eu não estou falando a favor ou contra esse conceito, o qual inclusive tem minha simpatia.

Verificável, no entanto, ele não é, e portanto, muito menos cientifico. A psicologia junguiana se sustenta na habilidade como escritor e descritor de seu fundador e na pratica de seguidores apaixonados de seu pensamento, mas sob o ponto de vista ortodoxo, cientifico, baseado no modelo matemático-empírico, só podemos classificar a psicologia não experimental como um conjunto de crenças, boas ou más, porém crenças, já que não são passíveis de verificação, assim como os canais de acupuntura, hoje ainda invisíveis, como por séculos foram invisíveis os microorganismos na ausência de um simples microscópio.

Por isso, o diálogo tão decantado em prosa e verso, entre esoterismo e ciência é inviável. Falta-nos, como faltava para Spencer Lewis, tecnologia que sustente com evidências empíricas demonstráveis, as afirmações dos esoteristas.

Assim a rosacruz se viu em um impasse. Os experimentos elaborados por Spencer Lewis para enriquecer o ensino dos nossos principios tornaram-se cada vez menos expressivos dado o enorme avanço da ciência no século XX. Pelo menos, foi o entendimento do grupo que assumiu a direção dos trabalhos administrativos da Ordem a partir dos anos 90, dando uma forte guinada para o enfoque devocional, forte porém sutil, de maneira a não explicitar o abandono do ideal empírico de Lewis. Seu nome, suas palavras, seus discursos ainda estão lá, mas a Ordem que ele imaginou já não existe.

A alquimia rosacruz ainda é estudada, mas como uma curiosidade histórica e simbólica, substituindo o aspecto pratico experimental pela vertente do estudo semiótico.




Embora sejamos a mesma Ordem da qual foi membro o criador do ceticismo metodológico, Renée Descartes, a maioria dos rosacruzes contemporâneos não perceberam estas mudanças. Leais aos seus juramentos templários de respeito as decisões de nossos oficiais superiores, deixamos que década após década, a AMORC fosse transformada em uma associação com forte caráter religioso em detrimento do cientificismo de Lewis. Não que Lewis não fosse, ele mesmo, um devoto cristão. Nunca, entretanto, usou do apelo da religião para fomentar o trabalho rosacruciano.

Sua norma e, salvo engano meu, seu maior objetivo, era criar uma organização internacional de esoteristas capazes de como ele fez, atualizar por métodos científicos os conhecimentos esotéricos recebidos dos guardiões da tradição. Havia nele, Lewis, uma urgência em transformar conhecimento em técnicas que poderiam ser aplicadas por qualquer individuo em situações as mais corriqueiras, aquelas que dizem respeito a vida cotidiana.

Assim, com seu maravilhoso poder mental, sintetizou todos os antigos meios mágicos na arte da visualização criativa. Mais do que isso não era necessário para mostrar os efeitos diretos sobre a realidade do poder mental de cada indivíduo, um poder desconhecido e pouco usado, mas Lewis queria mais, queria poder demonstrar de modo empíricos outros princípios, mas como disse faltavam recursos, faltava tecnologia.

A vertente rosacruciana dos devotos assumiu e expandiu a Ordem com o discurso da crença e da devoção, o que não vai contra a natureza rosacruciana, mas, tenho para mim, não era o objetivo de Lewis lá nos anos de reabertura da Ordem.

Dentro deste espírito devocional, aconteceu o fortalecimento da Ordem Martinista, uma Ordem de origem maçônica, baseada na teurgia do século XVIII, que não tem por objetivo a verificação empírica dos poderes latentes, mas o desenvolvimento de uma sensibilidade religiosa nos moldes do cristianismo ocidental, com insinuações de práticas mágicas que via de regra não se concretizam, já que a teurgia prática, dentro da Tradicional Ordem Martinista, foi esvaziada e pasteurizada, num reconhecimento tácito de sua inadequação ao momento histórico atual. Embora fale-se em “caminho do coração”, qualquer martinista sabe que a TOM é fundamentada em exaustivos estudos teóricos, textos e mais textos, sobre assuntos que a atualização feita no início do século XX por Lewis, dos antigos ensinamentos da tradição, a meu ver tornou obsoletos.

Pode-se dizer em defesa do Martinismo que foi o próprio Lewis que resolveu abrigá-lo dentro da AMORC, mas a ênfase que ele recebeu a partir dos anos 90, foi indiscutivelmente mais intensa.

O Martinismo, temo, é apenas uma curiosidade histórica. Pessoalmente acho que foi um equivoco tentar mante-lo já que trata-se de uma Ordem que tende ao desaparecimento historicamente.

Assim foi após a morte de Martinez de Pasqualy. Assim foi com o surgimento do Rito Escocês Retificado criado por Vilermoz em ambiente maçônico. Assim também ocorreu com o Martinismo primitivo, de Louis Claude de Saint Martin que jamais desejou uma escola de graus separados, mas a livre iniciação que hoje, na TOM é tratada como prerrogativa de alguns e não de todos os Superiores Incognitos, como sonhou o fundador.


PAPUS

O modelo de Papus, em Paris, com graus e com ênfase no estudo da Cabalá, ao que parece da Cabalá Cristã, e não da Hebraica, era fomentar um esoterismo genuinamente francês que se opusesse ao trabalho da Teosofia Blavatskiana, que à época, dominava o cenário e com a qual Papus rompeu ligações em 1890, um ano antes da morte de Helena Petrovna. Como os teósofos, os martinistas de Papus davam ênfase ao estudo teórico, e não ao estudo prático, se bem que alguns enveredassem por este caminho, de modo particular.

A TOM é um reflexo não da Ordem imaginada por Saint Martin, mas da Ordem como desenhada pelos esoteristas franceses do final do século XIX, Augustin Chaboseau, Stanislas de Guaita, Lucien Chamuel, Charles Barlet, Maurice Barrès, Joséphin Péladan, Victor-Émile Michelet e alguns outros.

A Ordem que Lewis abriga, via FUDOSI, dentro da AMORC, é o Martinismo de Papus, com a estrutura educacional própria da época, um esoterismo de enciclopédia, com muita informação e pouco foco pragmático. O inverso, portanto, do ideal rosacruciano de empirismo e aplicabilidade cotidiana dos princípios esotéricos.

É difícil entender qual o objetivo de Lewis ao tomar essa decisão de abrigar a escola de Papus dentro da estrutura da AMORC. Talvez tenha se deixado encantar pela proposta de uma ordem que refletia o espírito dos ideais de cavalaria do século XVII e XVIII enriquecidas por um ambiente cristão. Não percebeu eu estava abraçando um empreendimento que nada tinha a ver com a proposta de AMORC para os séculos XX e XXI, e que de forma alguma representava o perfil dos alquimistas rosacrucianos, se bem que ali estivessem ecos da cabalá cristã que os rosacruzes tão bem conheciam na linha de Pico de laMirandola.

Depois desta demorada digressão, que visa dar um panorama histórico da evolução de AMORC pré e pós anos 90 do século XX, volto a questão inicial. Perdemos, na minha opinião, nosso caráter eminentemente empírico e pragmático, pelo menos do ponto de vista da proposta descrita nas monografias como qualquer artesão como eu leu nos anos 60 e 70.

E isso inviabiliza o tal diálogo desejado entre os homens céticos e metodológicos, ao espirito do rosacruz Renée Descartes, também francês, que a rosacruz contemporânea esqueceu ao longo de sua caminhada.

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