Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 20 de junho de 2010

O PESSIMISMO MARTINISTA

Por Mario Sales, FRC,M.:M.:, SI

Quando avaliamos o tom emocional das falas do Martinismo, encontramos vários tipos de posturas, nem sempre complementares logicamente, e às vezes com um corte absolutamente diferente, do ponto de vista de valores.
É o caso de Stanislas de Guaita e Louis Claude de Saint Martin, ambos pessoas- chave da tradição dita Martinista, mas, na verdade, com enfoques diferentes sobre como vivenciar o Esotérico, o Oculto e o Místico.
Existe em Guaita um amor ao intelecto e uma paixão pelo conhecimento que não contemplamos nos escritos de Louis Claude de Saint Martin.
Aliás, Saint Martin é desprovido de qualquer paixão. Seu tom constante é, para dizer de maneira delicada, desanimado.
Na intenção de demonstrar um senso de espiritualidade, ele parece, à exemplo de alguns espiritualistas orientais, lamentar pela vida terrena e desejar a morte como real momento de reencontro com o Todo Poderoso.
Se a frase acima parece forte, detenhamo-nos em declarações do próprio Saint Martin, livres de interpretação.
Por exemplo: "O único mérito que existe nas riquezas e alegrias deste mundo é que elas não podem nos impedir de morrer."
Provavelmente o homem que se chamava “O Filósofo Desconhecido”, queria com isso evidenciar a importância que dava a vida espiritual, mas é impossível negar uma presença forte do aspecto de Tanatos, a pulsão de morte, para citar uma categoria psicanalítica. Ou em outro exemplo: "A única diferença que existe entre os homens é que uns estão no outro mundo sabendo disso, enquanto que outros estão nele sem saber." Aqui, também provavelmente, Louis Claude quer evidenciar, até com um tom irônico, a ausência de consciência de alguns, semelhante a uma morte em vida.
O toque de leve sarcasmo é interessante e alentador: o humor, o bom humor, é um sinal de amor a vida, de manifestação de Eros, a pulsão de Vida, num contraponto a Tanatos. Mas a imagem remete ainda a uma tristeza pelo estado de vida material.
Existe uma ânsia de descolar-se da vida no corpo como se, sem isso, fosse impossível ascender espiritualmente.
Quanto a isso, sejamos justos, Saint Martin não está só. Seu jeito austero e com uma forte negação do valor da vida material não foi inaugurado por ele, mas por outros antes dele, muito mais famosos e conhecidos.
Talvez o mais prestigiado, se bem que não o primeiro da Lista, é Paulo , Apóstolo.
Lemos, portanto, em Gálatas, capítulo 5; Versículo 17: Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer.
Não há dúvida que, para Paulo, o pecado está na carne, não no espírito.
Todo o mal estava no corpo, e não na mente, idéia tão forte como apêlo que persiste em mentes menos elaboradas até hoje e qualque tentativa de retirar da vida material e biológica este peso e esta culpa é entendido como perverso e mal intencionado.
Lembro-me de uma frase de Harvey Spencer Lewis que até hoje me impressiona.
Falava sobre os instintos humanos e citava o fato de que eles eram uma programação natural do corpo, algo que fazia parte de nossa própria natureza biológica, e concluía que, se estavam lá, haviam sido postos pelo criador em pessoa.
Ora, concluía ele, algo colocado por Deus em nosso corpo ou mesmo nosso corpo, criado por Deus, não poderia ser objeto de pecado. Pois tudo que Deus havia criado era santo.
A beleza e a obviedade dessas palavras me fascinaram e fascinam até hoje. H. Lewis era um homem a frente de seu tempo e esta ausência de repúdio a existência física, esta vontade de mostrar o sagrado em todas as coisas e não apenas naquelas que são invisíveis, sem dúvida era um avanço, já que em sua época, o preconceito contras as coisas do corpo era bem mais intenso do que hoje.
A vida biológica para Lewis, nunca foi contrária a vida do espírito. O desejo carnal, a fome, a ambição pelo progresso material, a semelhança de Calvino, tudo nele enfim, mostrava respeito pelo humano, pelo ser como um todo.
Ao contrário das religiões que repartiram o homem em dois e consagraram uma como de Deus e a outra entregaram ao Demônio e à fogueira das inquisições, o pensamento luminoso e científico de Lewis mostrou seu extremo respeito a vida, em todas as suas manifestações.
O Discurso martinista é calcado em estudos bíblicos e do Cristianismo. E claro, como tal, recebe forte influência do pensamento de Paulo, apóstolo, principalmente do ponto de vista moral.
Saint Martin, de formação era ligado ao Direito e a vida militar, de forte componente Hierárquico. Havia nele, além de uma concepção religiosa baseada no discurso da negação do corpo, um senso de justiça baseada na culpa e no castigo, ou no mérito e na recompensa, categorias judiciais, transportadas para a prática espiritualista.
Diga-se de passagem, culpa, punição, justiça por retribuição, são conceitos frequentes ao Velho Testamento.
Vejamos nos exemplos abaixo:
Samuel 22:48 O Deus que me dá inteira vingança, e sujeita os povos debaixo de mim.
Salmos 18:47 É Deus que me vinga inteiramente, e sujeita os povos debaixo de mim;
Salmos 79:10 Porque diriam os gentios: Onde está o seu Deus? Seja ele conhecido entre os gentios, à nossa vista, pela vingança do sangue dos teus servos, que foi derramado.
Salmos 94:1 O SENHOR Deus, a quem a vingança pertence, ó Deus, a quem a vingança pertence, mostra-te resplandecente.
E por aí vai. A visão judicial é de culpa e castigo, para ela não existe erro, como falaria um pensador Rosacruz, Renée Descartes, mas pecado, como dizem os moralistas bíblicos da Torah.
Outro aspecto: o discurso de Martinez de Pasqually, que Louis Claude de Saint Martin ecoa, parte de três premissas básicas: a vida no corpo é abominável, e o corpo de carne é uma prisão; a experiência nessa existência é um castigo conseqüente a uma desobediência ou como ele diz, prevaricação (como condenados que são encarcerados por conta de seu crime); e por último, mas não menos importante, só existem coisas realmente boas e puras fora desta existência, para além da barreira do Eixo Fogo Central Incriado.
Convenhamos, não são declarações de amor à vida e à existência em sociedade. Mas compreende-se este pessimismo, presente ainda, séculos depois, no pensamento de um filósofo, este conhecido, Schopenhauer.
O contexto do filósofo alemão era outro. Sua tristeza com a vida e com o mundo se baseava na Europa que ele contemplava, destruída pela época pós napoleônica.
Saint Martin, por sua vez, vivia a época pré napoleônica, tinha ao seu redor a era pós revolução francesa, muitos de seus conhecidos foram perseguidos e mortos, havia perigo de morte iminente, real e imediato, não era algo fantasioso.
Não havia alegria na vida, só medo e desolação com as execuções do Terror do Diretório, na guilhotina.
Como entender esta época como um reflexo da razão que se propunha libertadora? Impossível.
A conclusão óbvia é que este mundo era mau. Os homens eram maus, a vida no corpo os tinha feito assim, embora fossem todos criações imortais em espírito de Deus, que é todo Bondade.
E qual a saída filosófica para explicar este contrasenso lógico? A mesma de Santo Agostinho no séc. IV: o Livre Arbítrio.
Os homens são maus porque são livres, porque podem escolher entre uma e outra opção de ação. Deus não os fez maus, mas eles, por serem homens, e limitados em percepção, escolhem mal suas opções.
Vejam só: por um lado somos limitados em percepção, estamos em um corpo que é uma prisão, que nos fez esquecer nossa herança divina, e nos aprisiona. Nossa sabedoria está embotada, neste mundo de Ilusões.
Por outro lado, mesmo manietados, cegos e surdos ao Espírito Grandioso que está em nós e além de nós, temos obrigação de escolher de maneira acertada quando diante de duas opções, ou seja, ver sem enxergar, escutar sendo surdos, e ter liberdade quando somos prisioneiros.Isso não faz o menor sentido. Ou temos sabedoria e consciência e estamos aptos a optar com lucidez entre duas alternativas propostas ou não temos esta sabedoria e pagaremos o preço inevitável de nossa ignorância, o erro, inevitável, mas compreensível nessas circunstâncias.
Pessoalmente, sinto mais misericórdia pelo homem e parafraseando Cristo, deveríamos isto sim pedir a Deus que nos perdoasse porque não sabemos e não temos consciência plena do que fazemos.
Os argumentos de Saint Martin ou de Pasqually, bem como de Santo Agostinho, quanto ao livre arbítrio, são frágeis e pouco fundamentados. E chamo Espinoza em minha defesa. Ele compara a crença humana no livre-arbítrio a uma pedra pensando que escolhe o caminho que percorre enquanto cruza o ar até o local onde cai. Ele diz: "as decisões da mente são apenas desejos, os quais variam de acordo com várias disposições"; "não há na mente vontade livre ou absoluta, mas a mente é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa que é determinada por sua vez por outra causa, e essa por outra e assim ao infinito"; "os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar" (respectivamente Spinoza, Ética, livro 3, escólio da proposição 2; livro 2, proposição 48; apêndice do livro 1).Somos todos prisioneiros de três naturezas: primeiro de nossos institntos;depois, quando nos tornamos melhores, de nossas leis; e finalmente quando somos mais evoluídos ainda, de nossas consciências.Não há pois, tal coisa como livre arbítrio.
Não posso esperar que alguém de muita idade que enxerga mal, ouve com dificuldade e caminha com dificuldade não esbarre em cadeiras e mesas ou não quebre os copos e os pratos que tenta segurar. Não há pecado nisso mas erro, e um erro previsível e esperado, dadas as circunstâncias, erro que é a única coisa certa, além da morte, na existência.
O erro dos nossos três analisados não foi proposital, mas reflete duas coisas: intolerância com as limitações humanas e o hábito de generalizar.
Primeiro: eram épocas difíceis , como todas foram. Mas mesmo assim, em algum lugar, naquele momento, existiam pessoas que estavam felizes, que não lamentavam a existência, que não sentiam culpa em viver e desfrutar esta existência curta e ilusória mas extremamente abençoada que Deus nos proporciona com o intuito de nosso aperfeiçoamento.
Hoje, quando ainda existem regiões do planeta aparentemente abandonadas pela Providência divina, nenhum místico em sã consciência amaldiçoará sua vida e a dos seus em sã consciência. Pessoas ponderadas não generalizam. Não concluem que por que ao seu redor existem situações que podemos considerar humanamente inaceitáveis, o planeta e a humanidade como um todo seja inaceitável também.
A dor é algo extremamente pessoal e cada um lida com suas limitações do jeito que melhor lhe parece, uns sentindo-se derrotados e outros motivados e desafiados pelos problemas.
Basta que olhemos a paixão do Cristo. Quem passou pela agonia que ele passou não deveria amar a Vida e as pessoas.
E este não é seu discurso. Seu discurso é de amor, não de punição. Ele vem ao mundo para renovar a antiga aliança que existia entre Deus e Moisés. Para transmutar um Deus de Vingança em um Deus de Amor.
E este era o Cristo, o profeta que gerou um dos maiores e mais importantes movimentos religiosos de todos os tempos: o Cristianismo.
Só que é importante lembrar, existe uma diferença entre o Cristo e o Cristianismo, entre o homem e sua mensagem e a religião institucionalizada em seu nome, que recebeu um contorno e uma forma depois do concurso de vários pensadores ao longo dos séculos.
O tipo de pessimismo espiritualista presente em Saint Martin ou em Martinez de Pasqually, e que eles defendem ser produto de uma visão “Cristã” de vida , nada tem a ver com o homem que ia pregar na casa do Cobrador de Impostos, que freqüentava casamentos, que abençoava prostitutas e cujo primeiro grande milagre foi transformar água em vinho.
Não. Este é o Cristianismo da Igreja Católica, a mesma que se diz representante do amor e do pensamento de Jesus, mas que perseguiu e matou milhares de homens e mulheres em nome deste mesmo “amor”.
É preciso separar portanto, as bases de um comportamento em seus componentes essenciais para compreender porque pessoas até esclarecidas mas ingênuas do ponto de vista filosófico tomam como verdadeiro o que é falso, ou seja , que a Igreja representa de maneira correta o que o Cristo pregou.
A tristeza de Saint Martin com a vida é eco direto do discurso que exalta a miséria e a pobreza e nega o direito ao prazer e à felicidade tão presente nos discursos de padres e papas daquele período.
Nós místicos, sabemos o preço que tivemos que pagar por esta tirania psicológica que ao longo de séculos combateu a Inteligência a Arte e a Liberdade de Pensamento e perseguiu de forma implacável e sanguinária todos os que dela discordaram.
Graças a Deus os tempos são outros. A Instituição Igreja ainda está presente em nossos dias, mas hoje é uma pálida lembrança de seus tempos de poder e discriminação.
Os papas já não dizem o que devemos ler, os filmes que devemos assistir ou como devemos pensar. Mas os homens de Bem precisam estar vigilantes todo o tempo pois o Obscurantismo está à espreita, sejam em território Cristão ou Muçulmano.
E talvez seu legado mais maléfico tenha sido o de fazer milhões de pessoas de , até nossos dias, sentirem-se culpadas em ser felizes e achar que se tudo vai bem e se prosperam, algo está errado, porque isto não deve ser a coisa certa.
Lutemos internamente contra este trauma que nos foi imputado por séculos de lavagem cerebral e entendamos que entre nós e a felicidade existe uma cortina, a visão religiosa conservadora, e que como místicos, mentalmente saudáveis, temos por obrigação rasgar este véu, para perceber que este Deus de Vingança desenhado nesta cortina esconde a verdadeira face do Deus Misericordioso e Amoroso que o Cristo pregou.