Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 12 de novembro de 2011

OBJETIVO X SUBJETIVO, CONSCIENTE X SUB CONSCIENTE


Por Mario Sales, FRC.:;S.:I.:;M.:M.:




Há palavras que desafiam nossa compreensão ou mesmo nos confundem. Expressões como Plano Objetivo e Subjetivo são aparentemente simples de entender já que percebemos, intuitivamente, referem-se, uma àquilo que tem caráter concreto, ligado à realidade palpável, e a outra, às concepções pessoais deste chamado mundo concreto no qual habitamos e com o qual nos relacionamos, cotidianamente, concepções estas que modificam para nós a percepção e o significado simbólico destas concretudes. Para alguns, uma estátua é apenas pedra; para outros, simboliza romance, inspiração. Este é o caráter subjetivo de uma contemplação. 


Já o Plano Objetivo, por sua vez, diz respeito ao sensorial, desde que este não esteja corrompido em sua função por distúrbios neurológicos causados por situações adversas fisiológicas ou aquelas artificialmente provocadas por drogas. Os exemplos clássicos são a miragem por desidratação no deserto e o álcool que quando consumido em excesso "nos faz ver coisas". 
Por outro lado, o subjetivo tem a ver com impressões, aquilo que julgamos ver em algo que contemplado por outra pessoa se revelará de outra forma. Neste caso estamos lúcidos e acordados, mas é como se sonhássemos. 



O mais curioso é que o chamado Plano Objetivo é tido como algo próprio do estado Consciente, mas freqüentemente não é assim. Alguém que em nada se parece com nossa mãe nos traz a sua recordação. Só que esta pessoa que nos lembra nossa mãe, embora não tenha a mesma fisionomia, usa o mesmo perfume e, muitas vezes automaticamente, inconscientemente, percebemos seu odor e fazemos a associação. A percepção objetiva foi, portanto alterada por um dado inconsciente, que por ser inconsciente, é classificado de subjetivo. O que concluímos aqui é que o subjetivo, portanto, não tem caráter necessariamente espiritual, e certas vezes nem psicológico, mas neurológico, só que de forma tão inconsciente que não nos damos conta. (esquema 1)
Esta distinção entre o que antes se chamava de subjetivo e apenas psicológico e o que hoje se sabe orgânico e neuropsicológico, tem uma grande importância. Evidencia coisas que Schopenhauer já descrevia. As necessidades do corpo são informadas ao nosso cérebro de modo inconsciente e lá são sublimadas e transformadas em pensamentos e idéias na mente, dando a impressão de que nasceram na mente no momento em que se tornam conscientes, quando na verdade têm uma existência mais antiga, originada no inconsciente ou subconsciente, para só depois se tornarem claras para nós. 
Por exemplo, meu corpo detecta necessidade de água. O que acontece? A informação é repassada ao cérebro e a boca imediatamente seca. Levanto e vou em busca da água. Suponho que minha sede se iniciou a partir da língua seca. Tudo começou muito antes, no entanto. Só que não nos apercebemos disso.[1]

sublimação dos impulsos orgânicos

Recentemente, um interessante trabalho mostrou que nem mesmo as escolhas são conscientes. A avaliação é feita em segundos pelo inconsciente e só depois da decisão tomada é que esta se torna consciente para nós, digamos assim, com pinta de decisão independente. A pergunta é: quais os critérios que o corpo considera para tomar suas decisões, por exemplo, entre dois tipos de líquido, o vinho e a água, para desfazer nossa sede? 
Provavelmente ele, corpo, considera aspectos que jamais seríamos capazes de identificar, já que o corpo tem informações sobre ele mesmo em tempo real que nossos modernos recursos de exame na mesma velocidade não poderiam ter. O teor de cálcio, fósforo e potássio, o nível da glicose e das gorduras, as enzimas, a quantidades de hemácias do sangue e das plaquetas, tudo isso o corpo acompanha, através do sistema nervoso autônomo, sem que nenhum de nós tenha que fazer qualquer movimento. Provavelmente também a qualidade destas escolhas inconscientes é mais perfeita do que se tentássemos fazê-la de modo consciente, no qual a infinita quantidade de variáveis envolvida na decisão nos enlouqueceria.

Sigmund Freud

Nós, seres humanos, habitamos um corpo automatizado, que pelo menos aparentemente nos deixa livres para empreender outras coisas como, por exemplo, pensar, considerar os aspectos elevados da existência, comungar com o Todo Poderoso na busca de mais informações sobre a natureza da vida, e outras coisas mais. Estas outras coisas, com certeza, são o principal objetivo da existência e o corpo, de forma autônoma, deveria se manter equilibrado todo o tempo e nada deveria ser capaz de impedir isto. 
Carl Gustav Jung

E o que impede que isso ocorra, então? A ação da mente, segundo Masaharu Taniguchi, fundador da Seicho-no-Iê; a ação da mente, segundo os Yogues; a ação da mente, segundo os acupunturistas, já que os estados de humor levam a bloqueios do fluxo de Ki e desencadeiam assim todas as patologias no corpo físico. E onde está esta mente de que falamos? No espaço do subconsciente, ou inconsciente, como queiram, o mesmo espaço responsável pela manutenção da saúde e da homeostase.
Daí a necessidade premente de compreender a natureza desta entidade invisível e altamente instável, nem que seja para conseguir saúde física e psicológica. 
Teçamos pois algumas considerações sobre a Mente.
Vimos que, em grande parte do tempo, ela funciona sem influencia do consciente. Concluímos que a função mental praticamente prescinde desta mesma Consciência que antes julgávamos tão poderoso e presente. Será no entanto, tão pequena assim a participação do Consciente no processo mental? 

Schopenhauer

Porque o sentido seria unidirecional, do inconsciente para o consciente? Será o consciente , digamos, tão subserviente assim ao inconsciente? Não, a psicanálise mostrou que através de diálogos em estado de vigília, sem recorrer a hipnose, o indivíduo é capaz de mexer com suas profundezas, de retornar sobre seus passos, desde os degraus do andar de cima, digamos assim, do consciente, até o primeiro degrau da escada lá embaixo, no subconsciente e contemplar, uma vez lá, a origem de seus comportamentos. Da mesma maneira que o inconsciente influencia o consciente e subjetiviza o que parece extremamente objetivo, do mesmo modo nossos pensamentos e a educação psicoterapêutica ou o processo iniciático verdadeiro, como já discutimos antes, podem nos ajudar a objetivizar o subjetivo no inconsciente e modular e melhorar o desempenho de nosso subconsciente. 

Inconsciente


Só que isso não é novidade. Se pensarmos bem, Freud havia postulado três níveis de atuação da personalidade, os quais interagem entre si: um que tem expressão social e que nos representa nas relações humanas, o Ego, que vem a ser a resultante do encontro de dois outros níveis, forças poderosas, uma representando o mundo das pulsões, o Id, e outra representando o mundo dos valores sociais educacionais, o Super Ego, que Nietzsche tão bem trabalhara anos antes, discorrendo sobre o papel dos valores morais na determinação dos comportamentos. Freud, em sua época, postulou que a liberação do jugo do Superego pelo Ego permitiria a manifestação natural e livre do Id o que traria o indivíduo de volta a um estado de saúde psicofísica (esquema 2). Os sintomas neuróticos seriam manifestações deslocadas de forças reprimidas e que escapavam por lugares inesperados, como a fumaça de um incêndio em uma casa fechada escapa pela primeira janela aberta que achar.
Eu postulo algo diferente: que a Homeostase entre as forças e não a anulação de uma delas é que leva à saúde mental. A simples anulação de estruturas originadas na educação, pressupostas todas como elementos de repressão e recalque dos desejos, não leva necessariamente ao estado de equilíbrio e saúde. Gosto da idéia da fumaça do incêndio, mas como Jung, penso que as forças do Inconsciente, do Id, não são apenas fumaça sem sentido. A mente a meu ver é mais parecida com a caldeira de uma antiga locomotiva ferroviária do que com uma casa em chamas. O vapor, bem contido, bem liberado, movimenta as engrenagens e o trem progride, rápido, nos trilhos. Pressão demais, e a caldeira explode, e o trem pára. Pressão de menos e a máquina não funciona, e o trem outra vez pára. Não se trata de liberar o vapor ou não, mas de manter a máquina em movimento. 
Colchão D´água


Trata-se do que eu chamo de Teoria do Colchão D´água. Se Freud estiver certo, e três forem as instâncias que dialogam dentro de nós, provavelmente elas estão relacionadas entre si como a água dentro de um Colchão D´água. Se mexermos em uma, mexeremos nas três ao mesmo tempo, como quando sentamos no colchão em um dos lados e todos as partes do colchão se movimentam. 
Masaharu Taniguchi

Trata-se de modular a intensidade de cada um dos três componentes para que o equilíbrio se restabeleça. O que Freud brilhantemente percebeu e usou em seu método psicanalítico foi a idéia de que drenar alguma pressão deste subconsciente sobrecarregado diminuiria a pressão interna e faria desparecerem os sintomas neuróticos. Só que o processo psicanalítico é lento e complexo e não é capaz de liberar todas as forças recalcadas no subconsciente, mas apenas uma parte delas, o que em si já seria suficiente para diminuir a intensidade e o número de sintomas neuróticos. Liberar tudo de uma vez, anular o Superego totalmente, não é o objetivo correto nem desejado, acredito, nem para a Psicanálise, se entendi bem o pensamento de Freud. É preciso equilibrar os componentes da tríade. Se como Freud queria, existe repressão, isto não se deve a simples presença de um Superego em si, mas ao peso que ele recebeu na equação das forças; e o Id , da mesma maneira, como dizia Millor com sabedoria, não é inconsciente à toa, mas porque sua liberação sem critério mergulharia o indivíduo em uma experiência anti-social, o que para alguns psicanalistas necessariamente não seria um problema, mas para a sociedade em seu conjunto, na minha humilde e talvez conservadora opinião, seria. 
O que chamamos de Plano Objetivo, Consciente, portanto, é apenas o resultado de um entrecruzamento de forças inconscientes, abaixo, no Id, e inconscientizadas no Super Ego, acima, (porque automatizadas pela educação, como um condicionamento absorvido)  o que torna este chamado Plano Objetivo muito, mas muito Subjetivo (esquema 2). Não é a toa que existem salvaguardas no processo científico para evitar a subjetividade na aplicação de um experimento bem como na interpretação de seus resultados. Isto decorre da constatação de que o Subjetivo, este sim, é Onipresente, e é impossível ter um conhecimento verdadeiramente científico se não formos cuidadosos em nossas análises. A mais conhecida destas estratégias é o uso do modelo duplo cego nos trabalhos científicos onde nem o cientista , nem o indivíduo que está recebendo uma droga de teste sabe se está tomando a droga em questão ou um simples comprimido de açúcar, já que é conhecido o poder da mente para achar que melhorou se for induzida a crer que tomou um remédio muito poderoso (efeito placebo). 
Em síntese, quando falarmos em Plano Objetivo, estaremos falando apenas em estado de Vigília, o estado em que estamos acordados, já que, depois deste arrazoado, se eu falar que este é o plano onde estamos Conscientes, estarei sendo contraditório. 
Consciente e Inconsciente (ou Subconsciente) interrelacionam-se e interferem no que chamamos de atividade mental objetiva ou subjetiva, sem distinção de fronteira entre eles. Dizendo de outra forma, o que chamamos de subjetivo é muitas das vezes um processo meramente orgânico, mas não consciente, enquanto objetivo é tudo que chamamos consciente, mesmo que não o seja totalmente, como vimos, mas secundário a desejos orgânicos inconscientes. 




Portanto, se seguimos o discurso Rosacruz e encontramos o aforismo de que o homem é um ser dual, composto de um aspecto objetivo e outro subjetivo, o primeiro voltado para as coisas da matéria, e o outro, o subjetivo, voltado para as coisas do espírito, cometemos um pecado conceitual. Ambos, de fato, planos objetivo e subjetivo, estão misturados, como as linhas da ilusão de ótica acima. Não podemos dizer que o lado subjetivo é espiritual, já que muito desta subjetividade responde a estímulos inconscientes orgânicos, físicos e não espirituais, enquanto que o lado objetivo não é necessariamente voltado para a matéria porque atende as questões cotidianas e de sustentação da vida material, uma vez que a reflexão espiritual, as elaborações metafísicas são, na maioria das vezes, práticas feitas no Plano Objetivo. E já que o sistema nervoso autônomo cuida da manutenção, como o nome diz, automática da existência física de forma inconsciente, vemos que o lado chamado subjetivo também cuida da parte material, talvez de forma muito mais significativa do que o lado objetivo; e, insisto, quando oramos, oramos com nossa consciência desperta e acordada, pensando e sentindo nossas palavras e para isso usando nosso lado objetivo, consciente, e não aquele lado sobre o qual não temos nenhum controle, o inconsciente, e que muitas vezes, isso sim, nos controla organicamente e determina nossas opções psicológicas. 
Não é verdade, portanto, que Deus esteja no lado subjetivo e que, digamos assim, o Diabo esteja no Objetivo, ou vice versa. Deus está presente em ambos as partes que nos compõem, cada uma ao seu modo, partes de um mecanismo de autopreservação. O espaço que resta para nós de autonomia e ação voluntária é muito, muito pequeno, e é nele que desenvolvemos nossos exercícios mentais e jogamos o jogo da existência, chamado de batalha por alguns e representada, simbolicamente na Mitologia Hindu, na interpretação de Paramahansa Yogananda, pela expressão “nosso Kuruksetra”.


ESQUEMA 1



ESQUEMA 2