Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 26 de novembro de 2011

O OVO DA SERPENTE


por Mario Sales, FRC.:, S.:I.:;M.:M.:

“Las niñas”, de Velasquez

Sempre tive aversão ao esotérico, ao desconhecido. Acho que, em parte por isso, tornei-me um esoterista.
Como um quadro de Velásquez visto por Picasso, muitas vezes Esoterismo não é algo necessariamente profundo, mais alguma coisa de rara beleza tornada confusa por uma imagem propositalmente pouco clara e que, na maioria das vezes, conduz ao equívoco e ao erro.
Havia alguma razão para isso no passado.
Perseguições religiosas no tempo da inquisição, e, depois da Revolução Francesa, arbitrariedades políticas e a ignorância nos aparelhos de Estado, transformavam a todos os esoteristas em suspeitos e perigosos.


“Las niñas” de Picasso


Hoje isso não faz mais sentido.
O que os esoteristas fazem ou deixam de fazer, felizmente ou infelizmente, não interessa ao vulgo ou a população de modo geral, muito menos ao Estado.
Talvez por uma questão de auto estima infantil insistamos, fantasiosamente, em nos achar perseguidos e necessitados do mistério e do segredo, como se todos nós com o mínimo de discernimento já não soubéssemos que o segredo está dentro daquilo que é profundo e não no fato de escondermos um texto dos olhos dos não iniciados.
Picasso

De qualquer forma, se o segredo esotérico não faz mais sentido, o esoterismo de alguns símbolos do passado também não faz. Se eles nos fascinam, o fazem pela sua beleza e riqueza plástica, mas não por que tragam em si novidades aos iniciados mais experientes, os únicos que poderão lê-los. São símbolos que não ajudam, do ponto de vista educacional e iniciático, a percepção de verdades transcendentais ou de valores mais profundos da espiritualidade.
Muitas vêzes pode ser que, decodificados, se revelem apenas como a expressão de preconceitos religiosos de época, que precisam ser considerados em perspectiva histórica para que tenham significado em nossos dias.
Nem tudo que é antigo e esotérico é profundo e tem significado eterno.

Estamos em uma civilização cada vez mais globalizada onde as imagens esotéricas também estão muito mais diversificadas.
A Bíblia, grande fornecedora de imagens e símbolos para os artistas e esoteristas dos séculos XVII e XVIII, embora muitos fundamentalistas ocidentais não tenham se dado conta disso, já não é o único livro sagrado disponível fornecendo inspiração aos que a buscam, considerando que as imagens e os valores do Bhagavad Gita, do Corão Islâmico, ou mesmo as Sutras do Budismo e dos Vedas estão hoje disponíveis a um toque de mouse.
Outras imagens, outros imaginários esotéricos, outras compreensões do Sagrado.



Por isso é cansativo ver a intensidade com que muitos se lançam no esforço de tentar encaixar a Realidade sempre múltipla e dinâmica, nos arquétipos produzidos por um único livro. Por maior que tenha sido a contribuição do conjunto de livros que forma a tradição do povo judeu e embasa a prática cristã, seus esquemas já não satisfazem, nem são suficientes para abarcar todas as possibilidades. Aliás, não é um problema de um livro. Acontece com todos os livros.
Discussões estéreis como as descritas em O Nome da Rosa, de Umberto Eco, entre Beneditinos e Franciscanos, como “se pertenciam ou não ao Cristo as roupas que ele usava” não fazem mais nenhum sentido num mundo onde o drama da aniquilação da natureza e do risco de extinção de nossa própria espécie é a angústia maior.
Infelizmente muitos não se apercebem disso nas escolas esotéricas que continuam discutindo temas como A Queda de Adão, o Bem e o Mal, e a Astrologia, ou mesmo uma visão da Numerologia francamente supersticiosa como se tais temas pudessem melhorar a nossa compreensão dos problemas reais que nos afligem no nosso cotidiano.
A superstição sempre será filha da ignorância, e mesmo que vista roupas novas e vistosas seu odor pútrido continuará a denunciá-la por baixo de suas belas vestes.
Precisamos desesperadamente de um esoterismo e de um misticismo consonante com uma visão de mundo mais contemporânea, que contemple a espiritualidade e a dignidade humana mas também a inteligência e o bom senso, aspectos que podem ser colhidos no jardim da Filosofia e da Ciência ortodoxa e não em práticas ditas “alternativas”.
Pensar bem, construir uma cultura sólida, baseada em conhecimento fundamentado faz bem a qualquer espírito.
É a única maneira de nos vacinarmos contra os charlatães e as charlatanices disfarçadas de esoterismos que temos de engolir todos os dias.
Fora o fato de que a cultura diversifica nossa perspectiva do mundo, dando-nos uma visão pluricultural de nosso planeta e da humanidade que o habita, livres da interpretação unicista de um único livro, de um único tipo de pensamento.
A Ordem Rosacruz já foi uma escola de pensadores alternativa. Fez com que muitos em épocas difíceis de acesso à cultura tivessem o primeiro contato com o pensamento de Plotino, Platão ou Paracelso, graças a pequenos trechos de seus ensinamentos, as “concordâncias”, aparentemente menos importantes, mas que desencadeavam a curiosidade que levaria a uma leitura mais profunda de um tema antes desconhecido.

Comenius

Hoje isso ainda acontece, mas é insuficiente. Como Comenius, desejo que todo Rosacruz seja um rato de biblioteca e um Iluminista em uma época de seres superficiais, mas que leiam textos realmente fundamentais pois da mesma maneira que as publicações se multiplicam, aquelas de qualidade indiscutível continuam sendo em pequeno número. E este deve ser o objetivo de todo rosacruz, buscar a luz do conhecimento e fugir de toda mediocridade cultural, o verdadeiro demônio, as Trevas mais sombrias, que nos tornam velhos, acomodados e estúpidos.
Ouvimos sempre que a Luz Espiritual nada tem a ver com a Luz Intelectual, e acreditamos nisso, mas devemos reconhecer também que este pode ser o discurso da mediocridade, um canto de sereia, o discurso que nos enfraquece e nos faz crer que, da mesma forma, as Trevas Culturais podem nos levar mais depressa ao Mundo Espiritual.
Isto é falso, e precisa ser denunciado, várias e várias vêzes, a todo pulmão.
Escolas esotéricas não podem, repito, não podem ser o abrigo dos supersticiosos e dos tolos.


Tem que ser Escolas formadoras de líderes, guias para a sociedade, e isto por si só, fortalecerá sua própria Luz Coletiva de tal modo que, neste momento, seu farol será visto de muito longe no Oceano da Humanidade.
Nossa Luz coletiva depende da qualidade e da intensidade da Luz de cada um de nós membros destas escolas e por isso, por amor a nossas Ordens, não podemos compactuar com a superstição, a mediocridade ou com a cultura de um único livro, coisa que pode ser aceita dentro de um grupo religioso, mas nunca em uma Escola de Mistério.


Sem discutir estes aspectos falar sobre aumento de membros, melhoria do nível de nossas Lojas e Capítulos é perda de tempo.
O que muda o membro é a qualidade da educação que lhe fornecemos e quando permitimos que esta qualidade não seja de alto nível, tolerando o discurso da superstição disfarçado de estudo esotérico em nosso ambiente, estamos apenas chocando o Ovo da Serpente.