Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 30 de abril de 2013

DESABAFOS


por Mario Sales



Prezado irmão,
Há muito tempo não comento seu blog, mas não pude deixar de reparar que neste último você realmente desabafou o que lhe incomodava.
Não posso falar por todos, mas acredite, certos questionamentos e indagações que lhe fiz num passado não muito longínquo foram a título de esclarecimento. Além disso, seu blog parece-me uma zona neutra e segura, onde os debates acontecem sem que aja interferência da GLP (pelo menos até o momento). Você vêm representando um papel importante na senda Rosacruz e Martinista (acredito que até mais do que como maçom) neste blog, as pessoas confiam a ti suas dúvidas e questionamentos mais profundos, vêem em você um conselheiro confiável, uma fonte de informação segura e imparcial (não estou bajulando, nem adulando, apenas expressando minha opinião), e é por isso que as vezes, alguns frateres e sorores que estão passando por um momento de questionamento intenso podem as vezes se expressar de forma errônea, afinal de contas, as dúvidas delas não são contra você, mas elas acreditam que aqui serão ouvidas e obterão uma resposta sem sofrerem algum tipo de represália ou punição.
Se esse medo excessivo ocorre, é porque a GLP, os conselheiros e os oficiais de loja assim o propagaram ao longo das últimas décadas.
Sinceramente, acredito que ao invés de se sentir confrontado, fique feliz em saber que tantos buscadores encontram em seu blog um porto seguro e um farol do conhecimento.
Afinal de contas, essa vida é passageira e num piscar de olhos a gente já está se preparando para voltar para cá. TFA

Comentário de Frater Julio em A ESTRATÉGIA DO MAL



"...Tenha paciência, Deus está contigo
Deus está conosco até o pescoço..."

Trecho da letra de "Cartomante", de Ivan Lins e Vitor Martins



O Terapeuta, de Renée Magritte

Ando sem paciência. Concedo.
E minha falta de paciência reflete-se nos textos, nos desabafos que me sobem em momentos de incontinência emocional. E agradeço a Deus por cada excesso em palavras ou emoções, porque são excessos frutos de emoções honestas e humanas.
Alguns podem achar que místicos não são pessoas, que Cagliostro não usava o banheiro, ou que Pitágoras não tinha mau hálito ou unha encravada.
Tolice pura. Todos os homens na carne, penam as contingências da carne, todos transpiram como eu, todos sentem a dor de um corte inadvertido, todos tem irritações eventuais na pele e se coçam.
Alguns , mais românticos e fantasiosos, apegados às visões dos escritores de ocultismo franceses, mandam-me como argumentos de suas idéias textos idealistas sobre seres invisíveis, imaculados, espíritos superiores que apenas por misericórdia estão no mundo, mas cuja mente transita todo o tempo em esferas mais elevadas.
Acreditam na existência de seres especiais e diferenciados, mas recusam-lhes sua humanidade.
Senhores, convenhamos, um espírito que não conheça a carne e seus constrangimentos, não conhece a criação.
Esta visão de que nós, como místicos, devemos esquecer nossa natureza e demonstrar uma santidade idealizada pelas crenças e valores consagrados pela literatura, não só é falsa como fora de moda.
Místicos têm sentimentos, frustrações, problemas domésticos, dores de barriga.
Místicos sentem sede, fome, vontade de urinar.
Místicos tem problemas familiares, problema de saúde, problemas de relacionamento. Místicos comem pizza, às vêzes demais, e Cagliostro comeria muita pizza se pizza existisse em seu tempo.
O comentário de Frater Julio foi um alento, um ato de carinho e de fraternidade pelo qual agradeço.
Mas Julio, meu velho, não conheço culpa por atos honestos, ou não, se forem fruto, como disse, de emoções honestas. Tem horas que é difícil ter paciência com tolices descabidas, com receios infundados, com este estado de infantilização disfarçado de disciplina quando as pessoas não contribuem com suas opiniões, dúvidas e críticas por terem medo de se expressar com franqueza, por estarem em um ambiente que não permite o diálogo, a diferença de opiniões em ambiente fraterno.
É disso que venho falando nos últimos meses, antes de Reginaldo nos deixar de maneira súbita e inaceitável com facilidade, opiniões com as quais ele concordava.
Ambos , eu e ele, somos dinossauros da rosacruz, de ler monografias grandes e roxas.
Ambos, e agora falo com você Julio, nem eu nem Reginaldo tínhamos muita paciência com esta situação de apavoramento que víamos nos frateres, que sempre foram orgulhosos e estudiosos e hoje não passam de contribuintes assustados, cujos juramentos de fidelidade, que fizeram de boa fé e em ambiente sagrado são lembrados, não como eventos nobres, mas como compromissos de intimidação, em falas como :"veja bem, você jurou lealdade, não critique a Ordem". Todos nós, inclusive eu e Reginaldo, que embora morto ainda é uma referência de erudição na comunidade rosacruz brasileira, juramos lealdade à Rosacruz, e juramos com seriedade. Mas isto não significa que estejamos proibidos de pensar, de sentir, ou de manifestar nossas idéias livremente.
E tanto eu como ele tínhamos e temos opiniões não muito ortodoxas, mas nem por isso destoantes do espírito rosacruz livre pensador. Isto estava no Círculo de Tubingen, com Johann Valentin Andreae, e continua hoje, quero crer, em todos aqueles que livremente, concordando ou não comigo, fazem comentários neste blog.
 Por isso, com ironia, coloquei na entrada que este blog é "Um exercício solitário, poético e filosófico, baseado no preceito rosacruz da mais completa liberdade (possível) dentro da mais perfeita tolerância (possível). A maçonaria, o martinismo  e o rosacrucianismo como reflexão."
Eu acredito nisto.
Parucker repetia esta frase a cada convenção em Curitiba. Portanto, ele, nosso honrado ex-Grande Mestre também acreditava nisso.
Aonde a liberdade deixa de ser liberdade e passa a ser um destempero vai do bom senso de quem exerce essa liberdade, de agir e de pensar. Espera-se que sobre seus excessos derrame-se a tal tolerância supra citada. Esta é a Ordem que eu e Reginaldo nos afiliamos e na qual acreditamos, de coração, mas sem fantasias e romantismos, porque eu e ele éramos e somos seres humanos comuns, imperfeitos e orgulhosos de nossa imperfeição, esta característica da condição humana.
Por isso, meu caro Julio, desabafei sim, e me sinto bem melhor agora que o fiz.
Gosto quando o desabafo expõe de modo franco minha insatisfação com esta perda de realismo sobre o que é um rosacruz. Rosacruzes são como plantas, precisam de liberdade, precisam de espaço para experimentar e aprender o que puderem do mundo, mesmo sendo seres humanos imperfeitos, como Reginaldo era e eu sou.
Aliás, precisamos de espaço para experimentar porque somos seres humanos imperfeitos, e não por outra razões.
Porque ao contrário do que pensam escritores românticos como Tobias Churton ou Sédir, que granjearam fama pelos seus textos e não por seus feitos, rosacruzes não são nada mais além de pessoas bem visíveis, seres humanos bem comuns, mergulhados até o pescoço em uma existência humana e carnal e não espíritos olímpicos inatingíveis ou insensíveis às emoções.
Sim, tenho sentimentos.
E me orgulho disso, Julio, meu amigo.
Me orgulho muito disso.