Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 14 de abril de 2013

A BELEZA DA VIDA ESTÁ DENTRO DE NÓS


por Mario Sales
Monet, pintando em seu jardim, em Argenteuil


Eu mudei a entrada do Blog e coloquei como fundo um quadro de Monet, que aliás é um autoretrato do próprio Monet pintando seu jardim , no seu jardim, em Argenteuil, onde produziu algumas das mais preciosas obras da arte humana. Tenho profunda ternura pelos quadros de Monet, como de resto por todos os pintores que tentam, a cada dia, expressar a beleza e a sensibilidade que lhes vai na alma. Produzir beleza, além de tudo como profissão, é uma bênção, se bem que nem todos os artistas conseguiram uma vida serena como seus quadros, como suas obras. Monet é um desses que conseguiu. É óbvio que teve seus problemas pessoais e humanos, mas sua vida, seu cotidiano, nos jardins de Argenteuil foram tão serenas como a vida em um jardim, pintando este jardim, e vivendo destas pinturas, pode ser. Lá ele recebia seus amigos, também membros do movimento impressionista, Édouard Manet, Pierre-Auguste Renoir e Alfred Sisley. 

Casa de Monet em Argenteuil, 1873

O termo impressionista aliás , vem de um título de um quadro seu, "Impressão, nascer do sol", que recebeu uma crítica cáustica do escritor Louis Leroy, dizendo poucas e boas daquele quadro "Impressão". Ao invés de ficarem bravos, Monet e seus amigos tomaram o termo como nome de seu movimento e surgiu o Impressionismo, este conjunto de quadros que com pinceladas rápidas sugerem uma imagem que tem que ser observadas um pouco de longe para serem compreendidas, tem que ser pensadas, não apenas observadas.

Impressão, nascer do sol

Assim o impressionismo é também um estímulo aos cérebros dos contempladores, obriga-os à um esforço de compreensão na contemplação e isto os torna melhor.
Quem não só contempla a beleza, mas contempla uma beleza que não se revela com facilidade, (que não se entrega de maneira gratuita, mas que precisa ser extraída da experiência, resgatada da profundidade de nosso hemisfério direito, que mexe com todas as nossas fibras, que nos desconcerta), torna-se melhor como pessoa e esteta. 
Nenhum ser humano pode realmente ser humano sem ser um esteta, uma pessoa capaz de buscar e compreender a beleza que está no mundo, nas coisas e nas pessoas. 
Mais humano é aquele que vê beleza, mesmo recôndita, oculta, complexa, em todas as coisas que contempla, que consegue ver o divino em todas as suas manifestações sem se horrorizar ou sentir embaraço com aquelas que desafiam os seus hábitos contemplativos, já que está consciente de que, embora o número de imagens produzidas por uma caleidoscópio sejam infinitas, o número de espelhos é constante, as bases da produção são as mesmas, estáveis, perenes, divinas em essência.

Claude Monet, 1899

O Uno, aquilo que fundamenta esta pirâmide invertida em que se espelha a criação, expresso no mito de Atlas, que sozinho sustenta a Terra em suas costas, expande-se em miríades de variações a partir de um único paradigma.
É importante entender que a beleza não é apenas uma manifestação isolada em frente ao contemplador. 
A responsabilidade da construção da observação é divida entre objeto contemplado e o contemplador. A experiência do belo, seja na visão de um quadro ou na visão da vida, depende tanto do que é visto como de quem vê.
E a mente que se aprimora vê beleza em todas as coisas, uma beleza que está lá, e que só se revela quando entramos em harmonia com a Criação. 
Essa é a maior manifestação da vida mística: a harmonia, a capacidade de sentir-se parte desta imensa gama de possibilidades que chamamos realidade, numa fusão, ou em sânscrito, numa Yoga com o objeto contemplado.
É Narciso agora que devemos convocar para explicar a Iluminação Mística, que se manifesta na percepção da beleza naquilo que está a sua frente e na descoberta de que esta beleza é apenas a sua própria imagem refletida.
Rubem Alves diz que a primeira e mais importante função da educação é ensinar a ver.
É verdade.