Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 27 de abril de 2013

O ROSACRUCIANISMO NÃO É UMA RELIGIÃO


por Mario Sales



O forte desenvolvimento da Ordem Martinista nos últimos anos, dentro da Ordem Rosacruz, abrigada por Spencer Lewis, e preservada por Ralph Lewis, traz em seu bojo aspectos que deixam confusos frateres e sorores ao longo dos anos e tem causado episódicos problemas aos Grandes Conselheiros da AMORC em suas respectivas regiões.
E talvez o problema mais frequente seja o daqueles que, percebendo a diferença de viés entre as duas Ordens, sentem-se desconfortáveis de pertencer ao Martinismo e mesmo fazem uma campanha explícita contra a prática martinista dentro da Ordem. É verdade que estas vozes aos poucos tem diminuído e tendem a desaparecer, porque refletem pensamentos pouco flexíveis e de difícil adaptação a novas possibilidades. De certa forma, também são manifestações de anticlericalismo e considerando a história de perseguições e mortes engendrada em certos períodos da Igreja, muitas vêzes contra rosacruzes, entende-se o desconforto psicológico em abrigar uma Ordem Cristã.



Sim, porque ao usar-se o termo "Cristão" pensa-se imediatamente em Cristianismo, e o "Cristianismo", como movimento histórico, e a mensagem de Jesus o Cristo, como já vimos aqui, são coisas absolutamente diferentes. Principalmente pelo fato de Jesus jamais ter pertencido a nenhuma seita ou religião, de ter pregado uma prática de desapego as coisas materiais e de ter vivido de modo simples e sem luxo, enquanto aquela que se diz sua representante na Terra age como sabemos.


Louis Claude de Saint Martin

Nesta análise, entretanto, isto não vem ao caso. O que importa é que falar em uma Ordem Cristã dentro de um meio esoterista e religiosamente heterogêneo como é a Rosacruz, por mais que não sejamos sectários, é querer que óleo e água se misturem.


Jacques de Livron Joachim de la Tour de la Casa Martinez de Pasqually

Esoteristas não tem uma visão de Deus antropomórfica. Martinistas também não, mas parecem ter, ao transformar o Cristo Jesus no Grande Arquiteto do Universo, modificando uma antiga fórmula maçônica para evitar conflitos religiosos em Loja. Isto é compreensível apenas se lembrarmos que o Martinismo começou como Martinezismo, e que Martinez de Pasqualy era uma judeu Marrano, cristianizado, e que além disto era membro da Ordem maçônica, de onde extraíam-se membros para a Ordem Martinezista, conhecida como Ordem dos Cavaleiros Eleitos.
Ao dar uma personalidade e um rosto àquele que significará a representação de uma idéia, em princípio Universal, imediatamente esta mesma idéia é desuniversalizada e restrita àquele símbolo (no caso Jesus, o Cristo) e é difícil, a não ser para aqueles que já sejam cristãos, que tal modelo seja aceito e compreendido como representante geral da idéia em si.
Além disso, como já disse, ver o Cristo e não pensar na Igreja é muito difícil, embora hoje existam muitas igrejas cristãs diferentes da Igreja Católica de Roma. E se lembrarmos que os autores do Fama e do Confessio Fraternitatis, na Alemanha, eram protestantes anti papais viscerais, adeptos da Reforma de Martinho Lutero, fica mais visível o conflito a que me refiro.


Johann Valentin Andreae

Ordens Esotéricas não são religiões, mas associações de homens e mulheres voltadas ao estudo ou à prática dos ensinamentos ocultos da Tradição em suas vidas. Crêem no poder da mente, são Panteístas, vêem Deus em todas as coisas e em todos os seus Avatares, seja Maomé, Buda ou Jesus, Chico Xavier ou Krishna. Não dão em geral importância maior a um do que a outro, porque como místicos sabem que dentro de cada um destes iluminados, como dentro de qualquer ser humano, está a mesma luz, já que nossas almas são, como aliás ensina o Martinismo, emanações da alma de Deus, e portanto, da mesma natureza divina.
Rosacruzes oram para dentro, ou no máximo diante de sua própria imagem carnal no espelho, de forma a lembrarem sempre que o Deus de nosso coração e de nossa compreensão reside dentro de nós.
Martinistas fazem saudações a símbolos externos, ao qual prestam reverência ritualística, demonstrando sua devoção ao foco de sua oração, o GADU Cristo.
É importante lembrar, a título de justiça, que os ensinamentos de Saint Martin definem a Oração verdadeira e eficiente como aquela que vê no coração de cada iniciado a porta pela qual se chega ao Altíssimo e não em qualquer referencial externo, visão esta que se coaduna com o pensamento rosacruciano.
De qualquer forma, embora haja uma ênfase no pensamento de Louis Claude de Saint Martin, o martinismo que nos chega hoje, no século XXI é produto de um amálgama de visões e posturas, aonde Saint Martin é apenas uma delas, se bem que a principal.
Mistura-se no ritual aspectos do Ocultismo, já abandonados, do século XVIII, do Cristianismo como visto pelos cristãos europeus, do Cabala Cristão de Pico de La Mirândola e do Cabala Judaico de Luria.
Isto assim destrinchado de modo didático torna claro as influências de um e de outro componente cultural e filosófico no que hoje chamamos de TOM, mas dentro de um ritual pode parecer que estamos participando de uma prática monolítica, Una, indivisível, o que não é verdade.
E existem pessoas que não conseguem pensar sobre isso, mas conseguem sentir esta salada de influências juntas no caldeirão de uma única prática, ainda mais que a carta de Stanislas de Guaita, que garante liberdade e aceitação a todos os que frequentarem a TOM, às vêzes é esquecida por este ou aquele dirigente mais autoritário, ao demonstrarem certos excessos de zelo ritualístico que denunciam a mesma falta de compreensão e flexibilidade daqueles que deveriam defender a TOM, dentro da AMORC, quanto daqueles que a atacam como um problema desnecessário.
Absorver a TOM não foi um erro de Spencer Lewis ou de Ralph, foi apenas a manutenção de uma tradição rosacruciana de muitos séculos.
Nós, rosacruzes, não somos uma religião, mas pode-se dizer, estamos entre aqueles grupos chamados de Guardiões da Espiritualidade e de suas manifestações mais elevadas.
Guardamos e protegemos muitas tradições ao longo de séculos e a TOM é apenas mais uma, não a mais importante e provavelmente não a última.
Desde as pirâmides, preservamos a tradição Atlante, a tradição dos ritos de Elêusis, os ritos Órficos, os ritos Zoroastrianos, os ritos pitagóricos, os ritos essênios com seus conhecimentos terapêuticos, os ritos alquímicos, as práticas ocultistas que hoje praticamente abandonamos, alteramos os rumos e o conteúdo da Ordem Maçônica, insuflando-lhe o sopro do esoterismo, e obviamente, preservamos os ensinamentos Cristãos mais profundos, através de nossos pensadores do Círculo de Tübingen[1], além de preservarmos no décimo grau de templo os ensinamentos da nobre ordem dos Iluminatti[2].
Nós, rosacruzes, não somos uma religião, mas somos guardiões de muitas expressões da espiritualidade, pois aonde houver uma vontade legítima de buscar o divino, lá estaremos para velar e proteger esta iniciativa.
E se notarmos nesta iniciativa as características comuns a todas as manifestações de Deus na face da Terra, tornaremos esta iniciativa parte de nossos ensinamentos e a retransmitiremos adiante, mantendo nossa missão de zelar pela perenidade disto que chamamos genericamente de Tradição.


Adam Weishaupt, fundador da Ordem dos Iluminati na Baviera

Este é o papel histórico desta nobre Ordem e a razão pela qual abrigar a TOM é apenas decorrência de nossa própria natureza como preservadores do sagrado.


[1] O historiador francês Paul Arnold foi o primeiro a considerar os três manifestos como a obra comum do "Círculo de Tübingen", ou seja, o grupo que se reuniu ao redor do (futuro) teólogo Johan Valentinus Andreae e dos juristas Tobias Hess e   Christoph Besold, na Universidade de Tübingen (Alemanha). Frances Yates, no entanto, relacionou o rosacrucianismo "clássico" do século XVII unicamente a Frederico do Palatinado e sua corte inglesa em Heidelberg. Apesar do sucesso da tese de Yates, os historiadores Richard van Dülmen, Martin Brecht e Roland Edighoffer reconstituíam os fatos graças a uma pesquisa histórica aprofundada, que aconteceu a partir de 1977. Brecht e Edighoffer estudaram, ao mesmo tempo e independentemente um do outro, e finalmente provaram a autoria dos manifestos. Andreae se fez conhecer como o autor dos textos (sua “obra pessoal”) e Tobias Hess, defensor do milenarismo e partidário de Paracelso (que, como afirma o historiador Carlos Gilly, "Andreae honrou e defendeu após sua morte, como pai, irmão, mestre, amigo e companheiro"), teria sido o mestre e iniciador do grupo de onde saíram os manifestos da Rosa-Cruz.( http://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa-cruz
[2] Illuminati, (plural do latim  illuminatus, "aquele que é iluminado"), é o nome dado a diversos grupos, alguns históricos outros modernos, reais ou fictícios. Mais comumente, contudo, o termo "Illuminati" tem sido empregado especificamente para referir-se aos Illuminati da Baviera, uma sociedade secreta da era do Iluminismo fundada em 1° de maio de 1776.