Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

AS DUAS VOZES



Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:






F: “Estávamos eu e a Rúbia refletindo sobre o seu texto hoje no café... pensamos que existe um problema... que está justamente no modo como a Inspiração nos chega... às vezes nem chegamos a perceber que uma Inspiração Divina está em andamento... é necessário estar "pré disposto" de determinada maneira... é necessário "ver" este ou aquele fato como a Inspiração... o fato de ser Inspiração ou não reside em interpretar "como Inspiração" este ou aquele fato ou percepção... ou sensação... ou pensamento... O texto é belo e inspirador... mas o "problema" da vida está num mero detalhe... o problema de todos os grandes ensinamentos também é este mero detalhe: o "como".”



M: “Atitude adequada, ausência de orgulho, entrega total e incondicional. Este é o "como".”



Ao receber este comentário de meu amigo lembrei da história de Muinudin Chishti, o músico, narrada por Shree Rasheneesh, ou Osho, em um livro memorável que guardo como um tesouro, chamado Raízes e Asas, editado pela Cultrix Pensamento a partir da edição original de 1975. 






Esta é mais uma história das muitas que são narradas neste texto incomparável que Rajeneesh dedicou ao estudo do Zen.
Rajeneesh era um grande psicólogo e educador místico, mas não tinha qualquer respeito por convenções. Inventaria qualquer história para ilustrar seus ensinamentos e dar-lhes um caráter lúdico.
Achei que esse era o caso da história de Muinudin Chishti, o músico. Só que eu estava errado.
Ao escrever este ensaio, pesquisei sobre ele e existem relatos históricos de sua existência, se bem que o episódio que descreverei a seguir carece de confirmação.
Diz Rajeneesh: 




Ajmer, Rajastão, noroeste da Índia 



“Contaram-me uma história. Aconteceu em Ajmer. Você já deve ter ouvido falar a respeito de um músico sufi, Muinudin Chishti, cujo dargah, cujo túmulo, está em Ajmer. Chishti era um grande místico, um dos maiores que já existiu, e era músico. Ser músico” diz Rajeneesh, “é ser contra o islamismo, pois este proíbe a música. Chishti tocava cítara e outros instrumentos. Era um grande músico e isso lhe dava grande satisfação. Cinco vezes por dia, quando os muçulmanos tem de fazer seus rituais de oração,esse místico não orava, mas simplesmente tocava seu instrumento. Essa era a sua oração.
Isso era absolutamente anti-religioso, mas ninguém podia dizer nada para Chishti. Muitas vêzes as pessoas tentavam lhe falar, mas ele começava a cantar. E a canção era tão bela que as pessoas se esqueciam do motivo por que tinham ido procurá-lo. Ele começava a tocar seu instrumento, e isso era feito com tanta devoção que mesmo os estudiosos, pânditas e maulvis, que tinham ido para reclamar, não conseguiam fazê-lo. Só se lembravam de suas objeções quando voltavam para casa; lá lembravam porque tinham ido ver Chishti.
A fama de Chishti espalhou-se pelo mundo. De todos os cantos, as pessoas começaram a chegar. Um homem, Jilani, também um grande místico, foi de Bagdá só para ver Chishti.
Quando Chishti soube que Jilani estava chegando, pensou: “-Por respeito à Jilani, será melhor não tocar meus instrumentos. Ele é um muçulmano tão ortodoxo que não será uma boa acolhida. Ele poderá sentir-se magoado”.
Então somente naquele dia, em toda a sua vida, ele decidiu não tocar e não cantar. Ficou esperando desde a manhã, e à tarde Jilani chegou. Chishti tinha escondido seus intrumentos.
Quando Jilani chegou e os dois sentaram-se em silêncio, os instrumentos começaram a tocar sozinhos. A sala inteira encheu-se de sons. Chishti ficou sem saber o que fazer. Nem mesmo ele ouvira aquela música antes.
Jilani riu e disse: as regras não são para você. Você não precisa esconder seus instrumentos. As regras são para as pessoas comuns. Não são para você.
Você não devia esconder nada. Como pode esconder a sua alma? Suas mãos podem não tocar, você pode não cantar com a sua garganta, mas todo o seu ser é musical. E esta sala está repleta de tanta música, de tantas vibrações, que, agora, ela está tocando sozinha.”
Essa história maravilhosa está na página 74 deste livro.
E ela me encanta por várias razões.
Talvez, no entanto, a principal razão seja aquela que está resumida nesta frase de Jilani: “- As regras são para as pessoas comuns. Não são para você.Você não devia esconder nada. Como pode esconder a sua alma?”
Este é o erro fundamental de toda a nossa educação, a negação de nossa própria natureza.
Todos nós, cada um a seu modo, tem uma missão muito bem definida na existência. E quem dá a missão dá os meios. E quem é este que dá a missão? É o Altíssimo.
Sua voz está em nós, desde que chegamos a este mundo até a nossa transição para o plano espiritual, mas fazemos de conta que não a ouvimos, somos treinados para não ouvirmos sua voz, para desprezar sua orientação. Todos nós, por pudor, equivocadamente, “escondemos nossa alma e nossos instrumentos” na presença de outras pessoas, às vezes até mesmo em nossa própria presença; mas o que é a nossa “presença” a não ser a soma de nossas convicções e pré-conceitos, resultantes de nossa educação? Quando estamos “presentes” jamais estamos “a sós”, mas sempre estaremos acompanhados de ideias e conceitos com os quais fomos empanturrados por pais, mestres, e padres, todos eles com a melhor das intenções.
É preciso antes, então, buscarmos nos afastar deste Eu Construído para nos aproximarmos do Eu Verdadeiro.
E para isso é importante entender o Fenômeno das Duas Vozes.
Existem duas vozes em nós: uma que vem de fora e uma que vem de dentro.
A que vem de fora é a voz da educação mundana, das opiniões dos outros, dos valores de nossa cultura e família.
A que vem de dentro é a Voz de Deus, a inspiração.
A primeira é atordoante, não apenas um som, mas um grito que não cessa; a segunda é muito baixa, quase inaudível, quase imperceptível, e necessita para ser ouvida, que fiquemos absolutamente quietos, absolutamente calmos.
A primeira, a Voz de Fora, causa ansiedade de desempenho, angústia de realização, sensação de incompletude.
A segunda, a Voz de Dentro, só causa alegria, nos tranquiliza e nos invade com uma poderosa sensação de segurança diante de tudo e de todos, em suma, nos faz sentir completos.
A pergunta é esta: se somos música até a raiz de nossos cabelos, se existe música até em nossos ossos, por que “escondemos nossos instrumentos”? Por que não escutamos a Voz que vem de Dentro, porque fomos ensinados a não ouvi-la, a prestar atenção no que está Fora de Nós e não no que está Dentro de nós. É impressionante como sobrevivemos ao tempo de formação escolar.
Na escola, de todos os modos e maneiras, somos ensinados a “esconder nossos instrumentos”.
Nossa criatividade é soterrada por um sem número de informações que não tem outro objetivo a não ser “esconder nossos instrumentos”.
Isto gera grande sofrimento psicológico e frustração.
Somos o que somos e precisamos manifestar nosso modo peculiar de ser. Esta é a nossa contribuição ao mosaico humano da sociedade, e nosso talento, como tantos outros talentos individuais, é tão fundamental ao conjunto social quanto qualquer outro; e quando “escondemos nossos instrumentos” deixamos uma parte do mosaico em aberto, ou incompleta.
Toda a estrutura humana se ressente desta falha, e por isso, por que alguém não manifestou plenamente sua habilidade, não se realizou como Criador neste mundo, toda sociedade sofre. A infelicidade gerada por esta inadequação psicológica e criativa atormentará este indivíduo que, uma vez atormentado, atormentará outros a sua volta. E tudo por que não deu ouvidos a Voz que vem de Dentro, que Blavatsky chamava “A Voz do Silêncio”.
Estas habilidades dentro de nós não podem ser menosprezadas sem que paguemos um preço por isso. Às vezes são tão intensas que escapam de nossos armários e como os instrumentos da história, manifestam-se sozinhas, e os instrumentos tocam sozinhos, sem que o músico seja necessário.
Como ouvir estas coisas dentro de nós? Basta que fiquemos quietos. Basta calar nossa língua, nossos pensamentos, e ouviremos nitidamente os pensamentos de Deus em nós. Simples? Não, nem um pouco.
A educação mística é uma deseducação progressiva de maus hábitos adquiridos na vida mundana.
Pode levar tempo para esquecermos as tolices que aprendemos; mas vale a pena o esforço.
Nunca esquecer foi tão importante para que possamos, finalmente, nos lembrar da razão pela qual estamos aqui, neste mundo.