Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 3 de março de 2013

REFLEXÕES


por Mario Sales



Luz é o que se diz da energia radiante que nos banha e do conhecimento que nos educa.
Refletir é o que acontece com a luz que se projeta sobre uma superfície polida e retorna até nossos olhos, ou o que também se diz sobre a prática de pensar.
Refletimos, nos iluminamos, quando pensamos e quando a luz toca em nosso corpo, reflete neste corpo e provoca nossa aparição ao olhos dos outros.
Não temos luz própria, no aspecto ótico. Se somos visíveis é porque a luz refletiu em nós. Alguns acham que tem luz própria no pensamento. Também não é verdade e somos reflexo do conhecimento que absorvemos ao longo da vida.
Como nossa imagem visível é o reflexo da luz do Sol ou das lâmpadas em nós, também o que sabemos fazer e mesmo o que conhecemos é reflexo do que outros nos ensinaram.
Tanto a luz solar quanto a luz do conhecimento executam um caminho tortuoso de reflexos em várias superfícies até nos atingir e tanto uma como a outra não discriminam pessoas, atingindo a todos que a elas forem expostos, da mesma forma, com a mesma intensidade.
Alguns materiais absorvem mais a luz que outros, como é o caso de corpos negros ou de cor clara, sendo aqueles grandes absorvedores e estes grande refletores.
Mentes claras, queiram ou não, também refletem a luz que recebem a todos à sua volta. É de sua natureza ser assim.
Mas o pensamento não é capaz de produzir a não ser reflexos da luz original.
Como quando a imagem está à frente de um espelho, e vemos a nós mesmos ali, refletidos. Parece-nos que produzimos outro ser, outro mundo, mas trata-se, todos os que tem bom senso sabem disso, de uma mera ilusão de ótica, um fenômeno físico, inevitável, já que todo corpo iluminado produz reflexo. 
Não é o próprio corpo que emite luz, mas reflete, ao espelho que o reflete, a luz que recebeu de outra fonte.
E mesmo que a mente pareça produzir imensos pensamentos, refletir pensamentos é como refletir imagens entre dois espelhos, um às nossas costas e outro à nossa frente, de tal forma que espelho reflita o outro espelho e pareçamos ter produzido uma sucessão de cópias e um espaço profundo diante e atrás de nós, quando na verdade, só nós existimos, só nós mesmos somos reais, e aquela profusão de imagens desapareceria imediatamente se com um martelo, destruíssemos quaisquer um dos espelhos.

Muitos pensamentos humanos são apenas luzes refletidas, aparentemente profundos, mas na verdade superficiais como o vidro dos espelhos, e frágil como eles, passíveis, de modo fácil e súbito, de desaparecer dos nossos olhos.
Aconteceu com linhas de pensamento que revolucionaram o planeta, custaram muitas vidas, preciosas vidas, e sumiram na poeira da História; aconteceu com líderes políticos, com tiranos; aconteceu com escolas filosóficas, com verdades da ciência, com verdades da moral social.
Tudo desapareceu, ou como espelhos que se quebraram e levaram com eles os reflexos que aparentavam existir dentro deles, ou como espelhos que se moveram lateralmente e perderam o ângulo correto que permite a ilusão do infinito.
Dois espelhos, ou muitas mentes, precisam estar na posição certa para parecerem viver um sonho de eternidade ou grandeza ou imortalidade que se desfará eventualmente, já que nenhum espelho fica na mesma posição para sempre, ou mesmo dura para sempre.
Imagens são apenas imagens, reflexos, como nossos pensamentos. É deste estofo, deste material dos sonhos e das fantasias que muitos se utilizaram para arrastar outros para suas posições, que também chamamos, visões de mundo.
Imagens mobilizaram milhares de exércitos, eletrizaram multidões, em todos os períodos da História.
Imagens mentais, idéias de mundo, expressas em palavras, em discursos, palavras de poder na boca daqueles que sabem manipular este poder.
Viajando da imagem para o som que evoca a imagem, o Iniciado aprende com a lição de Ulisses ao passar pelo Canto das Sereias.
Perto de poderosas e perigosas imagens,é preciso estar sempre preparado: cera nos ouvidos, amarrados com cordas fortes ao mastro de nosso barco para não perder o rumo de nossa viagem.
Oremos e vigiemos.
Nunca é demais lembrar.