Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

DESFRUTEMOS

por Mario Sales



Como já disse, não sou cristão, sou hinduísta.
Categorias como culpa e arrependimento não fazem nenhum sentido para mim.
Culpa, no sentido de achar que a situação que eu provoquei, seja ela qual for, e que causou algum mal estar a terceiros, foi inteira e totalmente responsabilidade minha, é presunção e orgulho do Ego, que acha-se senhor de suas escolhas e vontades, quando, como lembra Espinoza, no mais das vezes satisfazemos necessidades.
Não tenho a ilusão de Arjuna, aos pés de Krishna, cabisbaixo, dizendo que não pode mais lutar porque não quer matar seus tios, seu professor e seus primos.




Estamos todos nas mãos de Krishna, de Shiva, que lembra a Arjuna (e a nós mesmos que) "...Enquanto falas palavras sábias, estás lamentando aquilo com que não precisas te afligir. Os sábios não lamentam nem os vivos nem os mortos. Nunca houve um tempo que Eu não existisse, nem tu, nem todos esses reis; e no futuro nenhum de nós deixará de existir. Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice, do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo. Uma pessoa ponderada não fica confusa com essa mudança. Ó Filho de Kunti, o aparecimento transitório de felicidade e aflição, e seu desaparecimento no devido tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das estações de inverno e verão. Surgem da percepção sensorial, ó descendente de Bharata, e é preciso aprender a tolerá-los sem perturbar-se".



Tudo é Maya, e nós, seres humanos, encerrados nesta armadura grosseira e limitada, neste escafandro que torna nossos movimentos lentos e limitados e nossa percepção confusa e imperfeita, não podemos nem devemos nos sentir culpados pelos erros que inevitavelmente cometeremos.
Só o Altíssimo tudo sabe, tudo conhece, e mesmo assim, nos criou para continuar aprendendo.
Deus é sedento de conhecimento. Nós somos seus pesquisadores.
Perdoar-se não é a mesma coisa que ser auto condescendente. É apenas reconhecer a inevitabilidade do erro em condições de consciência tão adversas. Da mesma forma e dentro do mesmo raciocínio, não pode haver arrependimento, já que arrepender-se é olhar para trás e lamentar e a vida é progresso, evolução, aperfeiçoamento.




Melhoraremos, desde que aprendamos aonde erramos e corrijamos nosso rumo e comportamento, em busca daquilo que é mais ético, mais digno, mais misericordioso, dentro de nossas possibilidades, dentro de nossa realidade.
Cristãos, que se julgam Cristãos mas na verdade são Paulinos, lamentam-se.
Não os Hinduístas, reencarnacionistas que são, conscientes que são de que as vidas que se sucedem trazem sempre uma melhora de nosso desempenho como seres humanos e como almas imortais.
Nossa missão aqui, como dizia Richard Bach, só tem dois aspectos: divertir-se ou aprender.
Não há lugar para lamentos morais ou arrependimentos, apenas para a vida, pois não se conhece criança que sinta culpa por seus erros ou arrependimento por seus acidentes durante as intermináveis brincadeiras exploratórias do mundo.
Como a criança, encaremos cada queda como parte da diversão, e cada arranhão como um evento a mais para ser computado no nosso inventário de acontecimentos interessantes.
Viver é expor-se ao sucesso e arriscar-se a ser de maneira inesperada, intensamente feliz.
Desfrutemos pois.