Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 17 de fevereiro de 2013

NOSSO FOCO DEVE ESTAR NO PRESENTE


por Mario Sales

Talvez o mais importante ensinamento da técnica de meditação, seja em que escola seja discutida, é que o meditador deve abandonar-se na experiência de mergulhar no presente.
No Samyama Yoga, a sequencia de quatro passos finais do Ashtanga Sadhana (caminho das oito partes) de Patânjali, dedicada aos aspectos mais mentais da prática, a concentração antecede a meditação.

É preciso, nesta sequência, distrair-se dos acontecimentos periféricos (prathyahara), mergulhar em estado de perfeita concentração (Dharana) para só depois entrar em estado meditativo (Dhyana).
Eu fixo um ponto ( o centro de um mandala, a chama de uma vela, ou um som monótono, repetitivo, chamado mantra) para que pouco a pouco possa ir penetrando no fluxo de vida, no fluxo de consciência, como um punhal que quanto mais afiado, mais pontiagudo, mais fácilmente penetra uma superfície qualquer.
Nossa mente (chitta) vive em desorganização e dispersão constante, seja pelos muitos apelos da vida na carne, seja pela ausência de uma educação psicológica nos moldes da escola Sankhya ou da escola doYoga, duas das mais importantes escolas de filosofia da Índia na chamada Era Dourada, possivelmente cinco mil anos atrás.
O exercício meditativo visa a desfazer esse turbilhão (Vritti) mental, e melhorar nossa percepção do aqui e do agora que, pasmem, não é estático. Quanto mais mergulhamos no aqui-agora, mas o percebemos como um rio rápido, um fluxo ininterrupto de idéias e inspiração, proveniente diretamente da Fonte de Todas as Fontes.
Este contato, como costumo dizer, é a prova indiscutível da existência e da presença de Deus em nós. As discussões sobre provas da existência do Altíssimo são estéreis enquanto se concentram na busca destas mesmas provas fora de nós mesmos. Se alguma pessoa realmente cética, destituída de qualquer tipo de sensibilidade  mística, quiser por a prova seu próprio ceticismo, deve, de maneira decidida, meditar.




A meditação nos põe em contato com planos mais profundos de nossa própria mente, nos revela uma nova percepção da realidade que com a mente em turbilhão não é possível enxergar, da mesma forma que uma lente suja e engordurada não nos permite contemplar o mundo a nossa volta. Precisamos limpar as lentes de nossos óculos mentais para contemplar adequadamente a realidade de maneira mais profunda e revigorante.
Mas eu perdi o fio da meada. O que me atraiu para esta reflexão é o que acontece ao contemplar-se face a face o aqui-agora, o, digamos assim, presente contínuo, que em nosso vernáculo é conhecido por gerúndio.
O presente real está sempre no gerúndio.
Duas coisas são impossíveis na criação: silêncio total e imobilidade. Tudo na existência tem som e movimento, mesmo que seja o som às vêzes inaudível do OM universal, que dizem, alguns ouvem quando atingem o estado de consciência mais profundo da meditação.
Focar no presente em fluxo, gerundial, esta é a lição de quem medita.
Em estado de Consciência Desperta, não existe passado nem futuro, só o fluxo presencial.
Presente, presença. Duas palavras que se fundem e tem origem etimológica semelhante.
A presença é, pois, fluxo.
Quem está no fluxo não olha para trás, não olha o passado nem mesmo como referência.
Esta é uma estranha lição no Ocidente, acostumado a pensar a História como uma orientação para nossas condutas, para evitar que erros pessoais e sociais se repitam.



E o que vemos? Nas palavras de Karl Marx, no "18 do Brumário", um texto pequeno mas revelador, "a história como que se repete sempre duas vêzes: a primeira como tragédia e a segunda como farsa".
Brilhante percepção. Temos o hábito, nós, aqui no Ocidente, de virar nossa cabeça para trás, como a esposa de Ló em Gênesis 19: 26. E ao fazermos isso, nos fascinamos com o que não mais existe, com o que passou, com aquilo que, portanto, é apenas uma lembrança. Vivemos destas lembranças, destas vagas lembranças, e acrescentamos sobre estas lembranças nossa imaginação, nossos desejos, nossos ideais de perfeição, montando ao final desta construção mental uma imagem híbrida, quimérica, que às vezes não conseguimos separar mais da realidade histórica aonde ela se fundamentou.
Este fenômeno psicológico tão hodierno quanto antigo e comum acontece frequentemente nas escolas de mistério, seja entre rosacruzes da AMORC, maçons ou martinistas.
Somos guardiões de uma tradição, mas, às vezes, guardamos não a essência da Tradição, mas sua forma.
Lembramos com respeito e saudade de outras épocas, de outras Ordens, e nos comportamos como a mulher de Ló, paralisados de fascínio pelo que já não existe mais e que acabou de ser destruído, como Sodoma o foi pelos raios dos Anjos do Senhor.
Não temos facilidade de focar no presente porque falta o treino meditativo, o hábito com os três passos do Samyama Yoga.
Se rosacruzes de AMORC, maçons e martinistas olhassem em estado meditativo para si mesmos veriam apenas o fluxo, o Presente Eterno, o Aqui-Agora, aonde a forma não tem nenhuma importância e aonde só a essência prevalece.
Esta essência é a Tradição que precisa ser preservada e que é nossa função preservar. É a Tradição que está dentro de nós, que sempre esteve e sempre estará dentro de nós, a mesma sabedoria que esteve em outros Esoteristas e Místicos e líderes mundiais em todas as épocas.
Um precioso tesouro oculto, o Verdadeiro Cálice de Cristo, aonde está depositado o Vinho da Vida, do qual se bebermos, jamais sentiremos sede outra vez.
É dentro de nós e não fora de nós, que estão os alicerces de nossas Ordens, o fundamento de nosso trabalho como místicos e esoteristas.
É dentro de nós e não fora de nós que estão as chaves para a compreensão dos textos os mais esotéricos, os quais não tem segredos para aqueles que olham com os olhos e as lentes mentais limpas do entulho do passado e da lembrança que nos obscurece a visão.
A mais alta iniciação é a Transição, que é o nome que os rosacruzes dão ao que os ocidentais chamam de Morte; no entanto, abaixo dela existe outra iniciação também de grande importância para o buscador, que implica no desenvolvimento desta visão interior, desta sensibilidade que só se manifesta quando nos libertamos da visão linear, sequencial, e passamos a ver o mundo com uma perspectiva esférica.
Só o tempo linear permite a farsa Histórica que Marx citava no seu brilhante arrazoado. O tempo místico é o tempo grego, o tempo eônico, circular, que não tem princípio nem fim, o tempo místico, mítico, não histórico.




Precisamos nos livrar do passado para finalmente vivenciarmos o estado de Iniciados.
O Iniciado não pode ter a mesma compreensão do homem não iniciado.

Pior que não ser iniciado é ser um iniciado histórico, que revisita o passado constantemente como uma viúva que revê com tristeza as fotos de seu falecido esposo.
O passado não está apenas morto, ele é a verdadeira Morte. Ele é o Não-existente que nos assombra e nos impede de viver o nosso presente real.
Com isso quererei eu que reneguemos nossos antepassados, nossos companheiros de outras épocas, nossos irmãos que construíram, enfim, a estrutura sobre a qual nos apoiamos? Não. Desejo apenas estimular uma mudança de viés, uma alteração do modo de administrar estas lembranças. Há dois tipos de passado, seja para homens ou para instituições: o primeiro, aquele que fundamenta (fundação- yesod, a sephira na base do pilar do meio da árvore da vida), que nos dá a sustentação para nossos trabalhos, como em ciência, quando lemos trabalhos antigos para ver até onde os que vieram antes de nós chegaram e a partir de onde devemos recomeçar a busca pela descoberta, produto deste diálogo com os que nos antecederam; o segundo, é o passado âncora, que nos imobiliza, que impede nosso navio de vagar mar a dentro, na busca de novos povos, novos oceanos.
O mesmo passado pode ser âncora ou fundação. Tudo depende de quem o consulta. Quem se baseia nele, fundamenta-se; quem ancora nele, tenta reproduzi-lo, reeditá-lo.
Rosacruzes, Maçons e Martinistas devem prestar tributos a todos os seus irmãos de todas as épocas pelo seus feitos por uma questão de justiça, mas jamais devem se esquecer que nossas Ordens devem ser o produto daquilo que fazemos hoje, no Aqui-Agora, percepção que nos livra do risco de em nossos dias sermos, não Ordens Esotéricas Reais e Contundentes na sociedade, mas apenas tentativas de repetições do que passou, tristes imitações sem vida, ou nas palavras de Marx, apenas farsas históricas.