Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A FALTA DO VIÉS MAÇÔNICO NA PRÁTICA ROSACRUCIANA


por Mario Sales, FRC, Gr.:18-Gr. do C.:R.:C.:; SI (membro do CFD) 




Nos últimos dias, com intervenções de vários frateres (aliás senti falta da intervenção de sorores) o espírito de livres pensadores manifestou-se no blog. Todos, e quase ao mesmo tempo, queriam dar sua opinião à discussão sobre aspectos administrativos. Enquanto isso acontecia de modo explícito, por email eu conversava e debatia com outro frater de Belo Horizonte, sobre temas muito semelhantes.
Tudo me leva crer que os rosacruzes querem conversar, sentem uma falta imensa de um ambiente, como chamávamos em meu tempo, afim, aonde pudessem trocar idéias livremente, sem receio de punições administrativas, sanções as mais variadas, etc.
É óbvio que a liberdade pela liberdade é o caos e toda manifestação de pensamento livre, para ser produtiva, deve estar cercada de condições de civilidade. Este aliás é o grande foco da prática maçônica moderna. A maçonaria hoje não é mais, para lamento de alguns, uma ordem secreta, ou mesmo ocultista, isto pelo menos no Rito Escocês Antigo e Aceito, o mais praticado no país. Seu grande foco, hoje, é a formação de lideranças empresariais ou políticas, de forma a continuar na busca de seu objetivo de intervir física e intelectualmente na prática social da região aonde está aquela loja. Reuniões maçônicas, atualmente, enfatizam exatamente esta capacidade de expor o pensamento de forma organizada, com momentos para falar e momentos de ouvir, respeitadas as mínimas regras de civilidade e respeito mútuo. Nem sempre foi assim e se prestarmos atenção ao ritual, algumas linhas são ecos de um tempo em que mesmo o silencio em Loja era difícil de ser conseguido, ou mesmo a imobilidade física, com as pessoas circulando pelo templo durante a sessão.
Não havia ainda cadeiras para todos. Imagens de época mostram os maçons de pé, e apenas o venerável mestre sentado em uma cadeira. 





A Loja era um tapete, que uma vez lançado sobre o chão, determinava nos símbolos que lá estivessem o grau em que se reuniam, se aprendiz, companheiro ou mestre.
E todos debatiam, debatiam todo o tempo, porque a vida do maçon sempre foi calcada em duas coisas: conversar e comer, juntos.
A rosacruz tem outra história. São pensadores, eruditos, esoteristas e magos, que levavam mais tempo reclusos lendo e estudando do que conversando entre si. Não tinham a convivência diuturna dos maçons dos tempos das catedrais que levavam duzentos anos para serem terminadas. Rosacruzes costumavam reunir-se raramente e andavam muito até chegar aos locais de reunião, às vezes semanas, no século XII e XIII. No século XVIII vamos encontrar os membros da Ordem já mais organizados, pelo menos na Europa, e sob a influência administrativa de Cagliostro, realizando encontros regulares, as convocações ritualísticas, com um ritual muito semelhante ao que realizamos hoje em dia, com o shekinah, a columba e outros detalhes. Só que mesmo então não eram tempos fáceis. A ignorância e o radicalismo político que levaram o próprio Conde à masmorra, mantinham um certo temor pairando sobre todos os rosacruzes de França, país que, curiosamente, até hoje não tem sido um ambiente favorável a prática do rosacrucianismo. 





Portanto, não é prática comum a convivência em corpos afiliados entre rosacruzes até o advento de AMORC, fundada por Lewis em 1915.
A estrutura administrativa que ele introduziu lembra muito a organização da maçonaria, mas ao contrário das obediências maçônicas, que são extremamente desobedientes e tem o hábito de terem rupturas internas com a formação de vários Grandes Orientes em um único país, a AMORC de Lewis procurou desde o início uma formação homogênea, monolítica, como uma pirâmide, com o Imperator ou supremo dirigente no topo, aconselhado por vários grandes mestres de toda parte do globo, os quais por sua vez tem seus grandes conselheiros.
A sucessão seria em, seu entender, a passagem de Imperator a Imperator, uma escolha pessoal, que deveria ser referendada pelos seus grandes mestres e assim foi até o advento do Imperator Gary Lewis, nos anos ´90.
No século XIX existem relatos de rupturas no movimento rosacruciano, como descrito no livro "Rosa Cruz História e Mistérios", da Difusion Rosicrucienne, escrito por nosso atual Imperator, Christian Bernard, sob o inexplicável pseudônimo de Christian Rebisse, no capítulo XIV, "O Roseiral dos Magos".
Chamo a atenção em particular para a divisão ocorrida no confronto entre Papus e Péladan, quando Péladan rompe com a Ordem Cabalística da Rosa Cruz e funda em 1891 a Ordem da Rosa Cruz do Templo e do Graal, e organiza seus seis maravilhosos salões artísticos, com artistas simbolistas, atribuindo a si mesmo o nome de Sâr Mérodack Péladan, Grão Mestre desta Ordem.
A AMORC teve estabilidade interna por 90 anos, ao longo de quase todo século XX, e por isso deu a impressão de ser uma instituição absolutamente imune a estas oscilações tão comuns às associações humanas, rosacruzes ou maçônicas.
Não foi assim, feliz ou infelizmente. E iniciamos o século XXI com um perfil menos técnico do que aquele que Spencer Lewis quis imprimir nos primórdios de seu trabalho de reorganização.
Pelo calor do debate e pela ânsia de respostas e conversações que senti nos últimos dias aqui no blog, percebo que a mesma energia que cria a polêmica e às vêzes a ruptura de estruturas aparentemente sólidas ainda está e sempre estará presente em todos os seres humanos, exatamente por serem humanos. E a melhor maneira de lidar com isso é deixar as pessoas falarem, discutirem, dentro de um ambiente acolhedor, como fazem as lojas maçônicas, sem medo de opinar e de discordar entre si.
A única instituição que conseguiu superar este fantasma do esfacelamento e da atomização foi a Igreja Católica Apostólica Romana, que num lance de gênio, e escaldada pela três graves rupturas que sofreu (a Igreja de Constantinopla, a leste; a Igreja Anglicana, a oeste e a Igreja Protestante Luterana ao norte) consagrou o expediente das Ordens, a padronização da diferença dentro da igualdade, estruturas absolutamente características, com modus operandi individualizados , porém prestando obediência ao mesmo Papa.
Tudo que é sólido tende a se desmanchar e para evitar ou postergar isso só existe uma alternativa, não apertar demais as amarras, permitir que o vento passeie por dentro da estrutura. São as estruturas administrativas mais leves, mais flexíveis, que suportam melhor as intempéries , não as mais rígidas. E o diálogo franco sobre os problemas é o primeiro passo para superar tensões internas, da mesma forma que no método freudiano, conscientizar na fala a neurose ajuda a curá-la, pelo expelir daquela energia antes ressoando dentro do indivíduo e produzindo doença.
Os rosacruzes, neste caso, querem ser maçons, querem ter chance de, dentro de ambiente rosacruciano, discutirem seus problemas, suas angústias, suas dúvidas.
Precisam e merecem ser ouvidos. 

Até por que trata-se de uma atitude mais correta do ponto de vista administrativo.