Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 6 de janeiro de 2013

LIVROS, LIVROS E MAIS LIVROS


por Mario Sales, FRC.:, Gr.:18 - C.:R.:+C.:, S.:I.:(membro do CFD)

Eu não preciso de mais livros, minha biblioteca que o diga, mas cada um tem seu pecado, sua mania, seu vício. Eu estava ontem no aeroporto no Rio, e tinha duas horas para esperar pelo meu vôo. E toda vez que me vejo nesta situação, seja em Curitiba, Guarulhos ou Galeão, duas coisas acontecem: procuro um lugar para tomar café e entro na Livraria La Selva. Fico lá alguns minutos, não tenho muita paciência para pesquisar, mas só de estar dentro da livraria já me sinto psicologicamente melhor. E ontem não foi diferente.
Miguel Nicolelis 

Eu tinha levado para ler no vôo a edição de "Muito Além do Nosso Eu"(Companhia das Letras, 2011), de Miguel Nicolelis, o neurocientista, que diga-se de passagem está sob ataque cerrado na imprensa pelos pesquisadores dissidentes de seu antigo Instituto Internacional de Neurociência de Natal, IINN. 



Estou na parte em que ele defende a tese de que múltiplas regiões do cérebro estão envolvidas em uma única função, o que se chama em neurociência teoria distribucionista, em oposição a teoria consagrada em neurofisiologia que é a localizacionista e que gerou um dos desenhos mais horrendos e divertidos que eu estudei em meu tempo de acadêmico de medicina, o Homúnculo de Penfield, onde as regiões do cérebro foram associadas aos órgãos com os quais tem ligação, e o tamanho desses órgãos corresponde ao tamanho da área envolvida no tecido cerebral com o seu comando. Assim, o tamanho da mão e o lábio do homúnculo são enormes em relação a cabeça, porque segundo Penfield uma grande área do cérebro era dedicada a ambos enquanto outras estruturas são menores dado o mesmo raciocínio.
Mesmo assim entrei na La Selva não sei bem em busca de que, provavelmente só por compulsão. Minha busca não foi em vão, entretanto.

Homúnculo de Penfield 


Eu gosto muito de meu xará, prof. e filósofo Mario Sergio Cortella, e um pequenino livro seu chamou minha atenção logo a esquerda de quem entra.
O nome sugestivo de "Não Aguarde pelo Epitáfio"(Ed. Vozes, 2011, 10a edição) é uma referência à música dos Titãs, não os mitológicos, mas o conjunto de rock paulistano.
É o título também do primeiro ensaio, dos muitos coletados de artigos publicados na Folha de São Paulo, entre 1994 e 2004, aonde ele aborda a importância de termos opinião sólida sobre as coisas, lembrando a frase do Apocalipse, capítulo 3, versículo 15 e 16:"Conheço tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas porque és morno, nem frio, nem quente, estou a vomitar-te de minha boca".



Mario Sergio Cortella 

Ele aprofunda o tema e, ao final, faz essa consideração interessantíssima: "Nesse sentido, para não ser morno, é preciso ser radical. Cuidado! Em nosso vocabulário usual é feita uma oportunista confusão entre o radical e o sectário. Radical é aquele - como lembra a origem etimológica - que se firma nas raízes, isto é, que não tem convicções superficiais, meramente epidérmicas; radical é alguém que procura a solidez nas posturas e decisões tomadas, não repousando na indefinição dissimulada e nas certezas medíocres. Por sua vez, o sectário é o que é parcial, intransigente, faccioso, ou seja, aquele que não é capaz de romper com seus próprios contornos e dirigir o olhar para outras possibilidades. É preciso ter limites, mas ,estará o limite exatamente no meio? Não é necessário ir aos extremos, mas é essencial não ficar restrito ao confortável e letárgico centro; muitas vezes o meio pode ficar anódino, inodoro, insípido e incolor. Alguns desses desejos de romper fronteiras mornas só aparecem nos epitáfios, sempre em forma nostálgica e lamentadora de um "eu devia ter...". Para além da mitologia grega, não é por acaso que outros titãs têm sido tão festejados quando cantam de forma deliciosa e perturbadora ( e muitos com eles): "Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer; devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer..." 



"A sabedoria para equilibrar estas inquietações", continua ele, "pode ser encontrada na reflexão feita no século 5 A.C. pelo filósofo chinês Confúcio: "Eu sei porque motivo o meio-termo não é seguido: o homem inteligente ultrapassa-o, o imbecil fica aquém". Radicalidade é uma virtude; o vício está na superficialidade" 
Amém a isso. E este é só o primeiro artigo.
Muita coisa que aconteceu nos últimos dias passou pela minha cabeça ao ler isso. 




Quando fui pagar o jornal e o livro de Cortella, a caixa muito simpática sugeriu-me que com mais um livro eu conseguiria um desconto de 15% na soma total. Eu tinha passado os olhos por um volume chamado "A História da Medicina", mas deixei de lado.
Na Faculdade de Filosofia, sob a batuta de Hilton Japiassú, interessei-me por epistemologia, filosofia da ciência, e como sou médico, comprei alguns volumes de história da medicina para trabalhar o assunto, e por isso fiquei na dúvida se mais um volume sobre o assunto teria algo que me interessasse e desse modo, supus que seria uma compra sem grande importância; mas a moça do caixa me deu a deixa para praticar o meu vício e falou mais forte a pulsão. 

Esse volume , da Ed. M. Books já é de 2013 e é a tradução, aliás não muito boa, do original de 2009. 


Anne Rooney 

Sua autora, Anne Rooney, diz a orelha posterior, "é autora em tempo integral"( que inveja) "que vive em Cambridge, Inglaterra. É associada do Royal Literature Fund e membra da Royal Literature Society além da National Union of Journalists". 
Vinha folheando o livro de Rooney no avião, meio sem esperança de encontrar alguma coisa que justificasse a compra, quando me deparei com a seguinte citação, na página 179 e 180: "Aulo Cornélio Celso( 25 A.C a 50 D.C) também era amplamente respeitado nas escolas médicas medievais. Embora ele não fosse famoso durante a vida, tornou-se muito influente quase 1500 anos depois (!?), quando seu trabalho foi redescoberto, em 1426. Acredita-se que tenha escrito extensa enciclopédia, mas somente o volume sobre medicina, "De Medicina", sobreviveu. Em 1478, foi um dos primeiros trabalhos a ser publicados depois do aparecimento da imprensa no Ocidente. 




Celso provavelmente não foi médico [aqui está traduzido como "não tenha sido médico" mas não gostei e copidesquei] (os volumes perdidos de seu trabalho tratavam de assuntos muito diversos como retórica, leis, agricultura, filosofia e estratégia militar) mas ele registrou minuciosamente o avançado estado da medicina em Roma no século I. Ele explica como fazer ligaduras de vasos sanguíneos, reconstruir nariz, lábios e orelhas; remover pedras na bexiga e fazer talas para fraturas."; e conclui mais a frente:"Celso era tão respeitado que o médico suíço Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1541) adotou o nome de Paracelso (igual ou maior que Celso), jogando com sua reputação, mas alegando ser melhor que ele."
Disso eu não sabia. É um conhecimento absolutamente inútil para a maioria das pessoas , mas voces não imaginam o prazer que me deu essa singela descoberta.
Livros são assim, tem seus momentos. Algumas obras são magníficas do início ao fim, como Ilusões de Richard Bach, ou os livros de Tolkien, ou os textos de Dostoievsky que minha filha me ensinou a gostar; outros não são tão bons, mas tem seus momentos de glória, dependendo do leitor, instantes em que trazem deleite e satisfação em uma única citação, como aqui. 



Papa Nicolau V 


O que me chamou a atenção também foi a referencia ao tempo de latência entre a obra e seu reconhecimento. Mil e quinhentos anos. Impressionante. E em outra fonte, descubro que o tradutor da obra e seu, digamos assim, redescobridor, foi um papa, o Papa Nicolau V, nascido Tommaso Parentucelli (15 de novembro de 139724 de março de 1455), morto aos 57 anos. Mil e quinhentos anos para adquirir importância e ser imortalizado pelo que restou de um trabalho enciclopédico a ponto de haver interesse em superá-lo, de forma póstuma, como no caso de Teofrasto Paracelso, o médico suíço. 


Paracelso

Por outro lado, convém destacar que por estranhas mãos a ciência encontra sua continuidade, e mesmo os inimigos da Luz e da Ciência podem, dada a circunstância, colaborar para preservá-la. Na pessoa de um Papa, 
a Igreja, que tanto perseguiu cientistas vivos, garante a redescoberta e o reconhecimento de um enciclopedista fundamental para a medicina, já morto. 
Na História da Ciência e mesmo na História Humana, no entanto , são frequentes as situações que, sendo adversas, geram consequências benéficas ou em que os que combatem o bem acabam por transformar-se em benfeitores, pela força da vontade de uma força superior. O caso clássico é de Saulo, o perseguidor de Cristãos que se transforma em Paulo, apóstolo.
Todos podemos mudar de repente nosso rumo, se essa for a vontade do Altíssimo, por isso não devemos nunca tomar uma sequência de fatos aleatórios aparentemente desagradáveis como necessariamente destinados a gerar más consequências. Tudo está nas mãos de Deus que na vida cotidiana chama-se Acaso. 



Pra terminar este inventário, meu velho amigo Ubirajara mandou-me dois presentes. Tendo comentado com ele que meu pintor preferido era Caravaggio e elogiado um livro sobre Frida Kahlo, pintora mexicana, que vi pela internet na sua estante em fotos que me mandou de sua casa, enviou-me pelo correio dois volumes maravilhosos , um dedicado a Frida e outro ao pintor italiano. 


A Taschen é uma editora diferenciada. Suas publicações são sempre de um esmero e um cuidado que deixa qualquer bibliófilo fascinado. Receber não um, mas dois volumes da mesma editora foi um belíssimo presente de natal pelo qual agradeço ao velho amigo Bira, companheiro antigo de conversas, lá no tempo que eu ainda estava morando no Rio, 30 anos atrás.