Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O BEM E O MAL EM ESPINOSA


por Mario Sales 




Acaba de ser publicado em edição primorosa pela editora Autêntica, com tradução de Emanuel Angelo da Rocha Fragoso e Luis Cesar Guimarães Oliva, com um pertinente prefácio de Marilena Chauí, o volume em português do "Breve Tratado de Deus, do Homem e de seu Bem Estar", de Baruch de Espinosa, manuscrito entregue pelo mesmo, salvo engano meu, ao seu amigo, o médico Lodewijk Meijer, em fevereiro de 1677, mês e ano da morte do filósofo. 


Emanuel Fragoso 

A história deste precioso manuscrito, como precioso é todo o trabalho deste holandês oriundo de família portuguesa, humilde servo do pensamento e da concórdia fundamentada na compreensão, é narrada no prefácio por Marilena, dando conta da dificuldade que implica recuperar um texto escrito 336 anos atrás, e dar-lhe a forma que agora temos em mãos. São idas e vindas, descobertas em leilões, achados em livrarias já no ano de 1851, discussões sobre a importância e o significado do texto que levaram ao todo 250 anos aproximadamente. 

Marilena Chauí, filósofa espinosana 

Espinosa produziu dois textos desta obra: um em latim e outro em holandês, idioma que Espinosa dizia não dominar para finalidades literárias. O manuscrito em holandês, explica Marilena, foi escrito assim porque tal texto era dirigido aos seus amigos mais íntimos, principalmente Jarig Jelles, e Jelles não sabia Latim. 

Espinosa 

Chamo atenção para a página 86, capítulo X, "o que são o bem e o mal", aonde com aquele estilo espartano e com veleidades de precisão matemática, Espinosa aborda o tema com graça e elegância, intelectual e humana. Diz ele no item 2: 
"Assim se põe agora a pergunta, se o bem e o mal se incluem entre os ENTIA rationis (entes da razão) ou entre os ENTIA realis (entes reais). Mas posto que o bem e o mal não são outra coisa senão relações, então está fora de dúvida que devem ser colocados entre os ENTIA Rationis, pois jamais se disse que algo é bom, senão em relação a outro que não é tão bom ou não nos é tão útil quanto o primeiro. E assim, quando alguém diz que um homem é mau, não o diz senão com relação a um outro que é melhor; ou, também, que uma maçã é má, senão em relação a outra que é boa ou melhor. Tudo isso seria impossível poder dizer, se esse melhor ou bom, em relação ao qual ela foi classificada como tal, não existisse." A precariedade de nossos julgamentos e a enorme variedade de conceitos de bem e mal espalhados pelo mundo, nas diversas épocas e culturas, encontra no relativismo espinosano uma explicação simples e coerente.