Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

HARVEY

por Mario Sales

Acabei de rever "Meu Amigo Harvey", um filme de 1950, com James Stewart, em preto e branco, dirigido por Henry Koster. O filme é baseado na peça de Mary Chase, vencedora do prêmio Pulitzer. Existem cópias em DVD na Saraiva e em Blueray na Cultura, via internet.

Henry Koster

A história é simples. Após o enterro da mãe, talvez por causa disso, Elwood P. Dowd volta para casa modificado. Alega ter ao seu lado permanentemente um coelho de 1,90m, invisível para todos menos para ele, chamado Harvey, com o qual se relaciona, conversa e frequenta, para divertimento de todos que já o conhecem, um bar chamado Bar do Charlie. 
Elwood P. Dowd é um homem pacato, gentil, educado, que encarna perfeitamente a frase do Bhagavad Gita que diz que o homem iluminado não vê diferença entre o bhrâmane, o elefante, o cachorro e o comedor de cachorro (pária).




A todos que conhece ou encontra, mesmo que estranhos, trata com delicadeza e oferece polidamente seu cartão e sistematicamente convida-os para cear em sua casa, de uma forma sincera e direta, não um convite formal, mas um convite real, que sempre que é recusado em função de uma impossibilidade de momento pelo interlocutor recebe o questionamento : "Quando então?" demonstrando real interesse em receber o convidado.
No decorrer da história esta é a dúvida: uma crença inofensiva e que faz de alguém uma pessoa melhor pode ser tratada como um problema ou deve ser entendida com uma bênção, um toque do alto, que transforma pessoas comuns, não em loucos mas em seres incomuns?
O filme é um elogio ao sonho e ao delírio, à capacidade de sonhar e ao direito de conviver com este sonho, desde que ele sustente uma atitude positiva em relação ao mundo e às pessoas. É também uma crítica sutil e mordaz da sanidade entendida como a "normalidade", ou normose, como Hermógenes gosta de chamar, os parâmetros que fazem tábula rasa de todos os seres, independente de suas origens e características culturais e antropológicas.
Todos somos diferentes. E o delírio pode ser apenas isso, uma forma de manifestação peculiar, não uma patologia, não algo a ser tratado ou suprimido, mas algo a ser contemplado e avaliado no seu potencial de causar lucro ou prejuízo ao seu protagonista.
Existem relatos de delirantes fundamentais na história da Humanidade. Muitos diziam ouvir a voz de Deus, outros ouviam música em suas cabeças muito, muito antes dos aparelhos portáteis que todos carregam hoje em dia.
Moisés conversou com uma sarça ardente, contou ao seu povo, e nem por isso foi internado. A guerreira mais corajosa de França era uma mulher que ouvia vozes.
Sem comentar Van Gogh, Santa Teresa Dávila, ou São Francisco que abandona uma posição social nobre e opulenta para despir-se totalmente de suas roupas em plena Assis e partir para uma vida de entrega aos necessitados e aos animais, nossos irmãos em Cristo, segundo ele.
Loucos? Ou seres peculiares?
Será que esta peculiaridade, esta diferença em relação aos padrões de uma normalidade triste, medíocre, cinzenta, é realmente uma patologia?
Ah, não me entendam mal, existe a doença, a Loucura Violenta, agressiva a terceiros ou ao próprio doente, uma loucura que traz sofrimento, embaraço, angústia.
Estes são casos para a medicina, para os psiquiatras, para os que trabalham para dar condições de vida mais digna à todos aqueles que dela precisam.
Nem todos que vêem o Invisível , entretanto, nem todos os peculiares, os estranhos e singulares, os que tem seus pés apoiados entre dois mundos, precisam da intervenção dita terapêutica.
Crenças podem ser a base de todo Mal, de superstições e fantasias as mais prejudiciais; da mesma maneira, são as crenças de um ser humano que o sustentam, são suas convicções em relação a natureza do mundo, suas posturas filosóficas, feitas apenas de ventos e sombras, que dão solidez e coragem aos seus dias e às suas escolhas.
A objetividade é um remédio contra o obscurantismo, o empirismo fundamenta nossas decisões e nos dá uma ciência útil e produtiva. Mas sem o sonho, sem a imaginação, sem a peculiaridade dos gênios da ciência, da arte e da fé, jamais chegaríamos aonde chegamos.
Se para se ter uma fogueira necessitamos de toras de madeira densas, palpáveis e inflamáveis, sem o fogo que as consome jamais  a acenderíamos, jamais desfrutaríamos de seu calor.
Abençoados os que crêem, pois eles verão a face de Deus.
Abençoados os loucos do bem, que transcenderam esta triste "normose" do objetivo e do palpável e que conseguiram  ver além do que está diante de seus olhos.
É um filme didático para os místicos.
Vejam o filme. Entenderão de uma maneira artística tudo que tentei dizer.