Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

O QUE QUEREMOS DO ROSACRUCIANISMO?


ou a importância da prudência e do bom senso

por Mario Sales, FRC.:, Gr.:18 - C.:R.:+C.:, S.:I.:(membro do CFD)



Como todos os antigos membros, digo antigos me referindo aos que entraram na Ordem depois de 1975 e antes dos anos 80, ainda no mestrado de Maria A. Moura, nossa primeira Grande Mestre, eu li fascinado os relatos do pai de nosso atual Imperator, frater Raymond Bernard. Suas narrativas nunca foram consideradas como lendas e fantasias por nenhum de nós, mas como testemunhos da existência de um governo paralelo e de Rosacruzes, como ele dizia, com R maiúsculo, iluminados, que se mantinham anônimos espalhados pela Europa e Oriente, reunindo-se secretamente em mansões espalhadas pelo mundo.
Era uma literatura fantástica, que nos inundava a imaginação com as possibilidades de nossa afiliação. Havia a magia, o romance, tudo enfim que mentes impressionáveis ou sensíveis poderiam desejar, além de dar uma espécie de comprovação às suspeitas dos falso céticos, sempre prontos a aceitar uma narração como prova suficiente de suas suspeitas.
Nada disso se sustenta ao longo dos anos. A vida e a experiência ensinam o bom senso e o equilíbrio e embora eu ainda considere as narrativas de frater Bernard como belíssimos relatos, são, ainda, apenas isso para mim e para milhares de rosacruzes em todo o mundo: relatos.
Jamais tive contato com nenhum Adepto, não tive nenhuma experiência mística mais exuberante ou espantosa.
Todas as minhas experiências foram sutis e as mais impressionantes referem-se ao uso da técnica de visualização criativa.
Eu costumo repetir sempre que magia não tem fundo musical e as coisas realmente mágicas da vida não acontecem em meio a efeitos pirotécnicos, com fumaça e cores as mais variadas, mas dentro de cada coração, dentro de cada pessoa, dentro de cada mente.
Embora eu pareça cético, não é este o caso.
Apenas acho, após todos estes anos, que não demonstra maturidade aquele que se fascina com este aspecto de efeitos especiais ligados as histórias e narrativas do Ocultismo mundial.
Viver o misticismo e mesmo o Ocultismo baseado em fantasias e não em fatos, é uma triste demonstração de falta de bom senso psicológico.
A vida cotidiana é infinitamente mais mágica e por isso a magia como aquela imortalizada por Disney em o Aprendiz de Feiticeiro resumem-se ao que é, um mero desenho animado.
Quando publiquei um artigo sobre isso tive que arcar com reações as mais furiosas e inexplicáveis de dois leitores do blog, pessoas provavelmente que perderam a noção da separação entre literatura e realidade.
Sim, como místicos sabemos que o limite entre o real e o irreal não é tão claro assim e principalmente por isso é preciso equilíbrio e bom senso ao lidar com estes assuntos, ceticismo verdadeiro, metodológico, cartesiano, deixando as coisas em suspenso até prova em contrário, como dizia Edmund Gustav Albrecht Husserl 

( Proßnitz, 8 de Abril de 1859 -Friburgo, 26 de Abril de 1938) um matemático e filósofo alemão, conhecido como o fundador da fenomenologia


Edmund Husserl

O raciocínio metodológico evita falsas ansiedades, falsas expectativas, mantém a mente focada nos objetivos palpáveis e prepara, da maneira correta, o espírito para o encontro com os representantes da Fraternidade Branca.
É preciso entender-se que os tão decantados Mestres são seres humanos, seres reais e não produto da fantasia ou da literatura, de forma a que a relação física com eles não seja decepcionante.
Minha iniciadora uma vez me relatou uma experiência deliciosa e cômica, que tomo por fato embora não tenha testemunhado, por respeito a ela, mas que na verdade é tão engraçada e didática que não importa se ocorreu ou não.
Há alguns anos atrás, discutindo com ela sobre as lições dadas em sanctum para alguns iniciados rosacruzes , escolhidos a dedo entre todos os membros, e sabendo da seriedade dos seus trabalhos esotéricos, perguntei-lhe se já tinha tido algum contato pessoal com um mestre.
Ela me respondeu que havia passado por uma experiência interessante, mas não sabia se tinha estado na presença de um mestre.
Interessadíssimo, pedi mais detalhes e ela me disse que durante uma atividade de sanctum, um indivíduo, maduro mas ainda jovem, segundo a sua descrição, materializou-se e começou uma conversação com ela sobre temas esotéricos. Ao final do encontro perguntou-lhe se poderia retornar em outras noites para continuar o diálogo e foi surpreendido pela resposta: 

"-Não, não precisa mais.", disse-lhe ela.
O homem partiu, desmaterializou-se, e como solicitado, não apareceu mais.
Na época, meu objetivo de neófito era apenas este, encontrar um ser capaz de materializar-se em meu sanctum e me dar lições pessoais e estava surpreso e perplexo com o relato que ela fazia, de depois de conseguir tal evento tê-lo simplesmente descartado.
E lembro de sua explicação com clareza e limpidez até hoje. Quando perguntei porque tinha dito isto ao iniciado ela respondeu tranquilamente. "Olha, achei os comentários dele muito óbvios, parecia mais um assistente de mestre do que um mestre, e eu queria aprender alguma coisa nova, por isso não vi muita graça em manter o relacionamento."
É isso. Mestre é aquele que nos traz o novo, a informação significativa, o dado fundamental a nossa evolução, e não é possível saber se ele pode ou não fazer isso sem prestar atenção naquilo que sai de sua boca, na qualidade de seus pensamentos e palavras.
Existem místicos e ocultistas que se comportam da maneira oposta e prestam mais atenção nas vestes do rei do que no seu discurso, nos seus atos de governo.
Um mestre é mestre esteja neste ou em outro plano de manifestação, manifeste-se ou não de maneira pirotécnica, e só uma mente equilibrada consegue desprezar esses detalhes periféricos e concentrar-se no que realmente importa, a mensagem que sai de sua boca.
A humanidade, de modo geral, é psicologicamente infantil.
Não por outra razão, o Cristo costumava cercar seus discursos de atos considerados até hoje milagrosos, fatos indiscutíveis de natureza chamativa, para conseguir a atenção dos pastores e homens simples para o que realmente importava, suas palavras, suas idéias, seus ensinamentos.
Se ele só pregasse ninguém o ouviria, mas como realizava feitos absolutamente inexplicáveis, de cura, de demonstração de seus princípios, todos o ouviam.
É possível no entanto realizar alguns feitos assombrosos e aparentemente mágicos sem que isso signifique evolução espiritual alguma, sem que isso deponha sobre o que vai no coração daquele que os realiza, como narra a história de Simão, o Mago bíblico, que queria comprar dos discípulos a técnica de manifestar as labaredas do Pentecostes sobre suas cabeças.
O que queremos do rosacrucianismo? Efeitos pirotécnicos ou evolução interior e refinamento espiritual? Despertar habilidades paranormais e conseguir levitar objetos ou nos tornarmos pessoas melhores em nossa família, em nosso trabalho, em nossa vida social?
É preciso manter o foco. A escola rosacruciana, em qualquer uma de suas denominações, AMORC entre elas, tem como objetivo essencial transformar alquimicamente aquele que nela milita.






Crisol ou Cadinho


Rosacruzes devem entender-se como substâncias no crisol, aquecendo lentamente, em fogo baixo, por anos a fio, lendo monografias e, ao mesmo tempo, envelhecendo, estudando, casando, vendo os filhos crescerem, os amigos morrerem, enfim, vivendo.
Precisamos ter a mente calma e equilibrada e entender que o que importa é a qualidade de um determinado conhecimento e não o embrulho em que ele vem enrolado.
O fato de que alguém tenha a capacidade de se materializar em nosso sanctum, de forma espetacular, não o credencia imediatamente como "Mestre". Pode tratar-se apenas de um, como diria minha iniciadora, "assistente", alguém que não nos trará qualquer benefício.
Blavatsky sempre relata seus encontros com os três mestres que redigiram a Doutrina Secreta através dela como encontros físicos, pessoais, hodiernos, sem nenhuma manifestação paranormal peculiar. O modo como usavam a telepatia para mostrar-lhe documentos e textos era bem mais esotérico, mas o relacionamento humano entre ela e estes homens era um relacionamento pessoal, cercado de franqueza, humanismo, densidade, um relacionamento real, não imaginário.
Por mais Ilusória que seja a realidade em que estamos mergulhados, como ensina o Hinduísmo, ela é para nós, absolutamente real e devemos manter o foco nisso, esta é a experiência que importa. Nossa imaginação deve ser absolutamente disciplinada de maneira que não nos confunda, que tire de nós a objetividade necessária para lidar com algo tão subjetivo quanto as práticas místicas.
É preciso cuidado e prudência ao lidar com estes ensinamentos, valiosos ensinamentos, que se são valiosos, baseiam seu valor na capacidade de nos transformar em seres humanos realmente melhores e não em pessoas desatinadas por uma imaginação descontrolada e por fantasias sem fundamento.