Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 6 de janeiro de 2013

NEM CRIME, NEM PECADO



por Mario Sales, FRC.:, Gr.:18 - C.:R.:+C.:, S.:I.:(membro do CFD)


Só existe uma forma de fortalecer uma conduta ou um comportamento: proibi-lo e combatê-lo.
A filosofia especulativa, ou a meditação, no sentido que o ocidente dá a esta palavra, sobre temas de interesse comum a uma comunidade sempre pode gerar novas perspectivas do mesmo problema e, com isso, soluções.
Só que com o debate as entranhas da questão são expostas e pode haver algum desconforto e por isso mesmo, debates sempre causaram medo, e foram mesmo proibidos em ambientes ditatoriais, o que causou apenas o seu aumento e disseminação.
Ao contrário, é em ambientes democráticos que vemos as pessoas mais receosas quanto a debater idéias. É como se isso ameaça-se a estabilidade de que aparentemente gozam e isto fosse um risco para suas existências e para sua qualidade de vida.

O receio de atravessar este fugaz incômodo do pensar, tanto mais fugaz quanto mais intensamente nos debrucemos sobre ele, gera a imobilidade e a omissão em alterar nossos comportamentos e crenças. Pois pensar é refletir idéias, e a palavra "refletir" dá bem a dimensão deste processo: lançar e recolher impressões, como a imagem que vai e volta do espelho a nossa frente. Todos fenômenos óticos. Todos envolvendo luz.
O refletir sobre coisas, idéias e comportamentos, compromisso deste espaço, principalmente sobre o comportamento que envolve as chamadas ordens esotéricas, pode causar desilusão em alguns, e com certeza causa desconforto em muitos.
Porque infelizmente a busca por luz, que é uma senda árdua, trabalhosa, sinuosa, exige mais do buscador do que as muitas Ordens que se lhe apresentam como caminhos possíveis para encontrar esta luz e este discernimento. E isto só é percebido ao longo do caminho.


Não há como oferecer fórmulas de sucesso para quem quer que seja, pois por mais eficazes que sejam as técnicas e os protocolos ensinados eles ainda esbarrarão nas dificuldades pessoais de compreensão daqueles que os recebem, nos equívocos de transmissão da informação e em outros coisas mais.
Para isso contribuem vários aspectos, mas o principal é a falta de discernimento intelectual e místico. Quem recebe a iniciação deve ser capaz de refletir com discernimento sobre a bênção que recebeu.
O discernimento é citado já no Vedanta, a doutrina filosófica hindu, como Viveka, e é considerado um dos pilares da vida do Bhrâmane, o indivíduo que busca o auto conhecimento pela sabedoria e pelo conhecimento.
Ambos devem estar somados para serem eficazes pois sabedoria é o conhecimento usado com sensibilidade e o conhecimento é a sabedoria fundamentada no conhecimento.
Ambos , um e outro , estão no mesmo nível de importância e aparecem na Árvore da Vida do Cabala lado a lado, como os dois mais altos níveis da energia depois de Keter, a Coroa, e são conhecidos como Hochmah, sabedoria e Binah, conhecimento, e em algumas traduções, compreensão.
Porque de nada adianta o conhecimento que não se transforma em síntese conceitual e torna-se aplicável a existência. Erudição por si só não garante sabedoria e muito menos reflete conhecimento, da mesma forma que a água por si não forma o rio até que flua em direção ao mar.
Em tudo, e mesmo no conhecimento, é preciso fluxo, movimento, disseminação.
Sim, disseminação, distribuição ao longo de uma superfície já que a água deve irrigar os campos a sua frente para que resulte na melhoria da plantação e da colheita. E esta irrigação de conhecimento deve ser a mais ampla possível de forma a beneficiar o maior território possível, de plantas ou pessoas.
Essa era a idéia de Spencer Lewis assim como está exposta em um texto singelo intitulado "Perguntas e Respostas Rosacruzes", do qual possuo a 2a edição em língua portuguesa, de 1983, publicada pelo que se chamava na época Grande Loja do Brasil, a antiga denominação da Grande Loja de Língua Portuguesa.


Na página 208, na pergunta 58, que diz: " porque não é esse conhecimento ( esotérico e místico) publicado em livros e difundido livremente ao público em vez de ser reservado para disseminação restrita aos membros de uma organização privada?" Lewis responde:
"Nem a fraternidade Rosacruz, nem qualquer outro movimento internacional do passado ou do presente que têm sido depositários do conhecimento das grandes verdades da vida, tentaram restringir a difusão desse conhecimento. O grande problema e sério empenho por parte desses movimentos tem sido descobrir meios para a maior difusão possível dos ensinamentos e das informações de que dispõem."
E mais a frente ele continua:
"Todavia as massas ainda não desejam este tipo de educação. E isto fica provado pelo fato de que somente uma entre milhares de pessoas está suficientemente interessada na melhoria de seu bem estar e ampliação de seus próprios interesses, para se deter um momento na desenfreada agitação das atividades materiais, ler um folheto, uma lição,(um blog, que na época não existia) ou ouvir algumas palavras proferidas por um indivíduo esclarecido que venha a encontrar."
Ou seja, lá no início do século XX,( infelizmente a edição que tenho em mãos não refere a data da primeira edição em inglês) a ansiedade, a pressa e a dispersão mental já eram problemas psicológicos e sociais.
Para Lewis, este era o grande obstáculo para a difusão deste conhecimento, não a sua complexidade, mas a incapacidade de recepção do mesmo pela grande maioria da humanidade. Não era possível projetar alguma coisa sem que houvesse reflexo e o espelho das almas humanas estava como está hoje, embaçado demais para permitir refletir a luz dessa sabedoria.


Polir a nós mesmos, portanto, refinarmo-nos como seres humanos é o primeiro passo para permitir a chegada desse conhecimento, preparando nosso coração e mente para isso.
É preciso melhorar nossa sensibilidade e para isso precisamos de cultura, precisamos ler.
Sem cultura, não há solução, e aqui eu entendo cultura não como um aspecto eminentemente intelectual, mas o desenvolver daquele discernimento de que eu falava a pouco, Viveka, que em uma versão mais popular e mais humana chamar-se-ia sagacidade.
Uma amiga minha ouvindo este argumento certa vez traduziu a palavra sagaz por esperto, tentando entender o conceito. Sim, pode-se fazer esta sinonímia no vernáculo, na língua, mas não no conceito, já que os usos e costumes fizeram da palavra esperto o adjetivo da malícia, daquele que engana e trapaceia sem deixar rastros ou modos de ser punido.
Já a sagacidade, a meu ver, reserva ainda uma conotação de saber compreender o que está a sua volta com rapidez, transformando o percebido em informação útil e replicando-a melhorada logo adiante.
A sagacidade equivale, na minha ótica, à compreensão da Árvore da Vida, Binah, o conhecimento com aplicabilidade, não um entulho de informações, mas aquele que extrai da realidade elementos que refletem-se nesta mesma realidade como força de transformação e progresso.
O conhecimento que encanta é aquele que reflete compreensão e não erudição, que tem aspectos práticos e demonstráveis e não os que são meramente descrições sobre abstrações inatingíveis ao homem comum, mesmo que o objetivo deste conhecimento seja levar este mesmo homem comum a perceber estas abstrações altamente metafísicas.
Lewis sabia disso e na mesma resposta que foi citada acima, ele continua seu raciocínio tocando na importância de disseminar o conhecimento místico de forma produtiva e atraente:
"Essa situação ( a falta de interesse causada pela dispersão mental e pela pressa dos tempos modernos) requer a disseminação do conhecimento (místico) de modo limitado e de tal maneira que ele se torne atraente para aqueles que o buscam, e não uma intromissão nas atividades daqueles que não tem tempo e que protestariam veementemente contra sua difusão, considerando-a um desnecessário dispêndio de tempo e esforço valiosos."
E continua ele:
"A Ordem Rosacruz não opera como organização secreta, mas apenas privativa. Faz tudo ao seu alcance para levar sua obra e seus serviços à atenção do público, de modo digno e eficiente."
E neste ponto ele enfatiza:
"Todas as formas de procedimento ético são usadas para aplicar o conhecimento da Organização no aperfeiçoamento da humanidade, além da difusão dos seus ensinamentos....Nada que seja de caráter digno é desprezado na propagação dos ensinamentos da Organização, de modo tão eficiente, econômico e sugestivo quanto possível."
Frater Lewis amaria viver em nossa época e saberia como usar "selvagem" e produtivamente a internet, mesmo em uma época de ansiedade e dispersão mental 100 vezes superior a sua.
Mesmo assim ainda dependeria dos interlocutores que receberiam, que refletiriam a mensagem, mas jamais, em tempo algum, como homem de visão e democrata de um país com tradição em democracia, inibiria qualquer tipo de liberdade de discussão dentro da Ordem. Ao contrário, entraria no debate e com sua inteligência e intuição interferiria nas conclusões finais com sua sabedoria, seu conhecimento e sua sagacidade.


Cartão Profissional do Frater Lewis, disponível em http://i50.tinypic.com/2wp8s4x.jpg, link enviado gentilmente por um leitor do blog, pelo que agradecemos.


Frater Lewis não tinha medo dos seres humanos. Sabia que eles eram a sua raça e mesmo limitada pela ignorância e pelo materialismo, pelo medo e pela insegurança, tinha certeza de que podia influenciá-la na direção da luz, já que era um homem carismático, dotado de extrema energia, capaz de arrebanhar pessoas com sua fala e com suas colocações, um líder, enfim.
Refletir e pensar para ele jamais constituiria crime ou pecado porque era ele mesmo um livre pensador, herdeiro de Bacon, Descartes, ou de Johan Valentin Andreae, um dos autores do Fama e do Confessio Fraternitatis.
Esses homens foram rosacruzes e pensadores, influenciaram sua época e a humanidade, marcaram presença na História pelos seus conceitos e pelos seus textos, produto de mentes sagazes e sábias, mentes com Viveka, discernimento.
Eram homens cultos e colocaram sua cultura a serviço da Humanidade, não de seu ego,assumindo como Lewis posturas que nem sempre foram encaradas com simpatia pelos seus contemporâneos, e muito menos ainda compreendidas com facilidade.
Sabiam que pensar e refletir não era crime e muito menos pecado, mas apenas e antes de tudo a prestação de um serviço aqueles que não sabem como sair da zona de conforto e caminhar da apatia à ação.
Pensemos todos e reflitamos sempre sobre todas as coisas, como desejava Comenius, o educador, outro rosacruz, sempre atentos ao nosso coração e a nossa sensibilidade. Só desta maneira estaremos preparados para a Luz da Sabedoria.