Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 12 de janeiro de 2013

PORQUE UM BUDISTA ENTRARIA E PARECERIA REZAR EM UMA IGREJA CRISTÃ?

por Mario Sales, FRC.:, Gr.:18 - C.:R.:+C.:, S.:I.:(membro do CFD)




Alguma das coisas mais características de se fazer um blog é o dinamismo e a falta de intermediários. 
O escritor de blogs, que alguém já disse, em um filme, não ser literatura verdadeira, mas pichação com pontuação, está em contato direto com seu leitor e exposto a suas críticas imediatas e às vêzes ásperas, quando assim o leitor desejar.
Desde que a pessoa se identifique, e desde que o comentário não tenha um cunho de crime de preconceito, sobre a orientação sexual, religiosa ou sobre a raça de ninguém, toda crítica, mesmo as ásperas, são bem vindas. Elogios não nos ajudam, apenas amolecem o caráter de quem recebe e podem ser, ou uma demonstração de insegurança de quem os faz, na tentativa de ser gentil e conseguir simpatia de quem é elogiado, ou de medo de uma reação mais exaltada de quem recebe um comentário mais crítico.
Ambientes verdadeiramente democráticos no Brasil também tendem a levantar suspeitas. Existe um viés autoritário em nós, como em todas as nações, e a única coisa que enfraquece esse autoritarismo é um forte componente educacional e a história, o tempo que uma nação tem exercendo a liberdade de opinião.
Mesmo isto não é garantia de ausência de confrontos violentos, mas a liberdade como o medo viciam, e países acostumados à livre manifestação de opinião dificilmente aceitam outra condição e morreriam em confronto armado ao menor sinal de mudança da situação.
Brasileiros passaram por duas ditaduras longas e por preguiça macunaímica além da falta de tradição histórica neste tipo de liberdade, consentiram em tal período.
Cada nação tem a ditadura que merece e mesmo as pessoas hoje dizendo que não concordavam com aquele estado de coisas, a rebelião contra aquele triste estado de coisas foi pontual e localizada, não havendo um nojo autentico de toda a sociedade quanto aqueles períodos de exceção.
O raciocínio social coletivo é extremamente pragmático e em países como o nosso, que a duras penas superou um longo período de desorganização das contas públicas e da economia, a democracia e a liberdade de opinião eram considerados secundários, desde que houvesse prosperidade material, algo semelhante ao raciocínio de grande parte do povo chinês atualmente.
Mesmo em lojas maçônicas, que afirmam estar "reunidas para combater o erro, construindo templos à virtude e masmorras ao vício" eu já ouvi, de irmãos grau 33 elogios não tão velados aos anos de chumbo no Brasil.
Assim, é óbvio que exista aqui no país certa desconfiança em acreditar que um determinado espaço seja verdadeiramente democrático, como ele diz ser.
Mesmo assim, espera-se que mesmo os participantes de um espaço de discussão que possuem posturas contrárias ao autor dos artigos tenham alguma coisa a ver com estes assuntos.
Ser de opinião contrária a uma posição não significa estar desconectado com o ambiente aonde a discussão se dá.
O exemplo mais fácil são as Ordens Religiosas da Igreja Católica Apostólica Romana.
Ninguém discute que Franciscanos e Beneditinos ou mesmo Jesuítas não tem semelhanças operacionais entre si, porém todos prestam reverência a um único Papa, pertencem à mesma Hierarquia, e todos compactuam na fé no Cristo.
Existe consenso sobre a base em que se apóiam, se bem que possam haver diferenças de interpretação deste ou daquele aspecto comportamental.
Em outro exemplo, ninguém poderia supor que, ao entrar em um templo metodista. uma das denominações do movimento protestante, encontrasse ajoelhado em uma das fileiras da nave do templo o Dalai Lama.
Não faria nenhum sentido.
São crenças diferentes, pressupostos diferentes, valores totalmente díspares.
O Budismo nem mesmo é Teísta. E alguém , com legitimidade, ao ver esta cena , perguntaria: porque um budista entraria e pareceria rezar em uma igreja cristã? Não faria nenhum sentido.
Fiquei pensando nestas imagens quando recebi dias atrás um comentário de um leitor assíduo do blog que sempre posta comentários, como poucos fazem, mas que permanece anônimo, assinando com um pseudônimo que remete a prática rosacruciana de AMORC.
O comentário, curioso no mínimo, refere-se ao post "Questões de Família", e eu reproduzo para que possam acompanhar meu raciocínio.

1° comentário:

"Eu não ia comentar, porém não resisti devido ao tema dos mestres ocultos e secretos do Tibete e Himalaia. E curiosamente vivemos uma época única onde depois da invasão chinesa podemos aprender com verdadeiros mestres que fizeram seu treinamento completo no Tibete antes da invasão chinesa e fugiram para diversas partes do mundo depois da invasão. E o mais interessante quando pessoas ocidentais perguntam aos verdadeiros mestres vivos do Tibete como o Dalai Lama se existem mestres secretos e invisíveis no Tibete, eles dão fortes gargalhadas e dizem que os ocidentais tem imaginação muito forte e não existem tais coisas, que tudo é fruto de nossa fantasia. Então fica a reflexão, nós nunca encontraremos Mestres Secretos Invisíveis do Himalaia e Tibete porque eles não existem e quem constata com eles é devido a forte sugestão e sua mente mui imaginativa cria toda uma fantasia que eles acreditam... em QUESTÕES DE FAMÍLIA"

Ao qual eu respondi:

"E quais seriam esses verdadeiros mestres que fugiram do Tibet aos quais o senhor se refere? O Dalai Lama? Outra curiosidade, em que oportunidade o Dalai fez este comentário? Está em uma entrevista ou em um livro? Gostaria e lê-lo, se o senhor me pudesse referir a fonte, pelo que agradeço. em QUESTÕES DE FAMÍLIA Mario Sales em 08/01/13"

2° comentário do leitor:

"Assim como na AMORC não se divulga abertamente todo conhecimento, também no Budismo Tibetano não."

(comentário meu: Esse início foi curioso: vejam que eu não estava perguntando por nenhum mistério do esoterismo, mas o nome de uma revista, livro ou filme aonde o comentarista leu o que referiu, uma fonte, e a resposta parece encaminhar a conversa para "os misteriosos e obscuros caminhos do oculto".)

E continua o comentarista anônimo:

"Porém, no Budismo Tibetano não existem mestres invisíveis, não existe um "eu", existe o vazio. E pensamentos são apenas uma coisa que separa a mente da natureza da mente. E deve-se libertar-se de todos pensamentos. Vou passar um link de um filme que aborda vários aspectos disso. Não diretamente por ser público, porém veladamente se mostra que existe muita ilusão e endeusamento no ocidente. Se uma pessoa for num retiro praticar com um mestre tibetano e ao final da meditação o aluno disser que viu um mestre todo luminoso que veio abençoá-lo o mestre vai dizer que ele fez tudo errado, que isso é apenas uma fantasia da mente dele e que ele não entendeu nada da prática e pedirá para refazer a prática desde o princípio. Pois a prática budista tibetana não tem nada haver com tais fantasias... http://www.movie2k.to/My-Reincarnation-subtitled-watch-movie-1487218.html em QUESTÕES DE FAMÍLIA Um Frater em 08/01/13


Aqui cabe um comentário intermediário. Isto é absolutamente verdade. O Budismo é uma escola para o domínio da atividade mental, algo que extraiu do Sankhya Yoga, uma das seis escolas filosoficas clássicas da Índia, que diz: YOGA CHITTA VRITTI NIRODAH, ou seja , Yoga é a Parada do Turbilhão da Mente. Budismo também. Busca-se a serenidade e, ainda de modo semelhante ao Yoga, pela meditação, pelo vazio do pensamento, principalmente no Zen, seja na escola Soto, pela meditação Zazen, seja pelos Koans, enigmas Lógicos, da Escola Rinsai. Exatamente por isso, budistas não costumam se dar a este trabalho de pensar o impensável, principalmente a existência ou não existência de Deus, dos anjos ou de Mestres Ascensionados, principalmente os budistas tibetanos, e por isso insisti em saber aonde o Dalai tinha se referido a tal assunto. Não prestei atenção na resposta anterior aonde o comentarista anônimo já dizia que " veladamente se mostra que existe muita ilusão e endeusamento no ocidente. "

E respondi:

"Sim, eu compreendo , mas o senhor comentou que o Dalai Lama tinha feito uma referencia explicita a uma "excessiva imaginação ocidental" e que "tais mestres não existem". Me pareceu uma citação e o que eu queria era saber aonde o frater leu ou viu tal declaração, que deve ser pública, já que o Dalai é uma pessoa extremamente simples e direta nos seus pronunciamentos. Estará neste filme que o irmão me recomenda? Se não, aonde o frater teve acesso a esta contundente declaração? Pelo que agradeço. em QUESTÕES DE FAMÍLIA Mario Sales em 08/01/13"


Ao que ele me respondeu, já meio impaciente:

"Releia o trecho: "...como o Dalai Lama..." eu não disse que o Dalai Lama especificamente, eu citei ele por ser conhecido como mestre do Tibete. Se tiver acesso a ele pergunte sobre estes mestres invisíveis. Se não tiver acesso a ele pode perguntar a qualquer outro mestre tibetano vivo que teve formação no Tibete. Eu já estudo há alguns anos e compreendo o que eles ensinam. Porém como eu disse, não publicam essas coisas. São coisas muito óbvias... em QUESTÕES DE FAMÍLIA Um Frater em 08/01/13"

Ao que respondi:

"Ah , entendo, não foi o Dalai que fez este comentário. O Dalai é uma pessoa muito objetiva e extremamente sensata. Achei difícil mesmo que ele tivesse discutido tal tema, a não ser que tivesse sido provocado por um reporter, ou alguém que o valha. Mas geralmente o teor de suas falas e as causas em que se envolve são de tanto pragmatismo como o trabalho que desenvolve em Stanford sobre meditação e saude, que achei estranho que tivesse comentado aspectos tão metafísicos e esotéricos. Se há uma coisa sobre o Dalai é que ele não é um esoterista. É um lider espiritual, mas um homem do mundo.Agradeço o esclarecimento." em QUESTÕES DE FAMÍLIA Mario Sales em 08/01/13


É isso. O Dalai não é um esoterista. Nenhum Budista é. As pessoas ouvem um Budista cantar mantras e as vezes supõem estar diante de místicos semelhantes aos rosacruzes, ou mesmo aos sufis. Não existe maior equívoco. Budismo, como comentei, não é uma linha de pensamento teísta, não existe a discussão sobre o contato com uma inteligência interna em nós, não existe uma busca de um Deus interno. Simplesmente, tal conceito não é discutido. As linhas de pensamento se confundem todo o tempo e por isso vemos no Laos, Cambodja e Vietnã um budismo religioso, com templos e celebrações, encomenda de defuntos em velórios, casamentos, etc como em qualquer religião. Mas no fundo, principalmente na Escola Mahaiana, de onde deriva o Zen Japonês, o Budismo não é uma linha de pensamento religioso, mas sim uma Escola de Ética e Psicologia, que busca superar as limitações mentais pela "cessação do turbilhão mental". Não existe a busca de um Deus não porque os Budistas sejam ateus; simplesmente tal conceito, Deus, é desnecessário na equação final da prática. Comparar as práticas e crenças do Budismo com as práticas do Misticismo Rosacruz é a mesma coisa que comparar maçãs e tomates. Ambos são vermelhos, parecidos na esfericidade, mas o sabor e a consistência são absolutamente diferentes.

E aí o comentarista conclui seus comentários:

"Então fica a mensagem, se sua mente for muito fantasiosa e predispostas a imaginação descontrolada, você verá os mestres invisíveis. Por outro lado quem quiser realmente aprender os ensinamentos que vieram do Tibete, Himalaia e Índia poderá aprender muito. E não tem nada em relação ao esoterismo. Era muito fácil quando Lhasa era a cidade proibida e o Tibete fechado e de dificílimo acesso afirmar que lá é que estão os mestres invisíveis... ;-) em QUESTÕES DE FAMÍLIA Um Frater em 09/01/13.

É verdade. Tudo faz sentido, do ponto de vista lógico, mas fiquei pensando sobre este estranho comentário, não pelo que ele diz, mas pelo que ele não diz. Por exemplo, quem comenta dessa forma ironica e com um viés de superioridade mental, pode ser tudo menos "Um Frater". Porque alguém tão contrário, por mais fundamento que tenha em suas convicções, ao pensamento rosacruz e a perspectiva esotérica da existência da Fraternidade Branca, como descrita por Blavatsky no final do século XIX, acompanharia com tanto interesse um blog de um rosacruz de AMORC?
Respeito e estudo várias linhas de pensamento às quais não pertenço, mas me escapa porque, por exemplo, eu frequentaria um blog budista e faria comentários irônicos contra dogmas do Budismo, mesmo que fosse por pura solidão. Não é que eu não pudesse fazê-lo, é que não vejo sentido nisso. Da mesma maneira, não entendo porque alguém que não comunga com crenças de AMORC, por mais fundamentado que seja seu discurso, participa de discussões em um blog rosacruz, de forma anônima, com o pseudônimo de "Um Frater", terminologia específica de AMORC.
Assim como as contradições humanas do escritor de blogs ficam expostas, as contradições dos comentaristas destes blogs também. São características da condição humana. Mesmo assim, para mim, fascinado pelo comportamento dos seres humanos, contradições são muito interessantes. 

E curiosas.