Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 31 de março de 2012

O TEMPO,O ESPAÇO E AS ESTÂNCIAS DE DZYAN

Comemorando os 5154 acessos de março de 2012.

por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

HPB



As Estâncias de Dzyan são pergaminhos antigos de origem tibetana, citados por Helena Petrovna Blavatsky em seu livro A Doutrina Secreta, que é uma obra teosófica. Blavatsky alegava que teria tido acesso e estudado estes pergaminhos em sua estada no Tibete. Segundo Blavatsky, as "Estâncias de Dzyan" seriam um manuscrito arcaico, escrito em uma coleção de folhas de palma, resistentes à água, ao fogo e ao ar, devido a um processo de fabrico desconhecido, e que conteriam registros de toda a evolução da humanidade, em uma língua desconhecida pelos filólogos denominada Senzar. Foram feitas várias tentativas, sem sucesso, de descobrir este manuscrito, durante o século XX. Assim, permanece sem resposta se estes manuscritos realmente existiram ou não. As "Estâncias de Dzyan", segundo Blavatsky, estão relacionadas com o "Livro dos Preceitos de Ouro" e com os "livros de Kiu-te", que são uma série de tratados do budismo esotérico.
Da Wikipedia


Algum tempo atrás publiquei no blog um ensaio cujo título era “Meditando sobre o Espaço sem Tempo e o Tempo sem Espaço”, de 19 de março de 2011, um estudo sobre as afirmações altamente complexas do Sepher Yetzirah acerca dos 4 níveis da criação, como descritas em relação a Árvore da Vida. Foi um exercício de reflexão sobre um tema impossível de visualizar, altamente abstrato, que eu supunha pudesse auxiliar a quem se embrenhe por essas veredas.
Cometi, entretanto, a imprudência de colocar este ensaio a disposição dos frateres que me procuram para palestras, e recebi recentemente um email de uma sóror, da Loja Santo André, me pedindo que realizasse uma palestra exatamente sobre este ensaio em seu corpo afiliado. Concordei de pronto, acertamos dia e hora e desliguei o telefone.
Aí começou a minha angústia.
Quando fui reler o texto , primeiro percebi que era demasiado curto para transformar-se em uma palestra.



Depois percebi que, dada a abstração do tema, eu teria dificuldade em tornar o mesmo didático e interessante para quem não esteja habituado a este tipo de reflexões.
A primeira reação foi ligar e tentar modificar o tema com a sóror. Protelei, entretanto, não sei bem por que.
Ainda bem.
Quarta feira passada, dia 28 de março, retomei com Frater Flavio, meu companheiro da Loja e da Heptada Guarulhos, nossos estudos da Doutrina Secreta. Ele, teósofo interessado, já faz algum tempo, tinha se mostrado disposto a esta revisão deste texto fecundo que nos foi legado por Blavatsky.
Concordamos em recomeçar com o volume um, a Cosmogênese, pelo estudo das Estâncias de  Dzyan  , peça fundamental do texto.
E para minha surpresa, lá nas primeiras passagens, estavam as bases para estender a discussão do Tempo sem Espaço e do Espaço sem Tempo por toda uma noite.
Na verdade, Blavatsky passa quase todo o texto da Cosmogênese, apresentando as Estâncias (no meu exemplar, da Ed. Pensamento, edição de 1973, na página 94), uma a uma, para depois comentá-las, detalhadamente. São em número de sete, numeradas em algarismos romanos. Já na Estância I, percebe-se porque me senti atraído.
Senão vejamos:


Estância I 

1. O Eterno Pai, envolto em suas Sempre Invisíveis Vestes, havia adormecido uma vez mais durante Sete Eternidades.
2. O Tempo não existia porque dormia no Seio Infinito da Duração.
3. A Mente Universal não existia, por que na havia Ah-Hi [1]para contê-la.
4. Os Sete Caminhos da Felicidade não existiam. As Grandes Causas da Desgraça não existiam, porque não havia ninguém que as produzisse e fosse por elas aprisionado.
5. Só as Trevas enchiam o Todo Sem Limites, porque Pai, Mãe e Filho eram novamente Um, e o Filho ainda não havia despertado para a Nova Roda e a Peregrinação por ela.
6. Os Sete Senhores Sublimes e as Sete Verdades haviam cessado de ser; e o Universo, filho da necessidade, estava mergulhado em Paranishpanna(2), para ser expirado por aquêle que é, e, todavia não é. Nada existia.
7. As Causas da Existência haviam sido eliminadas; o Visível que foi, e o Invisível que é, repousavam no Eterno Não-Ser – O Único Ser.
8. A Forma Una de Existência, sem limites, infinita, sem causa, permanecia sozinha, em um Sono sem Sonhos; e a Vida pulsava inconsciente no Espaço Universal, em toda a extensão daquela Onipresença, que o Olho Aberto de Dangma percebe.
9. Onde, porém, estava Dangma(3) quando o Alaya(4) do Universo se encontrava em Paramartha(5), e a grande Roda era Anupâdaka(6)?


Este texto, aparentemente esotérico, é de uma beleza exemplar.
Às vêzes, misticismo é práxis, métodos e conjunto de maneiras de chegar a um determinado objetivo, como a oração que nos aproxima do Todo Poderoso e nos purifica, ou a Visualização Criativa que nos torna semi deuses num mundo de homens.
Outras vêzes, misticismo, na forma de esoterismo, é apenas beleza, estética, poesia. Algo que tem um único objetivo: nos inspirar.
A estância número um é pura beleza e poesia.
Vale não só pelo que informa, mas pela forma como passa a informação.
Nos seus comentários seguintes, Blavatsky intelectualiza e aprofunda as afirmações da estância número um, linha por linha.
Diz ela (página 100) da primeira linha (O Eterno Pai, envolto em suas Sempre Invisíveis Vestes, havia adormecido uma vez mais durante Sete Eternidades):
“O “Pai”, o Espaço, é a Causa eterna, onipresente, a incompreensível Divindade, cujas “Invisíveis Vestes”, são a raiz mística de toda a Matéria e do Universo. O espaço é a única coisa eterna que somos capazes de  imaginar facilmente, imutável em sua abstração, e que não é influenciado nem pela presença nem pela ausência de um Universo Objetivo. Não tem dimensões, seja em que sentido for,e existe por si mesmo.”
Neste comentário, Helena Petrovna se supera na clareza com que descreve o espaço como conceito, não como objeto, coisa, mas como ideia, plausível e compreensível por nosso limitado intelecto.
Pois é fácil imaginar um enorme galpão vazio, e pelo poder da Imaginação, ora colocar ali uma cadeira, ora fazê-la desaparecer. O galpão e seu espaço continuará lá, esteja a cadeira dentro dele ou não, presente ou ausente.
Mesmo considerando que não estamos falando de uma dimensão dada, é claro que quaisquer dimensões e extensões que já tenhamos contemplado em nossas curtas encarnações servem de apoio a nossa imaginação ao tentar idealizar o conceito de Espaço sem quaisquer dimensões ou limitações.
É possível também que nos venha à memória a lembrança de um dia em uma praia vazia, em frente ao mar imenso, em seu eterno movimento, em que nosso olhar tenha, distraído, pousado no horizonte distante. Ali, o conceito de distância, de comprimento, de extensão, estavam manifestos, sem detalhes, em nossa simples contemplação, e a ideia de deslocamento sobre a massa d´água à nossa frente até aquele ponto longínquo onde céu e terra se encontram poderá até, em determinado momento, ter atravessado a nossa mente.
Quando Helena fala de Espaço, podemos fantasiar o espaço vazio, o espaço entre dois pontos, independente dos pontos em si, este ambiente que a física define como o “uma estrutura ilimitada ou infinitamente grande, que contém todos os seres, que é definida por relações geométricas entre todos os seres, e que é campo de todos os eventos — sejam eles observáveis ou não”.
Só que esta definição física não satisfaz o conceito esotérico descrito por HPB.
Ela não fala desse espaço, mas do Espaço-em-si, aquele que promove a possibilidade de uma presença qualquer, para lembrar Heidegger, consciente ou inconsciente, já que tudo que está presente está presente “em algum lugar”, e este lugar deverá preencher, necessariamente, uma determinada porção do espaço.
Por que este Espaço-em Si não tem dimensões, nem bordas, nem limites, não interage com qualquer outra dimensão de localização. É o Espaço Puro, e nesse sentido, um espaço sem tempo como coloquei em meu ensaio, descrevendo Yetzirah, já que tempo pressupõe Movimento que não existe no Espaço-em-si. Dizia eu, naquela oportunidade:
“O que dá existência ao Tempo é o Movimento. O Espaço vazio, sem nada que o ocupe e que se desloque sobre ele, é o Espaço sem Tempo. Só pelo movimento sobre o espaço surge o deslocamento e a sucessão de instantes, as durações. Diz o Cabala: “Antes que pusesse sua coroa para estabelecer seu reinado ele delimitou o Ilimitado dentro de limites. Correu uma cortina diante D´Êle e nela Ele começou a desenhar o Seu reinado. Mas nada existia, exceto em nome.”
Este é o Espaço sem Tempo. A Prancheta de Deus, um desenho da Obra, o plano no papel, o pensamento e a intenção transformando-se em projeto. Desenho sem vida, imóvel, apenas traços em uma folha (unidimensional) rabiscos da Criação.”
Blavatsky vai mais longe.
Para evidenciar a falta de referenciais que designem ou particularizem qualquer forma dentro deste espaço, que para ser espaço puro precisa ser absolutamente vazio, ela cita a enorme diferenciação que este mesmo sofreria pela presença de uma consciência, no caso, a Presença Divina:
“O Espírito é a primeira diferenciação “D´Aquilo” – a Causa sem Causa do Espírito e da Matéria.”, diz ela. E continua: “Segundo o ensinamento do catecismo esotérico, (o espaço) não é nem o “vazio sem limites”, nem a plenitude condicionada”, mas ambas as coisas simultaneamente. Foi e sempre será.”
E o que É, simplesmente, não possui a dimensão temporal, o que é dito na segunda linha da estância número I:
“O Tempo não existia, porque dormia no Seio Infinito da Duração”.
O tempo é uma ilusão do movimento, pela sucessão de percepções, ou como diz ela, “pela sucessão de nossos estados de consciência, à medida que viajamos através da Duração Eterna”.
Henri Bergson, talvez alimentando-se da fala Blavatskyniana, definirá esta Duração como “o correr do tempo uno e interpenetrado. Os momentos temporais somados uns aos outros formam um todo indivisível. (A Duração) opõe-se ao tempo físico ou sucessão que é passível de ser calculado e analisado. O tempo vivido é incompreensível para a inteligência lógica por ser qualitativo, enquanto o tempo físico é quantitativo.”
Pensem na Duração como um tecido, um lençol extremamente grande, aonde podemos deitar o corpo.
Não vemos a separação das fibras que o compõem e, desta forma, ele se nos apresenta contínuo e uno. Este seria o Tempo contínuo, ou Duração, uma qualidade, não uma quantidade, por isso não pode ser compreendido, apenas experienciado. O Continuum é, como o nome diz, indivisível, uma extensão una, como o lençol de nosso exemplo.
Voltemos à praia e à contemplação de que falamos antes, ao descrever a extensão, para tentar compreender a noção de Tempo-em-si, vazio de instantes, assim como o Espaço-em-Si é vazio de partes ou limites. 
Posso, numa tarde agradável, esquecer-me de mim mesmo em uma cadeira, ao sol. Sonolento, mas consciente, ouço indiferente o som das ondas que batem na praia. A preguiça é enorme, mas não adormeço. Meu corpo, imóvel, minha mente, tranquila, não se dão conta do passar dos minutos ou dos segundos.
Neste instante, e exatamente neste momento, em que o tempo deixou de ter importância, em que relógios seriam abominações em meu momento de repouso, neste exato instante estou mergulhado na Duração. Aqui, passado, presente e futuro estão fundidos no Eterno.
É por isso que Blavatsky comenta, falando desta segunda linha da primeira estância:
“(O “Tempo”) (...) deixa de existir quando a consciência em que tal ilusão se produz já não exista; então ele “jaz adormecido”. O presente não é senão uma linha matemática (imaginária, diria eu) que separa aquela parte da Duração Eterna que chamamos Futuro, daquela outra a que damos o nome de Passado”. E conclui ela: “Nada há sobre a Terra que tenha uma duração (no sentido de existência) real, pois nada permanece sem mutação, ou no mesmo estado, durante um bilionésimo de segundo que seja”.
Foi nesse sentido que tentei descrever Briah, o Tempo sem Espaço:
“O Tempo sem Espaço é Som, mas Som que não se propaga, Som sem som, murmúrio abafado, aliás, nem isto, já que está retido na garganta de Deus por não ter espaço por onde se propagar.
É o Som do Pensamento, que ecoa em nossa mente sem se deslocar.
Porque o Som que se ouve, propagou-se, irradiou-se através de uma extensão, ou por outra, deslocou-se através de algum espaço. Já o Som sem propagação é puro pensamento, intenção de som, como movimentos involuntários de cordas vocais sem emissão de ar durante um sonho.”
Talvez por isso o Som Primordial, o OM, seja tão gutural, grave.Em Briah, enquanto Deus imagina o Mundo, ele sonha, como ensina o Vedanta. Interessante.
Esta é a explicação do Tempo sem Espaço: a Intenção do Som, a Imaginação do Som, o delinear de uma sinfonia na cabeça do Compositor. Não ainda a Música da Criação, mas a Criação Mental da Música.
A Justiça, a Misericórdia e a Beleza são Princípios Éticos, Concepções acerca da Obra, nada denso ou sólido, mas fundamentos mentais em ebulição no calor do pensamento para a execução da obra. Este triângulo mental está no período de sonho e desejo. Briah é fogo e desejo.


[1] “Serpentes Sábias” ou “Dragões da Sabedoria”, segundo o Glossário Teosófico, 2ª edição, Ed. Ground, tradução de Silvia Sarzana, pág. 24. Já que no Oriente o símbolo do dragão é “do Bem”, querendo representar a Energia do Universo, a ideia de contenção do todo, exposta nesta linha da Estância I, pelos Dragões, pode ser traduzida por encapsulamento energético, ou dito de outra forma, um Campo Energético, contendo a Criação.
(2) O mesmo que Paranirvana, o Estado de Não Ser.
(3) Alma Purificada, o Iniciado.
(4) Alma Universal ou Anima Mundi, a Alma Mestra.
(5) Existência Absoluta, a Suprema Verdade ou Realidade
(6) "Sem pais", Que Existe por Si Mesmo.