Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 4 de março de 2012

O VINHO, OS QUEIJOS E A FRATERNIDADE


por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

“Nós logo alcançamos sua caverna, mas ele estava fora cuidando das ovelhas, então entramos e fizemos um levantamento de tudo que pudéssemos ver. Sua prateleira estava lotada com queijos, e ele tinha mais cordeiros e cabritos que seus currais podiam conter…Quando ele terminou, sentou-se e ordenhou suas ovelhas e cabras, tudo em seu devido tempo e, em seguida, levou cada uma delas para junto de suas crias. Ele coalhou metade do leite e colocou-o de lado em peneiras de vime”.

A Odisseia de Homero (século VIII A.C.) descrevendo o Ciclope Aristeu, fazendo e armazenando queijo do leite de ovelha e cabra. A tradução é de Samuel Butler.







Enquanto a noite segue, a tradicional reunião de quinta feira da ARLS In Vino Veritas se mostra produtiva e divertida, entre goles de Dão, vinho português de gosto marcante e cor rubi, e pedaços de queijo gorgonzola italiano, mussarela e parmesão.
Yasmashita não veio, envolvido em obrigações de marcenaria. 




Estamos aqui eu e Fernando, em Suzano, enquanto Reginaldo participa via Skype, desde Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco.
Sim, comenta ele, a língua hebraica tem seu caminho desde o proto-canaanita, depois no fenício e no aramaico que por sua vez alimenta além do hebraico o brâmane e o ciríaco. Milhares de anos nos separam destes movimentos linguísticos.
Milhares de anos, lembra minha filha, nos separam dos primeiros queijos. Há relatos de que os primeiros tenham sido elaborados 2800 a 3000 anos atrás, tornando-se parte de nossa dieta.
Quanto ao vinho, está presente entre os deuses gregos, mas também na primeira empreitada depois do dilúvio, embriagando Noé, o perpetuador, que nu e inconsciente é carregado para casa por seus filhos.
Sim, o vinho é antigo, muito antigo.
Como o Cabala e os queijos.
A região de onde vem o vinho que tomamos esta noite, que leva seu nome, Dão, ocupa a província de Beira Alta, no Centro Norte de Portugal. Dão está toda cercada de serras.





Cooperativas produzem 60% dos vinhos de lá. Os outros 40% estão divididos em três grandes grupos: Borges, Sogrape e Caves. O Dão que embala nossas discussões esta noite é da Vinha Sogrape. Depois de ter visto eleito o seu produto como o melhor vinho do Porto, o Sandeman Tawny 20 Years Old, a Sogrape Vinhos conquista no International Wine and Spirits Competition – IWSC 2011 o troféu de Produtor Português de 2011, lê-se no site da prestigiada vinícola lusitana. 






Já o gorgonzola é uma "variedade de queijo azul fabricado com leite de vaca ou cabra, originário da localidade de Gorgonzola, nos arredores de Milão, na Itália. Neste queijo, assim como em todos os queijos azuis, no processo de maturação, são injetados fungos, que fazem com que tenha veias verde-azuladas e que lhe dão um sabor especial. Neste caso, injeta-se o Penicillium”. 


Penicilinum Notatum




O genero de fungo Penicilum é conhecido, o mesmo do bolor do pão, e se o Penicilum Roqueforti dá origem à um queijo de sabor inconfundível, o Penicilum Notatum transformou-se, nas mãos de Alexander Fleming, em 1928, na base para a elaboração do primeiro membro da família dos antibióticos, que garantiu a cura de uma doença antiga e bíblica, a sífilis, há pouco menos de 100 anos atrás. 



Gorgonzola, Lombardia, arredores de Milão, Itália 

O antigo mal teve como cura um antigo bem, mas que não se sabia que poderia neutralizar aquele antigo mal.
O bem, enquanto desconhecido é inútil.
Tudo que serve ou tem o propósito de servir alguém ou a alguma coisa, deve ser manifesto.
Antes de ser útil, deve ser manifesto.
Intenções ocultas não salvam vidas nem melhoram os humores.
Só as atitudes, as ações no real, transformam situações e pessoas.
Precisamos não só de ideias, mas de fatos, de natureza clara e definida, como o gosto deste queijo, inconfundível, inesquecível.
Como o prazer da companhia destes irmãos, cuja verdadeira Magia Cabalística está na fraternidade que nos une e nos faz extensões uns dos outros, ao sabor de queijos, dos vinhos e das palavras.
Que Baco, Aristeu e os fungos nos protejam e alimentem nossos corpos e espíritos na prática da fraternidade e da camaradagem. Assim seja.