Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 10 de março de 2012

COMO CONVERTER UM ATEU


por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:



A maior batalha mundial travada pela humanidade não tem tiros e canhões, bombas nucleares, mísseis inteligentes ou militares burros. Não é feita com aviões, tanques ou navios.
A maior de todas as guerras, que começou há muitos séculos e que não dá sinais de terminar tão cedo gerou muitas vítimas e muita dor, deixou cicatrizes em todos os países e em todos os povos, atravessou o oceano, várias vêzes, em todas as direções, de variados modos, século após séculos.
Falo da guerra das palavras.



A história humana acumula um sem número de episódios sangrentos e trágicos só por culpa de equívocos interpretativos declarados em alto e bom som, transtornando multidões arrastadas pelo poder das palavras, estes encantos mágicos disfarçados de idioma.
Sim, as palavras são perigosas, ainda mais quando são usadas sem critério, sem cuidado, sem prudência.
Tal poder não deveria estar na mão de civilização tão jovem, um planeta tão incipiente como o nosso.



Só que nem sempre o poder das palavras foi usado para o mal, inconsciente ou conscientemente.
Houve momentos em que os sábios se apropriaram desta ferramenta poderosa e desencadearam ondas de esclarecimento e iluminação por todas as partes.
Ondas de luz tão intensa que por muitos anos, às vêzes, seus efeitos plenos não foram percebidos, enquanto atravessavam camadas e camadas de insensatez e ignorância no seio da sociedade. Por séculos, os ecos desses discursos abençoados perseveraram e rebateram de rocha em rocha, de alma em alma, transformando quem os ouvia e, principalmente, os compreendia.

Assim são as palavras do Buda, os textos Essênios, ou as palavras do Bardo Todol, o Livro dos Mortos Tibetanos. E ainda podemos citar os diálogos platônicos, os sermões de Jesus, ou as cartas de Paulo apóstolo.
Mais recentemente, nos anos de mil e seiscentos, a Ética de Espinoza veio se somar a este conjunto de forças que combatem arduamente as trevas neste mundo de enganos, mas também de superação.
Talvez o maior dos combates ao longo dos séculos na guerra das palavras tenha sido a compreensão do termo Deus.



Seja qual for a nossa opinião sobre a divindade, sem duvida é inegável a importância desta palavra-conceito em nossa história recente e antiga.
Por sua causa, e pela peculiar compreensão de seu significado para um sem número de pessoas, verdadeiras chacinas foram organizadas contra os cristãos e depois pelos cristãos contra os muçulmanos, e mais tarde pelos muçulmanos contra os cristãos, num ir e vir de estupidez e martírio.
Já discutimos aqui que na grande maioria das vezes, as contendas não são entre crentes e ateus, mas entre diferentes tipos de crenças na mesma ideia, diferentes tipos de concepção do que seja Deus em forma, conteúdo e propósito. Assim, naquela oportunidade, eu discutia a tese de que antes de ser ateu ou crente é preciso discutir do que duvidamos e exatamente no que acreditamos.
Por que, convenhamos, Deus não é uma ideia uma e indivisível, mas o nome genérico de um sem número de conceitos. Existem aqueles que lhe atribuem aspectos antropomórficos e os que o supõem velho; há os que o consideram inequivocamente homem e existem outros que tem absoluta certeza de que Deus é mulher. Alguns dizem que ele é justo; outros que é cruel. E segue a romaria de definições e impressões causando discórdia e discussões às vêzes bizantinas e estéreis.
Neste mar de teses e antíteses surge o pensamento espinoziano trazendo uma proposta capaz de apaziguar ânimos em todos os lados, uma proposta de consenso, que em nada deve ao Cristianismo na tentativa de trazer à humanidade algum bom senso e generosidade e nada deve ao racionalismo na elegância de sua apresentação e no brilhante encadeamento de seus passos lógicos.
A beleza do pensamento espinoziano é que ele permite uma leitura bifacial, mesmo quando retira da discussão uma ideia religiosa e preconceituosa da divindade e a transporta para o campo da realidade biológica, descentralizando a manifestação de Deus e difundindo-o por toda a Criação. Por isso foi classificado como panteísta, e não panenteísta; por isso foi aceito por pessoas que não conhecem a experiência do contato íntimo com a Divindade, mas podem entender uma realidade criadora, manifesta na Natureza, que ele chama enquanto criativa, de Natureza Naturante, enquanto nomeia os produtos desta criação, seus modos, como ele chama, de Natureza Naturada.
Deus torna-se então palatável para aqueles que não conseguem senti-lo, mas apenas pensá-lo.
Muitos ateus ou agnósticos que eu conheço sentem-se perfeitamente à vontade com a ideia de Deus espinosana. Ainda mais que esta vem acompanhada de tamanha bondade e generosidade que é difícil não tentar compará-la a mensagem cristã. Ao contrário desta, no entanto, que talvez tenha tido uma penetração mais poderosa nos corações e mentes da humanidade, a mensagem espinosana se imiscui no tecido social como a água no papel, lentamente, sendo absorvida aos poucos. Parte pela sua estranha forma de organização, em textos em latim que buscam uma organização matemática e encadeada, parte pela sua novidade, rompendo com noções de culpa e moralismos esdrúxulos, considerando o atraso sociopolítica da época em que foram redigidos. 
Estes preciosos textos , mesmo assim, atravessaram os séculos e ainda ecoam em nossos ouvidos, repetidos por milhares de bocas e traduzidos por milhares de mestres que reverenciam, uma vez compreendida, a mensagem deste outro mestre de outrora, agora eterno.
Quem lê que “faz parte da minha felicidade compartilhar com outros o verdadeiro bem e formar uma sociedade tal que a maioria possa chegar a ele facilmente”(Tratado da Emenda do Intelecto) entende a enorme generosidade e o verdadeiro espírito crístico deste judeu incompreendido.
Em outra passagem de seus textos lemos: “A verdadeira felicidade e beatitude do indivíduo consiste unicamente na fruição do bem e, não, como é evidente, na glória de ser o único a fruí-lo quando os outros dele são excluídos; quem se julga mais feliz só porque é o único a ser feliz, ou porque é mais afortunado que os outros, ignora a verdadeira felicidade e beatitude.”(Tratado Teologico Politico).
Espinoza abriu uma porta que muitos julgavam necessário ser arrombada: a porta do coração dos que se dizem ateus.
E com argumentos tão dignos e tão nobres que em nada ficam a dever as epístolas paulinas, se bem que as superem na ausência de moralismo e na absoluta libertação do terrível peso da culpa.
No pensamento espinosano não se busca responsáveis, criminosos, pecadores. Buscam-se informações , entendimento, compreensão. Em suma, esclarecimento. Tudo o que ocorre, ocorre por uma razão e se não a conhecemos, não quer dizer que ela não exista.
Para ele os homens são o que podem ser, não mais, nem menos. Não estão contra a Natureza porque não podem estar, mesmo que o quisessem, já que não existem o homem e a natureza, mas apenas a natureza, expressa no ser humano como um de seus modos.
Existe no íntimo de seu discurso, no entanto, a promessa de melhorarmos e de evoluirmos, pois tudo muda, se atentarmos ao que conhecemos e se buscarmos com sinceridade de coração a compreensão daquilo que não conhecemos. Se principalmente não julgarmos aos outros ou a nós mesmos pelos nossos erros, mas apenas tentar, sinceramente compreender suas causas e evitar repeti-las, alimentados pela experiência.
Pergunto: existe discurso místico mais perfeito?