Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 28 de julho de 2010

OS MUITOS MARTINISMOS NA HISTÓRIA RECENTE DO MARTINISMO

Martinez de Pasqually

Por Mario Sales FRC.:, S.:I.:, M.:M.:

Não existe tal coisa como o Martinismo, mas Martinismos e em conjunto, não são, em nenhum momento, um outro tipo de rosacrucianismo.
Existem, isto sim, momentos rasacrucianos na história do martinismo moderno.
É de Stanislas de Guaita a seguinte frase:
“- Não queremos aqui te impor convicções dogmáticas. Pouco importa para nós que te consideres um materialista, espiritualista ou idealista; que professes fé no Cristianismo ou no Budismo; que te proclames um livre pensador ou que defendas até mesmo o ceticismo absoluto.Não atormentes teu coração agitando teu espírito com problemas que só podes resolver perante a tua consciência e no silêncio solene de tuas paixões aquietadas. Se te sentes evolvido pelo amor verdadeiro de teus irmãos e irmãs humanos, não procures nunca dissolver os laços de solidariedade que te unem ao reino hominal considerado em sua síntese...”
Senhores, este é um texto rosacruciano na boca de um co-fundador da Ordem Martinista restaurada por Papus, no final do século XIX.
Papus e Guaita eram espíritos enciclopédicos e absolutamente comprometidos com a preservação do conhecimento esotérico.
Louis Claude de Saint Martin
Eram homens de seu tempo, mas também de todos os tempos, estando fortemente ligados ao passado de onde provém a Tradição como ao futuro aonde a força deste trabalho místico se projetou e ainda se projeta.
Papus
Homens-Ponte, fundamentais a toda linha de cultura,
a todo esforço intelectual de preservação.
Só que o Martinismo Papusiano não cursa apenas com posturas tão rosacrucianas como a que está presente na frase “Pouco importa para nós que te consideres um materialista, espiritualista ou idealista; que professes fé no Cristianismo ou no Budismo; que te proclames um livre pensador ou que defendas até mesmo o ceticismo absoluto.”
Guaita
O Martinismo moderno herda também a tristeza e a falta de élan vital do Philosophe Inconu, sempre identificado com o que eu chamo de espiritualismo triste, olhos postos no céu e desviados da Terra e da vida em sociedade.
Ao contrário de Guaita e Papus, ambos seres cosmopolitas, (um de origem nobre e o intelectual mais poderosos daquele grupo de seres reunidos pelo destino em Paris, e o outro um dos homens que soube casar uma formação científica positivista com uma poderosa atividade mística), Saint Martin não estava a vontade no mundo e na vida, e embora maçon ativo até metade de sua existência participando ativamente das decisões quanto ao destino da Ordem dos Éllus Cohen após a morte de seu mestre, Martinez de Pasqualy, optou pelo caminho da discrição e do contato pessoa a pessoa , com um discurso de natureza altamente espiritualista, mas com pitadas de religiosismo católico expresso em seus inúmeros textos, como o culto à pobreza física e a chamada renúncia às coisas do mundo, categorias tão presentes no discurso da Santa Madre Igreja, por motivos aqui já amplamente discutidos.
Enquanto Stanislas de Guaita é um homem de posses, um nobre que tem um apartamento em Paris e um castelo no interior e que metade do ano passava na cidade caçando textos que pudesse usar em seu trabalho de restauração do conhecimento esotérico, Saint Martin concentra seus esforços nos textos de Jacob Boheme e Pasqually, e na sua própria intuição.
Saint Martin é um homem culto, mas aparentemente recluso, que tem forte formação bíblica, e que vê o mundo do ponto de vista de um jurista do século XVIII. Guaita e Papus são cosmopolitas, pesquisadores, interessados em tudo que cheire a misticismo, absolutamente avessos a quaisquer tipos de autoritarismos o de pensamentos moralistas. O carinho que ambos têm pela obra de Saint Martin refere-se ao seu teor místico e a sinceridade que eles depreendem de seus textos. Em momento nenhum lhes passa pela cabeça olhar aquele conterrâneo e dedicado sábio espiritualista como um ser humano que tem convicções e posturas muito diferentes das suas na maneira de entender as etapas necessárias a consecução da santidade, objetivo último de todos três. 
A Iluminação, como todos sabem, pode ser atingida por várias estradas. A do sofrimento e da renúncia não é a via rosacruciana, com certeza, pelo menos como exposta por H. Spencer Lewis, poucos anos depois da morte de Papus. Papus morre em 25 de outubro de 1916 e Spencer Lewis abre os trabalhos da AMORC no Ocidente em 1915, mas seu empreendimento ganharia força e desenvolvimento anos depois.
Lewis era um americano típico do ponto de vista do pragmatismo, e tinha valores morais retirados da tradição protestante, através de sua formação religiosa metodista. Recusava a doutrina da pobreza física e material como condição para a pureza e pregou um misticismo adequado a uma época socialmente diferenciada e encharcada de ciência como a nossa. Lançou as bases de um misticismo moderno e devemos a ele frases que destroem anos de repressão moralista com um enfoque absolutamente científico como aquela em que lembra que "se os instintos estão já em nós desde a infância e fazem parte de nossa natureza, e se a natureza e nós mesmos somos criações de Deus Todo Poderoso, então os instintos foram colocados em nós pelo próprio Deus e são tão sagrados quanto tudo que ele criou". Uma visão tão lúcida e positivista contrasta com qualquer pensamento espiritualista que se lamente pela vida material ou que considere, a exemplo da Igreja Católica, o corpo humano como fonte de pecado e perdição. 
É a instauração de um pensamento místico moderno a maior contribuição de Lewis, e de resto da AMORC, ao misticismo mundial. Este espírito, repito, já estava em Stanislas de Guaita e Papus, mas não o encontramos em Saint Martin, como de resto em outros místicos do passado.
Porque? Porque à época de Saint Martin, como de ordinário na de Jacob Boheme, a cultura intelectual era concentrada na Bíblia. Toda a sabedoria do mundo, fosse laica ou religiosa, passava pelo livro santo dos cristãos. 
Não era comum para os que não fossem seguidores do Islamismo estudar o Corão, e o Budismo era uma curiosidade exótica. 
O Vedanta indiano, da mesma maneira, não fazia parte dos estudos daqueles que queriam alcançar os mais altos níveis de espiritualidade. 
Insights místicos eram insights bíblicos. 
Discursos espiritualistas eram discurso bíblicos, citavam passagens bíblicas e comentavas trechos da Bíblia.
Era o século XVIII e o movimento enciclopedista de Voltaire e Diderot tinha apenas começado. O conhecimento laico engatinhava e ninguém em são consciência produzia conhecimento sem que houvesse um respaldo de algum texto da Bíblia. 
E a física de Newton? E a filosofia de Kant e depois Schopenhauer ou mesmo a de Spinoza, no século XVI? Ou Galileu e Kepler? 
Todas estas manifestações na ciência laica e na filosofia, já confrontavam alguns dogmas religiosos, de maneira racionalmente irrefutável. Porém anos, séculos ainda se passariam para que tais golpes decantassem no espírito da sociedade, e se tornassem categorias do senso comum. 
O amor ao conhecimento laico, livre das amarras da Igreja, prospera no século XIX e prepara o advento do positivismo de Augusto Conte, onde a ruptura definitiva entre conhecimento científico e da Igreja acontece. 
É neste momento que pessoas como Guaita e Papus se inserem. Cheios de ímpeto, penas inquietas, como eram chamados, escreviam e estudavam incansavelmente todos os textos sagrados e não apenas o texto bíblico, colocando o conhecimento absorvido em perspectiva e filtrando todas as informações através do esoterismo e da simbólica arcana.
Não estavam aprisionados ao simbolismo bíblico de Céu e Inferno, Paraíso e Não-Paraíso, nem viam Adão e Eva como personagens históricos, mas como partes da maravilhosa capacidade mítica e literária de Moisés, símbolos como tantos outros neste oceano de signos chamado esoterismo mundial. 
E havia também Blavatsky, não podemos esquecer. Com seu trabalho na Sociedade Teosófica, juntamente com Olcott, muito do esoterismo oriental mergulhou no Ocidente, criando uma outra área de atenção na espiritualidade deste lado do planeta e propondo, pela primeira vez, o reencontro destas duas culturas desde as cruzadas. O mundo deixara de ser um mundo uno e bíblico e tornara-se plural. Muitas eram as perspectivas e as leituras possíveis da espiritualidade e não mais apenas aquela baseada na simbologia judaica da Torah ou do Cristianismo primitivo dos apóstolos. Haviam, finalmente, outras possibilidades.
Tantas, que Papus sentiu necessidade, a meu ver estrategicamente errada, de criar uma Ordem Cristã que tivesse características essencialmente ocidentais, como se isto fosse possível, e como se o próprio Cristo não fosse um Oriental. 
Assim ele restaura o discurso do Filósofo Desconhecido e o resto é história. Troca iniciações com Chaboseau e tudo começa ou recomeça, na mesma França aonde o Martinismo e o Martinezismo tinham praticamente adormecido.
Se o País, entretanto, era o mesmo, as pessoas e o mundo haviam mudado. Os valores do século XIX são mais cosmopolitas e os discursos simbólicos são apenas simbólicos, e nada mais. Spencer Lewis já se preparava para iniciar seu trabalho dentro de poucos anos com o qual traria um frescor e uma modernidade ao pensamento místico Ocidental impressionantes, sem em nenhum momento desejar restringir a Tradição ou a Ordem Rosacruz apenas às contribuições do Ocidente. Sendo como era de formação protestante, conhecia muito bem a espiritualidade bíblica, mas tinha uma visão marcada pelo protestantismo europeu presente no Círculo de Tubingem, com Valentin Andrea, o mentor do texto da Fama Fraternitatis, círculos em que o pensamento de prosperidade material não se opunha a vontade de Deus e no qual a intelectualidade era considerada uma bênção e não uma ameaça a espiritualidade, como para a Igreja Católica. 
Com o rosacrucianismo moderno, o intelecto pode de novo respirar ares de liberdade dentro de um grupo espiritualista e muitos encontraram abrigo em suas fileiras ao fugir do dogma e da intolerância em suas respectivas religiões, sentindo-se a vontade para adorar a Deus sem prejuízo de sua dignidade material e mental. A Ordem Rosacruz não é e nunca foi uma religião e está muito mais identificada com o pensamento de Guaita, no texto que inicia este ensaio, do que com a vontade de Papus de fazer uma Ordem meramente Ocidental, em contrapartida à Escola Teosófica com sede em Madras, na Índia.
O estranho é que Papus, este homem cosmopolita, este médico brilhante e místico poderoso vá desencavar um discurso calcado no pensamento bíblico e que tantas tristes lembranças traz a mente dos rosacruzes, como as perseguições religiosas da Inquisição ou o massacre do Cátaros no Sul da França.
Não que o texto de Saint Martin esteja ligado a Igreja Católica, mas existem inflexões em suas posturas que nos lembram este tipo de Universo de valores. Talvez o mais marcante destes valores é trabalhar com categorias simbólicas como Queda , ou com a noção de prevaricação ou desobediência que gerou a Queda, noções que pressupõem, como já analisei aqui em outra oportunidade, a dedução de que a vida na Terra é um Castigo, que viver aqui é necessariamente ruim e faz parte de uma punição que recebemos por não termos nos comportando bem; ora, essas são colocações interessantes e satisfatórias para outras épocas e outros séculos, mas não satisfaz nenhum rosacruz que tenha lido Descartes, também rosacruz, e também francês, que já no século XVI dizia que não existia pecado, mas erro. A noção de que a vida material é uma punição, de que existimos como resultante de um crime, ou de que a existência inteira seja uma punição é insuportável para aqueles que se consideram seguidores do pensamento de Harvey Spencer Lewis. E se ele não percebeu isso, ao tentar preservar a Ordem Martinista, mantendo-a sob a proteção da AMORC, durante as reuniões da FUDOSI, foi porque este detalhe é muito sutil, embora pertinente. A Ordem Martinista é uma ordem Cristã, que pode em muito enriquecer a sensibilidade de quem a freqüenta, mas de forma alguma é um monolito filosófico doutrinário. 
Nela convivem várias tendências, desde a tendência teúrgica, hoje tímida na TOM, de Martinez de Pasqually, como a visão enciclopedista de Stanislas de Guaita, e alguns martinistas tenderão para este ou para aquele lado da balança. No entanto, é importante lembrar que a Tradicional Ordem Martinista, hoje, é uma Ordem dentro da Ordem Rosacruz AMORC, e por isso é formada apenas por Rosacruzes, pessoas que beberam da fonte do Spencerlewsismo e que se habituaram a pensar misticamente com leveza e pluralidade, livres das amarras dogmáticas das religiões e livre das imagens típicas dos discursos religiosos. Não é, portanto, estranho que muitos rosacruzes sintam profundo desconforto em ouvir termos como pecado contra Deus, ou desobediência e punição, ao participarem de fóruns martinistas, palavras presentes no trabalho de Martinez de Pasqually, um representante de um século em que estas categorias eram a única maneira de falar de espiritualismo. Igualmente, devemos lembrar que era pertinente e compreensível que Martinez de Pasqually pensasse e se expressasse assim já que era um judeu Marrano, depositário desta herança cultural judaica tão cara para tantos no Ocidente. 
Não importa que digamos que quando ele fala em Queda e pecado, coloca estes aspectos de modo simbólico. O Rosacruz moderno simplesmente não consegue conviver confortavelmente com tal discurso. 
Aqueles que o fazem, recorrem a seu passado religioso para assimilar este discurso, mas a época e a evolução da ciência ortodoxa e mística já não permitem o uso destas imagens.
Para Spencer Lewis, a vida material poderia e deveria ser o palco para a expressão plena dos potenciais divinos no homem. Para Saint Martin estamos aqui apenas porque pecamos e precisamos sair daqui, (morrendo, portanto), logo que possamos, para reencontrar a paz perdida.
O Rosacruz moderno tem paz, e busca a Paz Profunda, não morrendo, mas vivendo na sociedade , trabalhando, estudando e cuidando de sua vida, sem descuidar por causa disso de uma relação e uma conexão profunda com a Consciência Cósmica. 
Para Saint Martin, esta conexão não existe, foi rompida, como diz em um trecho de "Instruções aos Homens de Desejo":
“A prevaricação foi ter desobedecido à lei, ao preceito e mandamento que lhes haviam sido dados desde a emanação, e de ter concebido um pensamento contrário àquele do Eterno. Desde então, a comunicação que tinham com o Eterno foi rompida”
Tal conexão só poderá ser recuperada, segundo ele, pela reintegração ao Todo Poderoso, que foi perdida pelo pecado. 
O rosacruz, ao contrário desta posição, acha que o que existe é apenas um problema de consciência maior ou menor desta conexão, mas que a mesma não pode ser rompida nem nunca foi, senão a vida nem existiria, já que todo rosacruz sabe que vive todos os dias pela graça do Nous, a presença da energia divina em nós, base da nossa vida material e espiritual. 
O discurso de Saint Martin é muito rico e em certos momentos, inspirador, mas peca pelas suas características de época e pelo uso de categorias que não condizem com a visão moderna da espiritualidade. Talvez estes sejam os maiores problemas para certos rosacruzes que, incapazes de divisarem todos estes aspectos, abandonam o Martinismo ou se recusam a entrar por acharem que não estariam em ambiente rosacruciano. Eu mesmo senti este desconforto, mas uma coisa é importante lembrar: a TOM é feita por rosacruzes e independente destes detalhes aqui citados, seu ambiente é feito da mesma tolerância que se conhece dentro da AMORC. Só pela discussão, e isto os martinistas sabem fazer como ninguém, poderemos chegar ao inevitável consenso que virá com o tempo, quando esta convivência ainda recentes de pouco mais que 80 anos será aperfeiçoada, e observaremos uma progressiva rosacrucianização do discurso martinista.
Esta é minha impressão.