Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 7 de julho de 2010

OS ROSACRUZES MODERNOS E O MEDO DE PENSAR








por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:



Estranho ser membro de uma Ordem milenar, constituída por alguns dos pensadores mais fundamentais da história do conhecimento, e ter medo de pensar.


Medo, sim.


Refletir, como o nome diz, é lançar luzes que retornam sobre nós, imagens em um espelho, que no caso da reflexão intelectual, é o espelho da opinião alheia, que acolhe nossa opinião e a devolve encharcada de compreensões e interpretações pessoais, prenha de idéias que, antes de idéias, são reações às provocações do raio de luz inicial, ou seja, reflexos.
Rosacruzes, tradicionalmente, são pensadores e pesquisadores místicos, cientistas e filósofos, no mínimo livres pensadores, espíritos inquietos e produtivos, que contribuíram e contribuem, cada um a seu modo, para o engrandecimento do conhecimento.


Existem exemplos históricos: Francis Bacon, pai da metodologia científica; Descartes, pai do ceticismo metodológico; Leibnitz, criador do conceito de Mônada que expressa da seguinte forma: “Mônadas são centros de forças; substância é força, enquanto o espaço, extensão e movimento são meros fenômenos”; Dalton, químico, metereologista e físico inglês que fez um extenso trabalho sobre a teoria atômica; Newton, pai da física Mecânica e do cálculo , juntamente com Leibnitz.


A única peculiaridade que difere o cientista e o filósofo rosacruz daquele que não pertence ao meio místico é o pressuposto divino.Todos os rosacruzes são pensadores e cientistas estão em consenso sobre a existência de uma Inteligência que tudo comanda e organiza, segundo Sua vontade transcendente. Este é um pressuposto íntimo de qualquer místico, seja ele um cientista, um filósofo, ou não. Todos pensamos a partir de pressupostos íntimos. Identificá-los esclarece nosso caráter e nossas tendências.


Estes pressupostos são muito importantes e nos motivam contra adversários teóricos e faz com que defendamos com paixão nossas idéias e crenças. Ainda hoje é assim. E existe espaço para expressão de todo tipo de idéias na maioria dos países, não em todos, infelizmente.
No passado , no entanto, não era assim. Na maioria dos países, dar sua livre opinião ou defender um determinado ponto de vista científico trazia ao seu autor o risco de perder a sua liberdade ou a própria vida, como aconteceu com Giordano Bruno, entre outros.
Quando Giordano Bruno pensava sobre o Universo, sabia que devia ter medo.
Eram tempos sombrios.
Aliás seus temores se confirmaram, e morreu na fogueira da Inquisição por causa de suas opiniões e posições acerca do Infinito e dos Mundos.


Era freqüente que os homens tivessem receio de suas idéias atingirem a susceptibilidade de autoridades eclesiásticas e políticas, e alguns viam-se obrigados a desaparecer nas trevas, ocultar-se , para preservar sua própria vida.
Como eu disse , eram tempos sombrios.
Hoje, em 2010, os místicos ocidentais estão mais seguros quanto a sua integridade física. Talvez o problema atual seja exatamente o contrário: ninguém mais se preocupa com o que os místicos têm a dizer.


Seu discurso está oculto pelo alarido das vozes profanas e das religiões fundamentalistas, que não falam alto, gritam mesmo nos ouvidos da humanidade.


Hoje estamos ocultos pelo barulho da mediocridade. Se antes o perigo era que nossos segredos fossem profanados, hoje precisamos temer a apatia e o desinteresse que avança pela sociedade, exatamente como Nietzsche previu uma centena de anos atrás.
Dentro deste cenário, é no mínimo estranho que entre rosacruzes, homens e mulheres herdeiros como foi visto, de uma tradição de pensadores e cientistas, educadores e mestres das artes, encontremos muitos deles com receio em expressar suas opiniões e idéias de forma livre e entusiasmada, no ambiente de sua própria Ordem, a Ordem Rosacruz qual mais de uma vez os estimulou a pensar de forma livre com o lema “A mais completa liberdade na mais perfeita tolerância”.
Não é incomum eu escutar de frateres sua preocupação quanto a idéias originais e se preocuparem se estas idéias serão aceitas pela área administrativa da Ordem, como se pensar fosse uma espécie de sacrilégio e estivéssemos mergulhados em um ambiente religioso e dogmático que não permitisse discussão e análise.
Talvez porque estudantes rosacruzes são provenientes de outras experiências sociais, acreditem que as propostas da Ordem Rosacruz quanto à liberdade sejam apenas retóricas já que não acreditam ser possível tamanha liberdade de opinião sem conseqüências nefastas. Talvez o demônio da apatia tenha invadido nossas trincheiras e todos nós estejamos ameaçados pelo niilismo espiritual, a tal ponto que , ao contemplarmos uma simples reflexão livre suponhamos estar diante de um ato de coragem.
Talvez confundam a necessidade de bom senso e equilíbrio necessária a convivência em qualquer meio heterogêneo, com restrições à liberdade de opinião ou de comportamento.
Convenhamos, não somos livres para sermos grosseiros, não somos livres para atacarmos à Ordem que juramos defender, não somos livres para pregar em nosso meio o preconceito ou o fanatismo religioso, em suma , não somos livres para ser tolerantes com a intolerância; mas somos livres para opinar e principalmente para pensar, isto somos, com certeza. Não é preciso coragem para sermos francos dentro de um espírito fraterno.
Coragem tinham nossos antepassados que pertenceram à Ordem e fugiam da morte certa, escondendo-se em códigos e gestos secretos, fechando suas reuniões e colocando nas portas sentinelas armados que garantissem a segurança daqueles que ali se reuniam para orar e louvar o Deus de seus corações.
Eram, como eu disse , tempos sombrios.Pelo menos no passado, a sombra estava fora de nós. Talvez a ameaça fosse tão material e objetiva que havia clareza sobre aonde estava o mal e aonde estava o bem.
Hoje o confronto se interiorizou, e as sombras combatem conosco dentro de nós mesmos e nos ameaçam tirando nossa capacidade de reflexão, tornando-nos burocráticos, acovardados mesmo, descrentes de qualquer ambiente que se diga fraterno; mais: que nem todas as nossas opiniões devem ser expressas pois seremos vítimas de alguma punição por expressarmos pensamentos heterodoxos em relação a sabe Deus quais dogmas que supomos em nossa fantasia não podermos contrariar.
A Ordem não é uma religião, mas uma Ordem Esotérica, e o nome pressupõe uma Hierarquia, uma organização que administre a Instituição que preserva a poderosa Tradição Rosacruz, nada no entanto parecido com a Santa Sé, ou com o Exército, a Marinha e a Aeronáutica.
Não há pelotões de fuzilamento à nossa espera se cometermos algum erro de avaliação ou se dissermos ou publicarmos quaisquer impropriedades de pensamento, desde que motivada por esta condição da qual nenhum de nós pode escapar: nossa falibilidade humana, aliás tão bem defendida pelo nosso Frater Descartes ao dizer que “ não existe o pecado, mas o erro.”
Seres humanos erram e tem o Sagrado direito de errar.


O que juramos ao entrarmos para a Ordem é preservá-la dos seus detratores, é ter respeito e cordialidade por nossos oficiais e líderes, servir nossos irmãos com dedicação, estudarmos tudo o que pudermos sobre a Tradição Esotérica nesta e em todas as nossas outras encarnações.
Juramos também silêncio sobre o que for para ser silenciado. Mas em nenhum momento a Ordem nos exigiu mudez, muito menos passividade intelectual ou apatia emocional.
Em tudo que fazemos na vida, e agora falo como médico, é saudável que haja algum grau de paixão.
E em ambiente rosacruz, nenhum membro desta nobre Ordem deve recear usar este dom divino do raciocínio para elaborar suas opiniões e reflexões.
Aliás, livres pensadores é tudo que desejamos dentro de nossas fileiras.
Homens e mulheres livres dos grilhões da mente, livres da prisão do espírito, do medo que tinha o servo de seu senhor, o crente de seu bispo, o súdito de seu rei.


Somos, nós , os membros da Ordem Rosacruz, homens e mulheres livres em espírito, não apenas em corpo, e devemos crer e praticar esta liberdade de forma intransigente, embora sempre em atitude de fraternidade e cordialidade.


Nossas obrigações com a Ordem incluem esta liberdade de pensamento, este conforto espiritual e esta segurança psicológica que, esperamos, todos os nossos membros desfrutem enquanto entre nós.


Pode ser que encontremos, eventualmente, em nossos corpos afiliados, frateres e sorores que não acreditem nisto, que não sintam esta bênção íntima do Altíssimo que nos liberta da mediocridade espiritual; que creiam que disciplina é escravidão, que o convívio com a autoridade administrativa impõe não a cordialidade, mas o medo.


Nossa obrigação como Artesãos por antiguidade ou por designação kármica, é demonstrar que isto é um erro; devemos sempre alertá-los que aquele ambiente de trevas e medo que sempre nos perseguiu, não pode penetrar nossos templos a não ser pelas nossas próprias mãos e que devemos , todos juntos, defender nossa Amada Ordem da apatia e da mediocridade acovardada que, de forma insidiosa, se infiltra entre nós se não permanecermos vigilantes. Esta é uma batalha sem quartel, a verdadeira batalha dos místicos, travada no interior de cada um, todos os dias, em todas as horas. As armas dos místicos são as três primeiras sephiroth Keter, Chokmah e Binah, ou seja Deus, a Sabedoria e o Conhecimento. Este é o escudo místico triangular do Rosacruz, que o defende de mergulhar sua cabeça como o Avestruz, na terra, e que lhe garante o direito de refletir de forma franca e libertar-se do medo de pensar.