Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 18 de abril de 2014

T.O.M ou T.O.W ?

por Mario Sales, FRC,SI,CRC



Gostaria que me acompanhassem em um longo raciocínio histórico.
Diz um documento da Tradicional Ordem Martinista que "a Ordem Martinista foi fundada em 1891 por Gerard Encause, mais conhecido pelo nome de Papus(1865-1916) e por Augustin Chaboseau (1868-1946). (...) Desde sua criação , nossa Ordem se encontra sob os auspícios do filósofo desconhecido, ou seja, Louis-Claude de Saint-Martin, grande místico francês do séc.XVIII."
Continua este texto narrando a transição entre o Martinezismo e o Martinismo após a morte de Pasqually:
"Em 1772, questões de família obrigaram Martinès de Pasqually a deixar a França e a ir para Porto Príncipe, no Haiti. Lamentavelmente, o Mestre jamais retornaria desta viagem, pois viria a falecer em 24 de setembro de 1774."
"Entre os discípulos de Martinès de Pasqually dois tentaram , cada um a sua maneira, prosseguir o trabalho de seu mestre. O primeiro, Jean Batiste de Willermoz(1730-1824) que incorporou os ensinamentos técnicos de Pasqually ao rito maçônico da "Estrita Observância Templária", Ordem a qual estava ligado. (o grifo é meu) Após ter reorganizado esta Ordem, lhe deu o nome de "Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa".(...) O outro discípulo que tentou dar prosseguimento à obra de Martinès de Pasqually foi Louis-Claude de Saint-Martin. Profundamente marcado pelos ensinamentos de "seu primeiro instrutor", acreditava, no entanto, que a teurgia não era a melhor via para avançar na senda espiritual. Além disso, desejava colocar as idéias de Pasqually ao alcance de todos os buscadores sinceros, sem obrigá-los a ingressar na Franco Maçonaria. Utilizou para isso, a escrita."
O documento fonte que consulto segue citando as obras de Saint-Martin: de 1775, "Dos Erros e da Verdade" ou "Os Homens restituídos ao Princípio Universal da Ciência"; " O Homem de Desejo", de 1790; "Ecce Homo", de 1792, curiosamente um título idêntico ao de um livro de Friederich Niezsche, expressão retirada de uma fala de Pôncio Pilatos, que em Latim ao mostrar Jesus ao julgamento da turba diz:"-Eis o homem."; "Novo Homem", também de 1792; " "O Ministério do Homem Espírito", seu último livro de 1802.
Este relato, aqui reproduzido, possui, efetivamente, três partes. Na sua segunda parte, adverte ele, novamente, que "...Louis-Claude de Saint-Martin não criou uma organização iniciática, mas transmitiu uma iniciação própria baseada nos ensinamentos que recebeu de Martinez de Pasqually e em sua própria experiência espiritual. Foi assim que, em 1795, se constituiu em torno dele um grupo informal (ou seja, espontâneo) - ao qual algumas cartas de seus amigos fazem alusão - com o nome de 'Círculo Íntimo' ou 'Sociedade dos Íntimos'. A iniciação transmitida pelo Filósofo Desconhecido se perpetuou então de forma confidencial, de Iniciado a Iniciado."(os grifos são sempre meus).
A história de Willermoz é diferente.
Segundo um artigo do site Hermanubis[1], "...Willermoz era, em primeiro lugar, um discípulo esforçado, dedicado aos estudos; em segundo (lugar), foi um grande organizador de sistemas iniciáticos, grande pesquisador, ativo e prático; pela relação com Dom Pernety, deu uma impregnação alquímica ao seu sistema maçônico cujo objetivo era alcançar a iluminação, realizar a Grande Obra. Em uma viagem à Paris, em maio de 1767, encontrou Bacon de la Chevalerie, substituto da Ordem dos Elus-Cohens do Universo, no Grão Mestrado. Foi nessa oportunidade que contatou pela primeira vez com a doutrina de Martinez de Pasqually. Tinha 37 anos de idade quando foi iniciado por Pasqually na Ordem dos Elus Cohens, em cerimônia realizada em Versailles, proximidades de Paris. Bacon colocou Willermoz em contato também com outros irmãos e, juntamente com seu irmão Pierre Jacques, entraram na nova Sociedade, cujo chefe era Pasqually, um dos sete chefes soberanos universais da Ordem, como ele próprio se apresentava. Iniciado há 18 anos na Maçonaria e possuidor de todos os seus graus, compreendeu que até aquele momento nada sabia da Maçonaria essencial e que havia um vasto campo de conhecimentos a percorrer. Seus conhecimentos de alquimia, uma ampla base de conhecimentos de simbolismo maçônico e do ocultismo em geral, permitiram-lhe destacar-se rapidamente na Ordem dos Elus Cohens do Universo. As teorias expostas por seu novo Mestre respondiam aos desejos secretos que possuía e a tudo aquilo que sempre procurou. A nova Ordem tinha prescrições particulares para seus discípulos: era vetado o consumo de sangue, dos rins, e da graxa (gordura) dos animais, recomendava a prática mundana (sexo) com moderação; e duas vezes por ano praticavam um rigoroso jejum; abstinham-se de toda alimentação algumas horas antes de seus trabalhos. Pasqually concedeu-lhe o direito de estabelecer uma Grande Loja do novo rito em Lyon e deu-lhe o título de Inspetor Geral do Oriente em Lyon e fez com que entrasse como membro não residente do Tribunal Soberano de Paris. Em 13 de março de 1768, Bacon de la Chevalerie ordena Willermoz no Grau Rosa Cruz."
O texto acima continua, descrevendo os movimentos de Willermoz, na intenção de organizar em uma Ordem, os ensinamentos de Pasqually, enfraquecidos na sua ausência, por causa da viagem a São Domingos.
" Face à decadência da parte externa da Ordem dos Elus Cohens, ocorrida a partir do ano de 1772, com a partida de Pasqually para S. Domingos, Willermoz encontrou no sistema maçônico um substituto à altura. Nesse novo sistema, pretendia espargir as luzes recebidas na senda interior dos Elus Cohens e receber também a manifestação do Agente Invisível; Willermoz retirou, a partir dessa época, os melhores ensinamentos de suas operações e a luz começava a brilhar no seio das trevas. Como a Ordem dos Elus Cohens, a Estrita Observância Templária (E.O.T) possuía dez graus, sendo: três simbólicos, três intermediários e quatro superiores, esta última classe, de origem templária.(o grifo é meu)
Willermoz obteve a corrente de Jacob Boheme ao ser iniciado por Salzmann e confirmado na linha mais antiga dos Templários, ao associar-se com a E.O.T. Willermoz (além disso) recebeu o grau de Grande Professo no Convento de Gaules, realizado em Lyon entre 25 de novembro a 10 de dezembro de 1778; também conseguiu com Salzmann, que se introduzisse após o sexto grau da E.O.T, os dois graus denominados: Professo e Grande Professo que continham a doutrina da Ordem dos Elus Cohens. A E.O.T da região de Auvergne (Lyon) ficou conhecida pelo nome de Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa ou Maçonaria Retificada. Os graus simbólicos ficaram sendo quatro: Aprendiz, Companheiro, Mestre e Mestre Escocês; a classe superior ficou denominada: Cavaleiro Professo e Grande Professo. Willermoz, tendo conseguido introduzir no sistema maçônico de Lyon, da E.O.T, a filiação espiritual e doutrinária de Pasqually, tentou fazer o mesmo no resto das obediências maçônicas."
Neste trecho, o documento comenta a organização por Willermoz do Rito Escocês Retificado(R.E.R), que buscava unir ocultismo e cristianismo, algo que remete às práticas de algumas Tradições contemporâneas.
Diz mais este texto: " No convento de Wilhemsbad, aberto no dia 14 de julho de 1782, Willermoz encontrou o apoio precioso dos dois príncipes dignatários da E.O.T, os irmãos: Ferdinand de Brunswick, que presidiu o Convento, e Charles de Hesse, (dos quais) recebeu a missão de organizar o R.E.R e, (pelos quais) foi designado Soberano Delegado Geral do Movimento para a região de Lyon. Conseguiu também que todos os irmãos da Ordem Interior recebessem o título de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa. E no novo conjunto de graus, no número de sete, continha todo o sistema doutrinário de Pasqually, organizado inteiramente em Lyon através de(le mesmo), Willermoz, (de) Saint Martin, Grainville, Savaron e outros (sistema o qual), a partir do Convento de Wilhemsbad, passou a ser adotado igualmente em toda a Alemanha e resto da França. O título "Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa" originou-se do nome da Loja "La Bienfaisance"(Bondade, Beneficência), de Lyon, que abrigou os primeiros cavaleiros."
Este é o perfil de Willermoz: maçon e organizador de Ordens e Tradições. Era sua natureza operacionalizar em grupos o que para Saint-Martin era um conhecimento transmissível de pessoa a pessoa, sem rituais, sem templos, através de "uma iniciação própria baseada nos ensinamentos que recebeu de Martinez de Pasqually e em sua própria experiência espiritual", segundo dito.
Não era da Natureza de Saint-Martin criar uma Ordem com suas características gradações de grau, reuniões templárias e textos protocolares. O mais perto que chegou disso foi o já citado 'Círculo dos Íntimos', que em nada se parece com o trabalho willermoziano ou com uma Ordem padrão.
Como Willermoz e Saint-Martin, além de correspondentes, eram amigos, e se irmanaram como discípulos do mesmo Mestre, Pasqually, supõe-se que ambos teriam as mesmas influências e que, portanto, não haveria problema de tomar como referência a obra de Saint-Martin dentro de uma possível Ordem Willermozista.
Por isso é no mínimo curioso, mas não inexplicável, que uma Ordem construída com bases organizacionais em tudo e por tudo Willermozianas, receba o nome, por Papus, de "Martinista". Dentro da Tradicional Ordem Martinista (TOM), sem prejuízo de seu nome, poder-se sem problemas debater textos de muitos e importantes ocultistas, entre eles o meu preferido, o Marques Stanislas de Guaita. Nem por isso a Ordem Martinista se chama Ordem Stanislas-Guaitista; ou, seguindo o mesmo raciocínio, Ordem Bohemista.
Façamos aqui um parêntese para demonstrar mais uma vez a estrutura willermosiana da T.O.M, ao contrário do caráter essencialmente pessoal da verdadeira iniciação de Saint Martin.
Em um texto publicado no site http://odesvelado.blogspot.com.br/, lemos o trecho que se segue:
"O Ressurgimento do Martinismo"
"Em 1882, Augustin Chaboseau, homem de linhagem Bretã, poliglota dotado de uma extraordinária memória, Doutor em Letras, e na época bibliotecário do Museu Guinet, em companhia dos místicos, Jean Moréas, e Charles Maurras, conheceram Papus, e através de ideais em comum (Politica, Ocultismo, Magia, Ciências Herméticas, etc.), desenvolve-se uma cordial amizade que se perpetuava através de um costume de almoçarem juntos todas as terças feiras num pequeno restaurante da Rive Gauche, (...) do Rio Sena (comentário meu: quem sabe o Aux Carpentier que é de 1856 e existe até hoje) 


Restaurante Aux Carpentier, na margem esquerda do Sena, um dos mais antigos

Foi justamente nesse cenário, falando de tudo e de todos, que por acaso (?)[2], Papus e Chaboseau descobriram serem ambos herdeiros legítimos da tradição doutrinária de Louis Claude de Saint-Martin. Empreendedor dos ideais esotéricos, Papus ao constatar tal fato em comum com Chaboseau, receando que essa tradição se perdesse com o tempo (fato que já vinha ocorrendo com muitas vertentes esotéricas), resolveu fundar uma Ordem Iniciática, que seria uma reestruturação da tradição de Louis Claude de Saint-Martin. O sistema doutrinário instituído por L.C. de Saint-Martin na Sociedade dos Filósofos Desconhecidos, devido a sua pessoa, em reestruturação no século XIX ficou conhecido e denominado por Martinismo (quanto a isto discutiremos mais a frente). Segundo os anais da tradição de Saint-Martin, havia um elo, ou melhor, um vácuo na linhagem de Papus, pois pela seqüência, existia um mistério em relação à pessoa que teria iniciado o Dr.Encausse, Henri Delaage, que morreu em 1882, após conferir a livre iniciação a Papus. Assim em 1888, Augustin Chaboseau (que seria um membro do Conselho Supremo original da Sociedade dos Filósofos Desconhecidos) e o Dr. Encausse (Papus) trocaram Iniciações pessoais para consolidar a sucessão.
Então, a Ordem Martinista reorganizada por Papus, Chaboseau e seus companheiros, fundada durante o período de 1882-91, se constituiu inicialmente de duas linhagens espirituais advindas de Saint Martin:
Linhagem 1: (Supostamente conferida a Papus pela iniciação herdada por Henri Delaage).
1.Louis-Claude Saint Martin (1743-1803)
2. Jean-Antoine Chaptal (morto em 1832)
3. X (? - Suposto Iniciador de Henri 
Delaage)
4. Henri Delaage (morreu 1882)
5. Dr. Gérard Encausse
Linhagem 2: (Conferida a Augustin Chaboseau pela iniciação herdada por Amélie de Boisse-Mortemart, prima de seu pai).
1. Louis-Claude de Saint Martin (1743-1803)
2. Abbe de la Noue (morreu 1820)
3. J. Antoine-Marie Hennequin (morreu 1851)
4. Adolphe Desbarolles (morto em 1880)
5. Henri de la Touche (Paul-Hyacinthe de Nouel de la Touche) (morto em 1851)
6. A marquesa Amélie de Mortemart Boisse (neta de Henri de la Touche o iniciador de Honoré de Balzac no martinismo).
7. Pierre Augustin Chaboseau . "
Pessoa a pessoa, este era o estilo martinista.
                        

Uma última análise, referente a questão da Sociedade dos Filósofos Desconhecidos, que vimos a pouco, e que alguns consideram Saint Martin, fundador.
Remeto-os ao artigo publicado em http://www.hermanubis.com.br/artigos/BR/artigoportugues004SaintMartinfundouounaoumaOrdem.htm que discute exatamente este assunto.
É de lá que retiro o seguinte trecho:
"Há entre os historiadores Martinistas um debate bastante caloroso versando se Saint Martin fundou ou não uma Ordem. Neste artigo iremos reproduzir as constatações daqueles que consideram os Círculos de Íntimos como sendo uma Ordem:
"A existência de uma "Ordem Martinista" fundada por Saint-Martin, é negada por todos os autores sérios". Tal é a conclusão das pesquisas filosóficas efetuadas pelo Sr. Van Rijnberk. Não podemos taxar este autor de parcialidade, pois ele mesmo se declara "inclinado a admitir" o fato controverso. Mas, é preciso reconhecer a ausência de todo estudo aprofundado da questão, devido talvez, à falta de suficiente documentação. O Sr. Van Rijnberk, preencheu esta lacuna e encerrou a discussão.
Com efeito, num segundo estudo, o Sr. Van Rijnberk, resume-se assim: "As iniciações individuais de Saint-Martin, consideradas por muitos como simples lendas, são uma realidade patente".
Enviaremos, para todas as discussões de documentos, as criticas de testemunhos, etc., os relatórios do Sr. Van Rijnberk, conduzido segundo o mais sadio método histórico. Indicaremos textos aos quais ele se refere para provar a existência de uma ordem Martinista, de uma ordem de Saint-Martin.
1º) Entre os documentos que poderíamos qualificar de exteriores, encontramos:
1 - Um texto das Memórias do Conde de Gleichen, o qual relata que Saint-Martin tinha estabelecido uma pequena escola em Paris.
2 - Um artigo de Varnhagem von Ense, datado de 1821, onde se lê: "Ele (Saint-Martin) decidiu ... fundar uma sociedade (comunhão), cuja meta seria a espiritualidade mais pura, e pela qual começou a elaborar à sua maneira, as doutrinas de seu mestre Martinez".
3 - Uma carta, cujo autor é desconhecido e que foi endereçada em 20 de dezembro de 1794 ao professor Köster. Nela se fala de "Saint-Martin e dos membros de seu círculo íntimo".  Trata-se, em termos apropriados, de uma "Sociedade de Saint-Martin" e de uma filial Strasburgiana desta mesma sociedade. Anexemos a estes documentos, muitas vezes inexatos nos detalhes, mas, unânimes em afirmar a existência de uma sociedade de Saint-Martin, a sucinta nota necrológica do Journal des Débats. Está assim redigida: "Paris 13 Brumário... o Sr. de Saint-Martin, fundador na Alemanha de uma seita religiosa conhecida com o nome de Martinista, acaba de falecer em Aulnay próximo a Paris, na casa do senador Lenoir Laroche. Ele adquirira alguma notoriedade por suas exóticas opiniões, sua dedicação aos devaneios dos iluminados e seu livro ininteligível "Dos Erros e da Verdade". Notar-se-á que se menciona uma seita religiosa e não maçônica. A Sociedade a qual o redator do Journal des Débats atribui a formação do Filósofo Desconhecido, não tem, pois, nada em comum com o pretenso rito maçônico de Saint-Martin. (49) Nenhum dos documentos indicados acima, sugere, aliás, esta identificação.
Citemos, enfim, a curiosa história do Cavaleiro d'Arson. Acha-se narrada na sua obra "Appel à l'humanité". Preciosa para entender o espírito da Ordem Martinista, fornece, também, um documento histórico sobre a Sociedade de Saint-Martin em 1818. Vê-se, com efeito, nesta obra, que naquela época, os discípulos do Teósofo liam suas obras, aconselhando à sua leitura e agiam em torno delas como verdadeiros Superiores Desconhecidos.
2º) Mas o Sr. Von Rijnberk, recebeu outras informações do Sr. Augustin Chaboseau, até a época inéditas, sendo publicadas no tomo II de Martinez de Pasqually. Elas comprovam a existência de uma iniciação transmitida por Saint-Martin, diferente da iniciação Cohen.
Deste quadro resulta que a iniciação dos Martinistas atuais, iniciados pelo Sr. Augustin Chaboseau, é, incontestável, e aliás, incontestada. A dos Martinistas de Papus, à medida que se unam à única subdivisão de Chaptal-Delaage, e, na medida em que o próprio Papus se liga a esta única subdivisão, está obscurecida por uma dúvida. Chaptal, com efeito, morreu em 1832 e não pôde iniciar Delaage, que nascido em 1825, tinha, então, sete anos. O próprio Papus diz "que um dos alunos diretos (de Saint-Martin), o Sr. de Chaptal, foi avô de Delaage", mas não indica com precisão que ele deveria tomar a posição paterna.
De fato, a regularidade Martinista de Papus é certa, porque ele não possuía somente a hipotética filiação de Delaage. Augustin Chaboseau, assinalou num artigo inédito este ponto na história do Martinismo contemporâneo. Ele relata que Gérard Encausse e ele, trocaram suas iniciações, conferindo-se, reciprocamente, o que cada um deles havia recebido. Pode-se, pois, dizer que se Papus era validamente detentor da iniciação da Saint-Martin, ele o devia a Augustin Chaboseau.
Certas tradições e outros fatos, ligam Saint-Martin e a Ordem Martinista à Companhia dos Filósofos Desconhecidos. Saint-Martin, estaria unido pelo canal de uma iniciação cerimonial a Salzmann, a Boehme, a Sethon e a Khunrath. O que se poderá pensar desta genealogia? Não é nossa tarefa fazer-lhe a crítica; é trabalho para um historiador. De resto, a questão pouco nos importa. Se Saint-Martin criticou todas as peças da iniciação Martinistas, ninguém poderá discutir sobre seu direito e seu poder. Se a iniciação de Saint-Martin leva em si o influxo de Martinez ou do Cosmopolita(?), isto é totalmente supérfluo. Porque a originalidade de Saint-Martin é tal, e tal é a força de sua personalidade que ocultariam e removeriam as relações anteriores. Saint-Martin pôde ser visto (em) uma iniciação já praticada com os seus discípulos, como denominamos aqueles Superiores Desconhecidos, sem lhes dar nenhuma prerrogativa administrativa e honorífica, primitivamente ligadas a este título. Mas a concepção que Saint-Martin tinha da iniciação e do Superior Desconhecido, eis o que o Teósofo transmitiu e o que é essencial. Qualquer que seja o veículo, a iniciação Martinista está totalmente penetrada pelo espírito de Saint-Martin. É necessário e suficiente que ela se refira, efetivamente a ele. Tais são os fatos mais seguros no que diz respeito à questão tão longamente debatida da Ordem Martinista. Resta depois da prova de sua existência, pesquisar sua natureza, sua organização, seu espírito, em uma palavra, as ligações do Martinismo, como nós o definimos, e da Ordem Martinista, que pretende ser sua continuadora."
Considerando este comentário, deduzo particularmente que, mesmo levando-se em conta os tais Círculos Íntimos, nenhuma Ordem no modelo Maçônico, com um templo, Oriente e rituais, jamais foi criada por Saint-Martin, pois este era seu objetivo declarado: evitar que os interessados no esoterismo de Martinez fossem obrigados a se filiar a Maçonaria, Retificada ou não.
Portanto, pelo aspecto formal e organizacional da T.O.M, mais justo seria que ela invertesse de ponta cabeça a sua última letra, o M, mudando-o em W, passando a chamar-se Tradicional Ordem Willermozista (T.O.W), já que, este sim, deu-se ao trabalho de dispor em encontros templários a transmissão dos ensinamentos aos quais teve acesso, juntamente com Saint-Martin e outros.
A misteriosa razão pela qual Papus chamou a sua Ordem de Ordem Martinista, nesta época ainda sem o adjetivo "Tradicional", talvez se justifique pela sua admiração pessoal pelo nobre espiritualista, mas historica e factualmente, trata-se de uma injustiça e uma incorreção.
Injustiça e incorreção por não ser justo atribuir a Saint-Martin interesse em organizar Ordens sistematizadas. Repetindo: Saint-Martin, como os rosacruzes contemporâneos, já naquela época sabia que o caminho de cada místico e de cada esoterista é algo essencialmente pessoal, não podendo ser amarrado em um sistema de graus ou em reuniões agendadas com pauta pré definida.
Esta noção (vestir o misticismo espontâneo com a roupa de uma Ordem qualquer) é, além de ingênua do ponto de vista místico e esotérico, tipicamente maçônica.
Embora Saint-Martin também fosse maçon, ele pensava como um rosacruz, uma das mais verdadeiras vias cardíacas do universo esotérico e místico. Dessa forma, um esforço organizacional avançado, que fornecia, ao mesmo tempo, um conhecimento sistematizado na forma de monografias enviadas pelo correio para a residência dos membros interessados, sem a obrigatoriedade de comparecimento a um templo, a não ser que assim pedisse seu coração, foi uma solução brilhante, salomônica e digna de Saint-Martin, embora tivesse o dedo do gênio organizacional de Harvey Spencer Lewis.
Nunca passou pela cabeça de Saint-Martin, pelos relatos históricos colhidos, reunir seus iguais em templos fechados, em cerimônias secretas e presenciais.
E porque Papus o fez? Porque usando o nome de Saint-Martin fundou uma Ordem, na verdade, Willermoziana?
Sua intenção é compreensível. Havia em Paris e na França, naquela oportunidade, uma demanda reprimida por conhecimentos esotéricos palatáveis já que o grande movimento de época, a Sociedade Teosófica, era por demais ampla e orientalizada em seus fundamentos, valendo-se de conceitos e categorias ligadas a tradição vedântica, pouco familiar aos franceses, que, na época, eram o centro cultural do mundo. Foi uma decisão local, consciente, reerguer das cinzas um movimento essencialmente cristão, ocultista e francês, de forma a drenar os descontentes com as confusas narrativas de Helena Petrovna Blavatsky (HPB), não essencialmente cristã, também ocultista, mas russa, para conceitos mais familiares aos ocidentais
A Ordem Martinista de Papus logo teve sucesso no meio esotérico, e muitos dos seus membros eram teósofos ou ex teósofos. Não quero com isso afirmar que esta fosse a única intenção de Papus e Chaboseau ao reabrir a Ordem Martinista no final do século XIX, mas não se pode negar que, caso seu interesse fosse apenas esotérico místico, republicariam as obras de Saint-Martin, divulgariam seu pensamento em livros que comentassem suas idéias,  estratégia esta muito mais condizentes com a idéia de transmissão iniciática que Saint-Martin abraçava, sendo que, a organização de uma Ordem Material, com graus, com sede física e endereço em Paris contemplava, ao contrário, práticas e protocolos maçônicos de inspiração Willermozianas.
Por isso, mudemos em nossas mentes o nome de nossa Ordem, por uma questão de justiça para T.O.W.
Trata-se, como vimos pelos relatos apresentados, de um ato de justiça histórica.


[1] http://www.hermanubis.com.br/Biografias/BioJeanBaptisteWillermoz.htm
[2]   Fraternitas Thesauri Lucis - FTL Segundo registros dos arquivos da Ordem Martinista, em 1897, Papus, Marc Haven e Paul Sédir tinham em mãos documentos referente a um sistema iniciático misterioso, com bases na tradição cristã da Rosa+Cruz. Apesar de ter sido organizada por Papus, quem assumiu a direção da Fraternitas Thesauri Lucis foi Sedir. Pouco se sabe a respeito dessa organização, e de seus demais membros. Erick Sablé em seu ‘Dicionário Rosa+cruz’- (Ed. Madras) afirma que a iniciação conferida pela F.T.L era essencialmente cristã.