Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 26 de abril de 2014

CRENÇAS, MISTICISMO E CIÊNCIA IIa PARTE

CRENÇAS ROSACRUCIANAS

por Mario Sales, FRC,SI,CRC




Nesta seção, abordaremos crenças tipicamente rosacrucianas. Falamos no ensaio anterior que existem dois tipos básicos de místicos: aqueles de base religiosa e os espontâneos, tocados por uma predisposição mística (PM) sem intermediários.
Os rosacruzes crêem que a presença de Deus e a influência da Consciência Cósmica em suas vidas é permanente, banhando-os como uma chuva ininterrupta de inspirações, intuições, orientações, enfim, que são recebidas, processadas e transformam-se em uma ação sempre benéfica no Mundo da Vida (MV), o Lebenswelt, um termo roubado e modificado por mim do filósofo alemão Jürgen Habermas.
É óbvio no entanto, que perceber e usufruir desta inspiração de modo claro, não é para todos.
Esta é uma parte importante do treinamento de um rosacruz: aprender a aceitar para captar este fluxo de idéias a qualquer momento que precise, consciente ou mesmo inconscientemente. É nisto que se baseia o conceito de Intuição na compreensão do discurso rosacruciano, e para nós é esta Intuição que norteia nosso trabalho científico.
Se, do ponto de vista da ciência ortodoxa, buscamos a Verdade das coisas a partir das coisas, na ciência Intuitiva e Inspirada, tipicamente rosacruciana, partimos das orientações recebidas do Altíssimo, que nos oferecem vislumbres do Real, e iniciamos a busca por elementos que demonstrem estes vislumbres, com o mesmo rigor que a ciência exige de si. E aqui aproveito para fazer um parêntese histórico. Este rigor, não cientistas ortodoxos, mas muitos rosacruzes esquecem, foi construído com uma contribuição importante dos próprios rosacruzes.
Dos três pilares que sustentam o método científico moderno, (empirismo, ceticismo metodológico e positivismo, o ater-se à experiência para fundamentação do conhecimento científico) dois foram fornecidos pelo trabalho intelectual de rosacruzes.
O empirismo, com Francis Bacon, 1° Visconde de Alban, também referido como Bacon de Verulâmio ( Londres 22 de janeiro de 1561 — Londres 9 de abril de 1626); o Ceticismo Metodológico, com René Descartes (La Haye em Touraine, 31 de março de 1596 – Estocolmo, 11 de fevereiro de 1651), enquanto o Positivismo , com Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (Montpellier, 19 de janeiro de 1798 — Paris, 5 de setembro de 1857) estabelece a importância da observação dos fenômenos, opondo-se ao racionalismo e ao idealismo.
Bacon e Descartes eram Rosacruzes.
Nós, rosacruzes, demos aos cientistas contemporâneos as bases do pensamento científico. Devemos nos lembrar disto antes de criticá-los por olhar com desconfiança e prudência intelectual (ceticismo metodológico) as nossas assombrosas afirmações acerca de forças invisíveis ainda indemonstráveis que atuam sobre o mundo material.
Ao olharem com reservas para estas afirmações os cientistas estão apenas fazendo aquilo que devem e que os pensadores rosacruzes ensinaram a fazer: pensar com cuidado, procurando evidências das afirmações em questão.
Os rosacruzes modernos, ao reclamarem do ceticismo científico demonstram desconhecer a própria história da Ordem Rosacruz e de seus luminares.
Continuando nosso raciocínio, o uso da Intuição como guia juntamente com o Intelecto, é, pode-se dizer assim, o terceiro ponto deste triângulo epistemológico que os rosacruzes vem construindo ao longo destes últimos 500 anos. É o próximo passo do conhecimento, dominar a arte de sentir a verdade, não só surpreendê-la ou desnudá-la bruscamente, sempre de modo parcial, mas vê-la de modo completo, tridimensional, evitando a armadilha da dualidade; o Intelecto, neste caso, reservado-se à função de meio de expressão daquela Inspiração e não seu aparente descobridor.
Para usar a Intuição é preciso treino . Pra começar este treino, é preciso antes ter sensibilidade. E esta sensibilidade só existe se o indivíduo possuir PM. São condições interligadas.
Na verdade, embora nem todos a percebam, todos os seres humanos são banhados pela inspiração divina e quatro são, em geral, os tipos de pessoas que a recebem: dois tipos religiosos, um com PM, o outro não; e dois não religiosos, também um com PM, o outro não.
Quando ligadas a um discurso religioso X qualquer, as que tem PM tenderão a refletir este estímulo no MV através da lente daquele discurso religioso específico ao qual pertencem, o que modificará a natureza primitiva desta intervenção, talvez distorcendo seu conteúdo; os que não tem esta PM não apresentarão qualquer reação ao estímulo da Consciência Cósmica e serão religiosos formais e sem conteúdo (ESQUEMA 1).
Já aqueles que recebem o influxo sem religiões organizadas como intermediários, através da arte (poesia , musica, escultura, pintura), do convívio com a natureza ou mesmo da filosofia, se possuírem a PM, terão a tendência a agir no mundo, motivados por este chamado, mas o farão de modo pessoal, idiossincrásico, de modo mais fiel à inspiração recebida do Altíssimo.(ESQUEMA 2)
Não poderemos rotulá-los com facilidade e acabarão dando um nome novo a sua intervenção no mundo, fundando ou não uma nova religião.


ESQUEMA 1
(clique sobre o esquema para vê-lo ampliado)



ESQUEMA 2



Os seres humanos que não forem religiosos e nem tiverem PM , estes estarão em uma situação bastante difícil, apresentando-se geralmente apáticos, sem nenhum interesse na comunidade humana ou na sociedade. Pessoas com PM latente ou manifesta são altruístas. Pessoas sem PM latente ou manifesta, são egoístas.(ESQUEMAS 1 e 2)
O DESPERTAR
O estímulo puro da Consciência Cósmica, quanto atinge alguém com PM, é um influxo de inspiração, capaz de modificar a vida de um ser humano. O que sabemos é que a PM se apresenta nos indivíduos em diferentes graus de intensidade. Quando a inspiração cósmica banha um indivíduo que atingiu determinado grau de PM ocorre uma reação peculiar conhecida pelo nome de despertar , um salto qualitativo, resultante do acúmulo quantitativo de evolução espiritual, e a pessoa que desperta recebe as vezes o título de Iluminado.
O despertar ou iluminação não significa no entanto, um aperfeiçoamento completo do indivíduo. Trata-se apenas de um upgrade espiritual, dando-lhe poder sobre as coisas da terra e uma determinação muito maior na busca pela Luz do Espírito. Ser apenas um Iluminado, não basta.
O despertar em si não melhora o vocabulário do indivíduo ou aumenta o número de informações objetivas em seu cérebro. É verdade que ele ganha uma percepção melhor do Universo, mas ainda dependerá de seu próprio vocabulário e da sua capacidade de linguagem específica para descrever as percepções que recebeu.
Ou seja o desperto ou iluminado pode e deve melhorar sua capacidade intelectual depois do despertar.
Não se trata, portanto, como muitos supõem, de um fenômeno terminal, que desobrigue o indivíduo de continuar seu aperfeiçoamento, tanto espiritual quanto material. E isto por causa do seu vínculo com toda a Humanidade, que aumenta neste momento e o transforma em um servidor.E o iluminado serve principalmente transformando mentes através de sua sabedoria, sabedoria esta que ele expressará, entre outros modos, através da linguagem.
O caminho da evolução é infinito e mesmo o mais perfeito dos seres precisa evoluir mais e mais. O ideal seria que este desenvolvimento espiritual encontrasse um ser já cultural e intelectualmente elaborado, de forma a que este estímulo cósmico resultasse em uma imediata intervenção no Mundo da Vida didática, marcante e transformadora para muitos seres humanos que não possuem nem um, nem outro tipo de Luz.
É exemplo de intervenção bem sucedida o fato de Jesus falar por parábolas, linguagem adequada e de compreensão universal e atemporal. Parábolas podem ser compreendidas na Palestina daqueles dias como no Brasil de hoje. Puro didatismo, um intelecto preparado a serviço da espiritualidade desperta. E isto ajuda e facilita a vida de quem vem depois, que ainda não despertou, para as vicissitudes do caminho até o despertar, e depois.
É muito comum entre místicos e não místicos a admiração por iniciados que atingiram o despertar, mas que não trazem consigo uma bagagem intelectual que lhes permita transmitir uma mensagem clara do caminho que percorreram, porém, se todos percorrerão o mesmo caminho e o desperto, o iluminado, não é capaz de deixar migalhas de conhecimento orientando a direção a seguir, ele é como o guia que foi tão na frente da caravana que se perdeu dela.
É preciso dividir informações de percurso, estratégias, físicas e espirituais, compartilhar enfim o que foi conseguido a duras penas para que aqueles que vem depois de nós encontrem o caminho com mais facilidade.
Sim existem os sábios Mounis, silenciosos, tão importantes quanto aqueles que falam. Mas o corpo de um santo irradia uma aura que abençoa quem está a seus pés, quem é abençoado por sua santa presença, mas sua palavra atravessa montanhas, os séculos, e vence a morte.
Vejam que mesmo os Mestres Silenciosos Mounis, tiveram aqueles que escreveram por eles ou sobre eles, como Platão fez com Sócrates ou Arthur Osborne com Ramana Ramarishi, o sábio silencioso do monte Arunachala.
Falar e dividir oralmente informações é um tipo de serviço. Apenas isto. Mais amplo e capaz de atingir mais pessoas em muitas épocas e lugares e é por isso que eu o destaco aqui.
O serviço expressa evolução, bem como a evolução só se justifica no serviço.
Portanto, não basta ser iluminado, é preciso que essa luz ajude a outros a encontrar o seu caminho em meio às trevas. É preciso que o desperto tenha preparo intelectual para auxiliar aqueles a quem dirigirá sua fala orientadora, adequando-a ao nível cultural e espiritual dos interlocutores.
Ele precisa de educação, enfim, de cultura.
O fator cultural modifica e modula a intervenção no Mundo da Vida daqueles que estão despertos.
Por isso, como existem Iluminados que nos abençoam com sua presença neste mundo, existem entre eles também, níveis diferentes de cultura intelectual e habilidade de expressão, o que diferencia a intervenção que estes sábios poderão efetuar no Lebenswelt.
Reforço que esta cultura e este intelecto só tem uma finalidade: facilitar o acesso de outros à sabedoria universal que mergulha pelo Sahashara Chakra na mente do Iniciado.
Todo Iluminado é um médium de Deus.
Sua boca fala aquilo que Deus lhes inspira. Parafraseando Paulo, não é mais ele que vive, mas Deus que vive nele.
É muito importante, portanto, entender que quando a inspiração encontra um veículo preparado, este é um encontro feliz. A facilitação didática da compreensão das verdades universais é um ato de misericórdia e que as pessoas precisam receber subsídios para que alcancem mais rápida e seguramente o nível daquele Iluminado que lhes fala. Porque todos nós estamos condenados a sermos, de novo, Deus, não partes d'Ele, mas Ele mesmo, já que a gota que cai no oceano, como gota já não existe, mas torna-se parte de todo o Mar a sua volta.
Nós, seres humanos e animais ditos irracionais, plantas e bactérias, todos somos apenas uma família, um único espírito, um único corpo.
Buscamos a fusão e a harmonização de nossos sentimentos, valores e conhecimento. Só que tudo, no final, é conhecimento, e esta é, ao fim e ao cabo, a função do Universo, este imenso laboratório de aperfeiçoamento e expansão do conhecimento do Altíssimo.
Quanto mais partilhamos nosso conhecimento, mais cumprimos nossa verdadeira missão neste mundo, mais nosso espírito ganha em evolução e nobreza.
Nenhum Iluminado, por ser Iluminado, pode abster-se de procurar dividir as visões inspiradas a que tem acesso, mas encontrará dificuldades de expressão proporcionais a sua limitação intelectual, o que em nada diminuirá sua santidade, porém impedirá que mais pessoas sejam alcançadas pelas suas idéias, não só suas, em toda face da Terra. Estas são algumas das crenças rosacrucianas. Aperfeiçoemos-nos sempre, mais e mais, espiritual e intelectualmente.

Busquemos a Iluminação, mas não esqueçamos: ser Iluminado apenas, para servir bem, não é o bastante.