Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SENSIBILIDADE, SAGACIDADE E ERUDIÇÃO Ia PARTE

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:, M.:M.:



Questiona um leitor deste blog (sim, eles existem) se é necessário conhecer tantas coisas para sermos “fera” no misticismo, segundo sua interessante expressão.
É uma questão que angustia muitos, ao convivermos com brilhantes irmãos, e nós os temos aos montes nesta nobre Ordem Rosacruz, que exalam conhecimento e que nos inquietam, fascinam e motivam com sua capacidade de reter informações acerca do Universo do misticismo.
Sim, o Misticismo mundial é um Universo, e por isso, é de bom alvitre que escolhamos um campo com o qual nos identifiquemos e nos dediquemos a ele, para que o conheçamos melhor.
Alguns, entretanto, preservam o espírito enciclopedista , e se fascinam por todas as coisas que dizem respeito à História do Misticismo, como se, sem essas informações, não se pudessem chegar a bom termo na senda.
Não é bem assim.
Lembremos o conceito de Sagacidade, dom que recebemos do altíssimo e o qual aperfeiçoamos com a cultura intelectual ou aplicamos de forma selvagem, mas também eficiente no dia a dia.
A Sagacidade é, como eu disse, um dom.
Alguns a tem, outros não.Não há como artificialmente desenvolvê-la. Ela é a qualidade que diferencia as pessoas bem sucedidas daquelas que não o são. Ela é a resultante da combinação da sabedoria e do entendimento, como está recomendado no início do Sepher Yetzirah.
A Sagacidade é, pois, um ato de Cabala.
Existe um sinônimo de Sagacidade em nosso idioma, esperteza, mas prefiro o termo sagacidade à esperteza por que esta última ganhou conotações muito desagradáveis nos últimos anos, como se a Esperteza fosse a Sagacidade do Mal e a Sagacidade, a Esperteza do Bem.
De qualquer modo, a Sagacidade é uma virtude fundamental ao caminho na senda mística. Com ela percebemos as mentiras por trás de falsos discursos moralistas, as falhas de caráter daqueles que a muitos parecem verdadeiros santos, ou mesmo as nossas falhas diante do desafio de nos tornarmos dignos de sermos chamados Defensores da Tradição.
A Sagacidade pode ser usada, portanto, em dois sentidos: para fora e para dentro.
É como um olho revelador das coisas e personalidades que nos cercam, mas também ajuda muito na nossa própria autocrítica.
E é dentro de nós que se trava a verdadeira batalha.
Ela vai nos mostrar quando estamos acumulando informações sem valor para nossa evolução e quando certas outras informações são, sim, fundamentais para o nosso aperfeiçoamento esotérico.
A Batalha é entre o bom senso e a insensatez.
Assim, a erudição pode ou não nos ajudar nos nossos trabalhos místicos, desde que seja uma erudição sensata, e que possa, portanto, ser estrategicamente usada para nos ajudar e não para nos atrapalhar.
Acumular informações sem saber bem para que não é sensato. Demonstra que o indivíduo não é sagaz.
O Iniciado Sagaz usa apenas as informações que lhe ajudam e sabe desprezar um sem número de outras que, diante de seus objetivos, que devem ser claros, não tem nenhuma utilidade.
Isto de chama Objetividade ao lidar com a Subjetividade.
Também uma Virtude fundamental ao místico.
Ninguém coloca seu barco no oceano sem um curso ou uma carta náutica, um sextante ou, mais modernamente, uma conexão de satélite e um GPS.
Precisamos saber para onde queremos ir e como chegar lá, antes de começarmos a caminhada.
Erudição não é um peso nessas horas, faz parte da bagagem.
O problema portanto não é a erudição mas como a usamos.
Quem acha que acumular milhões de informações de modo anárquico levá-lo-á mais rapidamente à iluminação está redondamente enganado. Como é de domínio público, pode inclusive impedir a Iluminação desejada.
Se ao invés, um indivíduo de Espírito Sagaz e coração puro tiver intenção de alcançar a Iluminação, o Cálice Sagrado do Cavaleiro, necessitará de algumas informações para que possa chegar com segurança ao Castelo de Camelot.
E quando falo Espírito Sagaz refiro-me não a alguém intelectualmente inteligente, mas sim, intelectualizado ou não, dotado de uma conexão com o Altíssimo que permite que ele possa ver além das intenções e dos véus, antecipando movimentos e percebendo no silêncio uma série de Verdades.
A Sagacidade é uma forma de Intuição, parte por velocidade de pensamento, parte por conexão como o Todo Poderoso.
Existe espaço para todos dentro do Universo Místico: homens de renúncia, sadhus, da tradição indiana, e intelectuais sagazes e poderosos. Cada um no seu terreno de ação pode contribuir ao avanço do conhecimento do Ocultismo sem perder o rumo do maior objetivo do Místico.
Só que a renúncia, desde o início do século passado, se caracterizou como uma espécie de egoísmo. Concentrados em si mesmos, estes homens e mulheres abandonaram todas as coisas da vida comum para encontrar Deus, como se não pudessem encontrá-lo em suas casas, com suas famílias ou no seu trabalho.
E talvez não pudessem mesmo.
Em Yoga dizemos que são tipos de yoga diferentes. Um é o bhakti, o devoto; o outro é o gnana yogue, o yogue do conhecimento. De qualquer forma, todos nós devemos praticar a karma yoga, a Yoga da Ação no meio humano, em companhia de nossos irmãos de espécie, que como sempre precisaram, precisam hoje de nossa presença, nós místicos, que nos dizemos iniciados , e não de nossa ausência através de um caminho de isolamento e afastamento da sociedade.
Hoje, aqueles de nós que se recusarem a participar da sociedade e levar a boa nova dentro do próprio meio ambiente social, estarão se recusando a auxiliar aqueles que não tem esta iniciação e que, nós bem sabemos, precisam desesperadamente dela.
Não é mais hora de cavernas e de silêncio.
Nós, que temos a palavra, precisamos pronunciá-la, não mais omiti-la.
Eu não disse revelá-la, mas utilizá-la.
O Verbo é poder, pois no princípio, o Verbo estava com Deus, e ainda hoje , o Verbo é Deus.
Só que O Verbo não é apenas poder, mas poder para alguma coisa.
Peço a Deus que essa alguma coisa seja auxiliar o maior número de pessoas a encontrarem o caminho.
Para isso, precisaremos de palavras e ações, precisaremos de Sagacidade.
A cultura, neste caso, pode e deverá ser de extrema utilidade.
Simplicidade, eu sempre digo, é uma perigosa armadilha.
Que sejam simples os corações, mas complexas as nossas cabeças. Esta é a equação secreta da Sagacidade.