Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

EQUÍVOCOS NA INTERPRETAÇÃO DO PAPEL HISTÓRICO E MESMO SIMBÓLICO DOS TEMPLÁRIOS

Por Mario Sales

"A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (em latim "Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici"),[2] mais conhecida como Ordem dos Templários, Ordem do Templo (em francês:"Ordre du Temple" ou "Les Templiers") ou Cavaleiros Templários (algumas vezes chamados de: Cavaleiros de Cristo, Cavaleiros do Templo, Pobres Cavaleiros, etc), foi uma das mais famosas Ordens Militares de Cavalaria.[3] A organização existiu por cerca de dois séculos na Idade Média, fundada no rescaldo da Primeira Cruzada de 1096, (por Hugo de Payens, em 1118) com o propósito original de proteger os cristãos que voltaram a fazer a peregrinação a Jerusalém após a sua conquista. Os seus membros fizeram voto de pobreza e castidade para se tornarem monges, usavam mantos brancos com a característica cruz vermelha, e o seu símbolo passou a ser um cavalo montado por dois cavaleiros. Em decorrência do local onde originalmente se estabeleceram (o Monte do Templo em Jerusalém, onde existira o Templo de Salomão, e onde se ergue a atual Mesquita de Al-Aqsa) e do voto de pobreza e da fé em Cristo denominaram-se "Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão".O sucesso dos Templários esteve vinculado ao das Cruzadas. Quando a Terra Santa foi perdida, o apoio à Ordem reduziu-se. Rumores acerca da cerimónia de iniciação secreta dos Templários criaram desconfianças, e o rei Filipe IV de França profundamente endividado com a Ordem, começou a pressionar o Papa Clemente V a tomar medidas contra eles. Em 1307, muitos dos membros da Ordem em França foram detidos e queimados publicamente.[4] Em1312, o Papa Clemente dissolveu a Ordem. O súbito desaparecimento da maior parte da infraestrutura europeia da Ordem deu origem a especulações e lendas, que mantêm o nome dos Templários vivo até aos dias atuais."

fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_dos_Templ%C3%A1rios



A maioria dos esoteristas devem, para ser esoteristas, ter prazer na história romanceada e serem sensíveis às idéias nobres e elevadas. Este prazer pelo aspecto romântico como conhecido na tradição literária da Alemanha do século XVIII, não tem necessariamente em si uma denúncia de ingenuidade. Ele reflete o prazer pela beleza, como o gosto pela poesia, pela boa música, pela boa arte. 
Na verdade, como ser sensível que é, o esoterista é um indivíduo imbuído do estético até os ossos. Ele olha o mundo pelos olhos do espírito e o espírito vê a beleza da Criação e a presença de Deus nas coisas mais simples e comezinhas. O olhar do iniciado se fascina com facilidade, como a criança, de quem ele busca retirar características, exatamente para vivenciar sua condição de iniciado. 
Não foi o mestre Jesus que ensinou que para descobrirmos o caminho do reino dos céus devemos ser simples como as crianças? 
Feito este preâmbulo, compreende-se que a simplicidade de espírito, que na verdade reflete a pureza d'alma que qualquer iniciado almeja, reflete-se em modelos como os da lenda da Távola de Artur e, por extensão, aos Cavaleiros da Ordem dos Templários, decantados em prosa em verso. 




Só que a Ordem fundada por Hugo de Payen em 1118 nada tem a ver com a lenda dos cavaleiros Bretões, já que estes são produto do imaginário romântico e em vez de seres humanos reais e históricos, são símbolos de valores e idéias caras àqueles que estão em busca da Luz, expressada miticamente no Santo Cálice de Cristo, ou "Hole Graal", na língua inglesa. 
Já os templários são um fato histórico, tendo sua existência datada, em um contexto político religioso bem definido e com uma atuação não devidamente compreendida pelos contemporâneos que os reverenciam como se não fossem seres humanos reais envolvidos em uma guerra religiosa sanguinária e absolutamente descabida de motivos legítimos. 
Seu nobre lema (escrito por São Bernardo (e) extraída do livro dos Salmos: "Non nobis Domine, non nobis, sed nomini tuo da gloriam" (Slm. 115:1 - Vulgata Latina) que significa "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome a glória" ) e o fato de intitularem-se como Pobres em seu próprio nome, não impediu que esta se tornasse a mais rica e poderosa ordem de cavalaria nos 200 anos de sua existência. 




Os templários eram não só protetores de peregrinos mas também de valores materiais, tendo tradicionalmente sido os inventores do cheque, como o conhecemos, um documento em papel que representava determinava quantia, de forma que não se carregasse muitos valores em uma viagem sempre perigosa, e ao chegar ao destino, fosse possível de posse deste documento, resgatar o valor que ele indicasse. Isto implicava em ter que estocar altos valores nos locais de destino como nos locais de partida, o que caracteriza uma atividade bancária. Isto em si já demonstraria a falácia de imputar a estes cavaleiros o título de pobres, mas existem outros equívocos , produtos de uma excessiva romantização de sua história, principalmente a sua santidade de objetivos. Devemos lembrar que o fenômeno templário ocorre em meio às cruzadas. Cruzadas eram expedições militares que tinham por objetivo principal "a libertação da Terra Santa ( Jerusalém) do domínio muçulmano. 
Ora, neste particular, os Templários são o negativo da foto dos guerreiros de Alá, a versão da Igreja Romana dos combatentes religiosos perfeitos do profeta, movidos pelo discurso de ódio entre religiões que dominava o cenário medieval. Se os árabes os chamavam de Infiéis, por não seguirem a crença do Islã, da mesma forma eles nomeavam os árabes que na sua visão, alimentada por Roma, eram homens vis e sem piedade. 
Na verdade, era uma guerra como qualquer outra, com o agravante de que era travada em um período de baixa tecnologia e nenhum recurso médico, com instrumentos de batalhas extremamente cruéis, como as espadas ou espadagões que de tão pesados deviam ser empunhados com as duas mãos. Os ferimentos infligidos por este tipo de arma eram lacerantes e necessariamente não causavam morte imediata, mas que causariam a morte depois de algumas horas ou dias de agonia, geralmente por hemorragias incoercíveis, acompanhadas de dor extrema pelas prováveis lesões nervosas. 
As condições de batalha por serem atrozes traziam realidade a mente daqueles que tinham se motivado a se envolver nestas campanhas influenciados pelo discurso sempre hábil de padres e sacerdotes recrutadores. Havia também a falsa impressão de que por um período de envolvimento de 2 a 3 anos era possível conseguir para si e seus descendentes riqueza, nobreza e títulos, fora benefícios espirituais abstratos vendidos pelo discurso dos sacerdotes como consequência das atrocidades contra as tropas de Saladino, o mais poderoso dos inimigos dos Cavaleiros de Cristo. A dor e o sofrimento das batalhas ao vivo geravam desilusão e alta taxa de deserção, como na batalha de Hattin, ganha por Saladino em 1187, que refletia o desencanto entre as fantasias alimentadas ao sair do país de origem e a realidade triste da Guerra. 
Se hoje, para meu espanto, muitos rendem homenagem à Ordem dos Templários e mesmo ensaiam teatralmente sua restauração em nossos tempos de celulares e computadores, isto se deve apenas ao romantismo supra citado e a falta de conhecimento histórico. 
Não é compreensível que um acontecimento tão brutal quanto a morte de mulheres e crianças muçulmanas, passadas a fio de espada pelo primeiro comandante das Cruzadas, Balduíno IV, na batalha de Montigisard, possa inspirar devoção cristã ou espiritualidade. 
Ainda mais quando o nome do Cristo, um ser de misericórdia infinita está associado com este banho de sangue histórico que foram as cruzadas, aonde os Templários estiveram envolvidos de maneira indiscutível. 
É preciso que repensemos como esoteristas maduros o excessivo louvor que depositamos nesta associação de cavaleiros, que não são um grupo de santos e mártires, mas um braço armado e extremamente violento da Igreja na consecução da sua hegemonia territorial ao longo dos séculos 11 e 12.