Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 17 de agosto de 2013

REFLEXÕES SOBRE O PAPEL KÁRMICO DO SOFRIMENTO INCONSCIENTE

por Mario Sales, FRC,SI,CRC


Minha esposa trabalha na área de Psiquiatria. Nas conversas do café da manhã eventualmente vem a tona um de seus casos no ambulatório e a grande intensidade do sofrimento da família de pacientes com distúrbios mentais graves, que implicam em agitação psicomotora, desorientação e medo. Sim , medo das possíveis atitudes impensadas e impulsivas de seres humanos devastados por este flagelo ainda sem um tratamento realmente eficaz, chamado doença mental, em todas as suas manifestações.
Foi ouvindo seus relatos sobre um caso que comecei a fazer intimamente considerações sobre o papel kármico do sofrimento inconsciente.
Recorrendo de novo, com a permissão de todos , a mesma imagem que tanto me fascina pelo didatismo com que explica o fenômeno da encarnação, a sala de projeção de cinema, imaginemos que a encarnação enquanto oportunidade de evolução particular do indivíduo pressupõe a consciência de suas opções e experiências.

Comparando com a sala de cinema, é como sentar na cadeira da sala de projeção e assistir o filme, contemplar, testemunhar os eventos que passam na nossa frente, na tela de projeção, que é a nossa própria vida material. Enquanto eu posso contemplar e compreender ou desfrutar das imagens e dramas que se desenrolam no enredo da história, as emoções que estes acontecimentos desencadeiam em meu espírito, em minha mente, vão mudando minha compreensão de tudo que me cerca, da mesma forma que os filmes fazem com que choremos, ou gargalhemos, ou simplesmente reflitamos sobre aspectos da vida. O teatro cinematográfico, representado pela projeção de um raio de luz, nos permite estudar a vida e a nós mesmos, oferecendo-nos uma experiência segura e produtiva já que como lembra Krishna a Arjuna no diálogo do Bhagavah Gita: "11.Enquanto falas palavras sábias, estás lamentando aquilo com que não precisas te afligir. Os sábios não lamentam nem os vivos nem os mortos. 12. Nunca houve um tempo que Eu não existisse, nem tu, nem todos esses reis; e no futuro nenhum de nós deixará de existir. 13. Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice, do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo."(capítulo II, vers.11 a 13)

Mas e se eu não pudesse assistir o filme a minha frente? Se por um absurdo inexplicável eu entrasse no cinema com uma venda nos olhos e um tampão nos ouvidos? Qual a utilidade para uma testemunha de um evento que lhe diz respeito de modo direto, (ou seja, sua própria existência) que não pode ser testemunhado? É o que ocorre em pacientes psiquiátricos sem o devido controle medicamentoso, ou, às vêzes, com este controle, mas sedados pelos medicamentos a tal ponto que seus reflexos ficam diminuídos e sua percepção embotada, como era comum nos anos 50 e 60 do século passado.
Aquilo que dá significado à existência enquanto experiência educacional e de lazer, como define a imagem didática da sala de cinema, é a consciência e a percepção clara do que ocorre a nossa frente.


É preciso que tenhamos consciência de nossas experiências até para realmente poder aproveitá-las de alguma forma. Como eu sempre repito, sem consciência não há Karma. Só existe aprendizado e possibilidade de escolhas pontuais, aqui e ali, que resultarão em novos entendimentos da vida se o indivíduo tiver condições mentais de participar lucidamente dessas escolhas.
Lucidez é uma palavra que deriva do mesmo radical latino de Luz. Sem a Luz do Entendimento, a sefira Binah, da árvore da Vida, Chokmah, a Sabedoria, será inatingível.
Qual portanto pode ser o papel de um indivíduo que vem a essa existência com o destino de apresentar uma doença que compromete sua capacidade mental, já que é a mente nosso mais importante instrumento de percepção?
Já ouvi várias argumentações sobre isso. Alguns místicos advogam a tese de que a experiência do indivíduo em questão visa menos a ele mesmo que aqueles com quem ele convive. Seria uma tese interessante se a Vida como experiência em si não fosse um evento tão precioso, tão rico e fundamental.
Para mim é difícil aceitar que toda uma existência, mesmo se olharmos o tempo de uma encarnação pela ótica do tempo de Bhrama, o que faz de cem anos apenas um segundo, seja jogada ao fogo, como um sacrifício pessoal de um em benefício de outros, exatamente aqueles que testemunham nossa incapacidade de testemunhar.
Nenhuma vida ou existência é inútil, mas considerá-la útil de modo indireto, como uma experiência totalmente doada a terceiros, não me parece um modo justo de desempenhar este magnífico papel da encarnação.
O indivíduo que passa pela experiência da doença mental grave deveria ter a capacidade de contemplar-se nesse estado para poder usufruir dele de modo kármico. Passar pela vida sem saber-se vivo, na minha humilde opinião, é puro desperdício, mesmo que seja um simples segundo de Bhrama.
Porque na verdade, o Tempo que importa é o tempo psicológico. E a vida é busca de consciência permanente. Não existe outra função para a existência na Terra ou fora dela do que a busca de mais e mais consciência, já que é através de nós que Deus contempla a si mesmo, e se percebe no reflexo.
Este tema está longe de poder ser esgotado por reflexões como esta. Falta-nos informações mais precisas, mais profundas sobre a atividade cerebral e mental. Sabemos que pacientes esquizofrênicos vivem experiências delirantes, contemplando realidades absolutamente distintas da experiência hodierna, aonde se debatem com imagens ora assustadoras, ora acalentadoras, mas em tudo e contudo descoladas da percepção dos cinco sentidos comuns.
Serão estas experiências delirantes, como as classificamos, capazes de gerar algum tipo de evolução cármica? Ao que sabemos, o curso de um delírio é caótico, como os sonhos, repletos de simbolismos inexplicáveis e esotéricos até para o próprio sonhador. Poderia tal tipo de experiência caótica trazer aquele que dela participa algum tipo de percepção nova sobre a vida e principalmente, sobre a sua própria vida?
Não sei. São questões em aberto que não fazem sentido em um Universo, que como místico, eu considero justo, equilibrado, mantido em tal equilíbrio não pela justiça dos homens, mas pela justiça divina, a quinta sefira de cima para baixo.
Ou seja , a Justiça (Geburah) vem antes, bem antes do entendimento, Binah. Antes de ser um Universo compreensível, ele deve ser Justo. A justiça é fundamental para que o Cosmos, a Ordem Universal, se manifeste.