Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 6 de dezembro de 2014

GRUPO VIRTUAL DE ESTUDOS MARTINISTAS VIa PARTE

TEMA GERAL ATUAL: CABALA
TÓPICOS PARTICULARES DE HOJE: A ALMA NA CABALA E AS DIFERENTES ADAPTAÇÕES DO CONHECIMENTO ÚNICO E OS CONTEXTOS SOCIOCULTURAIS DE CADA TRADIÇÃO ESOTÉRICA E MÍSTICA

Mario Sales, Wilson Hackmey, Flavio Sobral Bazzeggio



Minha convivência com Mestre Reginaldo Leite foi curta, mas extremamente produtiva.
Ele me alimentava de informações à uma velocidade enorme e sem nenhum refresco didático, me mandando papers, imagens, e mesmo livros inteiros ( a primeira vez que vi o Zohar por inteiro, com suas mais de 1000 páginas, foi em espanhol e enviado por ele).
Uma imagem que ele me enviou era a de uma sequência de Árvores da vida, pequenas, que formavam , uma ao lado da outra, em níveis diferentes, algo como uma escada da qual elas eram os degraus.
Havia neste esquema a compreensão de que os 4 níveis de cada árvore com suas dez sefiroth, se reproduzia em cada nível que a alma atravessava ao longo da existência, já que estes degraus, nefesh (instinto), ruach (emoções) e neshamá (pensamento, razão) são modos que são exaltados em fases diferentes de uma única existência, à medida que o indivíduo envelhece e amadurece.
O instinto nos guiará no início, depois as emoções, como na adolescência, terão primazia sobre o raciocínio que prevalecerá sobre a emoção na maturidade. Os três, no entanto, sempre conviverão em nós em qualquer de nossas fases de vida, com grau de influência diferente, mas estarão lá, como em uma carruagem.




Comentei este aspecto com meus colegas e citei o fato de que para os judeus, só judeus podem ultrapassar o nível de ruach, porque só quem estuda o Talmude pode compreender o nível do Pensamento, que aqui é mais do que mera atividade intelectual, mas desenvolvimento de sensatez, o que é o primeiro passo para a sabedoria espiritual.
Daí, vimos que o contexto cultural judaico é ingenuamente bairrista como todos são. Supõe que seus conceitos são únicos e incompreensíveis para quem não esteja dentro dele. O que obviamente é uma falácia, assim como falácia também é supor que só franceses podem ser bons esoteristas ou que a verdadeira filosofia só pode ser escrita em alemão.
Vivenciar como judeu um conhecimento e um conceito espiritual judeu é impossível para um não judeu, pois se trata de uma experiência não só intelectual como emocional.
É a emoção que determina a noção de identidade cultural nacional e o senso de pertencimento à uma tradição qualquer que seja. Nesse sentido, a afirmação de especificidade é correta.
Acima, porém, do aspecto emocional-intelectual existe o aspecto espiritual-intelectual, que permite que qualquer estudioso espiritualista possa ter acesso ao conhecimento de uma tradição e extrair dele inspiração para sua busca do Santo Cálice (Hole Graal) particular.
Não existe uma proibição intelectual de compreensão para conceitos da espiritualidade hindu, egípcia ou budista para quem não seja hinduísta, egípcio ou seguidor do Dalai Lama.
Tudo que é espiritualmente belo interessa a todos aqueles que buscam a beleza espiritual. Não importa de onde brote, será como água que mata a sede de Deus de um buscador sincero.
E isto porque nossa raiz é a mesma, enquanto seres humanos terrestres.
A mesma seiva alimenta todas os ramos da árvore das culturas, e com certeza esta árvore tem, no passado longínquo, um único tronco e uma única raiz, mas hoje talvez seja impossível identificar a forma deste tronco considerando a enorme e diferenciada variedade de galhos, alguns apontando para o Leste, outros para o Oeste, embora partes da mesma copa, do mesmo vegetal antropológico.
Por isso sempre defendo a impossibilidade de comparar ramos diferentes desta árvore embora eu reconheça que são provenientes do mesmo tronco.
Muitos arrancam um galho e supõem ter em mãos a árvore. O fato é que tem apenas um galho seco e sem seiva, separado de seu tronco e que logo secará e se servir para alguma coisa será para lenha de fogueira.
Mesmo que o galho que escolhamos para estudar, que pode ser o nosso, contenha elementos comuns a toda a árvore e, portanto, a todos os galhos que a compõem, suas características de forma e posicionamento no espaço são tão peculiares que não é possível supor que comparações entre estes galhos nos levem a visão clara do tronco que lhes deu origem.
Se fizermos o caminho inverso, talvez encontremos um local onde se deu a grande e primeira bifurcação entre os galhos da direita e da esquerda e do norte e do sul da árvore humana, mas mesmo isto acho extremamente difícil. Talvez seja mais interessante e produtivo nos concentrarmos nos aspectos do nosso galho e daqueles galhos próximos ou pouco distantes de nós.
Já teremos material antropológico de grande quantidade e qualidade para fazermos estudos de características comuns a eles. A visão da raiz da árvore, esta é bem mais esotérica historicamente. Falta-nos os instrumentos adequados ainda.
Não importa.
Judeus não são os únicos espiritualistas do mundo, e a Cabala Judaica não pode ser compreendida apenas por Judeus, já que muitos Judeus nem se interessam por Cabala, como muitos homens ocidentais não se interessam pelo cristianismo ou qualquer outra religião.
O nível espiritual é algo dado pelo Alto e as almas são diferenciadas pela sua evolução íntima, independente de nascerem neste ou naquele corpo, neste ou naquele sexo, nesta ou naquela tradição.
Acima e além dos países e das culturas, existe o Espírito Imortal, ou como chamam os Rosacruzes, a Personalidade Alma, que é eterna.
É esta personalidade que viaja de experiência em experiência, como uma personalidade Judia, Japonesa, Nórdica ou Negra, na Europa, África ou nas Américas.
Estas peculiaridades de cada encarnação não são mais importantes do que a bagagem e a Idade espiritual desta Personalidade Alma que, se antiga o suficiente, irá dar novas cores e um padrão mais elevado à tradição em que estiver mergulhado naquele período específico.
É assim com Luria (Isaac Luria- o Ari, Jerusalém 1534; Safed 1572) e a Cabala. Sua reformulação e seus conceitos são de uma beleza e de um encantamento tão grandes que elevaram o nível de complexidade desta interessante tradição esotérica que é o Cabala Judaico.
Conceitos como Tzim Tzum, Shevira Há-kelin, Tikun Olam, organizaram a compreensão de muitos e avançaram as primitivas noções do Misticismo Merkavah, a proto cabala  do século II DC, embora as "Meditações dos Sete Palácios" sejam ainda técnicas úteis a todo cabalista que busca a elevação espiritual.
Existem como vimos antes outros conceitos cabalísticos Lurianos pouco discutidos pelos Martinistas, como o conceito de Partizuf, os cinco níveis da Alma, a restrição da luz , a máscara ou o véu, etc, que são descritos com palavras idênticas para outros conceitos conhecidos, o que costuma confundir bastante os que se dedicam a entendê-los, ainda mais porque usam imagens consagradas como a Árvore da Vida na sua esquematização.
Ainda não me sinto pronto, entretanto, para didatizar estes conceitos para meus irmãos e irmãs, se bem que tenho trabalhado no problema.
Tudo que Mestre Reginaldo me ensinou destes menos conhecidos conceitos sobre a alma, como por exemplo os níveis da alma que estão acima de Neshamá, (Chaya e Yechida), são explicados pelos textos de Michael Laitman que estou, no momento, estudando.
O que fica deste sábado é a idéia clara de que, independente da nossa tradição espiritual nesta encarnação, nós, filhos do espírito seremos sempre místicos, ou seja, pessoas envolvidas com o mistério do mais profundo de nós mesmos, trabalhando a questão de como liberar em nós o Divino que está temporariamente adormecido, mesmo que o nome desta Força Divina, oculto pela torpor de nossa consciência encarnada, se modifique milhares de vezes, e seja variado em aspecto, forma e direção como os galhos de uma mesma árvore.