Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

LIGAÇÕES PERIGOSAS

por Mario Sales, FRC,SI,CRC 18°




Um dos trechos que estudamos da Doutrina Secreta (DS) de uma quarta feira destas, começou na página 333, no segundo volume da edição de 1973 da Sociedade Teosófica (ST) em seis volumes, da Editora Pensamento.
Neste trecho, (que até Michel Gomes no seu já citado "Resumo da DS" evitou, por considerar demasiadamente datado além de não necessário à compreensão da essência dos pensamentos de Helena Petrovna Blavatsky [HPB] ), continua o esforço da autora e fundadora da ST em ver ligações entre a Ortodoxia Científica e a Teosofia, de modo ora intempestivo, ora ingênuo.
Intempestivo, por querer que a ciência, a ferro e fogo, aceite suas afirmações sobre mundos invisíveis, baseada apenas nas suas afirmações ou na, em sua opinião, beleza de suas idéias, sem quaisquer demonstrações ou provas experimentais.
Ingênuo, por não entender que a ciência é um caminho pavimentado por fatos, não por afirmações, sejam fatos teóricos (matemáticos), sejam experimentais.
Uma pessoa comum não compreenderia isso, aceita-se; mas, uma assim denominada, Alta Iniciada, não tem justificativa para tal atitude mental.
Espera-se de "Altos Iniciados", ao menos, sensatez. 
Não é isso que se percebe nas queixas de HPB contra o meio científico.
O mais paradoxal, como já comentei aqui, é que mesmo tendo este enfoque negativo do ceticismo metodológico dos homens de ciência da época, HPB procure nestes capítulos finais e infernais do II° volume da DS referendar a Teosofia pela racionalidade científica e por descobertas da época da química e da física daqueles anos pré positivistas.
Neste trecho que trabalhamos, eu e Flavio, ela exalta o trabalho de Crookes (Sir Willian Crookes, físico-químico inglês do século XIX, inventor das ampolas de Crookes, do Radiômetro e descobridor do elemento Tálio).
No início do parágrafo que enfrentamos, lemos o seguinte trecho:
"Proferiu êle, (Crookes) uma segunda conferência sobre a gênese dos corpos simples ( na Royal Institution of London em 18 de fevereiro de 1887) e ainda uma terceira, ambas tão notáveis como a primeira. Aqui temos quase uma confirmação dos ensinamentos da filosofia esotérica..."
A questão é: para que um esoterista precisa de confirmação científica de suas teses?
Que insegurança é essa que faz alguém , detentor de informação privilegiada, digamos assim, necessitar parcial ou totalmente de confirmação de seus dados?
Acompanhem um exemplo: eu e um indivíduo cego estamos sentados ao ar livre. A chuva acabou há pouco e no céu surge um arco íris. Digamos que eu, animadamente, descreva para meu companheiro, cego de nascença , as maravilhosas nuances de cor deste encantador fenômeno. Pergunta: de alguma forma, isto fará com que ele tenha a mesma experiência visual que eu? Não. No máximo ele abstrairá que algo interessante ocorre no céu, mas em princípio não posso falar do azul, do púrpura ou do amarelo para quem não pode ver as cores.
Isto não deve nem deveria me aborrecer e eu não consideraria algo pessoal que tal pessoa com tal limitação me dissesse que não consegue acompanhar minha descrição.
Seria insensato da minha parte agir assim.
Infelizmente, é assim que HPB, em certos trechos, age; ou, como eu e Flavio suspeitamos, Leadbeater e Annie Besant agiram e incluíram no texto suas posições como se de HPB fossem.
Como comentei aqui, esta edição não é aceita em Adyar, na Índia, sede internacional da ST, segundo me informaram alguns leitores do blog.
Considerando que o que é esotérico hoje deve ter sido ciência em outra época e, como tal, foi concebido a partir de esforço intelectual e experimental por décadas e décadas, querer que a ciência desta época e desta cultura faça um salto de bota de sete léguas, passando por cima de etapas essenciais à consolidação de um conhecimento é uma demonstração de uma surpreendente ignorância sobre a natureza humana, a ciência, e suas limitações, que desembocam no método científico que, se é lento, pelo menos garante conclusões e descobertas fundamentadas e confiáveis.
De qualquer maneira, esoterismo e ciência ortodoxa têm caminhos diferentes e não podem lançar pontes um para o outro todo o tempo.
São como duas senóides deitadas que ora se aproximam e ora se afastam, sem nunca se tocar.
Pontes entre as duas só são possíveis nas regiões próximas, não nas distantes.



Aparentes similaridades entre estes dois caminhos, que não são paralelos como visto, não devem fazer crer aos incautos que estas duas oscilações são a mesma e única.
Não são. E é bom que seja assim para permitir mais beleza pois quem conhece acústica sabe que o mesmo som, ininterrupto, pode se tornar desagradável e até menos perceptível pelo fenômeno de fadiga dos chamados receptores fásicos, como os ouvidos; mas, dois, ou mesmo três sons diferentes, desde que harmônicos, podem gerar uma ressonância muito agradável, como se vê nos acordes musicais.
Esta diferença entre linhas de investigação é, portanto, não só natural, mas saudável e enriquecedora, e querer à força ver ligações entre ambas é, a meu ver, um esforço desnecessário e pouco produtivo. São ligações perigosas e inúteis. Mantidas as característica de cada linha de trabalho, de cada saber humano, a riqueza estará justamente nesta heterogeneidade e nas possíveis ressonâncias que poderá gerar, produto não da igualdade , mas exatamente da diferença entre ambas, como os acordes do piano.
Hoje, quando alguns "iluminados" montam cursos que beiram o charlatanismo, mas mesmo assim bastante frequentados e caros, aonde mostram uma suposta semelhança entre a física quântica e o misticismo, repetem-se no início do século XXI esforços semelhantes ao de HPB, descritos neste trecho da DS, no século XIX, os quais só demonstram uma falta de compreensão de como funciona a ciência e o próprio esoterismo em si.
Como a ciência não tem dogmas e seu tecido constitutivo é instável e vivo, não pode servir de trampolim sólido para os vôos de mentalidades dogmáticas.
Só esoteristas que pensem como cientistas podem ajudar o esoterismo a sair desta apatia em que se encontra fazem dois séculos, repetindo seus axiomas, sem se esforçar para demonstrá-los, ou dar-lhes uma aplicação prática e compartilhável, exatamente o que a ciência faz com suas descobertas, que redundam em melhores condições de vida objetivas e subjetivas.
Mesmos os críticos do mundo moderno deitam, e gostam disto, em colchões e travesseiros de espuma sintética, produto da ciência contemporânea, e vão de palestras em palestras as mais metafísicas em automóveis confortáveis e informatizados, ou em bicicletas feitas de avanços metalúrgicos recentes, mais resistentes e mais leves.
Discutem em seus aparelhos celulares de última geração o quanto a ciência é podre e refratária ao esoterismo e citam exemplos colhidos nos telejornais da noite, assistidos em televisores de alta definição produzidos por laboratórios em todo o mundo, para todas as pessoas.
Não sou, embora possa parecer, um ingênuo adorador do deus científico, porque na verdade, ninguém ligado à ciência o é. Todo cientista é, por definição, um iconoclasta, capaz de jogar sem piedade tudo que acreditou nos últimos vinte anos no lixo desde que alguém prove, de forma irrefutável, pelo menos no momento, que estas crenças estavam erradas.
Mais: ciência não é religião, mas um esforço de busca da compreensão, não mais do que faz as coisas serem como são, mas sim do como estas coisas são como são. Se pudermos saber o porque destes fenômenos isto será um bônus a mais, mas fazem décadas a ciência, bem como a filosofia, colocaram de lado a busca pelos chamados fundamentos últimos, admitindo que esta é uma busca pouco produtiva ou pragmática.
A ciência tem fidelidade, não aos fatos, ou aos seus enunciados, mas aos critérios que norteiam a interpretação destes fatos, o chamado método científico, o qual seria muito útil no trabalho esotérico.
E por isso o tecido da ciência é instável e muda de acordo com a mudança do conhecimento.
O esoterismo bem que poderia aprender com isso e dedicar-se a verificar a si próprio, testando as suas afirmações na vida prática e não querendo ensinar cegos a verem o arco íris.
A única escola esotérica que propôs este tipo de atitude, a vinculação entre o conhecimento esotérico e vida cotidiana, foi a AMORC.
É isso que a distingue como uma escola esotérica pronta para o século XXI, se não abandonar os princípios que a fizeram um farol na história da sociedade humana, no século XX.