Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

CARMA II - O CARMA COMO PROTEÇÃO

por Mario Sales, FRC,SI,CRC 18°





Especulemos.
Nenhuma imagem é melhor para descrever causa e efeito que o reflexo de um raio de luz emitido em direção a um espelho.
Se um raio de luz se propaga solitário no vazio, ele se perde na infinitude.
Por outro lado, se um único raio de luz for emitido de um ponto central de uma esfera espelhada ( o "Tehiru" Luriano) este raio refletirá e refletirá múltiplas vezes em suas paredes, criando uma magnífica teia de luz aonde a criação pode se apoiar e se manifestar.
Este raio inicial é Kav, o primeiro estímulo, a primeira luz, a primeira ação.
Assim, a medida que Kav se multiplica em milhares e milhares de reflexos, Carma avança.
Não com função de punição, mas como um movimento inevitável deste ambiente, que estimula a reflexão das emissões, uma após outra.
Sendo assim, a primeira ação do Carma foi a própria Criação de tudo que existe.
Tudo é vibração na Criação, seja luminosa ou sonora, mas como reflexos e ecos de priscas eras e causas, impossíveis para nós, pobres humanos, identificar.
Esta é uma aplicação possível da "Ótica Esotérica", à questão do Carma.
Na luz refletida nos corpos tudo se esclarece e torna-se visível.
Em um quarto como aquele de nossa experiência imaginária, descrito como um local onde todas as paredes são espelhadas, capturamos os raios de luz produzidos neste ambiente e os fazemos reverberarem infinitamente no ambiente, num reforço positivo das formas ali presentes, tornando-as nítidas e distintas.
Da mesma forma, na Criação, a reflexão infinita do Carma não cessa em nenhum momento
Com essa luz refletida e re-refletida a claridade do ambiente é multiplicada exponencialmente e, neste sentido, aumenta também o esclarecimento das formas e dos contornos destas formas, garantido pela emissão, mas também (e talvez principalmente) pela reflexão dos raios de luz no ambiente espelhado do quarto imaginário.
E tudo que precisamos, nós, os eternos observadores, é de Luz.
Carma é, desta forma, uma manifestação da Luz, que provoca a exposição do oculto, revelação do velado.
Na natureza, é o raio de luz que, refletido nos corpos, retorna sobre nossos olhos e permite que, assim, enxerguemos as coisas.
No Carma, da mesma forma, não há reflexo - consequência que não esclareça sua causa, seja quanto à sua natureza ou sua intenção.
Como sabem, em minha opinião, não existe o propalado "livre arbítrio" agostiniano, a não ser na mente arrogante e orgulhosa do homem. Nossos atos são determinados por nossas necessidades instintivas, sociais ou por razões ligadas à nossa consciência. Só por sermos humanos estamos determinados por nossa humanidade a necessitar de algumas coisas e a recusar outras. O Carma vem a ser a segunda força de modulação de nossas atitudes.
E assim, além de nos movermos induzidos por forças sobre as quais não temos como contrariar (a busca do ar, da água, do alimento, do abrigo e do afeto) ainda nos curvamos às correções de conduta que o Carma nos impõe e nos revela com sua Luz.
Isto nos coloca em uma única direção evolutiva e não em duas ou três como pensam alguns esoteristas.
Não existe o caminho do Mal ou do Bem, mas sim salmões e surfistas, uns subindo o rio, ao contrário da correnteza e outros aproveitando a Onda, harmonizando-se com ela, usufruindo de sua força.
Eventualmente até os salmões descerão o rio, após desovarem. A correnteza é uma só e é mais sábio e confortável nadar a seu favor, se bem que até os salmões tem a sua razão de ser.
Carma é esclarecimento, orientação, e não apenas e tão somente retribuição. Assim ele nos mostra a direção correta do fluxo da corrente de vida universal, constrangendo-nos no sentido correto.
Entendê-lo como um corretor de desvios é mais fiel ao seu propósito do que pensá-lo no "modelo tribunal", tão difundido entre os esoteristas do século XIX.
Sua única função é ajustar rotas e não punir; orientar e não torturar. O desconforto que ele provoque faz com que o indivíduo recue daquela direção e experimente outras mais agradáveis e acolhedoras. E quanto mais estivermos harmônicos com a adequada conduta, com a adequada direção e sentido, coisa impossível de descrever, porém possível de conceituar, mais protegidos estaremos pelo próprio curso das forças que nos arrastam como uma correnteza espiritual.
Como um barco que se torna veloz quando desce a correnteza e por causa de sua velocidade escapa fácil de flechas lançadas da margem.
Somos fortes com "A Força" do fluxo.
Nós mesmos nada somos.
É "A Força" do fluxo que nos faz parecer fortes. Como o surfista que parece flutuar sobre as ondas e na verdade é apenas arrastado por elas, equilibrando-se e apoiando-se sobre as ondas. 
Carma não é punição, mas orientação e proteção para aqueles que entendem suas mensagens, suas instruções, e que sabiamente as obedecem.