Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

TEXTOS E MAIS TEXTOS

Por Mario Sales, FRC




Já comentei neste espaço que o esoterismo é feito de textos, não de fatos.
Os acontecimentos fantásticos que o Esoterismo contempla, a manifestação de dons chamados sobrenaturais, os acontecimentos espantosos, são, em sua enorme maioria, descrições literárias, preservadas em produções intelectuais de autores, hoje consagrados, como Eliphas Levy, Papus, Blavatsky, Paramahansa Yogananda, Gurdjieff e outros.
Os seguidores do caminho esotérico, ou por fé, ou por identificação com vivências pessoais, reconhecem esses relatos como fiéis à realidade, e passam esses relatos lidos à frente como se fatos fossem.
Alguns podem se surpreender com essas simples e óbvias considerações. Podem identificar um traço de ceticismo nestas linhas. Ninguém, no entanto, poderá negá-las.
Se no campo esotérico a atividade intelectual é constante, e muitos, muitos textos passam por nossos olhos enchendo nossa mente e imaginação de ideias e conceitos, no campo místico só a experiência inefável, não comunicável com palavras, íntima, pessoal, importa.
Esoterismo é estruturado no estudo e na reflexão. Misticismo é silêncio, recolhimento.
E silêncio, o verdadeiro e genuíno silêncio, não é compartilhável.
Portanto, o momento em que o esoterista se transforma em místico é aquele em que ele passa da imaginação à vivência.
Textos são como fósforos que acendemos para incendiar a madeira da lareira do coração. Uma vez que o fogo pegue força e vigor, nenhum estímulo mais é necessário. Bastará que alimentemos com a lenha da existência que queimará e se transformará, nos aquecendo e iluminando.



Não que os textos não tenham importância. 
Textos, no entanto, como tudo na vida, têm seu momento específico. Quando o fluxo intuitivo se instala, nem todas as páginas do mundo, nem todas as letras poderiam descrever as miríades de cores e sensações que nos atingem, segundo após segundo, enquanto imóveis contemplamos seu desfile.
O estado meditativo é o estado místico, a conexão. Participamos do drama cósmico de várias maneiras, como atores, como espectadores ou como ambos, quando a iluminação vem nos abençoar.
E isto, iluminar-se, é só o princípio de outras infinitas buscas e jornadas, sem textos, mas geradoras de textos, descrições de acontecimentos, mas não os eventos em si.
Daí a maioria dos mestres não terem produzido textos. A linguagem é demasiada lenta e grosseira para poder atender a velocidade de ideias que a intuição da conexão com o Cósmico nos traz. Os evangelistas escrevem pelo Cristo, Ouspensky por Gurdjieff; Platão por Sócrates.
Os que captam , os que se conectam, entram em estado de embriaguez permanente, incapazes de redigir com serenidade o que vem à sua mente em forma de pura emoção, e quando muito, esta emoção, este amor universal apaixonado pela vida se transforma em falas inspiradas, em sermões como o da montanha, em bênçãos na forma de palavras.
Existe um lindo slogan dos seguidores de Rajeneesh, que preservam sua presença em vídeos, que me encanta sobremaneira.
Eles dizem que os discursos de Osho são “silêncio compartilhado em palavras”.
Talvez seja. Existem até mesmo alguns mestres como Ramana Mararishi, que não falavam, mas davam a entender a beleza de sua percepção do Universo com sua santa presença.
A presença física de um Mestre, em si, já é uma bênção. Nós chamamos isto de Darshan, a bênção da presença.
Todos nós, que somos esoteristas e buscamos o estado místico, precisamos para fazer esta passagem de vivências internas, de nosso próprio silêncio, sem o que jamais iremos além dos textos.
Seremos apenas eruditos sem vida, sem luz própria, sem conexão.
Como eu disse, ou por fé, ou por identificação com vivências pessoais, estamos neste caminho, mas só a vivência íntima nos transformará. Tal percepção é profunda e intensa demais para sustentar-se apenas na fé, apenas em crenças pessoais.
É isso.