Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 3 de maio de 2016

UMA GRAVE QUESTÃO MAÇÔNICA: CONTEÚDO E CONTINENTE

Por Mario Sales, FRC,SI,MM


Eu assumi um cargo maçônico, de dois anos, na minha Loja, que diz respeito ao aprofundamento dos estudos dos altos graus da Maçonaria, do 4 ao 18.
Trata-se (não riam, por favor) da função de “Três Vezes Poderoso Mestre” do Capítulo de Perfeição do Cavaleiro Rosacruz “Jorge Antonio Fernandes”,  função na qual coordeno debates sobre temas mais refinados do que a beneficência social, à qual as Lojas Maçônicas dos três graus simbólicos estão habituadas. Como o nome diz, trata-se de um colegiado que visa a busca, pelo debate, da perfeição interior.
Não é um tema atraente ou que arrebate as atenções de todos. Não há ali, necessariamente, o característico encontro social, com a confraternização decorrente, com alimento e vinho, comum às reuniões ordinárias da Loja Base.
A esses encontros que ocorrem, dentro ou fora da área física da Loja, após as reuniões, chamamos em Maçonaria de “O Copo D’água”, referência ao momento em que os trabalhadores faziam uma pausa para descanso de seu extenuante trabalho de pedreiros medievais.
Voltando ao tema, tenho tido dificuldade de ter quórum para as reuniões do capítulo.
A quantidade de membros é exígua, e às vezes, no inicio deste ano, foi insuficiente para a realização de um ritual ortodoxo.
Mesmo assim, coordenei com os que estavam presentes discussões sobre temas que achei serem fundamentais à reflexão dos maçons, entre eles, Liberdade, Fraternidade e Igualdade, que sempre são passados como coisas dadas e que, ao contrário, demandam uma elaboração um pouco mais profunda, de forma a revelar as contradições internas destes paradigmas, como o caso da Igualdade entre todos, em si impossível de acontecer, já que somos seres heterogêneos, ou da Liberdade, a qual só pode ser compreendida no seu aspecto físico, que se refere a estar ou não atrás de grades, a ser ou não vítima da escravidão. Considerando que em princípio, a escravidão está praticamente extinta, persistindo em áreas desoladas do planeta como prática criminosa apenas, e que o fato de pertencer a uma Loja Maçônica, já estabelece que o indivíduo não seja portador, na maioria das vezes, de graves pendências judiciais, resta a discussão da Liberdade como aspecto psicológico e pessoal, o que torna a discussão muito, mas muito mais complexa.
Achei que tinha feito por onde abraçar temas apaixonantes ou que gerassem considerações e inquietações importantes, função ligada a um chamado “Capítulo de Perfeição”.
Ontem, entretanto,  tivemos mais uma reunião e, como sempre, elaboramos sobre temas de peso, tendo como tema “A Relatividade dos conceitos de Bem e de Mal”.
Ao contrário de outras reuniões, havia um quórum satisfatório, e a reunião prosseguiu de forma protocolar.
Após o encontro, fomos todos jantar em um restaurante perto, realizando o “Copo D’Água”, como de hábito fazemos após os encontros.
Durante o jantar, vira-se um irmão para mim e diz satisfeito:
“Hoje fizemos um bom Capítulo!”, referindo-se a presença em número maior dos Irmãos.
Questionei-o se as outras reuniões não tinham sido também, igualmente boas, ao que ele retrucou:
“- Claro que não, não tinha ninguém!”.
Ao que eu respondi, inspirado:
“-Como ninguém? Você não estava presente? A sua presença é a única coisa que importa”, afirmação que o fez ficar embaraçado e perplexo.
Não quis ser gentil. Não estava tentando agradá-lo, em detrimento de outros.
Queria chamar a sua atenção para o fato de que elaborações profundas sobre temas filosóficos necessitam, no mínimo, de apenas uma pessoa, aquela que medita dentro de sua consciência, sobre o tema proposto.
Embora exista um ritual a ser cumprido, o numero de pessoas presentes não diminui a necessidade de que cada um isoladamente seja um Templo Interior dentro do Templo Exterior, Templo Interior este no qual os verdadeiros trabalhos de aprofundamento do tema são feitos.
Para Maçons é muito difícil entender esta diferença. Seus olhos estão postos no que está fora, no mundo visível, sendo quase impossível divisarem o invisível com a mesma nitidez. Daí apegarem-se tanto a forma, ao Continente, o chamado “Ritual”, que tentam com grande esforço proteger de adulterações, missão quase impossível em uma Ordem que possui mais de duzentos ritos diferentes, fora as alterações que cada Potência, em todos os países, promove aqui e ali, pontualmente, alterações estas que visam estabelecer uma caracterização e uma marca própria de sua visão ritualística, muitas vezes banal e sem significado.
Os Maçons estão se afogando na forma, sem o ar da essência.
Adoram como a um deus pagão o Continente, sem se dar conta que a Vida da Ordem, a qual eles chamam de Sublime, depende muito mais do Conteúdo.
E eu sinceramente não sei como isso possa ser diferente, ou com de alguma maneira pode ser revertido. Toda a orientação do discurso e da prática maçônica foca seus esforços em detalhes bizantinos, em mover as peças no tabuleiro para a esquerda ou para a direita, como num xadrez interminável, o qual embora rico em variações não pode jamais ultrapassar os limites do pequeno tabuleiro aonde ocorre.
A consequência disso é uma espécie de inquietação cerimonial, de obsessão com detalhes, da perda da conexão entre o símbolo e aquilo que o símbolo quer e deveria representar.
Quem imaginou este ritual o fez na intenção de enviar uma mensagem às gerações futuras. Uma mensagem aprisionada nos gestos, toques e sinais, que estão em nossos rituais.
Uma mensagem que, ao que tudo indica, foi esquecida, emudecida, e que jaz aprisionada dentro do envelope em que foi colocada.
Ou abrimos esta carta, ou espiritualmente pereceremos, como Ordem, Sublime ou não, e como indivíduos que fazem parte desta Ordem.
Precisamos, novamente alerto, redescobrir a mensagem oculta nos símbolos, antes que o Continente, o aspecto Externo, a Forma, nos devore e nos faça crer que o Fenômeno é mais importante que o Númeno, nos transformando em cascas vazias, sem alma, cadáveres esotéricos insepultos, a assombrar lojas cada vez mais vazias, como tétricos castelos abandonados, com certeza por causa disso mesmo.