Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 21 de maio de 2016

O VOO MS 804 E A IMPERMANÊNCIA


Por Mario Sales FRC,SI,MM






“A situação continua bastante precária para os egípcios, pois os turistas abandonaram esta região do mundo e esse magnífico país. Por várias vezes eu tive a oportunidade de falar sobre isso com vocês por meio de minha carta (anual), e continuo igualmente sensível quanto ao destino dessa nação e de seus habitantes. É por isso que continuo a ir até lá regularmente, a fim de encorajar nossos fratres e sorores a efetuar este périplo iniciático enquanto isto for possível. O perigo não está apenas no Oriente Médio e devemos enfrentar a situação com coragem e determinação. ”
Trecho da carta anual do Imperator da Antiga e Mística Rosa Cruz, Frater Christian Bernard, 2016, ano R+C 3368

Um avião desaparece na madrugada entre Paris e Cairo. Levava 66 pessoas, 15 das quais francesas. A queda está envolta em mistério....Nenhuma reinvindicação de autoria de ataque foi feita, mas a possibilidade de atentado está na cabeça de todos. Explicação: Egito e França são sem dúvida os países mais detestados pelos chefes do Estado Islâmico(EI).
Trecho da coluna de hoje, 21 de maio de 2016, de Gilles Lapouge, correspondente de “O Estado de São Paulo”, em Paris.



Ao que parece o Egito se tornou mais distante e perigoso para nós, filhos da Cruz e da Rosa. Mesmo com os estímulos a empreender uma viagem aquele país, o próprio Imperator admite que o turismo sofreu uma queda importante com as recentes ações terroristas da organização chamada Estado Islâmico. E agora este avião, que fazia justamente a linha Paris Cairo, aonde poderia estar o próprio Imperator, em uma de suas rotineiras viagens.
Pelo menos, ao que se saiba, o Imperator não estava entre os 15 franceses que experimentaram uma brusca transição nesta tragédia. O que expõe apenas o fato de que nossa existência é frágil e que será compreensível que este triste episódio ponha a última pá de cal nas frequentes viagens que os rosacruzes têm realizado ao Egito nas última décadas.
Lapougge em seu artigo lembra que “ao atacar um avião egípcio, é a indústria turística do país que é atingida”. E esta intenção, com certeza será alcançada, porque não existem armas defensivas contra o ataque do medo ou da insegurança. Estes talvez sejam os maiores inimigos da civilização, e lembro-me de uma frase extremamente forte de Luiz Felipe Pondé em um debate aparentemente coloquial, em que fala que “ a pré história nos olha pela fresta da porta e não o Messias”, lembrando que toda a nossa civilização pode desaparecer de maneira súbita, bastando que para isso este instável equilíbrio político que mantém essa aparência de paz e prosperidade se desfaça, ou por intervenção de pequenas ditaduras, já que as grandes nações têm interesses econômicos e culturais muito mais importantes a preservar, ou pela intervenção de pequenos grupos terroristas que hoje, com a miniaturização de armas letais, são portadores de um poder de destruição muito maior e de mais difícil detecção.
A civilização só permanece pela Graça de Deus.
E como lembrou assustadoramente Pondé, a qualquer momento, “em (apenas) duas horas podemos voltar a pré história, com os homens se matando e as mulheres morrendo de parto”, se certas condições estratégicas forem preenchidas.
Sempre falamos do desapego como uma condição si ne qua non para a evolução espiritual. Só que fazemos este comentário referindo-nos aos relacionamentos e a posse de objetos pessoais. Jamais levamos em conta que desapego é também desapegar-se dos aspectos civilizacionais, das nossas condições socioeconômico culturais de vida, nossas bibliotecas, nossos livros, nossas cidades, nosso teatro e nossa música.
Não pensamos nisto porque achamos ingenuamente que essas coisas são intocáveis e que apenas evoluirão, tornar-se-ão mais tecnológicas, mais avançadas do ponto de vista da informatização, mas nem de leve passa por nossas cabeças a destruição de tudo, súbita e desesperadoramente, na onda do caos que nos circunda e que vige nas fímbrias da civilização.
Fazemos de conta que a África com suas doenças e misérias, a fome, a seca, ou que a faixa de Gaza em permanente convulsão social e militar, são fenômenos distantes e localizados, mesmo considerando as favelas que circundam o Rio de janeiro, São Paulo e a Cidade do México, ou as estatísticas de violência urbana, tanto aqui no Brasil como em Chiapas ou em Yucatán, ou o tráfico de drogas sempre em franco crescimento econômico, talvez a maior fonte de financiamento da criminalidade em todo o mundo.
Seria preciso um trabalho mental muito mais intenso e focado para reverter este estado de coisas e não vejo como isso seria possível.
A vida tem seus ritmos e pode ser que a humanidade esteja com os dias contados, como diz Gilberto Gil, “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”.
A pergunta é: estamos prontos para nos desapegar de tudo isso? Estamos prontos para esquecer o Egito, para não querer mais consolidar nossas convicções em uma visita ao lugar em que toda nossa caminhada começou?
Precisamos ir às pirâmides para que elas finalmente entrem em nós como conceito e vivência?
Não levaremos nada deste mundo, a não ser os valores e as conquistas espirituais que alcançarmos com a experiência desta e de outras encarnações. Somos rosacruzes, nosso verdadeiro laboratório alquímico é o nosso interior, já não precisamos mais de bastões e chapéus pontudos para manifestar nossa magia, pois nossa magia está em nossa imaginação e compreensão interior.
Talvez devamos nos desapegar de tudo que consideramos essencial ao fenômeno civilizatório porque tudo pode desaparecer e desaparecerá, seja por uma convulsão político militar seja pelos efeitos devastadores do tempo.
Nossas almas permanecerão, uma vez que a peça que encenamos terminar.
Maya pode ser envolvente, mas jamais será perene. Parte da sua natureza é exatamente sua impermanência de que tanto falam os budistas.
Estamos prontos para aceitar esta impermanência?
Estaremos realmente prontos quando tudo aquilo que nos referencia, na nossa chamada “realidade”, já não mais existir?
O que restará de nós se algum dia nossa sociedade explodir sobre o Oceano, como um avião de turismo vítima do terror?