Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 27 de maio de 2016

BANALIDADES


Por Mario Sales, FRC, SI,MM



Se devemos ao conhecimento científico nossos avanços tecnológicos, ao senso comum devemos nossa alegria e nosso contentamento.
Ontem, por exemplo, o dia foi perfeito. Tão perfeito, que as rodas do carrinho que escolhi no supermercado não rangiam nem travavam. Esta aparente banalidade encanta o espirito de pessoas comuns, que pensam de forma comum, acostumadas a certos desconfortos e embaraços ligados a vida cotidiana e absolutamente inseridos em nosso momento histórico. Coisas do senso comum, portanto.
É como um café que você faz e não fica demasiado amargo ou fraco, mas exatamente no ponto de equilíbrio entre estes extremos; ou não começar a chover forte no final de um episódio de uma série que você gosta, justamente naquele momento de revelações de mistérios antigos (“Hordor, Hordor”).
A paz, nesse caso, não é a paz verdadeira, espiritual e profunda, mas a paz da ausência de intercorrências banais, que embora não ameacem a existência, contrariam suas expectativas naquele dado momento. As chamadas oscilações comuns na qualidade dos acontecimentos, que mais aborrecem do que matam.
A construção romântica da vida humana supõe que a vida é uma sequência de tomadas cinematográficas perfeitas, quando na verdade a maioria dos nossos momentos são inexpressivos e sem significado, rotinas que reproduzimos todos os dias, só que preenchendo o espaço entre grandes acontecimentos, bons ou maus, estes sim suficientemente importantes para marcarem nossa existência e memória.
Talvez uma das características mais atraentes da pratica do Zen Budismo seja a atenção que dá a essas chamadas pequenas coisas, estas mesmas que preenchem as lacunas e que acabam por, somadas, representarem a matéria de consolidação do real.
Caminhar em uma estrada de areia, tomar banho, beber uma xícara de chá ou café; comer um pedaço de pão.
Coisas rotineiras, mas que para o Zen ganham grande importância pois é exigido de seus praticantes que mantenham sua atenção permanente focada em todos os detalhes do cotidiano, não lhes concedendo sentido, mas testemunhando-os de forma clara, livres do critério de importante e não importante.
Tudo, absolutamente tudo passa a ser significativo, sem referências a outros conceitos mentais, mas pelo simples e banal mérito de ser o que é, um acontecimento da existência.
No Zen existe espaço para o senso comum, que não é, ao que parece, tão banal como supõe nossa vã filosofia.
Talvez o segredo, não da felicidade, mas da serenidade verdadeira, seja estar harmonizado com as coisas banais da existência, aceitando de bom grado e com alegria todos os tipos de acontecimentos, sem classifica-los em bons e maus.
Já que a dualidade é a característica mais notável da existência, passar de um polo a outro com equanimidade diminuirá ou extinguirá o desgaste emocional e a sensação de perda, gerada pelo apego. A impermanência será compreendida na prática, não na teoria.
Como os Mandalas tibetanos de areia colorida, feitos com todo o carinho e esmero por semanas, na ausência do Mestre, apenas para que ele os destrua quando retornar.
Momentos são como os grãos de areia que se acumulam uns ao lado dos outros, para formar belas praias e magníficas dunas. Não são nada, são quase invisíveis, mas sem eles o tecido do espaço tempo se desfaria, por completo.
Como as coisas do senso comum, os aparentemente banais acontecimentos do cotidiano.
Ao que parece, existe muita filosofia no ranger das rodas de um carrinho aleatório de supermercado.