Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 10 de maio de 2016

BRUXOS DO FACEBOOK

Por Mario Sales




“É um anjo!… Ora, já sei que todos dizem isso de sua amada, não é verdade? Todavia, é-me impossível dizer a você o quanto ela é perfeita, e também o porquê de ser tão perfeita. Só isto basta: ela tomou conta de todo meu ser. Tanta naturalidade com tão alto senso de justiça! Tanta bondade com tamanha firmeza! Uma alma tão serena e tão cheia de vida e energia!” 

(GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009. pp. 23-24)



“Por alguns segundos, Lotte pressentiu o terrível desígnio que Werther concebera. Ficou transtornada. Apertou-lhe as mãos, e ele premiu as dela contra o peito. Em dado momento inclinou-se sobre Werther, com uma emoção dolorosa, e as faces ardentes de ambos se tocaram. O mundo inteiro deixou de existir. Werther enlaçou-a com os braços, apertou-a contra o coração e cobriu de beijos furiosos seus lábios trêmulos e balbuciantes.” 
(GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009. P. 111)
“O amor entre os dois era recíproco, mas impossível. 
Na mesma noite, Werther pegou uma pistola e deu um tiro em seu olho direito.”
https://historiandonanet07.wordpress.com/2012/05/03/uma-analise-de-literatura-os-sofrimentos-do-jovem-werther/




Uma decorrência ainda da reflexão da ingerência da visão romântica no esoterismo é a suposição de que a vida mística seja cercada de algum glamour.


Eu vejo fotos nas mídias sociais de esoteristas ou de pessoas que tem o desejo de tornar-se esoteristas, que se auto representam por figuras de magos com longas capas, tirados de alguma página de imagens clichê sobre bruxos e feiticeiros; outros postam fotos suas com a cabeça baixa, cobertos por um capuz semelhante aos capuzes de monges franciscanos, numa alusão sem sutilezas ao aspecto monástico da vida esotérica.
Em "Werther", de Goethe e na "Nova Heloisa", de Rousseau, o caráter de viver a realidade de um ponto de vista pessoal colaborou para afastar mais e mais o ser humano comum de uma perspectiva objetiva de mundo. Deu inclusive a esta perspectiva a fama de fria e insensível.



O pensamento objetivo está longe de ser um sucesso, por isso tão poucos entre nós são cientistas ou intelectuais, mas com certeza todos tem grande sentimentalismo.
Escrevo assim mesmo, com o sufixo “ismo”, na intenção de mostrar o quanto este viés é, antes de tudo, uma visão de mundo definida por crenças, não por evidências ou pela observação sistemática.
Quando critico a fantasia não busco a frieza emocional, pois fantasia e frieza não são opostos verdadeiros. A fantasia é como o nome indica um fantasma, uma imagem deformada e produzida por estados emocionais alterados, pela ignorância ou pela superstição. Nisto difere frontalmente do uso adequado da imaginação, fundamental a artistas, pintores, poetas, mas também a cientistas, tecnólogos e filósofos.
O pensamento equilibrado não impede a emoção, mas lhe dá conteúdo, um conteúdo denso e útil.
Esta é uma sociedade da imagem e da vaidade, do “selfie”, como outras também o foram, sendo que a nossa tem o molho da tecnologia a serviço da promoção pessoal.



Tudo é imagem, geralmente sem som.
Existe, na mesma proporção que avança o visual, uma diminuição do auditivo, pois, pouco a pouco, as pessoas estão ficando sem palavras, sem vocabulário, e por decorrência, sem ideias.
Talvez por isso pensadores e professores de filosofia façam como fazem tanto sucesso nas redes e no YouTube.
São exemplos de intelectuais que fazem alguma coisa absolutamente incomum e rara: exercitam o pensamento organizado, dão forma as nossas especulações, orientam nossas reflexões.



Somos uma sociedade de imagens mudas, que tentam, desesperadamente, substituir-nos como seres humanos, processos bio-psico-sociais, transformando-nos apenas em uma representação de nós mesmos.
Daí tantas imagens de feiticeiros ortodoxos em sites de “Magia” e “Esoterismo”, assim mesmo, entre aspas, para pôr em discussão a falta de conexão entre o que se diz e o que se faz.
Tanto fotos de capuzes, vestimentas cerimoniais, rostos deformados como imagens de mulheres sensuais em danças aparentemente ritualísticas.
Acredito mesmo que neste mundo de máscaras teatrais, as imagens de mulheres sensuais sejam avatares e alter egos de senhoras maduras, já sem os atributos naturais da juventude, para ser polido.

Da mesma forma, quanto mais exuberante e cinematográfica seja a imagem de alguém que no Facebook se denomina um “esoterista”, mais medíocre e sem importância deve ser a vida pessoal daquele que assim se identifica.
Para se formar um bom esoterista é preciso libertá-lo da fantasia, a verdadeira inimiga da Imaginação Criativa e Saudável.
Hoje, Magia e Imaginação são uma e a mesma coisa. A fantasia é como o zinabre que interfere na conexão e impede o aparelho de funcionar. A energia estará perdida se, embora estando lá, não puder ser transformada em atividade no aparelho que busca alimentar.



Temos que nos libertar de idealismos românticos acerca do que é ou do que não é ser um esoterista, ou um místico e nossos atos e nossa vida pessoal real são os focos verdadeiros para o qual devemos nos voltar na busca de uma identidade fidedigna a nossa situação sócio econômica, psicológica e intelectual. Não deve haver equívocos quanto a isto: esoteristas são homens e mulheres como quaisquer outros, não possuem poderes especiais, não fazem milagres, embora saibamos que, com o conhecimento e a técnica correta, muitas coisas aparentemente milagrosas são possíveis.
Não somos bruxos do Facebook, mas pessoas de carne e osso, com dores nas costas, coceiras, e contas para pagar como qualquer pessoa comum.
O que nos identifica não é nossa aparência, mas o conhecimento que está em nossa memória, e na maneira em que lidamos com este conhecimento transformando-o em ideias e da mesma maneira administrando nossos sentimentos, dando-lhes direção, sentido e um propósito, mas jamais deixando que nossas paixões sejam senhoras de nosso destino.
A realidade pode não ter sex apeal mas ainda assim é dentro dela que acordamos e dentro dela nos movemos. 
Devíamos ter mais carinho pelo nosso meio de existência.