Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A PRÁTICA DO MISTICISMO E A SAÚDE MENTAL



por Mario Sales, FRC, SI, CRC 



Um tema recorrente nas discussões sobre o ambiente místico ainda hoje é a qualidade mental dos membros de escolas místicas.
Talvez o assunto tenha uma particular gravidade e importância pelo histórico da prática ocultista que reunia pessoas fortemente impressionáveis com charlatães manipuladores, geralmente cientes de sua capacidade de induzir os mais fracos de mente em condutas antiéticas sob as mais disparatadas justificativas, o que incluía o consumo de drogas e práticas de orgias com a justificativa da busca por estados de consciência mais elevados.
Não sou um moralista, não me entendam mal. Estudei durante minha formação intelectual a civilização grega aonde a escala de valores comportamentais é, em muitos anos luz, diferente dos valores da cultura judaico cristã (vide o Livro Paidéia, de Werner Jaeger).
É claro, entretanto, que os seres humanos não são tão complexos assim em seus comportamentos, mesmo os ocultistas, que no mais das vezes, são menos esotéricos e muito mais humanos ("... demasiadamente humanos”), do que gostariam de admitir.
E, se através de técnicas primárias de indução hipnótica e sugestão, induziam mentes despreparadas a satisfazer a sua luxúria ou sustentar financeiramente seus caprichos materiais, não o faziam pela busca da santidade e nem queriam alcançar um nível especial de percepção, mas apenas e tão somente usar pessoas, como se usam objetos, para seu próprio deleite.
E só o conseguiam por encontrarem material mental fértil e abundante a sua volta.
Como Nietzsche perguntava, devemos também perguntar se a culpa de um crime está na força do criminoso ou na fragilidade da vítima.
Ambientes esotéricos, com suas velas, seus incensos, seus discursos obscuros, sujeitos às interpretações as mais variadas e díspares, podem induzir mentes menos elaboradas ao erro, à superstição e à fantasia.
E aqui, como admirador de Espinosa que sou, gostaria de fazer de novo uma distinção importante entre fantasia e imaginação. Para Espinosa, ambas eram uma e a mesma coisa. O tempo, entretanto, passou, e a linguagem, bem como os conceitos, se aperfeiçoaram.
Hoje, portanto, enquanto imaginação é considerada uma qualidade positiva, base da criatividade artística e científica, a fantasia pode, em certas ocasiões, ser apenas e tão somente um delírio, uma fuga de uma realidade cotidiana indesejável, de forma a mergulhar o indivíduo em um estado de perda de vínculo com o mundo objetivo.

Na prática rosacruciana, na época de Spencer e Ralph Lewis, havia grande ênfase em manter a devida separação entre misticismo fantasioso e misticismo objetivo. As técnicas mentais (era assim que chamávamos) eram métodos que poderiam ser verificados, testados e repetidos por quaisquer pessoas que o desejassem fazer. Não havia o apelo a métodos obscuros, línguas estranhas ou pantomimas complexas como nos século XVIII, ou como na época de John Dee, no séc. XV. Não. A técnica rosacruz, fortemente ancorada no uso da visualização criativa mental e da imaginação, conseguiu dar a prática mística um perfil minimalista, límpido, objetivo e prático, seguro do ponto de vista psicológico e psiquiátrico, tão revolucionário como só mentes avançadas e pragmáticas como a de Spencer Lewis poderiam elaborar.
E parte deste esforço de retirar a “lama ocultista” de cima da luz do misticismo foi consequência da história de problemas mentais provenientes de práticas inadequadas feitas por pessoas emocionalmente despreparadas para lidar com situações heterodoxas, para dizer de maneira a mais simples possível.
Hoje em escolas esotéricas sérias, procura-se por todos os modos evitar este equívoco ainda frequente, que vê identidade entre misticismo e práticas bizarras, esoterismo e exotismo, de maneira que as pessoas que participem dessas escolas possam se beneficiar se sua filiação e não, ao contrário, ser vítimas delas.
Por isso AMORC tem tanto cuidado (às vêzes excessivo) com o culto da personalidade entre membros. Por isso existe a preocupação intermitente de manter controle sobre a natureza das práticas e palestras dentro de corpos afiliados. Na maçonaria, muito menos mística e esotérica que a rosacruz, esta preocupação não existe já que existe muito menor atração pelo mistério.
A espiritualidade na Maçonaria não tem caráter místico, mas religioso. E isto é compreensível.
O viés místico é extremamente complexo, exige a assunção de uma série de pressupostos psicológicos, como a mudança de olhar sobre o lugar do Sagrado, se ele está ou não está separado de nós; sobre a Onipresença divina ser apenas um conceito ou uma realidade; e a compreensão sobre a Tábua de Esmeralda, que diz que "O que está em cima está em baixo",e depois continua "e o que está em baixo está em cima". Religiosos prestam atenção na primeira parte da frase e místicos na segunda.
Maçons são mais religiosos. Acham que existe um Deus, que Ele é o Criador de todas as coisas.
Místicos rosacruzes são ou buscam ser o próprio Deus manifesto, vivenciando esta união a cada segundo de seus dias. Não param seus afazeres para orar. Estão permanentemente em oração e comunhão, mesmo em meio às suas obrigações mundanas.
Mas voltemos ao tema.
Precisamos ter cuidado com nossos frateres e sorores, um cuidado de pai para filho ou filha. Certas informações esotéricas são ocultas por uma simples razão: nem todos compreenderiam seu significado e poderiam, inadvertidamente, dar-lhe um sentido inexistente, fantasioso, psiquiatricamente patológico.
Um exemplo disso é o lidar com seres na maioria das vêzes invisíveis. O que eu não vejo, pode ou não estar lá, onde eu acho que está. O mais prudente é não se preocupar com isto a não ser que, por sua própria vontade, estes seres queiram tornar-se visíveis. E acreditem, é nessa hora que é importante ter uma mente equilibrada. Tais visões não costumam ser experiências muito tranquilas. Não à toa a primeira frase de qualquer anjo, no texto bíblico, ao se tornar visível a algum profeta era "Não temais."
Por causa disso, a mais importante lição que recebi de meu mestre foi a de que a prática mística esotérica não pode prescindir de bom senso e objetividade. Na época em que recebi este ensinamento, eu ainda vivia caminhando nas nuvens, sonhando com poderes paranormais, fascinado com tudo que pudesse ter ao menos uma aparência esotérica. Não dava atenção a necessidade de comprovação, das afirmações fantásticas que colhia de livros os mais variados, principalmente os de Eliphas Levi.
Depois que recebi esta orientação, da maneira como os mestres gostam de fazê-las, como uma sugestão mental, minha visão da prática mística mudou radicalmente. A partir daí, comecei a olhar textos muito belos, mas sem nenhuma base de comprovação, como apenas textos muito belos, não fundamentos de conhecimento.
Não que com isso eu os tachasse de balelas, mas desfrutava deles, o que depois vim a conhecer como técnica fenomenológica, deixando-os entre aspas, sem estabelecer sobre eles nenhum julgamento de valor.
O que antes eu lia como fontes de fatos, agora eram textos simbólicos que tinham importância pela sua beleza e não pelas suas afirmações serem expressões de fatos reais.
A primeira e mais marcante mudança é que desapareceu minha ansiedade pela manifestação de dons especiais como a telepatia, telecinesia, etc. Passei a prestar mais atenção na vida cotidiana, nos acontecimentos mais simples, no tom de voz das pessoas, no convívio com os amigos e com a sociedade.
Se estes dons tivessem que ser desenvolvidos, eles o seriam naturalmente, dentro do contexto de uma vida comum, no momento que Deus Todo Poderoso julgasse, em sua sabedoria e conhecimento infinitos, que fosse a hora adequada para isso.
Livre desta ansiedade, os dons começaram a se manifestar. Senti um aumento de minha capacidade intuitiva, comecei a perceber em mim a capacidade de ler mentes, nada que se assemelhasse aos telepatas do cinema, mas o suficiente para que eu tirasse as conclusões mais corretas sobre as pessoas com quem me relacionava. Descobri e passei a verbalizar em palestras o conceito de que a manifestação de dons esotéricos não acontece com fundo musical ou com sons incidentais, mas nas situações mais banais, em um supermercado, em uma feira, ou tomando banho.
A capacidade de fantasiar descontroladamente de certas pessoas é tão grande, certas vezes, que chegam a supor que fenômenos místicos manifestem-se sempre de modo cinematográfico e grandioso. Descobri que nada disso é real. A vida é simples e os dons se manifestam com simplicidade, como respirar ou ouvir um som. Passam naturalmente a fazer parte de nossos sentidos sem que sintamos nada em especial por causa disso.
O que meu mestre havia me ensinado era que a vida era despojamento, e embora a arte procurasse embelezar a existência, a beleza da vida já estava em si, sem nenhum acréscimo, sem nada que se retirar.
Só pela harmonização com o real, com o cotidiano, podemos contemplar esta beleza de que falo.
Observar com atenção os acontecimentos é o segredo. Prestar atenção em todos os fatos que desfilam a nossa frente.
Pessoas com uma mente descontrolada, fantasiosas, distorcem a realidade todo o tempo, e certas vezes parecem estar cegas a coisas evidentes. O esoterismo não pode e não deve ser um agravador desta situação.
Por isso defendi em um antigo ensaio, Psicologia e Misticismo, até hoje um dos mais acessados do blog, que todos os que desejassem praticar misticismo deveriam estar atentos a sua saúde mental, e se necessário, recorrerem aos préstimos de um psicólogo ou mesmo de um psiquiatra, na intenção de organizar sua mente e seus pensamentos. Não queria com isso dizer que estas pessoas sofressem de algum distúrbio mental, a priori, mas sim que deveriam estar atentas ao fato de que quanto mais embaçado o vidro, menos a luz será capaz de atravessá-lo, e a mente é a nossa lente, o nosso vidro, através da qual a luz de Deus chega até nós.
Uma mente não doente, mas apenas imatura, também necessita de educação adequada antes de entrar no meio místico. Isto garantirá que usufrua do conhecimento dos milênios e da tradição esotérica de maneira muito mais rica e de modo mais objetivo.
Sim, objetivo. Nós, como sempre falo, pessoas que lidam com a subjetividade, precisamos ter muita objetividade e quando olharmos para o céu nossos pés devem estar colocados bem firmes no solo abaixo de nós, para que a visão do infinito sobre nossa cabeça não nos provoque vertigens.
Não se pratica misticismo para piorar nossa condição mental, mas pelo contrário, para melhorarmos como pessoas.
E melhoramos na razão direta do desenvolvimento de bom senso, moderação e no aumento da nossa cultura.
Diz-se no Oriente, que quando recebemos um visitante, este deve ser tratado como o próprio Shiva, se este nos visitasse.
Imagine então se for Shiva em pessoa que visita nossa mente. Esta deve estar adequadamente arrumada para recebê-Lo em todo Seu esplendor, em toda Sua Glória.
Contemplar a luz sem o devido preparo pode ser enlouquecedor e por isso é bom que o façamos gradualmente.
Esta é, e sempre foi, a estratégia da prudência.
A saúde mental é um bem precioso que deve ser preservado com o mesmo carinho com que se preserva a saúde física. Cuidemos para que dentro de nossa Ordem, ao reconhecermos um irmão que precisa de mais elaboração e maturidade, saibamos aconselhá-lo a procurar, se necessário, auxílio profissional, evitando que práticas nobres e santas possam ser responsáveis pela piora da qualidade de vida dessas pessoas.