Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

DEDOS E CHAGAS

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Tenho defendido neste espaço uma visão antiobscurantista na atitude de todos os membros de nossa escola esotérica, a AMORC.
Na prática, na maioria das monografias da AMORC, encontramos o mesmo tipo de esforço, em busca de uma atitude mais avançada quanto a existência.
É preciso reconhecer que parte importante desta atitude avançada tem a ver com respeito à diferença, habilidade de conviver com o contraditório. Isto é maturidade psicológica, a base da compreensão, que como já demonstrei, torna desnecessária a tolerância, pois quem compreende não precisa tolerar.
Caminhamos, reconheço, sobre a lâmina de uma navalha.
Os assuntos que os esoteristas rosacruzes abordam via de regra, são assuntos que aos olhos de um Carl Sagan, pareceriam puro delírio.
Nós, místicos rosacruzes sabemos que não é assim, que nossos assuntos são profundamente fundamentados experimentalmente, que nosso trabalho é de uma natureza altamente positivista já que dentro de nosso ambiente passamos uma mensagem de verificação, de experimentação e constatação dos fatos, não de crença. Mas os temas que nós esoteristas trabalhamos são temas relegados ao limbo por grande parte dos membros da comunidade científica, já que mexem com convicções bíblicas acerca da realidade.
E eu poderia testemunhar que, em parte, muitos narizes torcidos de alguns cientistas para assuntos esotéricos o são apenas por conveniência e estratégia política profissional. Já que práticas esotéricas ou místicas são vistas oficialmente pela ciência como apenas superstições inaceitáveis a mentes esclarecidas, não ficaria bem que fosse levado a público a afiliação de um pensador ou cientista conhecido a uma escola esotérica, por mais digna que ela fosse.
Portanto, muitos cientistas que são membros da AMORC preferem manter suas afiliações absolutamente em sigilo exatamente para evitar o descrédito entre seus pares ou a perda de linhas de financiamento que dependem de uma reputação científica ilibada.
Seria romântico e ingênuo dizer-lhes que não fizessem isso. O risco para suas carreiras, às vezes, mesmo em tempos de liberdade de pensamento, é real.
Por isso, quando vejo os rosacruzes sérios falarem em “diálogo com o meio científico”, interdisciplinaridade, talvez com esta palavra tentando representar o encontro entre o caminho místico e o caminho da ciência ortodoxa, reconheço uma intenção louvável, mas desprovida de qualquer chance de sucesso, se não partir de bases adequadas.
Gostaria de descrever as razões de minha opinião e de meu ceticismo.
Primeiro, cientistas não crêem em postulados que sejam indemonstráveis ou elaborados sem lógica interna. Quaisquer premissas que sejam levantadas por um cientista tem que ter alguma plausibilidade, alguma coerência lógica interna com fatos conhecidos, ou ser baseada em fatos experimentais demonstráveis e, principalmente, reprodutíveis.
Segundo: se um místico quiser conversar com um cientista ortodoxo, tem que se preparar para um encontro como o que ocorreu entre o Mestre Jesus e o apóstolo Tomé, tão criticado ao longo dos séculos por suas dúvidas, mas tão didático no comportamento verificacional.
E, embora a Igreja tenha tentado desmoralizar a atitude de Tomé, que alegou precisar colocar o dedo nas chagas do Cristo para poder crer em sua ressurreição, é importante prestar atenção na atitude do Mestre que, embora dizendo abençoados aqueles que creram sem ver, nem por isso negou o desejo ao seu apóstolo e, de fato, chamou-o a verificar seus ferimentos, certo de que satisfazê-lo aplacaria sua dúvida, e fortaleceria suas convicções na causa cristã.
Relata-se que o apóstolo Tomé serviu dignamente a esta causa anos e anos após a Ascensão de Jesus, de forma que sua atitude em nada prejudicou sua lealdade ou sua sinceridade de Apóstolo.
Além disso, o Cristo não se negou a dar a Tomé uma ponte entre sua capacidade de compreensão, e uma outra, em que a verificação não seria necessária, permitindo que ele realizasse seu desejo: tocar suas chagas.

Já no caso dos rosacruzes, não vejo em alguns, senão em muitos, nenhuma disposição de permitir que os Tomés modernos toquem em suas “chagas”, partindo-se do princípio de que possuam “chagas” reais a serem tocadas.
Com um certo ar de arrogância, vejo em Lojas e Capítulos da Ordem certos frateres e sorores que se comportam de modo intolerante com a descrença que uma pessoa, que não compactue de suas crenças, possa ter em relação a elas.
Não há nestes frateres e nessas sorores disposição de iniciar esses profanos em algumas das habilidades que os rosacruzes dizem possuir.
E isto me preocupa.
Sem fatos objetivos para oferecer a comunidade científica, sem chagas para serem tocadas pelos dedos curiosos da ciência, este diálogo está condenado ao fracasso. E se, além disto, nos sentirmos ofendidos pelo pedido , pior ainda.
Pode-se falar o que for do método científico, mas decerto ele não é arrogante.
Por definição, fazer ciência é duvidar, sistematicamente, de tudo aquilo que vemos e experimentamos, e com isso, nos obrigamos a testar nossas crenças, e fazer avançar nosso conhecimento em bases sólidas.
Por outro lado, contemplo com tristeza a aparente certeza de certos frateres que demonstram uma convicção tão sólida de seus ensinamentos que se sentem incomodados por questões tipo: será que funciona mesmo?
A resposta de um rosacruz sério a esta colocação é: vamos ver, eu lhe mostro a técnica, você experimenta com um problema pessoal e depois me diz se funciona ou não.
E , ao contrário, a resposta errada seria:
“Como você é capaz de me fazer uma pergunta dessas? Vê-se logo que você não passa de um profano, um não iniciado.”
Quem ouvir a resposta acima, julgará que quem a dá, digamos com ironia, é um ás nos efeitos paranormais, como são chamados, capaz de projeções astrais ao seu bel prazer, e de fornecer informações precisas de acontecimentos que presenciou , quando em projeção, em outros países, através de seu “raro poder mental”, fatos estes perfeitamente verificáveis via internet ou telefone, de forma a provar sem dúvida, a sua habilidade aos descrentes, iniciados ou não.
Provavelmente, este indivíduo tem também, supõe-se, uma capacidade tão acurada de ver a aura humana que pode se for da área de saúde, fazer diagnósticos de doenças com meses de antecedência, sem necessidade de exames complementares ou de manifestação de quaisquer sintomas.
Seus mantras causam cura imediata de condições patológicas em quem sofre de alguma moléstia e seu toque retira de forma milagrosa a dor de quem a tenha.
Cá entre nós, nada disso deve ser verdade.
E provavelmente, pela arrogância deste indivíduo, deve ser exatamente o contrário disso que eu acabei de descrever.
Muitos estudantes rosacruzes sinceros, que estudaram suas monografias com zelo, são capazes de algumas pequenas habilidades místicas que, com certeza valorizam muito, mas nada de excepcional. Sua filiação a Ordem e sua fidelidade aos seus princípios baseia-se na identificação que sente com seus valores, e não necessariamente em resultados experimentais. Sim, claro, terá histórias para contar, coisas que, para ele, demonstraram de forma satisfatória a veracidade das afirmações da Ordem, acerca deste ou daquele talento místico.
Exaltará sua felicidade em ser membro da AMORC, mas com certeza em função de sua satisfação psicológica, e não apenas por causa da demonstração prática dos princípios rosacruzes.
E isto, a meu ver, do ponto de vista didático, é bom, mas não suficiente.
Se quisermos conversar com os Tomés da área científica, temos que ter alguma “Chaga” em nossas mãos e ventre para que eles possam tocar com seus dedos e devemos permitir isto de modo feliz e tranqüilo, como o Mestre Jesus permitiu, por que sabemos que nossas chagas são reais e não produto de crenças e superstições.
Devemos ser capazes de oferecer fatos e não discursos, por mais belos e bem intencionados eles sejam.
E eu pergunto: se pegarmos um membro de nossa Ordem, aleatoriamente, para dialogar com um membro da ciência, ficaríamos tranqüilos quanto ao fato de que ele, com certeza, teria algo palpável para mostrar a este cético?
E isto no quesito fato demonstrável. Imagino que muitos discordariam de mim e diriam que isto é positivismo demais para um místico, e que nosso maior tesouro é invisível para os olhos, como diria Antoine de Saint Exupery, e que, a coisa mais bela da afiliação rosacruz é a felicidade de nossos membros simplesmente porque segue as orientações das monografias.
Seja.
Pergunto, de Artesão para outro Artesão: se um cético, não iniciado, conversasse com um frater dos graus de templo intermediário, encontraria necessariamente um homem ou mulher muito mais feliz do que ele, sem doenças, sem medos, sem angústias maiores que as daquele, que é cético, em face da existência?
Pelo que vejo de queixas de doenças e problemas pessoais em minhas andanças por corpos afiliados e cursos na Ordem, não tenho muita certeza.
A meu ver precisamos de mais humildade e de mais estudo de nossas monografias.
Não tenho nenhuma dúvida quanto ao valor inestimável do ensinamento rosacruz, mas devemos ser tolerantes com as dúvidas daqueles que não fazem parte de nosso círculo e , além disto, se quisermos conversar com membros da elite científica do mundo, devemos ir com algo em nossas mãos, mesmo que sejam nossas chagas, para que se possa iniciar uma troca de idéias produtiva e possamos fazer desta conversação fundamentada em fatos, uma iniciação daqueles membros da comunidade científica aos nossos valores e técnicas. Não revelando todos os nossos segredos, mas até permitindo que eles possam ver um ou outro funcionando, para que sua curiosidade seja aguçada.
Talvez descubramos que a obstinação dos cientistas não iniciados pode ser muito útil em nossas fileiras, hoje, em certos casos, adormecidas por uma mentalidade dogmática e às vezes, para minha tristeza, dominada pela superstição.