Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

PENSANDO A CRIAÇÃO E SEUS PROBLEMAS



Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:



“AZ -Então, o que dizer a quem qualifica a sua experiência como uma crise de fé e que ela realmente não acreditava em Deus, ou a quem sugere que a sua escuridão era um sinal de instabilidade psicológica?
BK - Ela não teve crises de fé, ou falta de fé, mas teve uma prova de fé na qual experimentou o sentimento de que ela não acreditava em Deus. Esta prova requereu muita maturidade humana, porque, se não, não teria sido capaz de suportá-la. Teria ficado desequilibrada.
Como disse o padre Garrigou Lagrange, é possível experimentar simultaneamente sentimentos contraditórios entre si. É possível ter uma "alegria cristã objetiva", como a chamou Carol Zaleski, e ao mesmo tempo entrar na prova ou sentimento de não ter fé.
Não há duas pessoas aqui, mas uma pessoa com sentimentos em diferentes níveis.
Podemos realmente estar a viver a cruz de algum modo – é dolorosa e faz doer– e, ainda que a espiritualizemos, isto não tira a dor. Agora, ao mesmo tempo, podemos estar alegres porque estamos a viver com Jesus e isto não é falso.
Aqui está o como e o porquê a Madre Teresa viveu uma vida tão cheia de alegria”


"Teresa de Calcutá: A luz desde a escuridão : Entrevista do postulador da causa de canonização, Pe. Kolodiejchuk, à Agência Zenit sobre o livro. O Pe. Brian Kolodiejchuk, postulador da causa de canonização de Madre Teresa de Calcutá, é o autor do livro "Come Be My Light", que recolhe os escritos da beata, em parte inéditos, revelando o sofrimento de não experimentar o amor de Deus. Em entrevista à Agência Zenit (Roma), o autor fala desta "noite escura", que tanta polémica tem gerado.”
http://missionariasdacaridade.blogspot.com/2009/12/teresa-de-calcuta-luz-desde-escuridao.html


Hoje de manhã, acordei cansado. Durante a noite, acho que um espirro ou coisa que o valha, ampliado em intensidade pelo silêncio da casa, me fez olhar em todos os quartos e cantos, no meio da madrugada, no quarto da minha filha, na lavanderia da casa.
Não era nada, apenas um ruído incomum na noite, mas meu sono foi interrompido.
De manhã, portanto, eu me sentia cansado, e atribuí o mau humor ao sono interrompido. Pouca paciência não é o meu normal, mas nessas horas é como me sinto. Inquieto e impaciente.
Voltei minhas baterias de mau humor contra tudo, até contra os fundamentos do Universo.
Fiquei pensando na dor do mundo, e na irreversível dualidade da manifestação. E pensei no quanto o Universo é imperfeito e mal acabado.

       
Principalmente este probleminha, este pequeno aspecto da criação, a dualidade de qualquer coisa que se manifeste aqui, e a impossibilidade de uma felicidade física e espiritual completa para todos no planeta, este defeito de fabricação identificado por Schopenhauer e que em bom Carioquês Filosófico se traduziria pela expressão “tem jeito não”.
Schopenhauer

E hoje estava absolutamente crítico em relação a isso.
As pessoas em geral pensam a mesma coisa, mas costumam raciocinar de modo mais ligado a aldeia do que ao Todo. Julgam que seus problemas são seus, e de mais ninguém, ou que só elas tem problemas, e ninguém mais.
Na verdade, místicos sabem que não é um problema particular, mas ligado a própria natureza da criação.
Maya era divertida, mas não é mais. É uma sucessão de sustos imaginários, feito a casa do horror de um parque de diversões, mas até os parques de diversão enjoam quando são demais.


Maya
As guerras não param há séculos, os conflitos humanos são intermináveis, o sofrimento das pessoas é constante.
Até Madre Teresa de Calcutá, digamos assim, perdeu a paciência com a irreversibilidade da dor.

Trabalhando com os pobres, queixava-se vez por outra de que um Deus misericordioso permitisse tanto sofrimento.
Consta que não foi canonizada até hoje, embora tenha tido uma vida de dedicação aos pobres e necessitados exatamente por causa desses comentários que chegaram a Santa Sé. E a Santa Sé, seriíssima, sentiu-se inibida em santificar alguém que tivesse dúvidas da misericórdia divina.
Graças ao bom Deus, não pertenço a nenhuma religião com uma hierarquia. O Hinduísmo é um conjunto de crenças seguido de forma absolutamente livre. Não tenho de prestar contas de meu relacionamento com o Altíssimo a não ser a Ele mesmo e a minha consciência, meu Mestre Interior.

E concordo com Madre Teresa, tanto sofrimento já está demasiado.
Que é culpa do homem ou não é uma falsa questão.
O que está em discussão é que fomos criados em um modelo imperfeito e instável, que hoje consideramos interessante, mas que para mim é ruim e ao qual nos acostumamos e depois tentamos justificar filosoficamente, apenas por não haver alternativa.
Se, hipoteticamente, a Criação fosse uma Loja, tivesse um gerente, e constatássemos nesta Loja o sem número de problemas operacionais com seus produtos, como a curta duração do período de existência no corpo, que impede o desenvolvimento de uma consciência e uma cultura mais sólida e uma civilização mais refinada, a irregularidade na distribuição de alimentos, a enorme deficiência espiritual da maioria dos visitantes da loja, etc., iríamos ao gerente reclamar, e dizer: “Olha, como um cliente, eu queria reclamar da qualidade da sua Loja e gostaria de sugerir mudanças na maneira de administrar os produtos e até da qualidade destes produtos”.

Só que não existe ninguém a quem se queixar.
O Universo é gigantesco, e a administração, aparentemente, muito distante. Não no espaço, mas na Consciência. Para que possamos interagir com a Consciência Fundadora e Mantenedora precisaremos ainda de alguns séculos de evolução mental e espiritual. Talvez quando formos mais refinados possamos fazer queixas diretamente, não através de orações lamurientas, mas por um diálogo amigável entre a nossa mente e a mente cósmica, comunicando nossas insatisfações e imediatamente através de nosso poder mental, mudando a natureza das coisas na massa plástica de Maya.

E tais ações sendo um atributo democraticamente distribuído entre todos os seres humanos em toda a parte de forma que, dotados de uma evolução mental satisfatória, possamos realmente transformarmo-nos em senhores de nossas vidas, e não peregrinos teimosos que avançam com dificuldade centímetro após centímetro, encarnação após encarnação, com apenas uns poucos de nós atingindo a Iluminação e, ao mesmo tempo, sendo incapazes de iniciar um número suficientemente grande de discípulos.
Assim, o progresso místico, mental e espiritual do mundo é lento, irritantemente lento, e consciências as mais primitivas ainda atuam na criação causando distúrbios no Oceano de Consciência e marolas para todos os lados.

Tudo é Ilusão, é verdade, mas parafraseando Calvin, o personagem dos quadrinhos, a Ilusão poderia ser ilusória ao nosso favor de maneira mais freqüente.
Os conflitos humanos, ilusórios ou não, as pequenas frustrações da existência, a impossibilidade, em níveis evolucionais medianos, de manter uma qualidade de vida aceitável, é desanimadora.
E eu não sou Santo Agostinho, não vou defender o Gerente da Loja, até porque, aliás, creio que todos somos “O Gerente”. E mesmo crendo nisso, existem muitos problemas que devem ser creditados à Inteligência Resultante do Encontro de Todas estas Inteligências, a qual primitivamente, soprou este Mundo de Sonho e elaborou este Pensamento Criativo em que vivemos.
Sempre dizemos “o universo e a criação são perfeitos; o ser humano é que é imperfeito”.
Eu digo que “tudo é imperfeito, tudo está em construção, existem cones de borracha por todo o Universo, ouvem-se britadeiras e tratores energéticos trabalhando em toda a parte, portanto, com certeza, esta não é uma obra acabada, mas um trabalho em elaboração”.
Sempre aceitamos que nossa evolução é pequena porque nós não temos ainda o conhecimento suficiente, porque precisamos evoluir mais, mas, por Deus, tanta dor, tantos conflitos, por tanto tempo e não evoluímos o suficiente?
O problema, provavelmente, é do modelo, não do desempenho de A, B ou C.
Estamos, como sempre defendi ( ver sobre isso o ensaio “O Mergulho”) em missão neste plano.
E “quem dá a missão, dá os meios”.
E o que temos?
Uma visão limitada, uma audição limitada, um intelecto hipertrofiado e uma sensibilidade hipotrofiada.
Pássaros nascem sabendo voar. Mais: sentem uma profunda harmonia com as correntes da Natureza, os fluxos da energia, os Leys, como Blavatsky dizia.

Nós nem podemos ver as energias que nos cercam.
Vemos apenas coisas densas e supomos, obviamente, que a realidade se resume a essas coisas.
Discutimos muito, sentimos pouco. E queria dizer, sofremos demais.
Não estou falando de mim ou da minha vida.
Nada tenho do que me queixar. Meu mau humor é com a Criação e com seu desempenho pífio na geração de Bem Estar e Felicidade para os seus filhos.
Tenho, neste momento, alguns bons amigos muito doentes, um deles em coma, há quatro meses.
Alguns de meus pacientes sofrem de patologias incuráveis que afetam seu desempenho pessoal. E são dotados de tantas limitações, psicológicas, intelectuais ou físicas, ou todas estas juntas, que pouco ou nada conseguirão mudar do sofrimento que antecipo para suas vidas, independente de minha intervenção com conselhos e drogas e técnicas terapêuticas.
Tenho uma boa colega com problemas graves de saúde na família, problemas que lhe acarretarão enorme sofrimento psicológico no futuro.
E qual o sentido de tudo isso? Não sei.
Antes pensei saber, mas não sei. Ainda acho que estamos em meio a uma peça teatral, como lembrava Richard Bach em Ilusões, mas hoje penso que o enredo é ruim.



Culpa dos atores? Não, da Direção, do escritor, do produtor.
Richard argumentava em seu livro, feito e escrito para iniciados, que o produtor, o escritor e o diretor éramos nós mesmos. Sim, concordo; mas o processo criativo e produtivo não foi gerado por eles, mas já estava dado quando começaram a escrever a peça, do mesmo modo que as letras de um alfabeto sempre serão as mesmas, independente das muitas combinações que faremos com elas para gerar narrativas as mais diferentes.
O Universo, como Criação, tem várias limitações, como um alfabeto também é limitado pelo número de suas letras.

Não sou um religioso, repito, sou um místico.
Minha União com a Consciência Cósmica é irreversível e tende a aumentar encarnação após encarnação, como de resto qualquer ser humano em evolução.
Não posso ter crises de fé como uma religiosa do porte de Madre Teresa de Calcutá, mas reconheço em suas crises, (que ela chamava de “escuridão”), algo do que sinto, uma insatisfação com a situação das coisas no mundo, na criação e no Universo. Como ela, no entanto, não desejo de que a dor se expanda ou se manifeste em mim para que eu me aprimore. Nem sinto esta alegria em meio ao sofrimento. O sofrimento das pessoas apenas me aborrece , seja pela minha incapacidade em aliviá-lo ou desfazê-lo de forma adequada, seja porque certas situações são além de irreversíveis, muito dolorosas.
Não acredito em Dor como base da Evolução, só como base do Sofrimento. A dor apenas dói, não ensina nada; apenas avisa, como um alarme, que algo está errado, mas eventualmente qualquer alarme deve ser desligado.
Meu desconforto é que, aparentemente, todos os alarmes estão tocando ininterruptamente sem que ninguém os desligue e sem que ninguém descubra a razão.
Nada disso faz sentido.

Provavelmente, os aperfeiçoamentos que desejo, ficarão para o próximo Universo, já que nada, absolutamente nada indica que alcançaremos, todos, não eu e outros, mas todos os seres humanos, o grau de felicidade que gostaríamos que todos tivessem.
Paciência.