Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

SPINOZA( ברוך שפינוזה) E AS SEMELHANÇAS


Por Mario Sales, FRC.:;S.:I.:;M.:M.:


As únicas coisas certas da vida são a solidão, o erro e a morte. Quando, entretanto, encontramos interlocutores para nossas idéias, que as compreendam como nós as compreendemos ou que as esclareçam de forma mais nítida do que a nossa, sentimos embevecidos o desaparecimento de duas daquelas três angústias citadas: some a solidão e extingue-se o erro, além do fato de que, de leve, roçamos a eternidade.



Espinosa, para mim, nos últimos dias, tem sido isso: um encontro entre velhos camaradas, que conversam sobre assuntos acerca dos quais concordam, sendo que para mim, a nitidez de meus conceitos, ao dialogar com este sábio imortal, aumenta, aliviando o fardo da minha ignorância e iluminando a obscuridade de minhas imagens. Iluminando sim, porque elas já estavam lá, mas pouco nítidas, ou banhadas pela luz de velas, poucas, que projetavam suas sombras na parede, mas que não permitiam o divisar dos detalhes. A filosofia de Espinosa ou Spinoza, como preferem outros, ilumina os contornos de minhas idéias, como místico, médico e homem.



Tudo agora é luz.
Não há dúvida, existe muito de tudo neste filósofo português abrigado em território holandês.
Entendo agora, enquanto leio aos poucos o livro de Marilena que citei no artigo anterior, o papel de divisor de águas desta abordagem filosófica estranhamente contemporânea, feita no século XVII.



Contemporânea por que fala de uma compreensão panteísta da Divindade, muito mais parecida com a visão mística do que com o antropomorfismo banal que vigorou e ainda vigora em muitas mentes.
A noção da incapacidade do homem de compreender a divindade e das suas tolas tentativas de igualar esta divindade aos seus próprios critérios de semelhança, que se encontra em sua correspondência com alguns de seus críticos, é de uma lucidez cristalina e absolutamente compatível com a visão mística rosacruz e, diga-se também, cabalística da Divindade.
Sim, porque Cabala não é Judaísmo, como Misticismo não é Cristianismo e Sufismo muito menos Islamismo.



Como exemplo, recorro a um trecho de uma carta citada no texto explicativo de Will Durant sobre ele, em que, respondendo a alguém que lhe cobrava uma quase retratação da sua postura não definidora dos contornos da Divindade, ele comenta:
“... pois acredito que um triângulo se pudesse falar, diria, de maneira semelhante, que Deus é eminentemente triangular; e um círculo, que a natureza divina é eminentemente circular; e assim cada um atribuiria suas próprias qualidades a Deus.” [1]
Espantou-me a sua sólida concepção de inexistência de separação entre mente e corpo, entendendo todas as manifestações como aspectos de uma mesma realidade, da mesma maneira que entendo que muitos chamados “materialistas” identifiquem-se com ele, supondo que sua visão compreendia apenas o palpável e o visível, sendo o impalpável apenas reflexo do palpável.
Lendo-o com mais atenção percebi que não é tão simples. Não estamos diante de um pensador qualquer, mas com certeza, deparamo-nos com o príncipe dos filósofos, aquele que, realmente enxerga uma única realidade em densidades diferentes.
Esta unidade spinoziana não aceita a classificação de materialista. É como querer colocar o Oceano em um simples copo.
Primeiro, porque precisamos clarificar o que consideramos como matéria, que características esta extensão material (densidade, dureza, largura, espessura, altura) terá para que assim possamos classificá-la.
E aí começam os problemas porque quatro séculos antes do surgimento da física quântica o pensamento spinoziano já açarbancava as suas possibilidades.
Porque desde os primeiros trabalhos de Max Planck, a noção de Matéria perdeu a densidade Newtoniana para ganhar ares de instabilidade energética e fugidia, capaz de constranger qualquer cientista que busque o necessário e fuja do contingente.
Porque ciência, para ser ciência, trabalha com o necessário, aquilo que é do jeito que é e não de outro, e foge do contingente, aquilo que poderia ser de outro modo e não daquele que é temporariamente neste momento, ou seja, a chamada realidade instável.
Nada mais positivista e científico do que a física; nada mais instável e contingente do que a física quântica. Mesmo assim, trata-se de matéria, uma noção absolutamente avançada e mais profunda da matéria, nem dura, nem espessa, nem palpável, muitas vêzes, melhor dizendo, quase sempre não mensurável de modo direto.
O filósofo que quiser rotular Spinoza como materialista, como um pensador que atrelou o espírito ao corpo comete o equívoco de não alcançar a profundidade de seu pensamento.
O que ele diz, e corrija-me Marilena Chauí se algum dia eu merecer sua leitura, é que todas as coisas são feitas da mesma substância o que vale dizer que a divisão entre matéria e espírito é arbitrária e pressupõe fronteiras bem definidas que pouco a pouco vamos reconhecendo através da ciência ortodoxa positivista, não existirem.
Seja pelo trabalho de outro português, o neurocientista Antonio Damásio, ao buscar correlações neuroanatômicas e neuroquímicas para o fenômeno da Consciência e do pensamento, baseando-se não em especulação, mas na contemplação de casos clínicos de indivíduos reais; seja na percepção da física de partículas de que aquilo que chamamos denso, duro, na verdade é apenas um acumular de vazios, considerando a estrutura do átomo, e o enorme espaço de nada entre o núcleo e a órbita dos elétrons, as muralhas de divisão de território entre o imaterial e o material, entre o chamado mental e o neurológico e físico desabam dia após dia e só sobrevivem na concepção do senso comum.



Quando os rabinos de Amsterdam disseram que Deus estava ausente da Ética eles não foram claros nem completos em sua afirmação.
Deveriam ter dito que “uma idéia de Deus”, a sua, (deles) aquela que é aceita dentro do judaísmo e mesmo no Cristianismo ortodoxo, esta idéia de Deus é que estava e está ausente da Ética.
A concepção de Spinoza acerca da Divindade é tão clara e límpida como uma lente bem polida, e melhora a visão daqueles que quiserem ou tiverem coragem de olhar através dela.
Spinoza vê um Deus realmente Onipresente, Onisciente, tanto quanto identificado com esta realidade, da mesma maneira que definido no meu ensaio anterior “Uma estranha idéia de Deus”, onde a Internet é o modelo didático.



Percebo agora que um item que me angustiava naquele ensaio ("Uma estranha idéia de Deus") desaparece com a leitura de Espinosa. A noção de Onipotência. Vejo que o problema não era o conceito em si, mas como eu o compreendia.
Porque na verdade, e acredito que estarei em acordo com o pensamento espinosano nisso, a Onipotência Divina fundamenta-se em sua Onisciência, e não na noção de potência como a capacidade de fazer qualquer coisa ao seu bel prazer. Não que lhe negue esta capacidade, mas é pacífico que as leis do Universo funcionam de modo estável e não são alteradas caprichosamente, por mais que o queiramos, por mais que em nosso sofrimento o desejemos.
Assim, o Poder de Deus é Conhecer, não Alterar a Criação, mantendo-se atento e acompanhando em tempo real todos os seus movimentos e acontecimentos, encharcando-se de fatos e informações. Isto é poder verdadeiro.
Estabelecendo esta conexão, tudo fica mais simples, e podemos entender a importância do corpo e de suas necessidades na formação das idéias, estas como continuação daquele, ao mesmo tempo como as funções orgânicas, hoje compreendemos bem, são determinadas pelo comportamento de nossos pensamentos, transformados na neurohipófise em secreções hormonais que desencadearão as mais variadas modificações fisiológicas de acordo com a qualidade de nossos pensamentos.



Spinoza fala na influencia de nossas necessidades físicas sublimadas na mente e transformadas em aparentes desejos espontâneos, que realizamos quase que como autômatos, julgando-nos responsáveis por estas vontades e desejos quando na verdade, apenas executamos as vontades e desejos do corpo.


O Pesadelo (o íncubo) de Fuselli

Só que existe a segunda via, ou a outra mão de direção destes movimentos, quando o corpo detecta uma ameaça e organiza a si mesmo contra ela de forma automática a partir destes hormônios que são descarregados na circulação e provocam a liberação de outras substâncias que transformarão este corpo num organismo diferentes e pronto para o enfrentamento dos desafios percebidos como iminentes, desencadeando o que chamamos em fisiologia de “reação de luta ou fuga”.(“to fight or to fly”)
Chamamos a isto retro alimentação de informações ou feedback em inglês, e tanto podemos ter um feedback positivo, que intensificas as secreções, quanto um feedback negativo, que reduz em quantidade estas secreções desde que assim se faça necessário.
Este diálogo entre percepções neurológicas e glândulas, entre secreções e pensamentos, não era do conhecimento de ninguém no século XVII. Só Espinosa conseguiu, quatrocentos anos antes, se antecipar a esta constatação fisiológica contemporânea. Ele descreveu uma das mãos e deixou em aberto a outra via, a de retorno, se bem que ambas partem de respostas fisiológicas a eventos reais e desencadeiam efeitos mentais correspondentes. E isto é o que importa.
Isto é fazer a ponte entre ciência e filosofia.
Não haveria Damásio sem Spinoza. Ou melhor, ambos caminharam pelas mesmas ruas, e passaram pelos mesmos jardins, se bem que colheram flores diferentes.
São semelhanças que não podem ser desprezadas pois “quando bebermos da água do rio, é bom que não esqueçamos da fonte”.
O próprio Damásio abordou o tema em um livro ( “Ao Encontro de Espinosa”) que não li, mas que descubro em minhas pesquisas pela internet.


Continuarei estas reflexões.
Por ora, ficamos por aqui.


[1] Epistle 60, Ed.Willis, citado  em “Os Grandes Filósofos: A filosofia de Espinosa,pág. 73, Will Durant, EDIOURO”