Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ESPINOZA( ברוך שפינוזה) E AS BOLAS DE BILHAR


Por Mario Sales, FRC.:;S.:I.:;M.:M.:
Claudio Ulpiano

Estou mergulhado em Espinosa. Leio , ainda no início, o livro “Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa” de Marilena Chauí, editora Companhia das Letras, 1ª edição, aonde em uma reunião de conferências, a grande mestra destrincha detalhes da elaboração Espinosiana, livro sobre o qual tecerei comentários mais a frente, em outro ensaio.


Pari passo, assisto à aula de Claudio Ulpiano disponível no You Tube (http://www.youtube.com/watch?v=ip-qq9ELhUs), um dos poucos documentos gravados em 10 partes, incompleto, mas já um grande esforço na preservação do trabalho de um dos mais instigantes professores cariocas, mesmo tendo nascido em Macaé e não no Rio de Janeiro.

Marilena Chaui

Ali ele elabora as questões da epistemologia de Espinosa, seus três níveis de conhecimento, o nível da consciência, da razão e do pensamento e fala também da liberdade como um aspecto caro do grande filósofo português, que morreu em Amsterdã, Holanda, fugindo da intolerância religiosa católica.
É uma aula impressionante, principalmente em seus trechos finais, as partes de número oito, nove e dez.
Hoje, como pessoa amadurecida, não tenho a capacidade de me deixar envolver por seus argumentos, como talvez poderia ter sido envolvido se mais jovem eu fosse.





Embora eu tenha formação filosófica, minha primeira formação foi aquela positivista, prática e pragmática, que perpassa o valor da síntese e da objetividade, que está absolutamente atrelada à realidade e àquilo que esta realidade possa me comunicar.
Embora a medicina não seja uma ciência, mas uma intersecção de saberes, desde a bioquímica e a biologia, até a biofísica e a farmacologia, a formação médica deixa em nós cicatrizes científicas indeléveis, sem nos tornar necessariamente insensíveis aos apelos da emoção.
A outra arte do Médico é aquela de correlacionar campos, e se existe um campo de verdadeira interdisciplinaridade, este é o campo do exercício médico.
Como existem filosofias, existem medicinas. Muitas são as facetas deste universo terapêutico e diagnóstico, como muitas são as apresentações das patologias e dos sinais e sintomas. Seja em que área, no entanto, o médico exerça sua profissão, na pediatria, na geriatria, na Medicina Intensiva, e mesmo no serviço de Emergência, é útil que tenha a capacidade de saber pensar, disciplinada e elegantemente, na busca pelo aprimoramento de seu desempenho.
Claudio, no entanto, é um Espinosiano apaixonado. Nega ao cientista, ao homem da ciência, o fascínio que ele recebe do leigo. 
Fala da necessidade de devolver a primazia ao ato filosófico e desatrelar a filosofia da prática científica, na condição de saber a reboque, colocando-a de novo, no trono do pensamento. Entendo seu esforço e seu desejo.
Acredito, no entanto, que é um objetivo romântico e descabido. Primeiro porque, embora não pareça, a filosofia em nenhum momento perdeu a sua importância epistemológica no seu diálogo com a ciência em geral. O que sucede é que ela continua a ser uma prática altamente esotérica, para poucos iniciados, que precisam antes de receber o batismo terem sido inoculados com o vírus da reflexão.
Por isso, a meu ver, a filosofia não se diminui no seu encontro com a prática científica. Sua coragem em invadir o espaço do não pensado e trazê-lo à luz do dia é de muitas formas, absolutamente necessária para orientar o caminho íngreme e acidentado do pensamento e da busca científica, e os cientistas sabem disto.Não só sabem, como precisam disso. Cientistas, pasmem, também especulam, também filosofam, embora filósofos recusem a experimentação como ferramenta.
Ser espinosiano é querer o novo, o impensado, o impossível nas palavras de Claudio. É, diria eu, abrir espaço para Heráclito, para o fluxo, para a elaboração dinâmica e concomitante da existência.
Claudio diz que Espinosa pensa os corpos e os encontros destes corpos. Que, quando não há a Consciência, não há um plano,  acima de nós, designando o caminho a ser seguido. Só corpos e vidas se encontrando, se chocando, aleatoriamente, randomicamente, e daí gerando outras reações em cadeia que às vêzes podem ter alguma regularidade, mas uma regularidade que nasce do Caos, no sentido grego da palavra, de movimento livre, de oceano de potencialidades que buscam se expressar, e se expressam exatamente nestes encontros.
E o que é um corpo para Espinosa? O corpo físico do Homem, da Mulher? Sim, pode ser; mas apenas estes dois corpos? Não, com certeza.
A noção Espinosiana de corpo, se bem que não original, é bem vasta, incluindo objetos inanimados, sociedades, instituições.
São, para Espinosa, estes encontros reais, palpáveis, que geram, segundo Claudio, marcas e signos, lembranças que se transformarão em mitos e idéias de mundo, em superstições, que devem ser superadas para se alcançar o próximo nível, o da razão.
Neste segundo nível, para Espinosa, segundo a explicação de Claudio, o homem compreende a sua constituição por forças “que vem de fora”, mas ainda não é o “criador” da sua realidade. Sua característica é poder enumerar e identificar as forças que vem de fora, mas não transcendê-las.
É preciso que ele chegue ao terceiro nível de conhecimento, o chamado nível do Pensamento, aonde ele é capaz da invenção, liberto que está das marcas deixadas pelos encontros fortuitos do passado.
Para Espinosa, este é o homem verdadeiramente livre.
Ele se abandona ao fluxo da natureza, como alguém que joga bilhar.
Lança-se a bola e observam-se as colisões resultantes daquele lançamento. Sim, existe uma expectativa matemática e geométrica de que estas colisões obedeçam a certa previsibilidade; mas se essa colisão for um centímetro para lá ou para cá, muitas das colisões secundárias serão modificadas e o resultado final será imprevisível.




Espinosa propõe que as colisões, os encontros, serão infinitos e complexos em conseqüências, da mesma forma que nossa mesa de bilhar imaginária com suas colisões secundárias, quando usada por principiantes no jogo. Falo principiantes porque antigos e experientes praticantes sabem exatamente aonde colocar a bola que desejam. Só que tal antecipação, para Espinosa, não existe.
Não há para ele uma Consciência reguladora que possa antecipar ou mesmo determinar o resultado matemático das tantas colisões. A Consciência ou aquilo que chamamos Consciência, para ele, é apenas uma aparência, a resultante de muitas interações, de muitas corpos que se chocaram com o nosso e deixaram em nós suas marcas e signos.
Só que repito, isto é verdade apenas para jogadores principiantes, não para grandes mestres do bilhar.
Por trás de uma jogada de um grande mestre existe sim um plano, um intenção, e só quem conhece bem o jogo pode entender o que estou dizendo.
A discussão que considera se existe ou não uma intenção, como pensa Husserl, ou uma inteligência por trás do aleatório, continuará ao longo dos séculos com cada um tomando seu partido apaixonadamente, uns do lado da Filosofia da Consciência e outros ao lado de Espinosa, na área da Filosofia da Potência.
Não importa. É isso que faz da filosofia algo tão apaixonante.Todas as possibilidades devem ser deixadas em aberto.Todas podem ser úteis. 
Afinal de contas, o elefante tem muitos lados e detalhes a serem considerados.





Aceitemos humildemente sua complexidade.
Nada disso no entanto, diminui a Maestria deste digno professor de Filosofia, Claudio Ulpiano, nesta área tão nobre quanto incompreendida pela grande maioria do gênero humano.