Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 17 de dezembro de 2011

A MORTE DO INIMIGO DE UMA IDÉIA DE DEUS


Por Mario Sales, FRC.:;S.:I.:;M.:M.:


Eu ia continuar minhas digressões sobre minhas recentes leituras de Spinoza, mas os jornais de hoje trazem uma triste, mas infelizmente esperada notícia.
O pensador britânico Christopher Hitchens está morto. Vencido pelo câncer de esôfago e por complicações infecciosas (uma pneumonia) abandonou seu corpo quinta feira à noite, nos Estados Unidos onde residia. Sua despedida foi com um artigo na Vanity Fair, segundo leio hoje no Estado de São Paulo, aonde revisava a veracidade de uma frase de Nietsche ( Was mich nicht umbringt mach mich stärker) , “ o que não me mata me torna mais forte”, concluindo que não era assim, que “acreditar que cada ataque, cada episódio, o fortalece é absurdo, o que resta é algo pouco comum nos anais de referências à extinção: não o desejo de morrer com dignidade, mas o desejo de simplesmente ter morrido.” 



É a declaração do desespero, da falta de significado na existência, compatível com alguém que não consegue mais arrancar de seu corpo qualquer tipo de resposta, qualquer tipo de utilidade. E o que é inútil, segundo esta visão, deve se extinguir, rapidamente, na sua concepção.
Achava que Deus “era invenção dos homens, não criou o homem à sua semelhança, mas evidentemente foi ao contrário”, o que nos leva de novo ao terreno das convicções e das experiências.
Era um homem brilhante, e se eu tivesse tido o prazer de conhecê-lo, seria um magnífico adversário, daqueles que nos mobilizam e nos instigam, e que nos fazem requisitar em nós o que temos de mais poderoso, como só os adversários de nível sabem fazer.
Só que ultrapassei essa fase de querer polemizar. A polêmica de qualquer natureza, na maioria das vêzes, hoje em dia, me causa tédio. Discutir com alguém que tem convicções diferentes das minhas e que não experimentou sensações semelhantes as minhas, me parece pura perda de tempo.
Não acredito mais que argumentos possam convencer pessoas a modificarem seus pontos de vista.
A mais devastadora força capaz de modificar nossos mais arraigados pontos de vista, e destruir nossas ilusões, é a Vida em si mesma. Nenhum de nós, oradores, polemizadores, estamos a sua altura, e tudo que os textos fazem é tentar arrancar um naco de seu brilho, incapaz de ser reproduzido por qualquer obra literária.
Como a arte pictórica não reproduz a beleza do Todo e da Natureza, mas a imita e cria um novo campo estético, da mesma maneira o intelecto produz textos limitados às suas próprias características, já que embora “a língua seja nossa pátria” e aonde fazemos nossa filosofia, ela não consegue expressar totalmente a complexidade imensa de nossas sensações e experiências.
Por isso, debater a Experiência de Deus é diferente de debater a Crença em um tipo de idéia de Deus, professada por algumas religiões.
Concordo com Hitchens de que “Deus foi criado a semelhança do homem”, mas faltou dizer que o Deus criado por esses homens não é o Deus verdadeiro.
O que o homem cria tem a marca da limitação humana e o desenho de suas próprias mãos e preconceitos.
Na incapacidade de sentir Deus, muitos o imaginam e supõem que aquilo que conseguem imaginar é a expressão da Verdade, apenas por que lhes parece fazer todo o sentido.
Existe uma diferença, entretanto, entre o que acreditamos ser a verdade e aquilo que a Verdade realmente é.
Essa diferença, Hitchens, como eu mesmo um defensor ardoroso da ciência e do racionalismo, não percebeu.
É a mesma diferença entre o senso comum e o conhecimento científico.
Ensina a ciência que não é possível, fora do campo matemático, descrever adequadamente aquilo que não experimentamos e, quando o fazemos, especulamos, supomos, o que não é, e nunca foi a mesma coisa que fazer ciência. 
O cientista, por definição, é um ser curioso e investigador e nunca, nunca pode ser precipitado. Deve ser cuidadoso e paciente e fazer afirmações que devem ser tão prudentes quanto seus passos na pesquisa.
Pessoas com discursos tonitruantes, que nos apaixonam, às vêzes são apenas bons oradores, como Hitler e Mussolini também o foram.
Não é a beleza do argumento, e eu como escritor lamento isso, que o torna mais verdadeiro, embora todos nós que nos dedicamos ao pensamento queiramos verdades expressas ao mesmo tempo com fundamentação e verdade tanto quanto com beleza.
Um belo e arrebatador discurso deve, na ótica científica, necessariamente ser validado por experimentações que o corroborem, senão não passa, apenas, de belas palavras.
Assim, ateus ou antiteístas como Hitchens, não podem receber o confronto que procuram daqueles que procura atacar. A não ser um grupo tão dilacerado por convicções férreas como os fanáticos, os verdadeiros crentes, que não crêem, mas sabem que Deus é por que o experimentaram em seus corações, não darão atenção aos seus argumentos, mesmo que os considerem bem elaborados e até interessantes.
Tais argumentos são, e todo místico sabe, apenas um jogo de espelhos.
Como um caleidoscópio, nos fazem passear por imagens as mais variadas as quais nada, rigorosamente nada tem a ver com a experiência divina em si, ou com a realidade mais profunda da Universo.
Marcelo Gleiser, físico e não ateu, mas agnóstico, diz que o conhecimento humano é como uma ilha em um vasto oceano, e que seu avanço é como o aumento do território desta ilha, o qual é acompanhado sempre pelo aumento de próprio oceano a sua volta, o que significa que sempre teremos com nossa capacidade reduzida um conhecimento parcial da Verdade.
Faltou dizer que isto diz respeito a metodologia atual e não a ciência do futuro, que não será feita com o cérebro ou com o intelecto, mas com o coração.
Resumindo, a Taça do Intelecto em que queremos beber o suco da Verdade é pequena demais para nossa sede e para o que está na Sagrada Jarra do Altíssimo.
Outra fosse a nossa Taça, por exemplo, a Taça da Sensibilidade, e muito mais poderíamos ingerir, e nossa sede se extinguiria, lembrando as palavras do mestre de que “quem bebe desta água jamais terá sede.”
Christopher Hitchens não foi um Antiteísta verdadeiro, já que nunca teve uma experiência de contato direto e interior com a Divindade. O que combatia não era o próprio Deus, mas as Idéias de Deus, criadas por alguns homens que, como ele, também não O conheciam, religiosos em sua maioria e não místicos.
Aqueles que tocaram as vestes de Deus não precisam ou não conseguem expressar o que sentiram com palavras e quando o tentam, como Jacob Boheme, produzem textos esotéricos, que só podem ser compreendidos por aqueles que como o autor tiveram uma experiência semelhante ou vão ao texto não com o cérebro, mas com o coração.
Portanto é contra as Leis da Lógica, desde Aristóteles, que discutamos sobre assuntos diferentes, na suposição de que falamos da mesma coisa.
Só podem falar sobre Deus aqueles que o experimentaram e geralmente, tal experiência mergulha o abençoado por ela em silêncio e reverência. Sua voz externa diminui e sua Voz Interior aumenta.
Sua língua se cala e seus pensamentos e suas reflexões, no sentido mesmo de reflexos, como a luz em espelhos, aumenta exponencialmente.
Sinto grande misericórdia por pessoas como Hitchens por não terem experimentado a presença divina nesta encarnação e espero sinceramente que, livre da ilusão da carne, seu espírito encontre um pouco de paz, o que pela sua biografia, citada na reportagem, não foi a tônica de sua existência.
A Dor, sem o amparo da Experiência Divina Interior, é Dor igual aquela dos que tem este amparo. O que modifica é o que fazemos com nossa experiência, como a trabalharemos no dia seguinte, se a transformaremos em fonte de revolta, em fonte de angústia, ou em material de elaboração e aprofundamento de nossa sensibilidade.
É esta qualidade existencial que a Serenidade garante, serenidade esta que é a maior conquista daqueles que mergulharam e experimentaram o Deus Verdadeiro, e não daqueles que crêem ou descrêem desta ou daquela idéia acerca do que Deus seja.
A mesma Serenidade que, tristemente, Hitchens nesta encarnação, jamais experimentou.
Que possa finalmente descansar em paz.