Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 16 de maio de 2012

OS ROSACRUZES, PROTÁGORAS E PITÁGORAS.


Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


Em 1975, quando cheguei aos portais da Ordem, o que me fascinou sobremaneira não eram as promessas de ingressar em segredos milenares ou em técnicas incomuns de domínio da vida. O que me atraiu foi a insinuação de que eu poderia desenvolver um trabalho científico paralelo, se bem que não na ciência ortodoxa. A possibilidade de não ser apenas um preservador da cultura mística milenar, mas também um construtor deste conjunto de informações, um colaborador, enfim, para o enriquecimento deste arcabouço de idéias e técnicas me encantava nos meus 17 anos.
Por muitos anos, foi exatamente desse modo que ocorreu. Ao mesmo tempo que as informações chegavam pelas monografias, eu era instado pelos textos a enviar relatórios e opinar acerca de dúvidas ou idéias que me chegassem pela reflexão ou pela inspiração.
No futuro, me diziam, eu deveria redigir uma monografia igual aquelas que eu recebia, e esta tornar-se-ia parte do acervo das monografias que todos os Rosacruzes liam e lêem, em toda a parte.
Outra coisa que me empolgava era a publicação regular de trabalhos científicos , de cunho esotérico na revista da Ordem, O Rosacruz, onde os cientistas que trabalhavam nos laboratórios de San Jose , na Califórnia, onde era a sede da Ordem, produziam relatórios de seus trabalhos periodicamente, sobre os princípios que a Ordem propagava.
Tudo isso, entretanto, cessou. O Rosacruz continua uma revista inspiradora, só que não traz mais nenhum relatório de trabalhos científicos e acredito que isto tenha acontecido, salvo engano, algum tempo após a transição de Ralph Lewis, nosso segundo Imperator para este ciclo de atividades.
Pari passo a este silêncio, a URCI, nossa universidade, patinou anos a fio na tentativa de produzir, pelo menos na área da Grande Loja de Língua Portuguesa, algum conteúdo significativo de conhecimento.
Lembro-me que, alguns anos atrás, considerando que pertenço a área médica, e interessado em contribuir, tentei entrar em contato com o responsável pela área de saúde da URCI nacional. Cheguei a conseguir seu celular na Grande Loja, e liguei para ele.


Pitágoras

Ele atendeu meio desinteressado e, na verdade, a ligação caiu ou ele desligou no meio da conversa sem que eu conseguisse refazer a ligação.
Tentei novamente através da Grande Loja falar com o frater, mas lá me disseram que até para eles era difícil contatá-lo. Anos mais tarde, o novo Grande Mestre resolveu tomar algumas decisões que modificaram de vez a face da URCI e enterraram qualquer possibilidade de pesquisa positivista.
Hoje fala-se apenas em um único assunto, e não existem mais as diretorias divididas por áreas de saber, como antes. Um único grupo, ligado a Loja São Paulo, orienta todo o trabalho de pesquisa da URCI, estabelecendo o que e quando será pesquisado. Que eu saiba, em nenhum lugar do país existe quaisquer laboratórios rosacruzes. Os encontros são apenas de natureza discursiva e o entusiasmo pela palavra Transdisciplinariedade é tamanho entre nossos líderes que não existe mais espaço para qualquer outra linha de trabalho.


Arquimedes

Neste mês estou fazendo uma homenagem com a foto estampada na capa do blog, ao grupo de artesãos da Loja Recife, e através deles, todos os artesãos da Ordem Rosacruz aonde quer que estejam.
Como se sabe, no entanto, é muito difícil reunir os artesãos para as suas 4 reuniões anuais prescritas.
Alguns que são do meu tempo, embora não falem, ressentem-se do excesso de discursos, da leitura de textos que já conhecem de cor, e anseiam pela prática de técnicas que possam trazer novas habilidades ou aperfeiçoar as antigas.
Sabendo disso, o grupo de Recife, numa mudança de estratégia, resolveu dedicar os encontros a realização de experimentos avançados, baseados nas monografias que todos recebem ou receberam. Com isso, demonstrando o quanto existe uma ânsia por uma abordagem mais positivista do trabalho rosacruciano, os números de artesãos que compareciam a reunião , que não ultrapassava uma dezena, hoje é 3 x maior.
É em função de experiências como essa do Recife que acredito piamente que estamos na direção errada.

Protágoras de Abdera

Precisamos voltar a encarar o trabalho de AMORC como um trabalho de elaboração de conteúdo e conhecimento objetivo e não só subjetivo, para que não nos transformemos aos poucos numa escola de sofistas, mestres no discurso, mas sem grande interesse ou habilidade na busca da verdade ou da técnica.
Os Rosacruzes não são filhos de Protágoras mas de Arquimedes e Pitágoras.
Nós não temos ambições semânticas, por mais que eu reconheça que o intercambio entre as diversas áreas de conhecimento seja de grande importância.
Nosso misticismo se confunde com a prática, como na alquimia, que depois levaria a química.
Dalton, o atomista, era Rosacruz.
Aonde estão nossos pesquisadores?
Aonde nossos trabalhos técnicos?
A própria palavra "técnica" parece que hoje perdeu prestígio e alguns a pronunciam com reservas.
E como é possível que seja assim se, como eu e muitos artesãos lembram, a palavra técnica era o carro chefe do discurso de H. Spencer Lewis?
Não sei se meus sentimentos são isolados.
Gostaria de ouvir a opinião de outros artesãos como eu e como os membros do grupo de Artesãos da Loja Recife, que com a orientação de frater Reginaldo resgataram o prazer e a alegria de praticarem ciência rosacruz em templo, como era nosso mister 30 anos atrás.
Só experimentos, sem discursos, sem blá-blá-blá.