Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 21 de agosto de 2012

SERÁ?


por Mario Sales, FRC.:, C.:R.:+C.:, S.:I.:(membro do CFD)

Fazem algumas semanas eu publiquei aqui no blog um arrazoado sobre os problemas de compreensibilidade e mesmo sobre a presença de contradições internas que eu percebia no texto da Doutrina Secreta.
Um frater deve ter me achado tão angustiado que me mandou por email dois links excelentes para ajudar no estudo de revisão em que me envolvi nestes últimos meses, pelo que agradeço.
Lembro-me que falei que havia uma incongruência em um trecho de Blavatsky que afirmava existirem senhores do carma que correspondiam aos quatro pontos cardeais, segundo ela responsáveis pela administração deste carma coletivo dos homens. Pouco mais a frente ela dizia que este carma era automático, numa aparente contradição, seguindo a Lei Cósmica de Ação e Reação, sem aparentemente nenhuma necessidade de intervenção deste ou daquele Mestre Cármico. E nisso fundamentei minha crítica.
Saí do computador com essas considerações em mente. Mestres Cármicos, Senhores do Carma, por assim dizer, não poderiam existir já que a Lei do Carma funciona de modo autônomo, sendo algo inerente a Criação e se existisse um Mestre para a Lei do Carma, este seria o próprio Criador, pois ele a constituíra como parte da mecânica Universal.
Alguns dias mais tarde, domingo passado, um dia  tranquilo para ler os jornais com todo o vagar, comentei com minha esposa a imensidão do sofrimento humano e a minha insatisfação com um modelo de universo como o nosso, em que, pelo menos neste plano, a evolução parece tão, para dizer o mínimo, rude. A equação erro-dor-conscientização- mudança de rumo- prazer nunca me satisfez. Sempre fui favorável ao modelo erro - reflexão-conscientização- mudança de rumo - etc, aonde o fator Dor não fizesse parte do contexto.
Se houvesse uma intervenção possível, esta seria a educativa, e isso sem nenhum aspecto de sofrimento.
Falava com minha esposa que não entendia, já que existiam Mestres que zelavam pela vida da Humanidade, que não impedissem tantas guerras e tragédias, o que para eles seria extremamente mais fácil do que para esta massa caótica que forma a nossa espécie, que paga um preço alto pela sua ignorância, ignorância que só poderia ser desfeita pela informação que ela não recebe.
Entendo a explicação baseada na Ação e Reação, de que pela experimentação e erro bem como pelo sofrimento causado pelo erro em si, o ensinamento é fixado e consolidado pela emoção e garante uma evolução da consciência mais sólida e fundamentada. Só que acho tudo isso muito lento e muito doloroso e se eu, que não sou um mestre, me encho de misericórdia ao ver irmãos de espécie passando por todas essas privações e desastres pessoais e coletivos, suponho que a mesma misericórdia amplificada esteja no coração daqueles e daquelas que atingiram o grau de Maestria. Só que mesmo, acredito, consternados como eu, eles não intervém, em respeito a Lei de Carma, em respeito a evolução natural da Humanidade.
E isto, repito, não me satisfaz, embora reconheça que é assim que as coisas são e que, quer queira ou não, assim sempre serão.
Talvez em um próximo Universo as coisas mudem, mas neste, não tem jeito.
Com esses pensamentos no espírito, e sem solução à vista, me deixei levar na corrente do cotidiano e não pensei mais no assunto.
Segunda feira a noite, recebo mais um simpático email do querido Frater José Marcelo, de Pernambuco. Na verdade não era um email para mim, especificamente, mas emails que ele manda regularmente aos artesãos da Loja Recife, e que me envia num gesto de cortesia. Nestes emails , cujo modelo poderia ser seguido por todos os Mestres de classes de artesãos, Frater Marcelo antecipa os temas da próxima reunião e prepara os espíritos com textos inspirados de vários autores. Desta feita, não mandou um texto apenas, mas um livro inteiro, e um belo livro, "Encontros com o Insólito", de Raymond Bernard, um clássico das literatura rosacruz moderna.
E o tema do livro é exatamente "O Governo Oculto do Mundo", seu papel na administração dos problemas da humanidade e de seu carma coletivo. Curiosamente o mesmo problema que assolava minha cabeça no dia anterior.
Coincidência? Não acredito nisso.
Ainda mais que embora sonolento, mal chegou o email abri no IPad, e mesmo deitado , comecei a ler sem parar até o final do quarto capítulo, aonde me deparei ( não me lembrava mais deste diálogo, li o livro 25 anos atrás) com uma conversa entre o autor e um dos mestres com quem se encontrou, aonde questionava, pasmem, o enorme sofrimento da humanidade e se os mestres não poderiam intervir para amenizá-lo.
O trecho em questão é o seguinte:
"R.B.: "E as guerras que devastam a Humanidade? E os povos que sofrem miséria e fome? Por que os senhores não intervém em circunstâncias tão trágicas?"
Ele continuou:"Eu esperava sua pergunta, e parece-me que é bom fazer imediatamente um esclarecimento a esse respeito, relacionando-o a esta nossa conversa de hoje. Primeiramente, se o senhor levar em conta o papel do Alto Comando, do A..., tal qual ele lhe foi longamente explicado durante as sucessivas conversas que o senhor teve, por privilégio, com os nossos, o senhor compreenderá que nós não podemos intervir no processo incessante de desintegração e de reconstrução ao qual a Humanidade, no seu conjunto, está sujeita. Nós não podemos restringir o livre arbítrio humano, nem impedir que, em virtude desse livre arbítrio, catástrofes sejam produzidas, por culpa da Humanidade. De diversas maneiras, seguramente, nós suscitamos advertências aos homens; nós lhe sugerimos o horror da guerra. Se, apesar de tudo, eles soçobram no cataclismo, nosso papel consiste em fazer que seus erros não interfiram de modo algum no ritmo cíclico propriamente dito. Por outro lado, nós suscitamos obras positivas, associações de socorro, movimentos de caridade que contrabalançarão o ato negativo engendrado pela Humanidade. É evidente, também, que nós tudo faremos para reduzir a duração de fatos tão trágicos, mas a Humanidade deverá primeiro aprender suficientemente a lição que ela se impôs. Não esqueça que o mundo é um cadinho de experiências de onde sai a própria evolução. Isso é tão verdadeiro no plano individual quanto no coletivo. Há leis universais que nosso primeiro dever é respeitar, pois elas visam à evolução da Humanidade. Ora, entre essas leis, há o que se chama o carma, tão mal compreendido pela maioria. A Humanidade, assim como o indivíduo, deve aprender pelo carma, que não é, de modo algum, uma punição. O carma tem sua origem na Humanidade e nela encontra o seu resultado. A guerra é uma manifestação do carma coletivo. Resulta das ações, bem como dos pensamentos dos homens. A solução da guerra, a Instauração de uma paz permanente dependem somente dos homens. O mesmo se aplica a todas as perturbações sociais e outras, e se, em última análise, o mundo continua, apesar de seus erros, é sobretudo à nossa ação positiva que ele deve. Em tempos de paz, nós não cessamos de agir para instruir os homens, para semear neles, por todos os nossos meios, sementes de compreensão que lhes evitarão ir ao encontro de novas catástrofes. Mas a Humanidade deve aprender a progredir. Ela terá sempre problemas a superar, para aí chegar. Eles são, para ela, o estímulo necessário, assim como o são, num grau menor, os problemas pessoais para a evolução individual. Há em todo o universo, em todas as escalas, concordância perfeita. No dia em que o indivíduo, assim como a Humanidade, se conformarem com as leis universais, todos os problemas serão resolvidos e a história deste planeta se concluirá.O problema da miséria e da fome se explica da mesma maneira, mas não há a menor dúvida de que o carma é acumulado pelos povos ricos que se desinteressam pelos que têm fome e que não fazem tudo para resolver esse problema. Cedo ou tarde, resultará daí um conflito, embora, deste lado, o Alto Conselho faça tudo para suscitar soluções e estabelecer um justo equilíbrio. Nossa ação, há anos se exerce nesse sentido. É necessária, naturalmente, a cooperação dos homens. Se eles são refratários aos impulsos que lhes damos por todos os nossos meios, terão a responsabilidade por uma situação pior que degenerará em catástrofe. Devemos prever todas as eventualidade e, pode crer, elas são previstas. O maior pecado do homem é o egoísmo. Enquanto ele não for extirpado de seu seio, a Humanidade enfrentará graves problemas e, quanto ao Alto Conselho, ele deverá manter sua vigilância."

Vejam, nestas poucas linhas, duas perguntas que me afligiam a alma foram respondidas. Uma, ligada a minha crítica ao texto de Blavatsky em que eu dizia que era impossível existirem mestres de Carma e ao mesmo tempo o Carma funcionar de modo automático. Flávio já tinha me proposto esta solução apaziguadora de Mestres que tem por função atenuar os efeitos cármicos naturais para que o sofrimento do homem fosse atenuado; e outra, a razão pela qual os Mestres não intervém no sofrimento humano, mesmo quando este sofrimento e o grito dos aflitos é ensurdecedor.
Fui dormir pensando que este antigo texto, do qual eu fazia tempo não lançava mão, tinha vindo de modo oportuno às minhas mãos, quase como num esforço de resposta aos meus questionamentos. E como sei que os Mestres, com os quais jamais tive nenhum contato pessoal, costumam intervir na vida dos Iniciados, trazendo-lhes subsídios vez ou outra para suas reflexões, senti como se alguém me observasse todo o tempo, atento as minhas dúvidas e disposto a dialogar sobre elas, como só um Mestre sabe fazer.
A impressão é forte de que a presença dos Mestres é muito forte na vida dos Iniciados da Rosacruz, ordem muito elogiada no texto de Raymond Bernard por eles.
Fico pensando se nesse momento em que escrevo eles não estão monitorando e inspirando meu texto, para melhorá-lo e para melhorar-me. Me pergunto se esta presença não é mais ostensiva do que eu supunha. Será que é assim mesmo? Que embora estejamos aparentemente sós com nossos pensamentos, nossos pensamentos nunca estão a sós no Universo das mentes, aonde ecoam e geram marolas que vão bater na mente de outros, às vêzes Mestres, desencadeando respostas e explicações automáticas? Será que o aprendizado como eu desejaria já é automático, sem dor, e que o diálogo com esses Mestres Silenciosos e Invisíveis é muito mais permanente do que supõe a minha vã filosofia?
Será?