Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 28 de agosto de 2012

SOMOS TODOS HOSPITALEIROS[1]


por Mario Sales, FRC.:, C.:R.:+C.:, S.:I.:(membro do CFD)


Estamos todos nós, maçons de hoje, em busca de um rumo.
No passado não era assim.
A maçonaria é uma Ordem nobre e antiga, que foi fundada com base em objetivos muito bem definidos.
Haviam as catedrais a serem construídas, para o que foram convocados pelos padres arquitetos um grupo de trabalhadores que se especializaram nesta função. Nesta parte a história fica confusa, pelo menos para mim. Não me parece claro se os padres arquitetos(os verdadeiros pais da Maçonaria em torno do ano mil DC) deram aos maçons um conhecimento arquitetonico pronto e acabado, ou se os pedreiros, mais tarde chamados maçons, perceberam na prática a chamada técnica do Arco Real, a estranha forma de construir que fazia com que duas enormes pedras caíssem uma sobre a outra, se encaixassem de forma absolutamente perfeita de tal modo que, com o auxílio da lei da gravidade, jamais saíssem de lá. 

Seu peso garantia sua estabilidade , sem parafusos, sem ferro, sem cimento ou concreto, apenas pedras flutuando no espaço e, mesmo assim, sólidas como uma rocha. Independente de quem teve a ideia, era uma inovação tão importante em termos de engenharia que merecia o cuidado de ser guardada em segredo, e que fosse ensinada apenas aqueles que estivessem comprometidos com a construção. 

Havia recompensa, trabalho e alimento para aquele que se envolvesse com os que já estavam lá, de forma que havia um interesse comum em preservar esta técnica de outros olhos. Havia a camaradagem entre todos, resultantes dos perigos que dividiam ao realizar este trabalho, tanto do ponto de vista de um mundo ainda bárbaro (a Idade Média) quanto da falta de medidas básicas de segurança na construção. Eram tempos heroicos.
Todos os envolvidos sabiam disso em parte, pois em parte viviam isso. Não era uma vivência mental, mas um trabalho braçal unido ao trabalho intelectual. Diário, cansativo, extenuante.
E assim , uma após outra, as Novas Catedrais chamadas Góticas, foram construídas, tão altas quanto pudessem ser as suas torres, numa demonstração da ânsia do homem em se aproximar de Deus, o Divino Arquiteto do Universo, numa demonstração do que o trabalho humano bem guiado por um bom projeto, um projeto comum, um projeto que dissesse respeito a todos os envolvidos, um projeto real, não uma ideia, não uma peça de retórica, não um discurso, mas uma obra física, densa, palpável, pode fazer pela união e pela criação de cumplicidade entre um grupo de homens dedicados e motivados.


Tínhamos um objetivo (construir templos para a glória de Deus); tínhamos poder ( um conhecimento técnico que outros não possuíam, que precisávamos preservar); tínhamos uma razão para o segredo (a preservação de nossa reserva técnica e de nosso patrimônio profissional); tínhamos enfim, um motivo para a convivência (metas e objetivos comuns, e um empreendimento de longo curso , já que as catedrais levavam muitos anos para serem construídas. Só a Catedral de La Santa Cruz e Santa Eulalia em Barcelona demorou 2 séculos).
Hoje somos uma Ordem de lembranças e como aposentados, (à excessão da Maçonaria de Barretos)ficamos em nossas Lojas e Capítulos de Perfeição rememorando os feitos de nossos antepassados.
Perdemos os objetivos claros que tínhamos no período operativo e que foram travestidos em objetivos políticos no período especulativo.
Tudo ficou nebuloso, vago, impalpável.
E hoje a pedra de que falamos não é mais a pedra de antigamente, real e palpável, a mesma pedra que cortava nossas mãos ao ser polida ou que esmagava os companheiros sem cuidado nos acidentes, frequentes em construções faraônicas. Hoje a pedra de que falamos é um conceito, uma ideia de cunho matemático, mais ligada aos arquitetos do que aos pedreiros.
Não somos mais os mesmos, a não ser por um pequeno detalhe, algo que se preservou ao longo dos séculos e das mudanças: a camaradagem, a solidariedade.


Se no passado criávamos vínculos com aqueles que trabalhavam e suavam juntos conosco nas obras da Fé, hoje criamos amizade e companheirismo com aqueles que frequentam nossos templos, aceitos entre nós como irmãos.
Se existe alguma coisa que nos identifica com nossos antecessores, que nos liga de hoje até os primeiros estertores das guildas de pedreiros, as corporações de ofício, lá atrás , no tempo, é sem dúvida o hábito de socorrer-nos mutuamente quando em caso de necessidade. E ninguém dentro da Loja, representa melhor essa ideia do que o discreto hospitaleiro, o irmão responsável pelos pedidos de auxílio, de Maçons e não Maçons, aquele que nos convoca a auxiliar alguém ou alguma instituição, com os recursos disponíveis em Loja ou com aqueles que possamos arrecadar motivados por uma boa causa, por uma boa razão, o ato de misericórdia pelo outro que nos faz melhores como seres humanos, generosos, altruístas.


No fundo, hoje, somos todos Hospitaleiros, reunidos com a única e precípua finalidade de ajudar a nós mesmos e aqueles que de nós precisarem, sempre guardando o segredo dos justos, aquele segredo que evita a Vaidade e que evita lançar sobre os ombros do auxiliado o peso de uma divida. Quem ajuda em segredo, ajuda melhor, de forma mais nobre e correta.
Não me parece que hoje exista mais nada que nos caracterize e nos identifique como maçons senão esta capacidade de ajudar materialmente ou psicologicamente aqueles que de nós necessitarem. Só através desse expediente as Lojas Maçônicas encontram sentidos em suas reuniões, e superam a aparência de serem apenas um “Rotary Esotérico”.



[1] O Hospitaleiro é o elemento da Loja que tem o ofício, a tarefa, de detectar as situações de necessidade e de prover ao alívio dessas situações, quer agindo pessoalmente, quer convocando o auxílio de outros maçons ou, mesmo, de toda a Loja, quer, se a situação o justificar ou impuser, solicitando, através da Grande Loja e do Grande Oficial com esse específico encargo, o Grande Hospitaleiro ou Grande Esmoler, a ajuda das demais Lojas e dos respectivos membros. Um dos traços distintivos da Maçonaria, uma das características que constituem a sua essência de Fraternidade, é a existência, o cultivo e a prática de uma profunda e sentida solidariedade entre os seus membros.
( http://a-partir-pedra.blogspot.com.br/2008/04/hospitaleiro.html)